‘Vergonha alheia’: governador de Buenos Aires critica fala de Milei sobre governo brasileiro
O governador de Buenos Aires, Axel Kicillof, criticou o discurso que o presidente argentino, Javier Milei, fez durante a convenção do PL em São Paulo no fim de semana.
Kicillof chamou de “vergonha alheia” as falas de Milei, que criticou o governo brasileiro e o minsitro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.
➡️ No discurso, o presidente argentino chamou Moraes, que impediu que Milei visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro, de “lixo careca”, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de “presidiário”. As falas fizeram o Itamaraty convocar o embaixador em Buenos Aires, em ato de protesto (leia mais abaixo).
“Assistimos com constrangimento ao presidente Milei ofender e insultar o governo brasileiro, seu presidente e toda uma nação. Da província de Buenos Aires, reafirmamos que a Argentina respeita as nações irmãs e está comprometida com a integração regional”, escreveu Kicillof em suas redes sociais.
O governador argentino disse ainda que ligou para o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e disse a ele que “Milei não representa o sentimento do povo argentino”.
“O Brasil é o nosso principal parceiro comercial. Com essas provocações, Milei coloca em risco investimentos, exportações, milhares de empregos e os interesses da Argentina — tudo isso para apoiar um candidato a mando de Trump. A relação com o Brasil exige responsabilidade, não provocação”, escreveu ele.
Crise diplomática
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, deve se reunir nesta segunda-feira (27) com o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, a prestar esclarecimentos sobre a relação entre os dois países. A medida ocorre após discurso do presidente argentino Javier Milei na convenção do PL, nesse sábado (25) (veja mais abaixo).
Neste domingo (26), o governo brasileiro decidiu chamar Bitelli para consultas em Brasília. O embaixador deve chegar em solo brasileiro na manhã desta segunda.
Além disso, o Itamaraty também convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para “transmitir a repulsa” do governo brasileiro e cobrar explicações sobre a atuação de Milei em território nacional.
Declaração de Milei é ‘grave e inacietável’, diz chanceler Mauro Vieira
➡️Chamar um embaixador brasileiro que está em missão no exterior para consultas, como fez o Brasil, é uma medida considerada dura nas relações internacionais. É uma sinalização de que o país quer ouvir esclarecimentos de seu diplomata a respeito de uma atitude considerada hostil feita pela outra nação.
🔎Convocar o embaixador de outro país para uma conversa, por outro lado, é uma demonstração de insatisfação e de busca por explicações da outra nação.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores classificou o episódio como “sem precedentes” e “lamentável”.
“Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro. É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial”, diz nota.
Em entrevista à TV Globo, o chanceler Mauro Vieira classificou as declarações de Milei de “ríspidas, grosseiras e inaceitáveis” e afirmou que a fala foi uma “interferência em assuntos domésticos”.
Vieira disse não conhecer precedentes recentes de um chefe de Estado estrangeiro se manifestando dessa forma em território brasileiro.
O chanceler descartou, neste momento, medidas diplomáticas mais duras, como a retirada da representação brasileira da Argentina. Segundo ele, o governo brasileiro pretende preservar os canais de diálogo e buscar esclarecimentos por vias diplomáticas.
“A retirada de embaixadores é um passo de grande gravidade. Dentro desse contexto de preservação, nós não vamos fazer isso agora. Nós precisamos de explicações do governo argentino: por que que o presidente da Argentina veio ao território brasileiro fazer esse tipo de manifestação e de declarações ríspidas, grosseiras e inaceitáveis?”, disse.
“Todo o episódio é extremamente grave e inaceitável. Mas nós temos que trabalhar pelo entendimento entre as nações, e a diplomacia é feita disso, de conversas”, completou o chanceler.
LEIA TAMBÉM: Mauro Vieira chama falas de Milei de ‘inaceitáveis’ e vê interferência em assuntos internos do Brasil.
Discurso em evento do PL
Javier Milei foi um dos convidados que discursaram na convenção do Partido Liberal (PL), que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência neste sábado (25). Ele esteve em São Paulo para o evento.
Em um discurso inflamado, o presidente argentino fez críticas ao socialismo, valorizou a chamada “onda azul” na América do Sul e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, de “lixo careca” após ter negada uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Milei também associou a candidatura de Flávio ao que chamou de uma transformação política em curso na América Latina e chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de “presidiário”.
Com discurso ‘anti-socialista’, Milei participa de lançamento de candidatura de Flávio
Segundo ele, países da região estariam abandonando governos de esquerda e adotando políticas liberais na economia, movimento ao qual o Brasil poderia se juntar.
Na última semana, a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro pediu autorização ao ministro Moraes, que é relator do caso, para o encontro com o argentino. Moraes negou a solicitação.
No discurso durante o evento, Milei criticou a negativa. “A Justiça brasileira não me permitiu visitar meu amigo injustamente encarcerado, quando Lula se cansou de receber dirigentes estrangeiros enquanto esteve preso, entre eles o então presidente da Argentina, Alberto Fernández”, continuou.
“Isso não é nada além de mais uma clara demonstração da injustiça de sua detenção e do caráter vingativo de seus responsáveis”, completou.
Javier Milei discursa em SP durante a convenção que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro
Reuters/Jean Carniel
STF reagiu à declaração
Horas depois, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, reagiu às falas de Milei e afirmou que as declarações do presidente da Argentina sobre o ministro Moraes são uma “referência desrespeitosa a magistrado da mais alta Corte do País, feita em solo brasileiro”.
“Tomei conhecimento da declaração do Presidente da Argentina sobre Ministro do Supremo Tribunal Federal. Trata-se de referência desrespeitosa a magistrado da mais alta Corte do País, feita em solo brasileiro, por ato jurisdicional praticado conforme a Constituição e as leis da República Federativa do Brasil”, afirmou Fachin.
Em nota, o ministro afirmou ainda que o tribunal “deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados”.
“Ao reafirmar a plena autonomia do Judiciário brasileiro, a Presidência do STF deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados”, completou o ministro.g1 > Mundo Read More


