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FIFA à Venda: como a húbris de Infantino colocou sua própria reeleição em xeque

FIFA à Venda: como a húbris de Infantino colocou sua própria reeleição em xeque

Numa das mais famosas tragédias da mitologia grega, o jovem Ícaro recebeu de seu pai, o artesão Dédalo, um par de asas para ajudá-los a fugir do labirinto. Dédalo alertou o filho para que não voasse alto demais, pois o sol poderia derreter a cera usada na confecção das asas. Orgulhoso da habilidade que possuía, Ícaro não seguiu os conselhos de Dédalo, subiu aos céus e despencou para a morte.
A tragédia de Ícaro fundou o termo “húbris”, hoje muito usado para falar dos vícios comuns aos poderosos: a arrogância, o orgulho, a desmesura, a insolência, a autoconfiança excessiva. Na tragédia que Gianni Infantino criou para si mesmo, a húbris transformou um poder quase inabalável em provável ruína.
Fifa à Venda
Mal desarmaram os toldos dos lounges de ativação da final da Copa do Mundo, a maior e mais controversa da história, e a FIFA já estava envolvida em uma nova epopeia.
Gianni Infantino, presidente da entidade, articulou um audacioso plano de criação de uma subsidiária em forma de sociedade empresarial, que concentraria todos os direitos comerciais das suas principais competições, incluindo a Copa do Mundo de Seleções e a Copa do Mundo de Clubes.
O nome da nova empresa seria igualmente audacioso: FIFA Forward Enterprises (FFE). Um conjunto de termos que remete diretamente ao programa de repasse de verbas para as suas 211 federações filiadas, que hoje se encontra na terceira edição e rende cerca de 3 milhões de dólares anuais para cada uma delas.
Ao vincular a nova empresa ao nome de seu programa de apoio, a FIFA conectava o propósito de uma iniciativa à outra. Algo que se confirmou nos discursos posteriores de Infantino: a FFE era uma forma de “destravar o potencial comercial” da FIFA e “garantir o desenvolvimento do futebol em todos os cantos do planeta”.
Só que o batismo criativo dissimulava a parte principal e mais polêmica do projeto: a venda de 20% das ações da empresa para investidores privados, em valor estimado de 4,2 bilhões de dólares.
Bastante dinheiro para irrigar o sistema FIFA (que quintuplicaria o repasse), é certo, mas também a entrada de novos sócios para repartir o bolo para sempre. Justamente quando a entidade celebrou a estimativa de um faturamento de 11 bilhões de dólares na Copa do Mundo de 2026, quase o triplo da edição passada.
Fifa pretende criar empresa para fazer a operação de suas principais competições
Conversas privadas
Para além de ser discutível se o futebol realmente ainda precisa “destravar” algum “potencial comercial”, vale notar que, na verdade, a FIFA nunca anunciou nada. O projeto do FIFA Forward Enterprises simplesmente vazou, sendo exposto na terça (28), em reportagem de Martyn Ziegler, no site The Times.
Confederações e federações do mundo inteiro foram, assim, pegas de surpresa sobre um plano em estágio avançado de negociação: com valores definidos, com consultoria da JP Morgan, com captação de investidores pela Thrive Eternal e com uma lista de candidatos a novos sócios, como o fundo Apollo Global Management. Todas elas empresas norte-americanas de altíssimo poder financeiro e político.
Como membros associados da FIFA, as 211 associações nacionais seriam responsáveis por deliberar, por maioria simples, se o projeto da FFE poderia ser iniciado. Uma articulação que, se feita de forma transparente, provavelmente não seria tão difícil. Em meados de julho a imprensa europeia revelou que 200 federações, incluindo 50 das 55 das filiadas à UEFA, já haviam declarado apoio formal à sua reeleição para um quarto mandato.
Ao ter seus planos expostos, Gianni Infantino teve três saídas para a constrangedora situação. A primeira seria fingir que nada aconteceu, uma prerrogativa de todo político sob pressão. Se o projeto não foi anunciado, ele não existe. Fim de assunto (até as contas se acertarem).
A segunda opção seria reconhecer que existia uma ideia, mas que tudo ainda estava sendo construído e, portanto, todos os “stakeholders” seriam consultados. Uma boa forma de aproveitar o barulho sobre o assunto para medir apoio, agraciar os dissidentes e garantir a hegemonia política já consagrada.
A terceira seria dobrar a aposta, que foi a via que Infantino escolheu. Aproveitou a repercussão, fincou o pé na ideia, divulgou detalhes do projeto e imediatamente forçou as federações a tomarem uma decisão até 19 de setembro.
O presidente da FIFA não só atropelou as etapas necessárias, como entregou tudo em forma de ameaça: aquelas federações que não aprovassem o projeto teriam reduções drásticas nos repasses originalmente planejados.
Foi quando a húbris se mostrou o veneno do poder.
Húbris de Infantino
Gianni Infantino confiou demais na sua posição, reforçou a percepção de que as negociações se deram à revelia das partes interessadas e colecionou notas de repúdio nos dias que seguiram à assunção da ideia de vender a FIFA para investidores externos.
A reação mais radical veio da UEFA, que na manhã da quinta (30) anunciava uma decisão unânime dos seus membros de boicotar a Copa do Mundo de Futebol Feminino 2027, que ocorrerá no Brasil, caso o projeto da FFE não seja descontinuado.
Em seguida, na tarde do mesmo dia, a Concacaf também deliberou em assembleia um rechaço contundente à FFE, mas sem propor medidas tão drásticas. Juntas, UEFA e Concacaf possuem 96 associações, um quórum de 43% dos 211 membros da FIFA.
As duas se juntaram à AFC (Ásia), que ainda na quarta (29) já havia anunciado “desapontamento” com a forma como o projeto foi tocado sem consulta às bases.
Ao longo dos últimos dias, outros segmentos do futebol declararam desaprovação ao projeto, como a European Football Clubs (associação dos clubes europeus), a World Leagues Associations (associação global de ligas) e a FIFPro (sindicato internacional de jogadores).
Poucas foram as federações que declararam apoio à FFE, mas vale observar que várias das notas publicadas apresentam textos relativamente sutis. Na grande maioria delas, com exceção da UEFA, o tom é mais de “quero fazer parte” do que necessariamente de “isso é um absurdo inadmissível”.
Ou seja, dentre os apoiadores que agora posam de contrariados, Infantino encontrou uma multidão de dispostos a uma boa “conversa de convencimento”. E o dinheiro está na mesa, mas a insatisfação também pode gerar uma reviravolta completa no apoio que o dirigente tinha até então.
Dinheiro na mão…
Não custa lembrar que o expediente de Infantino para se perpetuar no poder sempre foi da mesma tecnologia política que manteve João Havelange e Joseph Blatter no comando da FIFA. Ampliações de vagas na Copa do Mundo, ofertas de recursos diretos, contribuições nas eleições de sedes da Copa, projetos de desenvolvimento estrutural, nomeações para postos-chave e muitos, muitos afagos.
Para além de ser um projeto que poderia render muitos dividendos econômicos para Gianni Infantino – afinal, as informações vazadas também sugeriam a sua nomeação como uma espécie de CEO da nova empresa -, os recursos extraordinários da venda dos 20% da FIFA Forward Enterprises estavam prestes a constituir no mais cínico e escrachado dos esquemas de compra de votos. Mas o sol era quente demais e a cera derreteu.
Nesta quinta (30), duas bombas explodiram. Uma reportagem da Sky Sports “apurou que cresce no futebol mundial a convicção que o Sr. Infantino não conseguirá sobreviver a esta mais recente controvérsia”. Em seguida, o Telegraph publicou que líderes europeus tentam convencer o catari Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain, a disputar as próximas eleições da FIFA, que ocorrerão em março de 2027.
Khelaifi já teria indicado que não pretende concorrera ao cargo, mas claramente acompanha o assunto com atenção especial. Afinal, ele não só representa um dos fundos soberanos que mais investe no futebol atual, o Qatar Sports Investments, como também preside a Bein Media, um conglomerado midiático cujo braço esportivo, a Bein Sports, é um dos players mais relevantes dentro da indústria do entretenimento no planeta.
Além disso, também é o presidente da European Football Clubs, entidade que declarou desacordo com o projeto da FFE. Pelo sim ou pelo não, as peças do tabuleiro estão se movendo no vácuo dos erros políticos causados pela húbris de Infantino.
Ingerência privada
O projeto da FIFA Forward Enterprises constitui a abertura da FIFA para uma ingerência privada oficializada. Mesmo que o controle da empresa, mantido pela entidade, seja garantido pela participação acionária de pelo menos 80%, é de se imaginar que os novos investidores estarão suficientemente envolvidos e empoderados para determinar os novos rumos da Copa do Mundo de seleções de clubes.
Fundos de investimentos norte-americanos e fundos soberanos do Oriente Médio estão entre os favoritos para integrar o conselho de administração da nova empresa. São players que já influenciam as tomadas de decisão da FIFA há algum tempo, patrocinam torneios, possuem a propriedade de grandes clubes europeus, constituem redes multi-clubes e influenciam na escolha das sedes da Copa.
Também são do tipo de agente econômico que passou a abocanhar parte dos direitos comerciais de algumas das principais ligas europeia, como a CVC Partners, que detém 13% de La Liga, da Espanha, e da Ligue 1, da França (um acordo parecido foi rejeitado na Alemanha e outro fracassou na Itália). Ou seja, a FFE é de uma prática já está em curso no futebol.
O curioso do maior foco de resistência vir da UEFA, com um discurso de “defesa do futebol”, é que nenhuma entidade no mundo tem sido tão permissiva com o capital norte-americano (e suas imposições) como a federação europeia. Basta olhar o histórico recente de descumprimentos, relativizações e “jeitinhos” dados para permitir que clubes de um mesmo dono participem da Champions League e demais competições continentais de clubes.
A posição da UEFA tem muito a ver com a guerra que trava com a FIFA, há alguns anos, pelo controle do calendário internacional, quando ambas as entidades expandem as suas competições, impondo cargas de jogos exaustivas aos jogadores. Entenda mais aqui.
O capital norte-americano embarcou de vez no futebol no rastro do FIFAGate, uma grande conspiração política e judicial, iniciada nos Estados Unidos, que derrubou a então cúpula do poder da FIFA. Com isso, garantiu a Copa do Mundo de 2026 por lá, o que foi decisivo para impulsionar a aquisição acelerada de clubes por fundos locais e a entrada nos direitos comerciais de ligas importantes.
Nesta nova etapa, com o sucesso comercial da Copa de 2026, esse mesmo segmento agora se sente autorizado a cobiçar a compra de partes da FIFA, uma mudança sem precedentes no futebol global. geRead More