Conheça história de Manoel Gomes, torcedor cego do Fortaleza
Torcedor cego explica paixão pelo Fortaleza
A bandeira do Fortaleza tremula em meio à rua movimentada no fim de tarde do bairro Vicente Pinzon, na capital cearense. As cores acesas são o cartão de visita da casa de Manoel Gomes. O torcedor cego do Leão tem pelo time uma paixão perceptível em cada gesto, em cada palavra. No estádio ou pelo rádio, ao lado da família ou dos amigos, ele tem no futebol uma alegria genuína.
– Escolhi o Fortaleza, e o Fortaleza me escolheu. Apesar de eu ser deficiente visual, sou apaixonado por essas cores vermelha, azul e branca. Esse escudo tricolor me deu muita alegria. O Fortaleza representa felicidade para mim. O Fortaleza ganha, eu fico alegre. Fortaleza é paixão, sou tricolor de coração. É amor, felicidade – afirmou o tricolor.
– Gosto muito de ir ao estádio, mas quando não posso, acompanho no rádio do celular. Fico acompanhando aqui, o narrador fala e eu fico ligado no jogo a cada minuto. Quando o Fortaleza pega na bola, eu vou junto com o time – completou.
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No estádio
Desde pequeno ele veste a camisa tricolor. O problema com a visão apareceu por volta dos cinco anos, quando ainda moravam na cidade de Beberibe, no litoral leste. Na escola, a professora notou que ele se curvava para ler. No hospital, a família ouviu do médico que ele perderia completamente o sentido aos 14 anos.
– Aqui (em Fortaleza), ele teve um professor que o levou para o hospital da Polícia Militar. Fizeram todos os exames para descobrir o que houve. Deu um problema na vista, a retina descolada. Fizeram a cirurgia, mas ele não ia enxergar mais – afirmou Raimunda Gomes, mãe.
Trajado com as cores do clube do coração, Manoel relembra como é a ida ao estádio. Cercado pela família, assim como na calçada de casa, ele vai aos jogos. Mas a locomoção não é fácil. O grupo vai ao terminal de ônibus e ainda encara longa caminhada até acessar, por exemplo, a Arena Castelão. Mas o esforço vale a pena.
– É difícil. Quando a gente vai ao Castelão, o ônibus deixa longe. Aí temos que levar ele a pé. Só não tivemos coragem de levar para um Clássico-Rei. Quando tenho tempo e folga em dia de jogo. Quando não sou eu, é a minha cunhada – afirmou Lilian Gomes, tricolor e irmã de Manoel.
Manoel Gomes, torcedor do Fortaleza.
Crisneive Silveira/SVM
– Quando escuto o narrador, fico muito emocionado. Me dá emoção quando o Fortaleza faz gol. Eu vibro junto com a torcida, canto as músicas do Leão. Inclusive, vou cantar a minha. Fiz essa música para o Fortaleza – revelou Manoel.
“Levante as mãos para cima, faça L de Leão!
Levante as mãos para cima, faça L de Leão!
Vá mostrando pro Brasil quem manda no Castelão.
F é de Fortaleza, L é de Leão.
T é de Tricolor e tem glória e tradição
Vermelho, Azul e Branco se espalhou pelo Brasil
Até quem não gostava ….. É nós Tricolor!”
Manoel ao lado da família e de vizinhos, em Fortaleza.
Crisneive Silveira/SVM
Depois de cantar o amor pelo clube, na calçada de casa, sob aplausos dos vizinhos, Manoel recorda bons momentos do time. Sem deixar de mostrar otimismo pelo acesso ao final da temporada.
– Já fomos para a Libertadores, fomos vice-campeões da Sul-Americana. O Fortaleza me deu muito orgulho, muitas vitórias. Me deu tristeza também. Quando o time perde, a gente fica triste. Mas esse ano vamos subir. Os jogadores vão se entrosar mais ainda e vamos ter alegrias, subindo para a primeira divisão de novo – afirmou.
Quando não dá para ir ao estádio, a diversão é em casa mesmo. Manoel chama os amigos em dia de clássico e acompanha o jogo pelo rádio do celular. Dona Raimunda, que é torcedora do Ceará, fica feliz ao ver o filho ocupar a cidade mesmo com a deficiência visual.
– Eu sei que ele vai (ao estádio) e ele fica feliz. É o que importa. Eu me orgulho, porque não é toda família que tem um deficiente em casa e fica lutando com ele. Ele sai para todo lugar. Ele é independente – destacou a mãe.
Manoel acompanha programas esportivos e jogos pelo rádio.
Crisneive Silveira/SVM
Sonho e fé no futuro
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O cordão de São Francisco no peito, santo do qual é devoto, revela um Manoel cheio de fé, principalmente num 2026 de esperança para a equipe.
– Nós temos que acreditar no nosso time. A gente sabe que não estão essas coisas todas, mas temos que acreditar. Do mesmo jeito que fomos campeões cearenses, vamos subir. É ir devagar. Às vezes a gente quer tudo de uma vez, né? – afirmou.
Outro desejo que o torcedor do Fortaleza tem é pelo fim da violência nos estádios. Manoel nunca foi a um Clássico-Rei por medo de brigas.
– O que tinha que acabar é essa rivalidade. Quando a gente vai ao Castelão, tem aquelas brigas de torcida. Aquilo não fica bom para o torcedor. Torcedor tem que vibrar e pular, mas tem que entender que existem dois times. Existe o Fortaleza e o Ceará. É bom a resenha, mas brigar, não – destacou.
Manoel vive a paixão pelo Fortaleza na bandeira pendurada na porta de casa, nas camisas, na música, no rádio que emociona a cada lance. Torcer pelo Tricolor é parte de quem ele luta diariamente para ser: uma pessoa feliz, engajada nas causas sociais, amado pela família e que não deixa de acreditar no melhor.
– Meu maior sonho todo mundo sabe: é enxergar. Se eu enxergasse eu iria ao estádio sozinho – finalizou.
Bandeira do Fortaleza na porta da casa de Manoel, no Vicente Pizón.
Crisneive Silveira/SVM geRead More


