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Crise em Ceuta: por que os imigrantes chegam em ondas? Entenda a tática

Crise em Ceuta: por que os imigrantes chegam em ondas? Entenda a tática

 Crise de imigração em Ceuta: União Europeia vai ajudar a Espanha a reforçar o controle nas fronteiras
A entrada em massa de imigrantes pelos portões que separam a Europa da África não é uma novidade. Espanhóis estão acostumados a grandes ondas de pessoas chegando ao mesmo tempo pelas fronteiras de Ceuta e Melilla, exclaves da Espanha no norte da África. Mas por que os imigrantes chegam em ondas?
➡️ Há cinco dias, cerca de 72 mil imigrantes entraram ao mesmo tempo na Espanha pela fronteira entre o Marrocos e Ceuta. Ceuta e Melilla são duas cidades espanholas que ficam em territórios no norte da África conquistados por Espanha e Portugal na guerra contra a ocupação moura na Península Ibérica, no século XV . Veja o mapa mais abaixo
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As entradas em massa em Ceuta não são incomuns, mas até então elas ocorriam por terra — em dezenas de episódios nos últimos anos, imigrantes entraram em grandes grupos em Ceuta e Melilla, pulando cercas ou invadindo portões de fronteiras.
👉 Foi justamente pulando uma dessas cercas que os pais do jogador de futebol Nico Williams, uma das estrelas da seleção espanhola, chegaram à Espanha.
A chegada em grandes grupos é uma tática comum nessa rota migratória para surpreender autoridades e tornar inviável que policiais consigam conter tanta gente ao mesmo tempo. Foi assim em 2014, quanto centenas de pessoas pularam uma cerca de Melilla ao mesmo tempo (veja na imagem abaixo). Em 2022, 2 mil imigrantes entraram de uma vez pela mesma fronteira.
Imagem de 2014 que mostra imigrantes tentando pular cerca para entrar no exclave espanhol de Melilla, no norte da África, em meio a um jogo de golfe que acontecia dentro do território.
Jose Palazon/Reuters
Por que a crise em Ceuta é inédita?
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, classificou como inédita a chegada de cerca de 72 mil pessoas a Ceuta.
Sánchez se referiu à quantidade de pessoas, mas também às circunstâncias e as dúvidas que ainda pairam sobre o episódio, que chacoalhou a política europeia, abriu uma nova crise migratória no continente e reacendeu uma a disputa territorial entre Espanha e Marrocos, vizinhos de continentes opostos.
No plano humanitário, a crise também resultou em uma onda de crianças e jovens abandonados nas ruas e areias da cidade espanhola.
Desse total, segundo o governo espanhol, cerca de 70 mil imigrantes já retornaram ao Marrocos, caminhando de volta pelo portão que separa a cidade da Espanha do território marroquino, sob a escolta por militares e policiais.
Mas até agora, ninguém sabe dizer, com precisão, o que incitou a migração em um número recorde e que quase iguala ao da população total de Ceuta, estimada em 80 mil habitantes.
👉 O Centro Nacional de Inteligência da Espanha (CNI) suspeita que Marrocos tenha sido conivente com uma mobilização convocada nas redes sociais por conta de uma decisão judicial recente de Madri — no início de julho, os juízes da Suprema Corte da Espanha se manifestaram sobre um ponto da Lei de Estrangeiros do país permitindo a devolução instantânea de imigrantes.
O tribunal decidiu que policiais podem expulsar imigrantes no ato apenas quando eles entrem ilegalmente em território espanhol por terra. Isso explicaria um fenômeno até então inexistente em Ceuta: as entradas a nado, pelo mar.
Mapa mostra localizações de Ceuta e Melilla, exclaves espanhóis na África, em meio a crise migratória em julho de 2026.
Dhara Pereira e Lara Bernardino/Arte g1
🔎 Por lei, qualquer pessoa que entre em território europeu deve ser identificada antes de, eventualmente, deportada. Imigrantes são encaminhados a centros de triagem, onde ficam até que se comprove seus status:
Se estiverem fugindo de guerras, conflitos locais ou perseguições, recebem o aval para solicitar o visto de asilo e refúgio e podem continuar no país.
Se forem menores de idade, também devem ficar até que autoridades encontrem os responsáveis por eles, que autorizem seu retorno — em muitos casos, eles ficam nos centros até atingirem a maioridade e serem liberados, passando a viver em um limbo jurídico em cidades europeias ou recebendo ordem de deportação;
Se não estiver em nenhum dos dois casos anteriores, o imigrante receber uma ordem de deportação.
As devoluções “express” são uma cláusula criada pelo Legislativo espanhol para lidar justamente com as crescentes entradas de pessoas pelas fronteiras de Ceuta e Melilla, cidades pequenas e com pouca capacidade de absorver a população imigrante.
Quando a Suprema Corte respaldou juridicamente a exceção de entrada pelo mar, grupos se organizaram no Marrocos e fizeram, então, a travessia coordenada. O movimento gerou rumores de que o governo marroquino tenha incentivado os grupos.
O governo do Marrocos negou e culpou o tráfico de pessoas existente no país africano, que costuma ser a última parada de milhares de pessoas de diferentes países da África que tentam chegar à Europa.
O governo espanhol optou, inicialmente, por não desgastar a relação com o vizinho. Pedro Sánchez falou de “violação territorial” da Espanha, mas, no fim de semana, seu ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, defendeu o governo marroquino.
“Marrocos não é uma ameaça para Ceuta ou para o resto da Espanha. É um parceiro confiável”, disse.
👉 Espanha e Marrocos mantêm uma parceria feita por meio de um acordo bilateral para gerirem juntos a fronteira mais ao sul da União Europeia. Pelo trato, a polícia marroquina monitora com rigor as fronteiras terrestres com Ceuta e Melilla e, principalmente, a saída para o mar pelo extremo norte do Marrocos, que fica a apenas 14 quilômetros do sul da Espanha.
Em diferentes ocasiões, no entanto, as diplomacias dos dois países entraram em rota de colisão, e a Espanha acusa Rabat (capital do Marrocos) de usar a migração como arma. A suspeita é de que o governo marroquino ordene que policiais deixem grupos de pessoas passarem para aumentar a pressão migratória no sul do Espanha, o que, geralmente, desgasta o governo com a opinião pública do país europeu.
Em 2021, o governo marroquino expressou irritação com a Espanha após Madri autorizar a internação, em um hospital da capital espanhol, do líder do Frente Polisário, movimento que defende a independência do Saara Ocidental – território autônomo que Marrocos reivindica como seu.
A embaixadora marroquina em Madri foi chamada de volta, e, dias depois, cerca de 12 mil imigrantes entraram de forma coordenada em Ceuta pela fronteira com o Marrocos.
Investigação
Um menino de 12 anos, desacompanhado de responsáveis, que cruzou a fronteira para a Espanha é escoltado por um soldado espanhol até a fronteira entre Espanha e Marrocos, no enclave espanhol de Ceuta.
Bernat Armangue / AP
O serviço de inteligência espanhol suspeita justamente que a rigorosa polícia marroquina, que monitora de perto as redes sociais do país, fez a “vista grossa” desta vez novamente e não freou o movimento, incitado pela decisão da Suprema Corte espanhola.
Na segunda-feira (3), a ministra da Defesa da Espanha, Margarida Robles, pediu ao governo marroquino que investigue as circunstâncias da travessia em massa. “Peço ao governo de Marrocos que investigue e chegue até o final para saber o que aconteceu nesses movimentos que ocorreram nas redes sociais”, disse Robles.
“Eles deixaram que isso acontecesse e tiraram proveito político. Conseguiram que a reivindicação marroquina de Ceuta e Melilla estejam hoje nas primeiras páginas dos jornais”, disse o analista de diplomacia do jornal “El País”, Miguel González.
Propositalmente ou não, o analista acredita também que a postura de Marrocos incitou adversários políticos de Sánchez. Entre eles, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — que acaba de visitar o rei do Marrocos, um aliado — e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que está no polo oposto ao do primeiro-ministro espanhol no que diz respeito à política migratória europeia.
Meloni defende a política de portas fechadas ao máximo na Europa e aproveitou a crise em Ceuta para defender sua proposta de criar centros de detenção e deportações rápidas a outros países;
Já Sánchez executa uma política de entradas ordenadas e integração — seu governo, recentemente, fez uma legalização em massa de imigrantes em situação irregular na Espanha.
Por isso, inclusive, Espanha e Itália entraram em rota de colisão na reunião que a União Europeia fez na terça-feira (4) para discutir soluções para a nova crise migratória do bloco. E deixaram uma saída ainda mais difícil.
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