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Do fundo do poço ao acesso: América-SP dá novo passo em reconstrução e sonha com elite

Do fundo do poço ao acesso: América-SP dá novo passo em reconstrução e sonha com elite

América perde para o Independente em Limeira, mas garante acesso à Série A4
Com a derrota para o Independente de Limeira, no último domingo, o América-SP ficou com o vice-campeonato da Bezinha, a quinta divisão do Campeonato Paulista.
Apesar de ficar sem a taça, o acesso, garantido desde a vitória na semifinal, representa um novo capítulo no processo de reconstrução do clube, que passou os últimos anos mergulhado em problemas políticos, financeiros e estruturais.
A subida encerra um longo jejum do Mecão, que não conquistava um acesso há 25 anos, desde a chegada à elite estadual, em 2001.
América-SP volta a conquistar acesso após 25 anos
Sarah Prado
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Um gigante do interior que adormeceu
Para entender o tamanho da reconstrução, é preciso olhar também para o América que existiu antes da crise. Fundado em 1946, o clube rapidamente ganhou espaço no cenário estadual e se tornou uma das equipes mais tradicionais do interior de São Paulo. Ao todo, são 44 participações na elite do Campeonato Paulista, a última delas em 2007.
Entre 1964 e 1997, o América disputou a primeira divisão estadual de forma ininterrupta, convivendo por mais de três décadas com os principais clubes do futebol paulista. Foi terceiro colocado do Paulistão em 1975 e repetiu a posição em 1994, além de conquistar a Taça dos Invictos de 1973 após uma sequência de 17 partidas sem perder.
Jogadores do América-SP celebram a conquista da copinha 2006
Reprodução
A história do clube também ultrapassou as fronteiras estaduais. O Mecão disputou duas vezes a Série A e sete edições da Série B do Campeonato Brasileiro. Em diferentes momentos, enfrentou grandes equipes do país e viu jogadores ganharem destaque nacional. Em 1979, Luís Fernando Gaúcho terminou como artilheiro do Campeonato Paulista, com 27 gols, enquanto Marinho chegou à Seleção Brasileira ainda defendendo o clube.
A força também apareceu nas categorias de base. Em 2006, o Mecão conquistou seu único título da Copa São Paulo de Futebol Júnior, principal competição de base do país. A taça veio após empate com o Comercial-SP no Pacaembu e vitória nos pênaltis.
Do declínio ao ano sem futebol
Rebaixado da elite paulista em 2007, o América iniciou uma sequência de quedas. Em 2012, caiu para a Série A3 e, três anos depois, chegou à Bezinha. Paralelamente ao declínio esportivo, os problemas administrativos, políticos e financeiros se aprofundaram.
A crise se arrastou por quase duas décadas e chegou a um de seus pontos mais críticos em 2024. Naquele ano, o América ficou de fora do Conselho Técnico da Bezinha e passou a conviver com a perspectiva de não disputar uma competição profissional na temporada seguinte.
Foi exatamente o que aconteceu. Em 2025, pela primeira vez em mais de 60 anos, o América passou uma temporada inteira sem colocar um time profissional em campo. O clube disputou apenas competições de base.
Torcida do América-SP protesta contra presidente
Divulgação/Arquivo pessoal
Ainda naquele período, porém, começou a trabalhar para retornar. O planejamento estabelecido previa a volta à Bezinha em 2026 e também a recuperação do Teixeirão para receber novamente a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Os dois objetivos foram cumpridos.
O estádio voltou a ser sede da Copinha, com o América disputando o Grupo 9, ainda que tenha terminado na última colocação da chave. Mais importante naquele momento era voltar a movimentar o clube, utilizar sua estrutura e preparar o terreno para o retorno do futebol profissional.
Depois de 749 dias sem uma partida profissional, o América voltou a campo em 2026, contra o Assisense, no Teixeirão. Antes da estreia, o clube revitalizou partes do estádio, apresentou um novo elenco e lançou seus uniformes para a temporada.
— Este foi efetivamente o primeiro campeonato dentro desse novo processo e existia uma dúvida natural: será que o trabalho que estamos fazendo é o caminho correto? Agora conseguimos o acesso e tiramos esse peso das costas.
— Não estamos copiando o modelo de ninguém. Estamos desenvolvendo um processo próprio, baseado nas experiências que cada um trouxe de outras áreas. O acesso dá mais confiança para seguir, porque mostra que estamos no caminho certo – comenta o presidente Marcos Cezar Vilela.
Depois de 25 anos, América-SP volta a sonhar
Sarah Prado
Sob nova direção
Por trás da conquista está também uma mudança profunda nos bastidores. O América tem Marcos Cezar Vilela como presidente desde outubro de 2024, quando o engenheiro assumiu o clube depois de anos de disputas políticas envolvendo a antiga gestão.
Vilela havia sido opositor do antigo mandatário e protagonizou embates judiciais e extrajudiciais antes da mudança de comando. Luiz Donizette Prieto, o Italiano, acabou afastado da presidência por decisão da Justiça em janeiro de 2024, abrindo caminho para uma reorganização política da instituição.
Marcos Cezar Vilela, presidente do América-SP
Gabriel Castro
Atual presidente, Vilela é também torcedor do América e conhece de perto a história recente do clube. Em visita do ge ao Teixeirão durante a campanha da Bezinha, ele falou sobre o tamanho da responsabilidade assumida.
— Eu sou americano desde que nasci e conheço os bastidores do clube. Sabia que seria um desafio enorme assumir essa responsabilidade, mas tive o apoio do meu grupo, dos amigos e da minha família.
— Muita gente dizia que era loucura encarar tudo isso, mas eu vejo como um propósito de vida. Já demos o primeiro passo, mas ainda existe muita coisa para fazer no futebol, na política, na parte jurídica e na estrutura do clube.
Marcos Cezar Vilela e a nova diretoria do América-SP
Divulgação/Instagram
A primeira chapa foi batizada de “Renovação”. Na continuidade do projeto, o nome passou a ser “Evolução”. Segundo o presidente, uma das prioridades foi ampliar a participação dentro do clube, trazendo novas pessoas sem abrir mão de quem já conhecia a instituição.
— Na primeira gestão, a chapa se chamava Renovação. Agora, nesta segunda etapa, é Evolução. Conseguimos renovar o quadro de contribuintes e oxigenar o clube, mantendo pessoas experientes ao lado de gente com novas ideias. É isso que o América precisa.
— Queremos mudar uma cultura em que poucas pessoas decidiam praticamente tudo. A ideia é descentralizar os processos, dividir responsabilidades e fazer com que cada um cumpra sua parte. Esse é um dos principais objetivos desta continuidade de gestão.
Dívidas acumuladas por décadas
A reorganização política, porém, é apenas uma das frentes. O América ainda convive com uma pesada herança financeira acumulada ao longo de muitos anos e diferentes administrações.
No início desta temporada, o ge apurou que o passivo total do clube poderia ultrapassar R$ 30 milhões. Somente na esfera trabalhista, o América chegou a acumular mais de 150 processos originados entre 1999 e 2024, com valor superior a R$ 15 milhões.
Estádio Teixeirão, casa do América de Rio Preto
Gustavo Bottini/6três Comunicação
Em julho, uma tentativa de diminuir esse passivo ganhou um passo importante. Dos 40 credores convocados para audiências de conciliação na Justiça do Trabalho, 26 acordos foram firmados, totalizando R$ 1.231.600.
Segundo Vilela, o tamanho das dívidas também interfere diretamente no futebol, já que parte das receitas do América não chega aos cofres do clube.
— O desafio financeiro é muito grande porque os recursos provenientes das cotas da Federação são bloqueados integralmente. Por isso, hoje o América depende muito dos patrocinadores, parceiros e contribuintes para manter suas atividades.
— Também assumimos o compromisso de olhar para credores que trabalharam para o clube e ficaram 25 ou 30 anos sem receber. Conseguimos reduzir parte dessas dívidas trabalhistas e vamos continuar fazendo isso gradativamente, conforme o América consiga crescer e aumentar sua arrecadação.
Reconquistar a confiança de Rio Preto
Sem poder contar livremente com todas as receitas, a reconstrução também passou pela tentativa de recuperar a confiança do empresariado de São José do Rio Preto.
A direção priorizou empresas da cidade e da região, algumas delas com histórico de envolvimento com o clube em outras épocas. A ideia foi usar justamente o peso da marca América para mostrar que a instituição vivia um novo momento administrativo.
— Temos uma grande vantagem, que é a força da marca América. Nosso papel foi mostrar ao empresariado que o clube mudou e que é possível confiar novamente na instituição.
— Priorizamos empresas da região porque São José do Rio Preto e o entorno têm um potencial econômico muito forte. Algumas dessas empresas já estiveram com o América em décadas passadas. O que mostramos hoje é que todo investimento que entra é aplicado no clube, seja no futebol ou na estrutura.
Lançamento uniforme América Rio Preto para 2026
Sarah Prado
O Teixeirão como símbolo da recuperação
Poucas estruturas simbolizam tanto os altos e baixos do América quanto o Teixeirão.
Propriedade do clube, o estádio sofreu diretamente os reflexos da crise. Dívidas administrativas chegaram a provocar determinação judicial para que o imóvel fosse levado a leilão a partir de 2015, como forma de amortizar parte dos débitos acumulados.
O ge esteve no local em 2018, 2024 e novamente em 2026. Nas duas primeiras visitas, encontrou um cenário de abandono, com pichações, fios expostos, traves enferrujadas e diferentes problemas estruturais.
Neste ano, ainda há muito a ser feito principalmente na área externa, onde permanecem pontos com mato alto, ausência de cercas e até partes do muro danificadas. Dentro do estádio, porém, já é possível perceber mudanças. A bilheteria foi pintada, pichações diminuíram e áreas importantes passaram por intervenções.
Estádio Benedito Teixeira – Teixeirão, em Rio Preto
Gabriel Castro
É uma recuperação que acompanha o próprio momento do futebol: tijolo por tijolo, sem esconder que ainda há um longo caminho pela frente.
— Trabalhamos muito na estrutura do Teixeirão nesses últimos anos. Existiam problemas sérios nas partes elétrica e hidráulica, que são obras que muitas vezes não aparecem para quem olha de fora, mas eram fundamentais.
— A meta é concluir essa recuperação. Já temos luminárias doadas e estamos desenvolvendo o projeto para saber quanto ainda será necessário em material e serviços. Se conseguirmos apoio, queremos ter iluminação disponível para disputar jogos à noite já na próxima temporada.
Recuperar o Teixeirão também significa preservar um dos grandes patrimônios esportivos de São José do Rio Preto. Com capacidade para cerca de 35 mil pessoas, o estádio está entre os maiores do interior paulista e foi palco de partidas que fazem parte da história do futebol brasileiro.
O estádio também testemunhou um momento marcante do Santos. Em 2004, na reta final do Campeonato Brasileiro, o Peixe venceu o Vasco por 2 a 1 no Teixeirão, com gols de Ricardinho e Elano, em uma campanha que terminaria com o título brasileiro.
Santos campeão brasileiro em 2004
Ernesto Rodrigues / Agência Estado
Agora, a diretoria tenta fazer com que o Teixeirão volte a ser também um ativo financeiro do América. A iluminação é um dos passos, mas o plano passa ainda por utilizar a capacidade do estádio para eventos fora do futebol.
— O Teixeirão tem capacidade para cerca de 34 mil pessoas e já está liberado pelos órgãos competentes. A ideia não é pensar no estádio apenas para o futebol. Queremos colocá-lo no circuito de grandes shows, inclusive nacionais e internacionais. Já temos evento previsto e entendemos que explorar melhor o estádio também pode gerar receita e fortalecer o América financeiramente.
Da A4 até o sonho da elite
Depois de um 2026 que começou com o simbolismo da volta do futebol profissional e terminou com o acesso, o América volta a permitir que seus dirigentes e torcedores olhem para cima.
A Série A4 será o próximo degrau. Para um clube com 44 participações na primeira divisão estadual e que passou mais de três décadas consecutivas na elite, o objetivo de retornar aos principais níveis do futebol paulista deixa de parecer apenas uma lembrança distante.
Depois de anos, América-SP volta a sonhar
Sarah Prado
Vilela trabalha com um horizonte de até cinco anos para recolocar o Mecão na primeira divisão. O planejamento, entretanto, tenta evitar que a ambição coloque novamente em risco uma estrutura financeira que ainda está sendo recuperada.
— O planejamento é dar um passo de cada vez. Em 2027, vamos disputar a A4 e trabalhar para conquistar o acesso à A3. Queremos montar uma equipe competitiva e buscar esse objetivo.
— Internamente, temos metas para os próximos anos. Queremos chegar à elite o mais rápido possível e trabalhamos com um horizonte de até cinco anos para ter o América novamente nesse nível. Também queremos ampliar o calendário, disputar a Copa Paulista e recolocar o clube no cenário nacional.
O vice da Bezinha abre justamente novas possibilidades. Depois de passar 2025 inteiro sem futebol profissional, o América sabe agora que terá a Série A4 pela frente e pode começar a discutir também uma eventual participação na Copa Paulista, criando novamente um calendário mais longo para o departamento profissional.
A diferença em relação a outros momentos é que o tamanho dos próximos passos deverá ser definido pela capacidade de arrecadação. A intenção é evitar compromissos que o clube não consiga sustentar.
— A partir da próxima semana vamos conversar com os patrocinadores. É com esses recursos que vamos definir o tamanho do investimento no futebol, tanto para comissão técnica quanto para atletas.
— Não vamos prometer algo que não podemos cumprir, mas posso garantir que vamos trabalhar para montar um time competitivo e buscar o acesso. O planejamento esportivo precisa caminhar junto com aquilo que o clube consegue arrecadar – encerrou Vilela.
E agora?
Com o acesso conquistado, a reconstrução entra agora em uma nova etapa. Nos bastidores, o América terá também uma eleição para a diretoria. Até o momento, apenas uma chapa participa do processo, e Vilela caminha para a reeleição e para a continuidade do projeto.
No futebol, o planejamento para 2027 começa imediatamente. A direção precisa avaliar quais jogadores do elenco campeão serão mantidos, quais reforços serão necessários e se Kinho Forgiarini seguirá no comando técnico para a disputa da Série A4.
Também entram nessa discussão o orçamento disponível, a busca por novos patrocinadores e a possibilidade de ampliar o calendário com a Copa Paulista.
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