Conheça o astro da várzea que joga em 24 times, fatura alto e busca milésimo gol antes de CR7
Artilheiro da várzea ganha salário de jogador profissional: “Dá para sobreviver”
Poucos metros separam a casa de um gigante do futebol mundial da residência de um dos maiores artilheiros da várzea. É em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, que Makson Rangel, o Max, vive uma rotina de telefonemas e trocas de mensagens com clubes interessados em seus serviços.
A proximidade geográfica com o estádio do Corinthians contrasta com a distância entre dois universos do esporte. De um lado, a elite profissional; do outro, quem construiu uma trajetória no futebol amador e alimenta, à sua maneira, o sonho de viver da bola.
Max é um dos jogadores mais requisitados da várzea. Atualmente, defende 24 times espalhados por 18 cidades de três estados (São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo). Aos 37 anos, ele encontrou o estrelato no futebol amador depois de disputar uma Copinha e rodar por alguns clubes, até entender que a carreira profissional não vingaria.
– Tudo o que sonhei viver no futebol profissional, eu não consegui, mas vivo hoje na várzea. Sou reconhecido no estado e no Brasil inteiro, recebo convites de várias partes do país para jogar. Hoje a criançada pede autógrafo, tem menino que diz que quer ser o Max no futuro. Esses eram os sonhos que eu tinha para o profissional: ter reconhecimento. Com toda a mídia que a várzea tem hoje, eu alcancei isso. Sou muito feliz e realizado no futebol de várzea.
Max, atacante considerado um dos maiores goleadores da várzea no Brasil
Arquivo Pessoal
O ano de 2007 marcou o pontapé inicial de Max no futebol profissional. Foi na Copa São Paulo de Futebol Júnior, principal competição da base e porta de entrada para tantos jogadores, que o atacante chamou a atenção. Foram apenas três jogos pelo modesto Náutico de Roraima – ele marcou três dos quatro gols do time no torneio e ainda deu uma assistência.
– Na verdade, empresários alugaram a camisa do clube. Passei no teste e joguei a Copinha. Acabamos perdendo os três jogos em um grupo com Cruzeiro, Portuguesa e Amparo. Lembro que a Portuguesa, que na época estava na Série A, quis me contratar, mas a empresa com a qual tinha contrato me impediu de assinar, prometendo coisas melhores. Acabou que não fui para a Portuguesa e esses empresários sumiram – relembrou Max.
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Mesmo quando era profissional, Max atuava na várzea para complementar a renda e alimentar o sonho de seguir no esporte. O atacante passou por Gênesis, de Rondônia, Independente de Limeira e Portuguesa Santista, até decidir abandonar de vez os times profissionais e se dedicar ao amador.
– Foi quando vi que as coisas não estavam dando certo. Você começa a ver coisas erradas. Para me profissionalizar, minha mãe teve que pagar R$ 800 na época. Para ficar na Portuguesa Santista e no Independente de Limeira, a condição era jogar sem receber salário. Você vai tentando, mas essas coisas vão desiludindo. Como a várzea já me proporcionava um bom retorno financeiro, decidi ficar só nela a partir de 2012. E estou na várzea desde então, sem parar.
Astro da várzea joga por 25 times, fatura alto e quer marcar milésimo gol antes de CR7
Salário de jogador profissional
A realidade na várzea é muito diferente das portas que lhe foram fechadas seguidamente no futebol profissional. Max é um dos jogadores mais procurados atualmente no cenário amador.
Enquanto recebia a reportagem do ge em sua casa, o telefone não parou de tocar com mensagens de times interessados e negociações em andamento sobre “bichos” a serem pagos em caso de vitória nos jogos que viriam a ser disputados no fim de semana.
– São vários clubes, tem hora que não dou conta. Por isso, hoje é a minha esposa quem cuida dessa parte para mim. Ela é a minha empresária na várzea. A maioria dos times procura ela, passando as datas do campeonato e a proposta. Ela cuida da agenda, deixa tudo organizado e avalia se dá para encaixar o compromisso ou não. Temos alguns clubes com os quais mantemos um vínculo fixo, e vamos ajustando a nossa agenda a partir disso.
Max, atacante considerado um dos maiores goleadores da várzea no Brasil
Arquivo Pessoal
Max mantém uma rotina de treinamentos com um personal três vezes na semana. O preparo físico é fundamental para suportar a maratona de três a cinco jogos entre sábado e domingo.
Se antes a várzea poderia ser sinônimo de desorganização e amadorismo, atualmente as competições se tornaram fonte de renda para inúmeros atletas que não vingaram no profissional – ou até para aqueles que conseguiram, mas se aposentaram.
– Dá para sobreviver. Um jogador de alto nível na várzea consegue se sustentar, com certeza. Como são muitos jogos, você recebe na hora: jogou, recebeu. Mas também existem outros formatos. Tem time que paga salário mensal, time que paga luvas para você assinar para determinados campeonatos, e equipe que oferece premiação por gol ou por título. Então, dá para viver disso, sim.
O goleador evita detalhar os valores que recebe para atuar nas 24 equipes amadoras espalhadas pelo Brasil. No entanto, Max admite que um jogador de elite da várzea chega a ter um salário igual ao de um atleta que disputa a Série B ou até a Série A do Campeonato Brasileiro.
– Um salário de Série B, de repente, uma Série A. Depende do clube, não um salário de um Corinthians, Palmeiras… Óbvio que aí é outra realidade, mas um jogador de várzea consegue tirar um salário muito bom. Um jogador de alto nível na várzea tira, no mínimo, uns R$ 15 mil por mês. Quem joga com mais frequência consegue tirar até mais. Mas a média gira em torno de R$ 15 mil a R$ 20 mil mensais – limitou-se a dizer, sem revelar os ganhos atuais entre valores fixos e premiações.
Esposa virou empresária
A carreira de Max na várzea se consolidou a ponto de a sua esposa se tornar sua agente e administradora. É para Daiane que dirigentes, técnicos e interessados em contar com os serviços do atacante ligam.
– Muita gente chega querendo contratá-lo. Eu pergunto o período e o campeonato, porque, se ele já estiver fechado com outro time, não pode jogar. Às vezes, as datas batem com compromissos que ele tem. Então, preferimos ser honestos e avisar que não dá. Senão, você acaba “queimando uma ficha”, prejudica o time, e o jogador não estará lá quando precisarem. Trabalhamos com sinceridade e organização – contou Daiane.
Max ao lado da esposa: dupla faz sucesso na várzea
Arquivo Pessoal
É a empresária quem também organiza a agenda do jogador e faz a contagem de clubes, jogos e gols marcados por ele ao longo da temporada.
– Hoje já tenho autonomia. Por estar mais por dentro do assunto, consigo fechar os times para ele. Organizo a agenda: toda semana já sei quais são os jogos e deixo tudo certinho. Também compartilho isso na internet, o que é muito bom, o pessoal gosta. Toda segunda-feira a gente senta, anota quanto entrou, quanto ele ganhou de “bicho”, e fazemos o controle das despesas de casa. Todo esse controle sou eu quem faço: da agenda, dos valores, dos times em que ele vai jogar e se dá ou não para fechar acordo.
Max ao lado da esposa: dupla faz sucesso no futebol amador
Arquivo Pessoal
Na mesa de negociações do futebol varzeano, a empresária garante que os pagamentos são feitos exatamente como o combinado, sem qualquer atraso ou dificuldade para receber.
– Por incrível que pareça, a questão de receber não é um problema. Todo mundo fala em contrato, mas na várzea é muito na palavra, no “fio do bigode”. Os times com os quais fechamos são muito honestos, justos e pagam certinho. O que me pega mesmo é a negociação. Muita gente não sabe abordar. Não apresenta a ideia do clube, o que pretendem. Dizem: “Quero ele para jogar”. Mas onde? Qual é o clube? Qual é a proposta? Acaba sendo um pouco desgastante, porque preciso ficar fazendo perguntas básicas. Se o interesse é da pessoa, ela já deveria trazer tudo o que quer. Isso deixaria a negociação meio caminho andada e muito mais fácil de desenrolar.
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Em busca do milésimo gol
Max persegue um importante feito no futebol, alcançado até o momento por nomes como Pelé, Romário, Túlio Maravilha, Gerd Müller e Arthur Friedenreich. São 903 gols marcados em duas décadas de atuação no futebol amador. Ele quer alcançar a marcar antes de Cristiano Ronaldo, que está a apenas 24 gols do milésimo.
Max anota cada um dos mais de 900 gols marcados no futebol de várzea
Emilio Botta
É em dois cadernos castigados pelo tempo e por vários rabiscos que Max anota cada um dos gols marcados nas partidas que disputa pelos mais variados times. A conta particular tem apenas um problema: não há o número exato de jogos. No entanto, ele acredita que possui mais gols marcados do que vezes em que entrou em campo.
– Tem gente que não acredita. O pessoal brinca, mas quem é da várzea sabe que todo fim de semana eu estou marcando gols. Neste último, por exemplo, fiz seis, sendo quatro em uma final. Fomos campeões em Indaiatuba e eu anotei os quatro gols da decisão. A galera da várzea está me ajudando muito. Muitos amigos dizem: “Vamos chegar logo nesse milésimo”. Deixam eu bater pênalti, dão assistência. Houve uma mobilização para eu alcançar essa marca.
Max diz ter conquistado mais de 100 títulos como jogador no futebol amador
Emilio Botta
Com a experiência de ter sido jogador profissional e de ser, hoje, um dos principais nomes da várzea no Brasil, Max alerta para a quantidade de talentos que se perdem no futebol amador.
– Se eu tenho mais de 900 gols na várzea, faria pelo menos uns 400 no profissional. Isso, claro, se tivesse feito toda a carreira em um clube grande, com estrutura. O talento está aqui, eu não desaprenderia a jogar futebol no profissional. Com a estrutura adequada, faria uns 400 gols, no mínimo.
– Tem muito talento na várzea que ficou perdido pelo caminho, talvez por falta de oportunidade. Se você der a estrutura de um clube profissional para esses jogadores, tenho certeza de que eles brilhariam. Claro que o jogador também precisa querer, passar pelo processo, ter a disciplina de treinar todos os dias, se alimentar bem e dormir cedo. Mas o talento está lá.
Veja ano a ano os gols marcados por Max na várzea:
Total da carreira*: 904 gols
2026: 47 gols | 7 títulos | 7 gols em finais
2025: 82 gols | 14 títulos | 23 assistências | 13 gols em 15 finais
2024: 71 gols
2023: 67 gols
2022: 61 gols
2021: 45 gols (pandemia)
2020: 25 gols (pandemia)
2019: 69 gols
2018: 58 gols
2017: 52 gols
2016: 47 gols
2015: 39 gols
2014: 50 gols
2013: 53 gols
2012: 68 gols
2011: 4 gols (profissional)
2010: 9 gols (profissional)
2009: 10 gols (profissional)
2008: 16 gols
2007: 19 gols
2006: 12 gols
Nota da redação: a contagem de gols marcados ao longo da carreira foi feita pelo próprio jogador em anotações em dois cadernos. O dado não leva em conta o número de partidas disputadas e não possui registro oficial que valide os gols marcados. geRead More


