O Gre-Nal não vale a pena
Inter e Grêmio se apegam ao histórico para a disputa dos Gre-Nais
Alguns anos atrás, em um domingo de sol, de praias e bares lotados, eu estava na nossa redação do Rio de Janeiro, remoendo minhas escolhas, mastigando minha desgraça, quando de repente chegou um colega, todo sorridente. Questionei o motivo daquela maldita felicidade. “Ué, hoje tem Fla-Flu!”, ele me explicou, como se fosse uma obviedade.
Fiquei atordoado. Então existem pessoas que GOSTAM de clássicos? Cresci cercado por um, o Gre-Nal, e cedo aprendi que ele é um jogo destinado a amaldiçoar a semana de qualquer pessoa munida de bom senso.
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É uma questão matemática. Em um Gre-Nal, este clássico “forjado no medo”, como escreveu o Douglas Ceconello em um de seus textos memoráveis, a expectativa por uma vitória é facilmente soterrada pelo temor de uma derrota, da mesma forma que o prazer de tê-lo vencido é muito inferior ao desespero por tê-lo perdido. Não vale a pena, a conta não fecha.
Talvez seja uma particularidade do Rio Grande do Sul. Morei no Rio, morei em São Paulo, passei bastante tempo em Belo Horizonte, conheço bem Salvador e Recife – e nunca vi nada parecido com a psicose coletiva do Gre-Nal, o único clássico no planeta capaz de ter dois jogadores amarelados no cara ou coroa, como aconteceu com D’Alessandro e Maicon em 2018. Aqui na província, gostamos de dualidades, este ou aquele, e perder um Gre-Nal representa a desgraça completa: tudo ao único inimigo, nada para mim.
Gonzalez fala de Inter e Grêmio pela Copa do Brasil: “quem for eliminado, treinador cai”
E aí calha de amanhecermos nesta quinta-feira com um Gre-Nal absolutamente desnecessário – característica essencial de todos os Gre-Nais. Pior: um Gre-Nal de mata-mata, como se todos já não fossem.
“Quem gosta de Gre-Nal é paulista”, escrevi dia desses em um grupo de WhatsApp formado por gaúchos enfurecidos com o sorteio da Copa do Brasil. Invejo-os. Invejo paulistas, cariocas, mineiros. Invejo todos que poderão assistir ao jogo do Beira-Rio pela televisão sem penhorar o que resta de sua sanidade mental, já abalada pelos times indigentes que perambulam pelos campos brasileiros neste interminável 2026.
Bruno Gomes e Amuzu no último Gre-Nal
Lucas Uebel/Grêmio
Porque ainda tem isso: não bastasse o pânico habitual, o clássico desta quinta é marcado pelo caos que envolve os dois clubes, ameaçados de rebaixamento, afundados em dívidas, afastados dos títulos, presos ao passado. O vencedor, aquele que avançar, ganhará a anestesia de uma ilusão passageira. Ao perdedor, restará a lembrança de que nada é suficientemente ruim a ponto de não poder piorar.
Isso posto, já que não nos resta alternativas, bom Gre-Nal para todos. geRead More


