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15 anos do ge PB: Phelipe Caldas relembra repercussão nacional com time de basquete de Caiçara

15 anos do ge PB: Phelipe Caldas relembra repercussão nacional com time de basquete de Caiçara

A casa do esporte paraibano: ge Paraíba completa 15 anos
Eu sou capaz de lembrar como hoje da primeira reportagem que escrevi para o antigo GloboEsporte.com/pb, o atual ge Paraíba. O portal estava perto de ser lançado em 2011 e a ideia era a de que tivéssemos reportagens especiais para os primeiros dias de lançamento. De cara, lembrei de Kanela, um gênio cuja história havia sido apresentada por mim pelo saudoso amigo Bento Soares e que era pouco conhecida em sua própria terra.
+ 15 anos do ge Paraíba: jornalistas relembram fatos e grandes coberturas do esporte paraibano
ge Paraíba 15 anos
Reprodução
Foi tudo muito intenso. Aproveitei uma viagem para o Rio de Janeiro, reservei um dia para ir à Gávea, fiz um trabalho prévio de produção, consegui conversar com pessoas da época de Kanela que ainda trabalhavam no Flamengo.
Foi assim que surgiu uma primeira grande reportagem de minha autoria que contava a história do paraibano de João Pessoa que revolucionou o basquete e que, como técnico, deu os principais títulos do Brasil na modalidade.
A arte de contar histórias
Para mim, o jornalismo é a arte de contar histórias. De uma forma respeitosa com os personagens em questão, com a criticidade que o caso eventualmente exija, mas ao mesmo tempo com um texto que seja envolvente, potente, que não se torne chato ou cansativo. Ao contrário, que seja empolgante, que faça o leitor querer ficar, sentar, viver, refletir.
Phelipe Caldas na redação do ge Paraíba: seis anos como editor do portal
Divulgação / Rede Paraíba
Foram inúmeras as reportagens escritas em seis anos a frente do portal.
As minhas preferidas são essas de perfis.
A do próprio Kanela, duas vezes campeão do mundo de basquete, Kay France, a primeira mulher latino-americana a atravessar a nado o Canal da Mancha, Alberto Ferreira, o goleiro que saiu de João Pessoa para fazer uma peneira no Rio de Janeiro, levou três frangos, desistiu do futebol, para se transformar num dos maiores fotógrafos esportivos do mundo no século 20.
O fotógrafo da bicicleta perfeita de Pelé, da contusão do rei em 1962, do título de Emerson Fittipaldi em 1972, da única queda olímpica de Nadia Comaneci em 1980.
São histórias que nos conectam com o passado, com a história, com a vida, a emoção, o extraordinário.
E o time de Caiçara?
De todas, no entanto, uma em especial foi surpreendente pelo alcance e pela proporção que ela ganhou.
Falo do time de basquete vice-campeão paraibano escolar que se recusou a viajar no lugar do time campeão e que não tinha condições financeiras de custear sua ida ao torneio nacional.
Permita-me contar um pouco mais dessa história incrível e impactante.
caiçara, escola, jogos escolares, basquete
Divulgação / José Edson Francisco
O ano era 2017. Os estudantes da Escola Municipal João Alves, de Caiçara, no interior da Paraíba, venceram na final dos Jogos Escolares da Paraíba os estudantes do Colégio Motiva, de João Pessoa, e com isso garantiram vaga na competição nacional que aconteceria naquele mesmo ano em Curitiba.
A turma de Caiçara, pobre, sem recursos, sem apoios, desistiu da vaga, que assim seria herdada pelo Motiva, um tradicional colégio da elite pessoense.
Relembre:
+ Time abre mão de herdar vaga e faz campanha para rival ir aos Jogos Escolares
Os pais dos estudantes do Motiva, contudo, rejeitaram a ideia. E ao invés de aceitarem a vaga herdada pela desigualdade social iniciaram uma comovente campanha de arrecadação de recursos para custear a ida dos verdadeiros campeões ao torneio cujo direito de participar eles conquistaram em quadra.
Pois bem. Era um domingo de plantão modorrento e sem muitas pautas quando inesperadamente essa história incrível chegou até mim. Fiz algumas ligações. Entrevistei algumas pessoas. Chequei dados, conferi informações. Escrevi a reportagem.
Time de basquete de Caiçara no aeroporto de João Pessoa Jogos Escolares
Arquivo pessoal
O resultado?
Comoção nacional imediata!
No mesmo dia, a arrecadação de recursos para a viagem ultrapassou os R$ 30 mil e o time de Caiçara viajou para o torneio nacional, todos pela primeira vez de avião. Jogadores brasileiros da NBA conheceram a história e ajudaram o projeto social que mantinha o time ativo. Para completar, a história foi parar no Laureus, concorrendo no maior prêmio do esporte mundial como “momento esportivo do ano”.
Relembre:
+ Saga dos meninos de Caiçara concorre a momento esportivo do ano no Laureus
Bem, Caiçara não venceu o Laureus, não venceu os jogos nacionais em Curitiba.
Pouco importa!
Phelipe Caldas escrevendo para o ge Paraíba no Estádio Amigão, em Campina Grande
Acervo pessoal
Quem venceu naquele dia foi o jornalismo e a potência que ele pode ter em sua função social, de contar histórias, mudar vidas, promover dignidades.
O mérito é todo deles. Eu só contei a história. Mas ainda hoje eu me emociono com a possibilidade concreta de poder mudar vidas, corrigir injustiças, a partir do ato político e social da escrita.
*Phelipe Caldas é mestre (UFPB) e doutor (UFSCar) em antropologia social. É também jornalista, escritor e professor, atuando atualmente como professor substituto no Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco. Tem seis livros já publicados, sendo que o terceiro deles, “O Menino que Queria Jogar Futebol”, foi adaptado para o cinema em 2024 e se transformou no filme “Inexplicável”. Foi o primeiro editor do ge pb e atuou no portal de sua estreia até 31 de dezembro de 2017. geRead More