Opinião: precisamos falar (muito) da SAF da Lusa, mas sem esquecer a associação
Ao passar pela transformação em SAF, o futebol da Portuguesa se apartou e virou uma nova empresa. Os investidores passaram a deter 80% dessa nova empresa e a geri-la, enquanto a Lusa ficou com 20% e voto qualificado em questões fundamentais.
Desde então, convencionou-se chamar um lado de SAF e o outro de associação. Trocando em miúdos, a associação seria tudo que restou além do futebol, enquanto a SAF seria o futebol em si, a nova gestão desse novo CNPJ criado para a modalidade.
A Portuguesa nunca foi só futebol, mas esse é o carro-chefe desde 14 de agosto de 1920. Portanto, é natural que a SAF tenha monopolizado as atenções e que a associação tenha visto encolher gradativamente a visibilidade, o interesse e o foco do público.
No entanto, mais do que em qualquer outro caso no futebol brasileiro, na Portuguesa é impossível haver sucesso de um lado sem o sucesso do outro. Isso porque o projeto de SAF rubro-verde não envolve apenas o futebol, mas outras duas frentes cruciais.
Canindé, estádio da Portuguesa
Divulgação/Portuguesa
Uma delas é a recuperação judicial da associação, cujo processo está em andamento, dependendo da homologação, sem a qual não há mais Lusa. Afinal, a alternativa à homologação é a falência. Não haveria mais associação e, por consequência, SAF.
A outra é o projeto do novo Canindé. Mesmo porque o patrimônio, que é o terreno para lá de valorizado na Zona Norte de São Paulo, foi o único ativo que restou à Portuguesa e o elemento que tornou viável e atrativa financeiramente a SAF lusitana.
A torcida rubro-verde já está até cansada de saber que o projeto do Canindé é o que de fato dará sustentação financeira ao pagamento das dívidas via recuperação judicial, aos investimentos na profissionalização do futebol e ao novo clube social que emergirá.
Há, portanto, as obrigações óbvias da associação. Uma delas é fazer tudo quanto for possível e necessário para colaborar com o processo de recuperação judicial. Outra é atuar ativamente na regularização do terreno e viabilização do novo Canindé.
Símbolo da Portuguesa no estádio do Canindé
Divulgação/Portuguesa
E, neste segundo caso, é preciso destacar a responsabilidade da associação na defesa do patrimônio da Portuguesa, sobretudo no processo de compra da parcela do terreno que é concessão da prefeitura de São Paulo. A área será (e teria de ser mesmo) do clube.
Apesar de o investimento para a compra ser captado pela SAF, o terreno será da associação, apenas cedido temporariamente para exploração dos parceiros, como já acontecerá sob contrato com a parcela da área que é particular, da Lusa.
Além disso, quando essa compra for concretizada (e depende da aprovação de um projeto de lei, prometida pela prefeitura até este mês de setembro, como já explicado neste espaço), em teoria a demolição e as obras poderão enfim começar.
Aí vem uma questão: e o projeto do novo Canindé? Mesmo porque esse projeto inclui a construção do novo clube social, verticalizado. Já passou da hora de se debater esse projeto entre os poderes da Portuguesa. Não se pode haver uma decisão unilateral.
Não se trata apenas de ser bonito, moderno ou confortável para os departamentos existentes. Mas, principalmente, aproveitar a construção para se erguer um espaço que traga receitas, que amplie as atividades, que atraia novas gerações de associados.
A Lusa não pode desperdiçar a oportunidade de, ainda que tardiamente, entrar no século XXI. Isso vale não só para as novas instalações, mas para o funcionamento interno. Sabe-se que o atual presidente, Leandro Teixeira Duarte, dá os primeiros passos.
Sem o futebol, que dava mais despesas do que retorno, e com os alugueis dos espaços para eventos, que estão crescendo, a associação passou a ser superavitária. Leandro já contratou profissionais, por exemplo, para as áreas de marketing e comunicação.
Percebe-se uma tentativa de ampliar eventos tradicionais, como a Adega da Lusa, apaziguar crises com o poder público, com o uso social e cultural de parte do terreno cedendo espaço para quadra da Colorado do Brás, e reformas em alguns espaços.
Muitos dirão, com razão, que ainda é insuficiente. Levando em conta o que já foi, ou o que outros clubes sociais fortes da capital paulista são, de fato, é muito pouco. Porém, fica a sensação de que se vive em compasso de espera pelo projeto do novo Canindé.
Torre de iluminação do estádio do Canindé
Divulgação/Portuguesa
Essa modernização inicial precisa acontecer também no lado institucional, como implementar o novo estatuto. A duras penas, após mais de dez versões, em mais de uma década de discussões, foi aprovado no Conselho Deliberativo no fim de 2025.
Faltava o quê? Um parecer do Conselho de Orientação e Fiscalização e a aprovação pelos sócios em Assembleia Geral. Apenas e tão somente em agosto (um absurdo injustificável) resolveu-se a questão do parecer do COF. Agora faltam os sócios.
Espera-se que a mesa da Assembleia Geral convoque logo, quem sabe ainda em setembro, a votação entre os sócios. Já passou da hora de a Lusa ser regida por um estatuto minimamente condizente com os tempos atuais e o clube atual.
E olha que esse novo estatuto nem é tão revolucionário assim. Deveria, sim, ser até mais ousado em temas como enxugamento do quadro de conselheiros, reformulação do COF, obrigações da diretoria executiva, etc. Mas, ao menos, representa um avanço.
Nem se cogitava algo próximo de uma SAF no futebol brasileiro quando o estatuto atual foi redigido. Não será assim, com regras arcaicas e obsoletas, que a Portuguesa vai conseguir se adequar e muito menos aproveitar esse novo estágio que se inicia.
A inscrição de defuntos como candidatos para fechar uma chapa em uma eleição de conselheiros é o mais trágico e humilhante reflexo de se ter regras ultrapassadas. Que venha, aliás, um desfecho para esse caso, que está na Justiça e na Polícia Civil.
Falando nos meandros políticos, passado o processo da recuperação judicial, é urgente que COF e Conselho Deliberativo deem um ponto final na análise dos balanços financeiros de 2023, 2024 e 2025. Já deu. Aprovando ou reprovando, já deu.
Não se pode querer de verdade construir uma nova Portuguesa assim, com jeitinhos, conchavos, politicagem rasteira e flertando com o atraso. Não será assim que se restaurará uma associação ativa, atuante, moderna e viável financeiramente.
Que clube sério tem tão poucas reuniões de Conselho Deliberativo ao longo de um ano? Que clube sério demora meses a fio para emitir um mero parecer para liberar um novo estatuto? Que clube sério ainda não convocou sócios para chancelar e implementar?
A torcida pede, com razão, que a associação fiscalize o trabalho da SAF, cobre resultados, faça valer os 20% no futebol. Está correta. No entanto, há muito mais em jogo quando se fala em associação. Aliás, o mais importante: o futuro do clube.
Não há nada mais relevante do que isso para mostrar que a associação precisa tanto de atenção e visibilidade quanto de ação concreta, modernização, profissionalização. Para o melhor ou para o pior, a associação tem de estar preparada. Ainda não está.
*Luiz Nascimento, 34, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site. geRead More


