Nalbert cita mágoa com Bernardinho por corte, critica CBV e indica nomes para treinar o Brasil
Nalbert pensou em desistir do vôlei depois de Sydney, mas voltou por causa de Bernardinho
O sorriso fácil entrega: aos 52 anos, Nalbert tem orgulho do que construiu como atleta. Nos tempos de jogador, o ponteiro empilhou títulos na base e, ainda jovem, virou capitão da seleção adulta. Fez parte de uma geração vencedora, que levou o vôlei brasileiro a conquistas seguidas, com destaque para o ouro olímpico em Atenas 2004. Mas o roteiro de sucesso também teve momentos difíceis. Em entrevista ao Abre Aspas, do ge, o ex-atleta se viu em uma “sessão de terapia” e abriu o coração. Disse que o corte dos Jogos de Pequim, em 2008, deixou mágoa e estremeceu a relação com Bernardinho por bastante tempo.
– Eu estava em um hotel no Leme, com o restante dos jogadores. Bernardinho falou sobre o meu corte. Também pedi a palavra e disse que minha história na seleção estava encerrada. Sentei sozinho naquela sala, e alguma coisa me prendia na cadeira. Pela primeira vez, fiquei com medo de levantar, porque não sabia para onde eu iria, o que faria no dia seguinte. Foi uma sensação de luto, uma coisa horrível. Fiquei um bom tempo chateado, magoado – contou Nalbert, comentarista da Globo há mais de uma década.
Nalbert em entrevista ao Abre Aspas
André Durão
Para o então ponteiro, Pequim 2008 seria a última chance de disputar as Olimpíadas, finalizando uma história que começou em Atlanta 1996. Inicialmente, Nalbert nem cogitava a ideia de disputar os Jogos da China, é verdade. Depois do ouro em Atenas, migrou para o vôlei de praia, mas, sem tanto sucesso, voltou à quadra e à seleção. Por isso, o corte de 2008 doeu, e os laços com Bernardinho só foram totalmente restabelecidos há poucos anos, em uma palestra.
Curiosamente, o treinador fora o responsável por Nalbert não se aposentar da seleção no início do século. Insatisfeito com o sexto lugar nas Olimpíadas de Sydney, em 2000, o jogador queria deixar de representar o Brasil. Mudou de ideia com a chegada de Bernardinho, um ano depois. Juntos, os dois construíram uma história de sucesso. Lembranças que geram saudades para os torcedores, especialmente em um momento difícil do vôlei masculino brasileiro. Em competições recentes, o time verde-amarelo amargou resultados ruins, e o hoje comentarista crê que há problemas na formação de atletas.
– Os holofotes se voltam à base. Bernardinho e Zé Roberto estão arrumando a casa, cuidando de tudo. Por que isso não ocorreu antes? Falha de gestão. Não tem como fugir. Quem é a entidade máxima do vôlei brasileiro? É a CBV (Confederação Brasileira de Voleibol). Eles têm essa obrigação, essa responsabilidade de cuidar o tempo inteiro. “Ah, não tem dinheiro, não tem recurso”. Há 35 anos, tinha mais dinheiro do que agora? Vôlei é o segundo esporte do Brasil, com vários grandes patrocínios. Será que o dinheiro não está sendo colocado da forma errada? Será que não é a formação errada de treinadores e técnicos? Essa reflexão deveria existir há muito tempo – criticou Nalbert, que até hoje carrega a alcunha de “capitão”.
Na visão do comentarista, Bernardinho e Zé Roberto, técnicos das seleções masculina e feminina, respectivamente, devem se dedicar à formação de novos treinadores. Nalbert indicou, inclusive, nomes com potencial para comandar o Brasil no futuro.
– O Giovane esteve na base. Eu até achei que seria preparado como substituto (do Bernardinho). Algo nesse sentido poderia funcionar. Existe muito papo, muita besteira pelo fato de ser filho do Bernardinho, mas enxergo uma capacidade absurda no Bruninho. É um líder, muito inteligente, certamente será um grande treinador. E tem uma inteligência emocional até superior à do pai, com uma comunicação mais fluida, sendo bem-visto por todos. Temos treinadores jovens no masculino, como o Filipe (Ferraz, do Cruzeiro), que não construiu carreira como jogador na seleção, mas está acostumado a ganhar. É candidato também.
Em entrevista ao Abre Aspas, Nalbert indicou nomes para comandar o vôlei brasileiro no futuro
André Durão
Ficha Técnica
Nome: Nalbert Tavares Bitencourt
Apelido: Capitão
Idade: 52 anos (09/03/1974)
Carreira na quadra: Tijuca Tênis Clube, Flamengo, Minas, Banespa, Olympikus/Rio de Janeiro, Lube (Itália), Panasonic Panthers (Japão) e Modena (Itália).
Principais conquistas com a seleção na quadra: ouro nas Olimpíadas de Atenas, em 2004; título do Mundial de 2002; tricampeão da Liga Mundial, em 2001, 2003 e 2007; ouro na Copa do Mundo de 2003 e na Copa dos Grandes Campeões de 1997.
Participações em Olimpíadas: Atlanta 1996 (5º lugar); Sydney 2000 (6º lugar); Atenas 2004 (ouro).
Outras curiosidades: é membro do Hall da Fama do Voleibol desde 2014; teve duas passagens pelo vôlei de praia (de 2005 a 2007 e de 2008 a 2010, quando se aposentou); se tornou o primeiro jogador campeão mundial em todas as categorias do vôlei (infanto-juvenil, juvenil e adulto).
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Abre Aspas: Nalbert
ge: Como o vôlei entrou na sua vida?
– Inicialmente, eu jogava futebol. Flamenguista, fã do Zico, tinha aquele sonho de ser um jogador, mas vi que não chegaria a lugar nenhum. Comecei a acompanhar vôlei por causa da “Geração de Prata”, vi que levava jeito e falei: “Cara, é isso que eu quero para a minha vida”. E acreditem ou não, com 12 anos, tomei essa decisão. Eu sabia o que eu queria ser, onde queria chegar. A Praia de Copacabana era o meu quintal, e tinha a famosa rede da Tia Leah, no Posto 6. Era a concentração de todos os jogadores. A rede ficava armada sete dias por semana, e os atletas da seleção brasileira iam para lá. Cansei de ver Bernard, Bernardinho, Renan, Badalhoca. Eles estavam sempre ali, jogando, e aquilo era uma grande diversão para mim.
Os atletas costumam dar muita importância aos primeiros técnicos, que trabalham na formação. Você teve alguma figura que te marcou no início da carreira?
– Fui um privilegiado nesse sentido. Tive uma base maravilhosa. Fazia escolinha no Clube Israelita do Brasil (CIB). Aí, a minha professora, Sandra, perguntou se eu estava disposto a fazer um teste no Flamengo. Arregalei os olhos e falei que queria, claro. No final, tomei um não. Foi um não maravilhoso, porque ali vi que eu seria um cara determinado. O técnico virou e falou: “Olha, você não tem o tamanho que a gente gostaria que tivesse.” Realmente, eu era pequenininho, franzino. Não tinha dado estirão de altura. Acho que cresci só de raiva e cheguei a 1,95m.
– Alguns meses depois, houve um campeonato de escolinhas do Rio, com oito times. Não treinamos muito no CIB, porque foi em cima da hora. Ficamos em último lugar. No meu primeiro campeonato, fiquei em último lugar. Mas veio o técnico do Tijuca Tênis Clube e me disse: “Gostei muito do seu jogo, você não teria vontade de vir para o Tijuca?”. E eu: “Lógico que sim!”. Renato Alves, técnico mais importante da minha vida, com certeza.
– Passado pouco mais de um ano, no início de 1987, eu estava em casa, de férias. Tocou o telefone, era o Renato: “Estou saindo do Tijuca e indo para outro clube, mas eu queria que você fosse comigo”. Aí eu: “Mas me conta qual clube”. Ele falou: “Estou indo para o Flamengo. Eles não estão contentes com o treinador lá”. E o treinador lá, sabe quem era? O cara que me deu o não na peneira e falou que eu não servia. Vocês veem a ironia do destino, né? Cheguei ao Flamengo com um técnico que tinha me escolhido, que foi um educador, um grande professor. E aí eu percorri toda a categoria de base ali no Flamengo, dos 13 aos 17 anos. Fui convocado para a seleção carioca e depois alcancei a brasileira.
Nalbert é o entrevistado do Abre Aspas desta semana
André Durão
Você se recorda de, ainda novo, ter conhecido um grande ídolo do vôlei?
– Sim, nas categorias de base. O Flamengo, nessa época, formou um time profissional bem legal, em que o grande carro-chefe era o Bernard. Por acaso, quando eu cheguei na seleção adulta, alguns números de camisa estavam disponíveis, e eu escolhi o 12, pensando no Bernard. E quem era o levantador do Flamengo? Bernardinho. O primeiro contato que tive com ele foi ali. Ele ainda era atleta e tinha uma disposição enorme. Como meu treino acabava cedo, eu aproveitava para ficar a tarde inteira lá no clube e assistia à atividade do adulto.
Quando você disputou Atlanta, sua primeira edição de Olimpíadas, jogou com a geração campeã em 1992. Alguns atletas daquele time dizem que ocorreu um deslumbramento, uma acomodação por serem os atuais campeões olímpicos, e, com isso, o Brasil ficou sem medalha em 1996 (5º lugar). Qual foi a sua percepção?
– Quando você é pioneiro, desbrava um caminho inédito, as armadilhas estão presentes, e erros ocorrem. A geração de Barcelona fez algo fantástico. Talvez o time estivesse sendo formado para as Olimpíadas de Atlanta, mas conseguiu vencer quatro anos antes, e os caras se transformaram em heróis nacionais, nos Beatles. Cheguei à seleção no final de 1993 e fui eu que fiquei deslumbrado, para falar a verdade. No ano seguinte, em 1994, já foi uma situação diferente, porque fiz uma temporada inteira e percorri todo aquele caminho com os caras, via tudo que acontecia no Brasil. Os jogadores, às vezes, não conseguiam dormir, andar na rua. Era um assédio absurdo. E, obviamente, seres humanos podem escorregar.
– O que aconteceu com eles ocorreria com qualquer grupo. Teve uma outra questão também, técnica e esportiva, que contribuiu diretamente para o declínio dos resultados. Houve um repatriamento dos jogadores, uma ação comercial que trouxe de volta ao Brasil os principais atletas dessa geração. Eles estavam na Itália e vieram jogar em uma Superliga com nível técnico menor. É normal você estar aqui no Brasil e não focar tanto. Houve uma perda técnica, e começou a pipocar um monte de outros problemas: gestão, a questão das lideranças, que não tinham essa experiência. O Zé Roberto era um treinador muito jovem, tinha acabado de ser campeão olímpico, e precisava gerir toda aquela situação de assédio. Nas Olimpíadas de Atlanta, todo mundo se fechou, e nós, por muito pouco, não chegamos a uma semifinal e ganhamos uma medalha, apesar das dificuldades.
– Ficaram muitas lições, e eu, jovem, tinha que absorver isso. Dentro da minha mentalidade, estava assim: “Vamos aprender muito com a derrota, e eu tentarei, de certa maneira, fazer com que a próxima geração não caia nas mesmas armadilhas”. Foi a transição, porque, de caçula da seleção, no ano seguinte já virei capitão e pude colocar em prática essa história.
No Abre Aspas, Nalbert reviveu suas primeiras participações em Olimpíadas
André Durão
Em Sydney, a seleção chega renovada, com nomes como Giba e Dante. Mas também tem jogadores experientes – a exemplo de Tande e Giovane, que voltaram do vôlei de praia para buscar vaga nas Olimpíadas. Você acha que houve um conflito de gerações?
– Não. O que ocorreu, na minha opinião, foi algo relacionado à gestão do time. As coisas não foram tão transparentes. Inicialmente, vieram com o discurso: “Vamos renovar”, mas, a cada resultado que acontecia, ventilavam a volta de algum nome do passado. As coisas deveriam ser claras e transparentes, para que tivéssemos um grupo coeso. O que mais me chamou atenção foi chegar à apresentação do ano 2000, da temporada das Olimpíadas, com 30 jogadores. Aí um grupo foi jogar a Liga Mundial, outro ficou aqui treinando, fazendo amistosos. Cara, qual era o time? No ano da Olimpíada, você tem que estar com a equipe pronta, e nós não tínhamos.
– Depois, a definição dos 12 convocados finais não foi muito clara e transparente. Criou uma instabilidade. Na hora da pressão, da decisão, se você não acreditar naquele trabalho, não se sentir absolutamente merecedor, acaba perdendo. Foi o que aconteceu. A gente passou bem a fase classificatória. Chegou num momento de pressão, que foi o jogo da Argentina (nas quartas de final). Eu estava até assistindo do banco, machucado, com um estiramento nas costas. Acabamos perdendo de forma cruel, para um time que tínhamos vencido umas 25 vezes só naquele ciclo olímpico. Mas outra vez eu falo: acho que ali foi o início do que viria logo em seguida. Tudo foi absorvido, aprendido, e, a partir de 2001, quando o Bernardo chegou, a história foi diferente, porque realmente foi construído algo muito forte, quase indestrutível.
Qual foi a lição que ficou da derrota em Sydney?
– Nunca falei isso publicamente. Depois da queda para a Argentina, cheguei à Vila Olímpica tão arrasado, que saí andando. Tinha um lago, de frente para o Estádio Olímpico. Fiquei umas duas horas ali, sentado, e pensei muito em encerrar minha carreira na seleção. Falei: “Precisamos de time, de um trabalho, de uma mentalidade forte. Não quero mais, da maneira que está não quero mais”.
– Eu tinha um contrato na Itália, e estava praticamente decidido. Mas houve a virada de chave, né? Foi a mudança na comissão técnica, a chegada do Bernardo, tudo o que precisávamos. Ali, eu costumo falar que foi um encaixe, um alinhamento de estrelas. Vi algo parecido pouquíssimas vezes na história do esporte. Quando a gente começou a jogar, as circunstâncias em que ganhávamos tinha muito de tudo pelo que passamos anteriormente, de como duvidavam de nós. Estávamos certos de que era a hora de transformar o nosso valor em resultados.
Como foi o começo da relação com o Bernardinho, um técnico obcecado pelo trabalho? O grupo se assustou com o ritmo?
– Eu estava lá na Itália, decidido a me aposentar da seleção, e aí surgiu a notícia: vai ter mudança na comissão técnica. Falaram que o Bernardinho sairia da equipe feminina e assumiria a masculina. Aquilo mudou tudo para mim. Tocou o meu telefone, e era ele: “Estou assumindo e quero saber de você. Está à disposição?”. Falei: “É óbvio. Marca a data de apresentação e vamos embora.” O Bernardinho teve muita felicidade em manter alguns jogadores, como o Giovane, que resolveu continuar na quadra e foi um cara importantíssimo no processo. O Maurício ficou, e chegaram André Nascimento, Escadinha, Anderson… Formamos um time com muita disposição de trabalhar. Na realidade, nós queríamos provar para todo mundo o nosso valor. Quando alcançamos as finais da Liga Mundial de 2001, vimos o quanto estávamos em forma, voando.
– Criamos uma cumplicidade interna, uma forma de trabalhar, que só de pensar me arrepio, porque não é normal. Não é normal a gente ver, na história do esporte, aquilo acontecer. Vencemos a Liga Mundial em 2001. Ficamos em segundo na Copa dos Campeões. Depois, no ano seguinte, ganhamos o Mundial. Chegamos às Olimpíadas com um favoritismo, né? Duas toneladas de favoritismo que pesaram zero para a gente. Zero.
Na seleção brasileira, Nalbert trabalhou com Bernardinho por muitos anos
André Durão
O Bernardinho pegava mais no pé de quem?
– Bernardinho é um cara que briga, mas diminui a cobrança se você pede. Ele pegava muito no pé do Anderson, do André Nascimento. Nossa, o Escadinha, meu Deus do céu, cara. Se for botar em números a quantidade de passes e de defesas que ele fez em treinos, são incontáveis. Serginho retrata muito bem o que foi o período de trabalho ali. Todos tiveram uma missão específica. O meu era ser o jogador da transição de gerações, para criar uma mentalidade no time de Atenas muito baseado no que eu tinha vivido como garoto em Atlanta, tanto nos acertos, quanto nos erros.
– Vou contar alguns bastidores. O Mundial era o nosso grande objetivo em 2002. O Brasil nunca tinha sido campeão. Antes, porém, jogamos as finais da Liga Mundial em Belo Horizonte. Quando estávamos no Brasil, era sempre mais difícil concentrar. Tinha assédio, pedidos de ingressos, compromissos com a televisão. Éramos favoritíssimos na Liga Mundial, mas perdemos a final para a Rússia, diante de 25 mil torcedores no Mineirinho. Quando voltamos ao hotel, nos deparamos com um almoço, montado para comemorar o título. O salão tinha que estar lotado, mas só apareceram alguns gatos pingados – basicamente, os familiares dos jogadores. O Giovane nem era capitão do time, mas pegou o microfone: “Pessoal, queria falar com todos. Provavelmente, se nós tivéssemos vencido, aqui estaria cheio. Perdemos, e olha quem está conosco. Então, daqui até o Campeonato Mundial, teremos três semanas, um mês de treinamento. E é dessas pessoas aqui que devemos lembrar, por elas que devemos nos sacrificar”. Todo mundo olhou, bateu palma, se abraçou. Ali, começamos a nos fechar.
– Chegando ao Campeonato Mundial, ocorreu um outro episódio que mostrou a união do grupo. A organização tinha pré-determinado alguns prêmios individuais: 100 mil dólares para o melhor jogador, 50 mil dólares para o melhor bloqueador, prêmios altos em dinheiro. Antes do torneio, já estava com o radar atento, porque os jogadores só falavam sobre premiação. Conversei com Giovane e Bernardinho, precisávamos tomar uma atitude. Chamei todo mundo para uma reunião no quarto. Propus que a gente definisse como regra que, a cada prêmio individual, metade do dinheiro ficaria com quem ganhasse e metade seria dividida entre todos os jogadores. Argumentei, fundamentei. A maioria concordou. Alguns resmungaram, mas, na hora da votação, todos chegaram a um consenso. E olha que orgulho: quando falamos em liderança, falamos de legado. A divisão dos prêmios individuais, criada em 2002, existe até hoje.
Perto das Olimpíadas de Atenas, você sofre uma lesão grave no ombro e precisa de uma recuperação muito rápida para disputar os Jogos. Como foi aquele período?
– Foi insano. Hoje em dia, falamos tanto de saúde mental. Não sei como minha saúde mental foi preservada depois de tudo o que tive de enfrentar. Mais uma vez, falo do merecimento. Eu me sentia muito merecedor. Não era justo ficar de fora das Olimpíadas. Quando sofri a lesão, na Itália, foram dois dias de luto. Eu achava que iam desistir de mim na seleção. Mas conversei com o Bernardo e com médicos. Eles me disseram que podiam aguardar a minha recuperação. Para mim, a chave virou ali. Cinco minutos depois, já estava arrumando minhas malas, comprando passagem para voltar ao Brasil, para fazer consulta em São Paulo. Era um planejamento minucioso. Tudo precisava sair bem.
Ao Abre Aspas, Nalbert fala sobre a lesão que sofreu antes das Olimpíadas de Atenas
– Foram três sessões de fisioterapia por dia, vivia com uma bolsa de gelo para aguentar a próxima sessão. Paralelamente a isso, tinha que treinar perna, não podia deixar enfraquecer. Só fui me juntar ao grupo na reta final da preparação para as Olimpíadas. Eu ainda não estava 100%. Estava 70, 80% no máximo, mas era o suficiente. O resto eu compensei com o coração. Sabia que iria jogar pouco, que a minha função seria diferente, mas me sentia pronto para entregar o que o time precisasse.
Nalbert no período de recuperação do ombro, antes das Olimpíadas de Atenas
Arquivo pessoal
Como vocês festejaram esse ouro em Atenas?
– Muita gente pergunta se estávamos nervosos, preocupados, mas digo que o clima era de tranquilidade. Acordamos, tomamos café, batemos papo, fomos para o ônibus normalmente. O favoritismo não pesava. Quando chegamos ao ginásio, bateu aquele climinha mais tenso. O vestiário ficou quieto. Aí tem sempre um maluco que faz alguma coisa. O Giovane foi lá, começou a escrever no quadro: “Isso aí, vamos para dentro”. O Ricardinho virou e falou: “Galera, como é que vocês estão?”. Todos responderam que se sentiam confiantes. Na irreverência dele, disse: “Eu duvido, estou aqui cheio de medo, todo cagado, duvido que vocês não estejam.” Todo mundo começou a rir e ficou mais relaxado. Antes do jogo, gritamos muito. Os italianos olhavam reto, só espiavam de rabo de olho. Eu ali na frente, o Giovane sempre atrás de mim. Virei e falei: “Gigi, ganhamos. Vamos atropelar esses caras, pode ter certeza.”
Nalbert conta bastidores da final de Atenas e comemoração do ouro olímpico do vôlei
– Comemoramos o ouro na quadra, no vestiário e fomos para a Vila Olímpica. Depois, partimos para a Cerimônia de Encerramento e já emendamos. Fomos para uma casa noturna lá em Atenas. Estávamos humildes, colocamos as medalhas para dentro da camisa. Tinham vários atletas, incluindo o time de handebol da Alemanha, medalhista de prata. Eles estavam lá, champanhe para tudo quanto é lado, tirando fotos com a medalha no peito. O Escadinha, sacana, nos chamou para ir até os caras. Pedimos para tirar fotos e, de repente, botamos nosso ouro para fora da camisa. Aí começou uma bagunça, com todo mundo chegando para nos tietar. Viramos atrações da casa noturna. Depois, na volta ao Brasil, desfilamos e tivemos vários compromissos com a imprensa. Ao fim disso tudo, eu estava exausto, não só das Olimpíadas, mas de todo o esforço para curar minha lesão e jogar em Atenas.
Nalbert beija a medalha de ouro conquistada nas Olimpíadas de Atenas
Reprodução
Por que, poucos meses depois do ouro em Atenas, você decidiu migrar para o vôlei de praia?
– Estava muito realizado e cansado da rotina. Fui criado no vôlei de praia, me identificava com o esporte e precisava de um grande desafio. Parti convicto para a areia. Quando cheguei, vi que o caminho não era tão fácil. Decidi voltar à quadra e acho que foi um erro. Mesmo distante de uma vaga nas Olimpíadas, deveria ter continuado na praia, tentado um novo ciclo. Eu estava jogando bem, entre os primeiros no ranking brasileiro. Mas o meu patrocinador queria um projeto na quadra e me colocou como carro-chefe. Olha que loucura. No processo de voltar à quadra, conversei com Bernardinho sobre seleção e falei que eu ainda não pensava em convocação. Houve situações no passado, de jogadores retornarem da areia direto para a seleção, que não achei corretas. Disse a ele: “Se você julgar que é o momento de me convocar, estarei à disposição. Mas, primeiro, quero jogar”. Fui para o Modena, da Itália, voltei ao Brasil, e o projeto do patrocinador não foi para frente. Acabei indo para o Minas, e o Bernardo me convocou.
Nalbert diz que se arrependeu de deixar o vôlei de praia quando voltou à quadra
E, nessa época, você encara dois cortes: Pan-Americano do Rio, em 2007 (por lesão), e Pequim 2008 (por opção técnica).
– Se não fossem as lesões… Tive problema na posterior e, quando me apresentei ao Minas, sofri a mesma lesão de Atenas, mas no ombro direito. Em 2007, fiquei quase um ano sem jogar. Nas férias, já em 2008, estava com passagem para Miami e fui. Dias depois, Bernardinho me ligou e chamou para uma conversa. Fomos jantar no Rio, ele falou que queria me convocar, para brigar por posição. E eu perguntei: “Tem certeza? O time está resolvido. Então, conversa com o pessoal, com os jogadores, posso ser uma presença que crie instabilidade. Tem que deixar claro que vou para ser um a mais”. Um ano antes, teve a confusão com o Ricardinho. O time precisava de um pouco de paz. Se eles falassem que me aceitavam, eu ia. Bernardo disse que estava tudo certo e me apresentei. Acabei cortado (das Olimpíadas de Pequim) junto com o Sidão. Poderiam ter jogado essa decisão mais para frente. Eu estava entrando em forma, jogando bem em algumas situações, voltando a me sentir confiante.
Nalbert foi cortado das Olimpíadas de Pequim, em 2008
André Durão
Qual foi a sensação de ser cortado e ver a chance de ir para as Olimpíadas de Pequim 2008 acabar de vez?
– Eu estava em uma cadeira, em um hotel no Leme, com o restante dos jogadores. Bernardinho falou, um falou, outro falou. Pedi a palavra e falei também. Disse que minha história na seleção estava encerrada e cumprimentei todos os presentes. O pessoal foi treinar, eu sentei novamente. Foi uma das sensações mais loucas que tive. Isso aqui é sessão de terapia, estou abrindo meu coração para todo mundo (risos). Sentei, sozinho naquela sala, e alguma coisa me prendia na cadeira. Pela primeira vez na vida, fiquei com medo de levantar, porque não sabia para onde eu iria, o que faria no dia seguinte. Não tinha nada marcado. Foi uma sensação de luto, uma coisa horrível. Fiquei 1h30 sentado, pensando: “Não tenho time. Continuo a jogar, saio de férias?”. Foi doloroso, fiquei um bom tempo chateado, magoado. Depois, o tempo passa, a vida segue, e a gente entende.
Nalbert fala sobre o corte das Olimpíadas de Pequim, em 2008
Você ficou magoado com o Bernardinho. Como lidou com isso e reparou a relação?
– Nós nos cruzamos algumas vezes depois do corte, mas não falamos a respeito disso. A vida seguiu. Eu nunca criei expectativa de nada, as coisas se resolvem com o tempo. De forma inesperada, em uma palestra no Museu do Amanhã, eu estava com o Bernardinho, e ele disse ao público: “Sou técnico da seleção brasileira. Trabalho com o sonho das pessoas. Se eu cortar o jogador, não vai ter aquela Olimpíada. Isso é muito doloroso. Tive que fazer escolhas difíceis na minha vida e, parando para pensar, errei algumas vezes. Estou diante desse cara (Nalbert), que, em 2008, teria sido muito útil. Cometi um erro, poderia ter levado ele com a gente”. Eu não esperava aquilo. Para mim está tudo resolvido. Os jogadores que disputavam posição comigo tinham características diferentes. Eu me via em Pequim. Eu era o cara mais experiente, mais velho, que, diante dos EUA na final, podia dar um volume, um toque aqui e ali. Tomaram essa decisão, e faz parte do jogo. Não quero carregar mágoa eterna de ninguém.
E, neste momento de “luto” do corte, um dos piores da sua carreira, você conheceu a mulher (a atriz Amandha Lee) que se tornaria sua esposa, com quem está há quase 20 anos, certo?
– A vida tem essas compensações. Naquele momento, fiquei muito mexido, porque 2008 seria minha última Olimpíada, e eu me via em condições. Então, fui curtir as férias, sair à noite, acordar tarde. Em uma festa, no dia da estreia do Brasil em Pequim, conheci a Amandha, minha parceira de vida, que me deu minhas medalhas de diamante: (os filhos) Rafaella e Victor. Sou grato à vida por isso. Um fato ruim na jornada profissional me levou à coisa mais maravilhosa na vida pessoal.
– Eu e a Amandha nos apaixonamos. Pouco depois (em 2010), tomei a decisão de encerrar minha carreira. A ajuda dela e da minha família vai além do corte nas Olimpíadas, se estende para a aposentadoria. O atleta morre duas vezes na vida, a primeira é quando para de competir. Eu poderia ter jogado de líbero, prolongado a carreira, mas não tinha mais desafios, confiança no meu corpo. Tomei a decisão corajosa de me aposentar, e o apoio das pessoas que amo foi muito importante.
Nalbert e a atriz Amandha Lee estão juntos há quase 20 anos
Reprodução
Como você lidou com o fim da carreira de atleta?
– Esse assunto é interessante. Há muitos atletas olímpicos que abandonam o esporte e não querem mais praticar. A maioria prefere descobrir outras modalidades. No meu caso, encontrei o ciclismo. Decidi colocar minha competitividade ali, sabendo que seria um atleta medíocre, competindo comigo mesmo. No vôlei, até tentei jogar por diversão, mas, quando comecei a perder para uns caras comuns, me irritei. Não posso aceitar. É melhor me aposentar definitivamente. Venho aqui cornetar, sou comentarista. Frequento redes de vôlei, tenho muitos amigos, mas fico do lado de fora. É muito pessoal, tem gente que conserva o prazer. Cesar Cielo, por exemplo, continua nadando. Não sou desses.
Como você enxerga a situação atual da seleção masculina de vôlei?
Nalbert faz críticas à atual situação das categorias de base do vôlei masculino do Brasil
– Vou fazer uma análise diferente da que tenho escutado. Concordo que hoje há mais times, que o Brasil está em construção e precisa de jogadores rodados, mas não vejo bichos-papões no vôlei mundial. Discordo da ideia de que o nível está lá em cima. Não tem um timaço. O Brasil, nos próximos dois anos, trazendo jogadores, trabalhando melhor, fazendo com que o time jogue mais, pode brigar. Precisamos entender o valor do sacrifício diário. A comissão técnica é gabaritada e experiente. O grupo tem que aproveitar todos os dias de treinamento, se fechar, tomar melhores decisões individuais de carreira. A Superliga tem bom nível, mas fica muito atrás de ligas europeias, por causa do dinheiro. Os jogadores precisam ter a consciência de que só vão construir um time forte estando conectados entre si, vencendo a barreira da insegurança, da pressão, da internet. Tem que saber diferenciar a crítica construtiva do comentário oportunista. Hoje em dia, ter um psicólogo nos times também é importante. O celular pode estragar a vida de qualquer pessoa.
Nalbert fala sobre o momento atual da seleção masculina de vôlei
André Durão
Como analisa a base?
– O sistema esportivo no Brasil, com as federações, é extremamente político. Preza mais pelas relações do que pela competência. Quem comanda, em muitos casos, não é um gestor qualificado. Vemos isso dentro da CBV, de qualquer confederação, de federações estaduais. Essa cadeia precisa funcionar. Hoje em dia, todo mundo fala da base, por causa dos resultados ruins do adulto. Mas, nos tempos de vitória do Brasil, eu já falava que estávamos perdendo na base. Não fui engenheiro de obra pronta. Estou avisando há, no mínimo, 10 anos. Precisamos de gestores, gente competente para cuidar dessa cadeia e formar melhor os jogadores. Nos anos 90, não me faltou nada como atleta. Sou o melhor exemplo de todos na história do voleibol brasileiro de que a base bem trabalhada pode gerar frutos no adulto. Fui campeão mundial sub-17, sub-20, campeão sul-americano sub-17. Passei invicto nas categorias de base para chegar no adulto e perder durante muito tempo. Mas a mentalidade vencedora da base estava ali, e pude liderar um novo time para ganhar no adulto.
– Os holofotes se voltam à base. Bernardinho e Zé Roberto estão arrumando a casa, cuidando de tudo. Por que isso não ocorreu antes? Falha de gestão. Não tem como fugir. Quem é a entidade máxima do vôlei brasileiro? É a CBV. Eles têm essa obrigação, essa responsabilidade de cuidar o tempo inteiro. “Ah, não tem dinheiro, não tem recurso”. Há 35 anos, tinha mais dinheiro do que agora? Vôlei é o segundo esporte do Brasil, temos vários grandes patrocínios. Será que o dinheiro não está sendo colocado da forma errada? Será que não é a formação errada de treinadores e técnicos? Essa reflexão deveria existir há muito tempo. Estou aqui como comentarista da TV, o que posso fazer é falar. Quem está lá no dia a dia tem obrigação de fazer, traçar um plano, tomar uma atitude. Ficamos chateados. A responsabilidade é desses gestores, que muitas vezes são políticos, sem envolvimento com o esporte.
Você já falou que o problema não é a comissão técnica. Bernardinho e Zé lideram a seleção brasileira há muito tempo, mas não temos um consenso sobre sucessores. Há um problema de formação fora de quadra também?
– Certamente. Nos anos 70, 80 e 90, ficou clara a criação de uma escola brasileira. Nunca foi a mais alta, a mais forte fisicamente, mas foi aquela com mais fundamentos, controle de bola, versatilidade, criatividade. E isso veio de uma boa formação de base dos jogadores e da nossa qualidade de treinamento. Tínhamos um grupo de treinadores que colocavam em quadra a essência do voleibol brasileiro. Isso se perdeu, eu olho hoje em dia e não consigo encontrar. Em uma conversa recente com o Radamés (Lattari), presidente da CBV, expus isso. Falei: “Bernardinho e Zé Roberto são espetaculares. Os melhores do mundo. Mas, hoje em dia, são mais importantes para formar outros treinadores do que propriamente dirigir a seleção brasileira”. Eles precisam formar não só um, mas vários treinadores para atuar na base e no profissional. Não podemos deixar a oportunidade passar.
Você é a favor de técnicos estrangeiros para ajudar a seleção brasileira?
– Não vejo nenhum problema com estrangeiros, desde que estejam alinhados ao nosso vôlei. Não sei se o melhor caminho, depois de Zé e Bernardinho, é trazer um profissional que não conheça o jogo brasileiro. Temos muita gente boa aqui, atletas que podem participar mais desse processo, desse dia a dia. Falo direto com a geração de Atenas e Barcelona. Discutimos o que podemos fazer. Todo mundo quer ajudar. É só pegar as pessoas disponíveis e formar um grupo de trabalho para organizar a casa novamente.
Você aceitaria um cargo técnico na seleção?
– É uma belíssima pergunta. Não tenho dúvidas de que eu poderia contribuir demais, inclusive usando minha experiência como comentarista. Do ponto de vista profissional, acho difícil alguém conseguir me tirar da TV. Estou muito feliz, adoro comentar jogos. Informalmente, ficarei sempre à disposição, sem entrar em conflito com meu trabalho aqui. Minha missão é com a TV e com o público. Eu conseguiria ajudar na base e no adulto, mas não sei o quanto seria viável, por causa do meu trabalho na televisão, que não pretendo largar tão cedo.
Nalbert no Abre Aspas
André Durão
Você falou da geração de Atenas 2004, de Barcelona 1992. Acha que algum nome histórico do Brasil poderia colaborar com a seleção?
Nalbert comenta sobre indicações de técnicos para o futuro da seleção de vôlei masculina
– Vou deixar a ideia aí. O Giovane esteve nas categorias de base durante o período todo de Bernardinho. Eu até achei que estivesse sendo preparado como substituto. Algo nesse sentido poderia funcionar. Chegaria grande, com experiência, chancela. Mas talvez ele nem queira mais. Olhando para o futuro, vejo com bons olhos o Bruninho. Sei que existe muito papo, muita besteira pelo fato de ser filho do Bernardinho, mas enxergo uma capacidade absurda no Bruninho. É um líder, muito inteligente, certamente será um grande treinador. E tem uma inteligência emocional até superior à do pai, com uma comunicação mais fluida, sendo bem-visto por todos. Mas já tem que virar assistente o mais rápido possível. Temos treinadores jovens no masculino, como o Filipe (Ferraz, do Cruzeiro), que não construiu carreira como jogador na seleção, mas está acostumado a ganhar. Atleta que se acostuma a perder é a pior coisa que tem. O Filipe é um candidato também. Mas, acima de tudo, é necessário arrumar a base para revelar três ou quatro gerações que possam brigar de igual para igual, ser competitivas. geRead More


