RÁDIO BPA

TV BPA

Urnas sob ataque nas Américas: o que explica a ofensiva de políticos contra o sistema eleitoral na região

Urnas sob ataque nas Américas: o que explica a ofensiva de políticos contra o sistema eleitoral na região

 Os ataques às urnas nas Américas durante eleições e em campanhas eleitorais ao longo de 2026 mostraram que a democracia na região ainda convive com a memória do autoritarismo. A ofensiva contra os sistemas de votação vem tanto da direita quanto da esquerda.
Em alguns países, autoridades questionam a segurança do voto ou colocam em dúvida os resultados das urnas, sem apresentar evidências de fraude. Em outros, o problema é mais profundo: instituições eleitorais são pressionadas, opositores são impedidos de disputar eleições ou a própria competição política é restringida.
No Peru e na Colômbia, candidatos presidenciais de esquerda levantaram acusações de fraude, após saírem derrotados das urnas. Não há, no entanto, nenhum indício de irregularidade e, em ambos os países, as eleições foram validadas e os novos presidentes tomaram posse;
Nos EUA, Donald Trump vem reiteradamente tomando medidas para limitar o voto pelo correio, além de repetir sem provas que a eleição em que saiu derrotado para Biden, em 2020, foi fraudada;
No Brasil, o candidato a presidente Flávio Bolsonaro chegou a repetir alegações falsas do pai (já desmentidas pelo TSE) contra as urnas.
Derrotados nas urnas, os esquerdistas Sanchéz (Peru) e Cepeda (Colômbia) levantaram acusações de fraude e ameaçaram não reconhecer as vitórias de Keijo Fujimori e Abelardo de la Espriella
Reuters e EPA via BBC
Em um caso ainda mais grave, o regime foi posto em xeque, a ponto de que os requisitos democráticos deixaram de ser atendidos.
Na Nicarágua, o presidente Daniel Ortega ordenou que a oposição seja excluída do processo eleitoral, escancarando assim a ditadura familiar que governa o país.
‘Os dias em que partidos apoiados pelos ianques [Estados Unidos] e pelos somosistas voltaria ao poder acabaram’, disse Ortega.
Leonardo Fernandez Vilori/Reuters via BBC
Há um terceiro caso: o da Venezuela, que está sob um governo interino desde a captura do ex-ditador Nicolás Maduro, mas sem qualquer perspectiva de eleições em vista.
Na última quarta (2), Trump chegou a afirmar que a Venezuela ainda não está pronta para realizar eleições. O discurso foi endossado pela presidente Delcy Rodríguez, que acrescentou que o país só irá às urnas quando “estiver preparado”.
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez
Reuters/Marco Bello
Mas, afinal, o que explica essas ofensivas contra as urnas nas Américas?
Segundo a professora de ciência política da USP, Lorena Barberia, o descrédito das urnas na América Latina é o resultado de um passado autoritário recente. Os países das porções centrais e do Sul do continente ainda lutam para enraizar a cultura democrática.
Já os Estados Unidos vivem um processo inverso, de deterioração das instituições.
Séculos de democracia em risco
Presidente dos EUA, Donald Trump, fala com jornalistas em Paris, em 17 de junho de 2026.
Reuters/Evelyn Hockstein
Os EUA são a república constitucional contínua mais antiga do mundo, com eleições presidenciais regulares desde 1789. O país só perde o título de democracia mais velha do planeta para a Inglaterra, que adotou o regime parlamentar cem anos antes, em 1689.
➡️ Desde a posse de George Washington, após a primeira eleição presidencial realizada entre 1788 e 1789 sob a nova Constituição, os EUA mantém eleições nacionais regulares e transferências de poder por vias institucionais, sem interrupção do calendário eleitoral. Ao longo de mais de dois séculos, o sistema atravessou guerras, crises econômicas, disputas políticas e profundas transformações sociais, preservando a realização periódica de eleições como um dos pilares de sua democracia.
Dois séculos e meio de história democrática não foram suficientes, no entanto, para blindar a democracia americana de ameaças.
Um estudo do Instituto Variedades da Democracia (V-Dem) mostra que os EUA perderam o status de democracia liberal pela primeira vez em mais de meio século de pesquisa. Em apenas um ano, a pontuação dos EUA caiu 24%, e a sua classificação mundial despencou do 20º para o 51º lugar, entre 179 nações.
“O atual governo dos EUA tem minado os mecanismos institucionais de controle e equilíbrio, politizado o funcionalismo público e os órgãos de fiscalização, e intimidado o Judiciário, além de atacar a imprensa, a academia, as liberdades civis e as vozes dissidentes”, resume o fundador do V-Dem, Staffan Lindberg.
💣Especialistas têm alertado para sinais de erosão democrática nos EUA nos últimos anos, a partir da invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Críticos também apontam tentativas de ampliar os poderes do Executivo em detrimento dos mecanismos de freios e contrapesos, incluindo o uso extensivo de decretos presidenciais, disputas com o Congresso sobre gastos públicos e descumprimento ou contestação de decisões judiciais por parte do governo.
Autoritarismo exaltado na América Latina
Visitante observa foto da exposição “Evandro Teixeira. Chile, 1973”, no Rio de Janeiro. Além dos registros feitos no Chile, a exposição mostrou imagens produzidas por Evandro durante a ditadura militar brasileira.
Tânia Rêgo/Agência Brasil
A professora Lorena Barberia explica que as democracias latinas, por sua vez, sofrem solavancos de quando em quando porque ainda não se estabilizaram – tanto por razões culturais, como o comportamento dos políticos, quanto técnicas, como os mecanismos de estabilidade institucional.
“Os presidentes daqui tem dificuldade de aceitar as derrotas e fazer as transições de poder. Não temos um histórico de desapego do poder. Na maioria das vezes, quando alguém senta na cadeira presidencial, não quer sair mais”, afirma a professora.
O enfraquecimento da democracia está longe de ser uma exclusividade das Américas – ao contrário, é uma tendência global. O mundo inteiro vive uma crise da democracia representativa, em que o sistema eleitoral é um dos alvos preferenciais.
Mas Barbeira explica que essa inclinação encontrou terreno fértil por aqui por dois motivos: a eleição de líderes que fazem apologia aos regimes autoritários do passado e pelas mudanças das regras eleitorais aprovadas por esses mesmo políticos.
Nas últimas duas décadas, mais de 25% dos países da América Latina sofreram retrocessos autoritários, mas com uma face de legalidade, segundo um estudo de 2022 liderado por Barberia no instituto Kellogg para estudos internacionais.
Em vez dos golpes militares do século XX, os retrocessos democráticos recentes na Venezuela, na Nicarágua, na Bolívia e no Equador foram conduzidos por presidentes que, após vencerem eleições limpas, alteraram as Constituições e as regras do jogo para se perpetuarem no poder.
Uma vez no cargo, governantes mudaram as leis e as regras das eleições para se manterem no poder a qualquer custo, impedindo a alternância política que dá vida à democracia.
Apesar dos retrocessos, a região mostra resiliência: Bolívia, Equador e Honduras conseguiram realizar novas eleições competitivas e reiniciar suas transições democráticas.
De acordo com os autores do estudo, o cenário deixa claro que a consolidação democrática na região não é um evento rápido, mas um processo longo, sob constante disputa e que exige vigilância contra o autoritarismo disfarçado de legalidade.
O pêndulo latino-americano
Para a professora de relações internacionais da Unifesp, Regiane Bressan, os principais fatores para explicar a instabilidade democrática na América Latina estão o desgaste dos governos, o voto de protesto, a insatisfação dos eleitores e a alternância natural de poder.
“É aquele clássico pêndulo político latino-americano, que tem gerado ciclos de alternância cada vez mais curtos”, afirma.
Os Estados Unidos podem, na avaliação dela, aproveitar a mudança política para estreitar relações com governos ideologicamente próximos. Isso não significa, porém, que Washington seja o motor dessas transformações.
🔵A América Latina vive hoje uma guinada à direita chamada de “onda azul” – um movimento oposto à “onda rosa” que levou governos de esquerda ao poder no início da década. Argentina, Chile, Equador, Bolívia, Panamá, Peru e Colômbia passaram a ser governados por forças de conservadoras, impulsionadas sobretudo pela insatisfação com a economia, a criminalidade e a instabilidade política.
Mapa mostra evolução dos governos de direita e esquerda na América do Sul entre 2016 e 2016
Editoria de Arte/g1
A geopolítica da crise
Para Bressan, a política externa do governo de Donald Trump também tem contribuído para o enfraquecimento da democracia na região.
A professora explica que a diplomacia legítima pressupõe consentimento, transparência e respeito às instituições do país em questão.
A ingerência ocorre quando um governo estrangeiro tenta “coagir, tutelar e influenciar deliberadamente a escolha do eleitorado e a legitimidade das instituições locais”, afirma.
Bressan cita como sinais de interferência, por exemplo, o questionamento da segurança das eleições, ameaças tarifárias, sanções, restrições de vistos, financiamento direto e campanhas digitais coordenadas.
A retomada da Doutrina Monroe
A influência dos EUA sobre a América Latina remonta à Doutrina Monroe e atravessa a Guerra Fria, mas mudou de método durante os governos do final do século XX e início do XXI, à medida que Washington passou a enfatizar relações comerciais e cooperação com a América Latina.
➡️ Criada em 1823 pelo presidente norte-americano James Monroe, a Doutrina Monroe estabelecia que as potências europeias não deveriam interferir nos assuntos do continente americano, sob o princípio de “América para os americanos”. Críticos afirmam que a doutrina serviu para transformar a América Latina no “quintal dos EUA”, legitimando intervenções políticas ao longo dos séculos XIX e XX.
O histórico americano de interferência na região inclui episódios documentados:
Em 1954, a CIA participou da operação que derrubou o presidente guatemalteco Jacobo Árbenz;
No Chile, documentos oficiais mostram que a agência recebeu, em 1970, a missão de tentar impedir a chegada de Salvador Allende à Presidência e realizou operações políticas durante seu governo.
No Brasil, documentos americanos também registram apoio de Washington a iniciativas contra João Goulart antes do golpe militar de 1964.
Após a queda do muro de Berlim, no entanto, a política externa americana mudou de rumo. No governo de Bill Clinton, as relações regionais se afastaram da lógica de intervenção direta e passaram a priorizar a democracia, o livre comércio e a integração.
George W. Bush manteve a defesa de uma “nova parceria” com a região, embora sua diplomacia tenha recolocado a segurança e a luta contra o terrorismo no centro da agenda – com foco no Oriente Médio.
Já no governo de Barack Obama, a ruptura foi explicitada: em 2013, seu secretário de Estado, John Kerry, declarou na OEA que “a era da Doutrina Monroe acabou”, defendendo uma relação entre países do continente baseada em igualdade, cooperação e respeito à soberania.
Donald Trump chegou para inverter novamente essa lógica. Inclusive, a política do republicano para a América Latina ganhou o apelido de “Doutrina Donroe” – uma combinação dos nomes Donald e Monroe.
Sob o seu segundo mandato, a estratégia voltou-se para a pressão econômica, redes sociais e alianças com lideranças ideologicamente próximas, “sem a mediação de ritos diplomáticos tradicionais ou pudor em relação à intervenção”, explica Bressan.
A professora afirma que esse histórico, porém, não significa que as recentes mudanças políticas na América Latina sejam resultado direto de um plano coordenado pelos EUA. As intervenções ocorreram em contextos específicos, e os ataques ao sistema eleitoral são influenciados principalmente por fatores domésticos.
Raio X da ofensiva aos sistemas eleitorais
Estados Unidos
Donald Trump tem atuado para restringir o voto pelo correio nos EUA e afirma que o sistema é suscetível a fraudes. Mas o próprio Trump recorreu à modalidade em diferentes eleições, inclusive recentemente.
O caso foi parar na Justiça americana – com vitórias tanto do governo federal, quanto dos estados contrários à ofensiva.
Críticos afirmam as investidas de Trump ampliam o poder federal sobre eleições administradas pelos estados e podem reduzir o acesso às urnas. Além disso, dados apontam que os eleitores democratas — que costumam se opor a Trump — são mais propensos a usar o voto pelo correio do que os republicanos.
Colômbia
Na Colômbia, o ex-presidente Gustavo Petro questionou a apuração das urnas e levantou suspeitas de fraude, após a vitória do conservador Abelardo de la Espriella em julho deste ano. Petro havia apoiado o candidato governista Iván Cepeda.
As acusações, porém, não foram confirmadas por observadores independentes. A missão eleitoral da União Europeia classificou a apuração como transparente e eficiente e afirmou não ter encontrado inconsistências ao comparar atas eleitorais com os votos físicos. O órgão eleitoral colombiano também informou que a revisão de quase todas as mesas mostrou apenas uma diferença mínima em relação à contagem preliminar.
Peru
No Peru, a eleição presidencial de 2026 foi marcada por problemas logísticos e por uma disputa apertada que alimentou acusações de fraude. O segundo turno foi disputado por Keiko Fujimori e Roberto Sánchez.
Após sair derrotado, Sánchez também questionou parte da votação, principalmente os votos no exterior, e chegou a afirmar que poderia não reconhecer o resultado.
Observadores da Organização dos Estados Americanos e da União Europeia, porém, afirmaram que não encontraram evidências de fraude. A Defensoria do Povo peruana chegou à mesma conclusão, embora tenha apontado falhas logísticas e problemas de coordenação entre órgãos eleitorais.
Brasil
O senador e candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, promoveu um encontro com diplomatas estrangeiros em 21 de julho – ainda na pré-campanha eleitoral – e lançou dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas brasileiras.
Flávio associou os equipamentos utilizados no pleito do Brasil a máquinas da empresa venezuelana Smartmatic, que já foi alvo de acusações de fraude na Venezuela.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclareceu que a empresa não fornece as urnas usadas nas eleições brasileiras e que todo o projeto do sistema de votação é desenvolvido e administrado pela Justiça Eleitoral.
Questionado sobre o tema em entrevista ao Jornal Nacional, em 28 de agosto, Flávio negou ter duvidado da confiabilidade do sistema eleitoral e disse que respeita o processo eleitoral:
“Quero dizer a todos vocês que vou respeitar o processo eleitoral, vou respeitar o resultado das eleições. Eu estou concorrendo com essas regras, eu vou ser presidente da República com essas regras.”
Em seguida, Flávio foi questionado se respeitará o resultado das urnas, mesmo se perder. E respondeu:
“Com certeza eu vou adorar que você anuncie o meu nome como presidente naquela bancada do Jornal Nacional.”
A apresentadora Renata Vasconcellos insistiu na pergunta: “E se perder, candidato?”. Flávio respondeu:
“Eu não vou perder essa eleição. E eu digo mais: vou ganhar no primeiro turno”.
O candidato também reconheceu ter divulgado uma informação errada ao afirmar que uma empresa venezuelana fabricava urnas usadas no Brasil.
“Eu disse que a empresa que fez as urnas eletrônicas era uma empresa venezuelana. Falei errado. Ela apenas participou de alguns processos ao longo do processo eleitoral que o TSE estava organizando.”
Flávio Bolsonaro (PL) responde a pergunta sobre urnas eletrônicas
Nicarágua
Na Nicarágua, a crise eleitoral avançou para um estágio mais radical. O governo de Daniel Ortega aprovou uma reforma que exclui a oposição das eleições. A medida aprofunda um processo de concentração de poder iniciado após o retorno de Ortega ao governo, em 2007, e escancara a ditadura familiar no país.
As últimas eleições presidenciais, em 2021, ocorreram depois da prisão de adversários políticos e foram amplamente contestadas internacionalmente. Desde então, reformas constitucionais ampliaram o poder de Ortega e de sua mulher, Rosario Murillo, que passou a ocupar o cargo de copresidenta.
Venezuela
A Venezuela não é entendida como uma democracia. Nos últimos anos, o país foi amplamente classificado por especialistas, organizações internacionais e governos estrangeiros como um regime autoritário. No entanto, a captura do ex-ditador Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, colocou novamente em perspectiva a realização de eleições justas no país.
No entanto, não há se quer uma data para a realização do pleito. No início do mês, Trump afirmou que a Venezuela ainda “não está pronta” para realizar eleições. A fala foi endossada pela presidente interina, Delcy Rodrigues – que conta com o apoio dos Estados Unidos.g1 > Mundo Read More