Só chutar? Kicker brasileiro Cairo Santos detalha rotina de “piloto de avião” na NFL
Preparação, evolução e superstição: Cairo Santos relata trabalho como kicker na NFL
Dois passos para trás, depois dois para a esquerda para se posicionar. Olha para cima, mira, inspira e dá três passos para a frente para tentar acertar a trajetória do chute entre as traves do Y e marcar um field goal. Quem só vê de longe ou pela TV pode pensar que a posição “mais brasileira” do futebol americano se resume a entrar em campo para chutar a bola oval. Cairo Santos, jogador do Chicago Bears e representante do Brasil da NFL, explicou ao ge que a função do kicker vai além disso.
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O trabalho pode influenciar diretamente o resultado de uma partida e exige não somente uma concentração contínua, como também uma execução que beira a perfeição. Embora por vezes tenha sua importância escanteada por parte do público, o kicker carrega grande responsabilidade e precisa seguir um metódico processo de preparação que o atleta brasileiro compara ao passo a passo de um piloto de avião.
— Acho muito importante o kicker ter uma rotina. Quando a nossa defesa está em campo, normalmente estou descansando perto do banco, mas sempre tenho uma bola preparada na rede de aquecimento para caso houver uma interceptação para touchdown e eu ter que dar o chute sem nem o meu ataque entrar. Já aprendi com erros que tive, então deixo preparado. Mentalmente, também fico dentro do jogo — disse Cairo em entrevista ao ge.globo.
Cairo Santos chuta Field Goal durante jogo entre Bears e Packers, pelo Wild Card da NFL
Todd Rosenberg/Getty Images
— No momento em que o técnico chama a equipe de field goal, eu começo a minha rotina. É meio que um piloto de avião que tem um checklist antes da decolagem. É um passo a passo para simular como se fosse um chute de treino. Eu treino essa rotina em todo chute. Já monto essa bolha e tento só me ver dentro dela durante o jogo. E, se eu não estou me preparado para entrar nessa rotina, eu posso deixar o chute escapar um pouquinho — explicou o brasileiro de 34 anos.
É importante ter o psicológico sempre ligado a executar em qualquer momento do jogo. São poucos momentos em que a gente entra, mas cada vez você tem só uma chance de acertar aquele chute. Você tem que estar completamente focado e preparado para o que vier durante a partida.”
A analogia feita por Cairo também se aplica às consequências das tarefas realizadas, cujos aproveitamentos precisam estar o mais perto possível da excelência, quase robóticos. Um kicker, assim como um piloto de avião, pode passar despercebido caso cumpra seu objetivo sem intercorrências, mas basta uma etapa fugir ao padrão para cair sobre ele todo o peso da cobrança.
Na NFL, um chute errado pode custar ao time tanto uma vitória, como uma classificação aos playoffs. É o ônus da posição que só permanece em campo por alguns segundos, mas que pode assumir toda a culpa em momentos cruciais. Justamente por influenciar a partida, os kickers são valorizados internamente nas equipes e podem definir situações estratégicas na disputa de xadrez que rege um confronto.
— É impressionante o quanto a minha decisão acaba afetando o resultado do jogo. O kicker sempre fala [à comissão técnica] para qual lado quer terminar o jogo chutando. Dependendo do cara ou coroa, que escolhe quem vai começar no ataque ou na defesa, você pode ter controle de onde você quer terminar chutando no quarto período. Sempre que tiver essa oportunidade, a gente quer chutar com o vento — contou Cairo.
Cairo Santos durante aquecimento na neve ante de jogo na NFL
Michael Owens/Getty Images
Dependendo das condições do estádio (aberto ou fechado) e do vento (sentido e força) no momento do chute, a direção em que o ataque avança no campo tem total impacto para o ofício do kicker. Ainda mais para uma posição que vem a cada temporada aumentando mais a distância para ser considerada “automática” — isto é, com a tentativa de field goal sendo considerada praticamente garantida.
Evolução da posição “automática”
Ao longo dos anos, a evolução da posição naturalmente fez com que o nível de exigência aumentasse. Quando chegou à NFL, Cairo explicou que a expectativa era que um kicker fosse praticamente automático em chutes de até 50 jardas. Ou seja, era esperado que quase todos os field goals até essa distância fossem convertidos.
Hoje, a régua já está mais alta. No último ano, por exemplo, Cam Little, do Jacksonville Jaguars, quebrou o recorde de field goal mais longo da liga ao acertar um de 68 jardas. Tal distância foi inédita em jogos oficiais, mas chutes de até 60 jardas começam a ser mais frequentes.
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— Quando eu entrei na NFL, aprendi a importância de ser automático dentro de 50 jardas. Hoje em dia, 13 anos depois do meu início, esse número está mais para 53, quase 55 jardas. Os kickers vêm melhorando e ficando mais fortes, a gente também vem aprendendo técnicas para chutar a bola mais reta — explicou.
Antes de cada partida, o brasileiro testa no aquecimento o mais longe que consegue chutar naquele campo e informa à comissão técnica qual a sua margem de segurança. Além da distância considerada “garantida”, os kickers também trabalham com um número máximo no horizonte para situações de desespero, o equivalente ao chamado “Hail Mary” em lançamentos de quarterbacks. Dependendo das condições, ele indica que seu chute pode chegar a 63 jardas.
— Quando o tempo está quente, eu consigo chutar acima de 60 de um lado no aquecimento. Mas quanto mais longe eu chuto de um lado, mais curto eu chuto do outro. O vento está contra. Tem jogo que eu acerto 63 de um lado e do outro, contra o vento, só 50. Eu dou um número para o técnico: “De 55 pra baixo, a hora que você quiser chamar o field goal”. É assim que funciona. Eu faço meu aquecimento, testo a maior distância que eu consigo, mas geralmente eu coloco um número mais curto, que é garantido. Quando ele quiser chutar, eu tenho que fazer três pontos — comentou.
Cairo Santos comemora vitória sobre os Vikings com o quarterback Caleb Williams
Chris Sweda/Chicago Tribune/Tribune News Service via Getty Images
— Geralmente, por causa do vento e do frio, às vezes esse número acaba sendo 50, 53, 55 jardas. Eu vejo isso em outros kickers também. Eu não vejo eles aquecendo chutando de 66 ou 67, que nem eles conseguem fazer em outros estádios talvez mais cobertos ou climas mais favoráveis do que aqui em Chicago. É realmente diferente chutar nesses lugares, e eu prefiro trabalhar na minha técnica pra ser mais preciso e fazer três pontos do que exibir uma perna mais forte pra situações muito raras durante o jogo — acrescentou o brasileiro.
Cairo, cujo recorde de field goal é de 55 jardas, também mantém algumas superstições em seus jogos na NFL. Ele só entra em campo com o pé direito, evita pisar na linha e mantém até os equipamentos pessoais como parte de sua rotina ao usar sempre as mesmas meias e a mesma chuteira.
Aos 34 anos, o atleta natural de Limeira começa a sua sétima temporada consecutiva nos Bears e vive uma situação de estabilidade em Chicago. Ele converteu 25 de 30 field goals (aproveitamento de 83,3%) e foi perfeito nos 39 extra points que tentou na última temporada regular, além de ter sido responsável por 114 dos 441 pontos marcados pela equipe, o equivalente a 25% do total.
Cairo Santos comemora acerto em chute de field gol no clássico dos Bears contra os Packers
Michael Reaves/Getty
O brasileiro é o kicker mais preciso da história da franquia, com 88,6% de aproveitamento em field goals —164 acertos em 185 tentativas, considerando temporada regular e playoffs. Além disso, ele é o dono do recorde do time de 40 field goals consecutivos, sequência que estabeleceu entre 2020 e 2021 e que representa a terceira maior da história da NFL.
Chamado de “Mr. Automático” em Chicago por ter convertido 85 de 86 tentativas de menos de 40 jardas, o brasileiro retorna a campo no próximo domingo (13), às 14h (de Brasília). Os Bears iniciam a nova temporada contra o Carolina Panthers, fora de casa, com a motivação de chegar mais longe que na edição anterior, que já teve saldo positivo pelo título da NFC Norte e retorno aos playoffs após quatro anos. geRead More


