Primeiro time feminino do Brasil enfrenta homofobia, falta de apoio e manda jogos a 600km de casa
Ex-atletas em Araguari relembram obstáculos para desenvolver futebol feminino no Brasil
Enquanto se prepara para receber outras 31 seleções na Copa do Mundo de 2027, o Brasil ainda luta para consolidar o futebol feminino em seu próprio território. Nem mesmo o primeiro time de mulheres na história do país passa ileso das dificuldades financeiras e da carência de visibilidade que assola os pequenos e os grandes clubes em todas as regiões.
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No final dos anos 1950, um grupo de estudantes de Araguari, no Triângulo Mineiro, fez história ao disputar uma série de partidas de futebol — foram os primeiros registros da prática da modalidade por mulheres de forma consolidada no país. Mesmo com o interesse da população no jogo feminino, elas foram proibidas de jogar por causa de um decreto do Governo Federal que durou quase 30 anos e que restringia o acesso de mulheres a esportes “incompatíveis com as condições de sua natureza”.
Seis décadas depois, o Araguari Atlético Clube se orgulha de representar as pioneiras do esporte nacional nos gramados. No entanto, sofre com a falta de apoio no próprio município onde a modalidade deu os primeiros passos no Brasil. Assim como no passado, o preconceito, com destaque para a homofobia, aparece com um dos principais motivos para agravar a situação financeira e estrutural do projeto.
Vasco Araguari Copa do Brasil Feminina 2026
Araguari/Divulgação
O Araguari estreia nesta sexta-feira no Campeonato Mineiro contra o Democrata-GV, às 15h. Sem poder usar nenhum gramado na cidade em que foi fundada, a equipe precisou pegar a estrada para conseguir um espaço para mandar as partidas: o time vai jogar na Arena Frimisa, em Santa Luzia, a 583 km do município no Triângulo Mineiro.
Mais do que entrar em campo longe de casa, a falta de apoio também atrapalha o clube no cumprimento de compromissos primordiais para o dia a dia, como a aquisição de materiais esportivos.
Agente de jogadoras conhecidas no Brasil, caso da goleira Cláudia, do Cruzeiro e da Seleção, Rodrigo Fagundes assumiu a gestão das Guerreiras da Comarca em abril de 2026. Ao ge, ele revelou que a maior parte do investimento aplicado no time, hoje, sai do bolso dele e do sócio, Adriano Ricardo.
— A gente tentou com várias empresas, e não está tentando algo financeiramente alto. Às vezes, pedimos um patrocínio de troca de produto esportivo, doação de material. Uma farmácia que doe remédio, injeção, esparadrapo, coisas do dia a dia de atleta. Uma empresa que doe água para os treinos e jogos, ou isotônico. Mas não conseguimos — disse o CEO do clube.
CEO do Araguari fala sobre dificuldades de conseguir apoio e cita homofobia
Um dos obstáculos primordiais para a luta de Araguari em busca de apoio é a falta de interesse na modalidade por parte dos empresários. Nesse cenário, segundo Fagundes, a homofobia aparece como elemento decisivo nas sucessivas recusas aos pedidos de patrocínio.
— O investidor não quer patrocinar porque não vê vitrine. Segundo ele, [o futebol feminino] não traz retorno, não leva público no estádio. A marca não vai ser vista. A gente teve até um impasse com um patrocinador, que falou que não ia apoiar, porque ele disse que não temos a mídia que ele precisa. Se fosse no masculino, ele poderia ajudar, mas no feminino, não quer — disse o CEO do clube.
“Tem a questão do preconceito com a atleta. Se a atleta é lésbica, ele não quer a imagem da marca vinculada com o clube. A gente já ouviu certas palavras que até é difícil de falar: “Para esse bando de sapatão, eu não ajudo”.
— Por não jogar em Araguari, a gente tem uma grande dificuldade de apoiadores na cidade. A gente acha até um pouco de falta de respeito. Mesmo ao explicar que é o primeiro clube de futebol feminino e a realização de uma Copa do Mundo. Eles simplesmente não querem ouvir — disse Fagundes em outro momento da entrevista.
Desde que voltou ao futebol feminino em 2022, o Araguari viveu momentos ruins dentro de campo. Em três participações no Campeonato Mineiro, a equipe não venceu nenhum jogo e sofreu goleadas históricas para Cruzeiro e Atlético, incluindo um 28 a 0 para a Raposa há três anos.
Por outro lado, nesta temporada, o time passa por uma reconstrução e disputou pela primeira vez a Série A3 do Campeonato Brasileiro. Na Copa do Brasil, as Guerreiras da Comarca passaram da fase inicial e enfrentaram o tradicional Vasco da Gama no Rio de Janeiro.
Araguari Atlético Clube
Araguari/Divulgação
De olho no Campeonato Mineiro, os gestores do projeto usaram recursos próprios para a montagem do elenco, que conta com nomes com experiência em competições nacionais de acesso e atletas das categorias de base.
O objetivo do Araguari no Estadual é voltar a garantir vaga no Brasileirão Série A3 e na Copa do Brasil. Para isso, o time precisa terminar o Mineiro à frente de Democrata-GV e Venda Nova, times que também estão sem divisão nacional.
— O Araguari não é mais aquele time das goleadas. É um time hoje que vai brigar direto por uma vaga na A3. O Araguari vai dificultar para os outros clubes — assegurou Rodrigo.
Mesmo com as dificuldades, Rodrigo Fagundes celebrou a oportunidade de trabalhar com o futebol feminino e de dar oportunidade a mulheres que tem o sonho de ser atletas.
“Cada uma tem uma história. Eu já tive atletas que falavam que, se não fossem para o futebol, a mãe levava para outro lugar. Ou ia ficar vendo o irmão vendendo droga ou acabaria na prostituição. Isso nos move”.
Primeiro time feminino do Brasil
Em dezembro de 1958, um grupo de mulheres se reuniu em Araguari para disputar uma partida de futebol. Na época, uma versão feminina do esporte mais popular do Brasil era algo impensável — isso no mesmo ano em que a Seleção masculina conquistava o primeiro título da Copa do Mundo nos gramados da Suécia.
Pioneiras do futebol feminino de Araguari-MG, Araguari Atlético Clube, jogo de estreia em 19/12/1958
Antônio Gebhardt
O objetivo do jogo em Araguari não era a disputa de um título ou de um campeonato, mas, sim, arrecadar fundos para ajudar o caixa de uma escola da cidade.
Uma das jogadoras que entraram em campo na ocasião foi a ex-meio-campista Heloísa Helena Rodrigues. Em entrevista à TV Integração em 2023, ela relembrou a repercussão do jogo e disse que o ineditismo de uma partida de futebol feminino para aquela época movimentou a cidade.
— A diretoria do Araguari resolveu convocar um time masculino para um jogo para arrecadar os fundos. Mas eles acharam que não ia dar renda e pensaram: “quem sabe, se fizesse um jogo feminino?” — contou Heloísa.
“Foi aquele auê. Em 1958, futebol feminino era algo que ninguém pensava”.
— Parece que a ideia resolveu tomar corpo. Convocaram a turma pelo rádio e nas escolas para o campo do Araguari. As estudantes foram para lá, e foram selecionadas 28 meninas para jogar.
As atletas foram divididas em duas equipes — Araguari Atlético Clube e Fluminense Futebol Clube — e disputaram alguns amistosos na cidade e na região. Os jogos foram um sucesso, e a história daquelas jogadoras ganhou o Brasil. O grupo viajou por vários estados e entrou em campo em Belo Horizonte, Salvador e Recife.
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Por outro lado, as meninas não escaparam do preconceito. Algumas famílias decidiram tirar as jogadoras do time, e escolas se recusaram a matricular alunas que jogavam bola.
Meses depois, os times foram proibidos de entrarem em campo novamente quando foi resgatado um decreto de 1941, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas, que tirou das mulheres o direito de praticar esportes “incompatíveis com as condições de sua natureza”, incluindo o futebol.
“Para nós, foi uma coisa horrorosa. Tratavam como se tivéssemos cometido um delito, como se fossemos criminosas. Então nós nunca mais conversamos sobre futebol nem nos reunimos para jogar”, contou Heloísa.
A proibição durou até 1979. A partir daí, houve um movimento para o reconhecimento das jogadoras de Araguari como pioneiras do futebol feminino do Brasil. Nomes e fotos das atletas aparecem em diversas publicações sobre a história da modalidade no país.
Pioneiras do futebol feminino de Araguari-MG, Araguari Atlético Clube, recebem homenagem da cidade em passagem da Tocha Olímpica
Teresa Cristina/Arquivo Pessoal
Goleadas e reconstrução
Mais de sessenta anos depois da jornada das pioneiras, o Araguari Atlético Clube voltou ao futebol feminino em 2022 e disputou o Campeonato Mineiro profissional pela primeira vez. A estreia foi marcada por resultados ruins, com cinco derrotas em cinco jogos.
A história se repetiu na edição de 2023 — com direito a goleada sofrida por 28 a 0 para o Cruzeiro. No ano seguinte, a equipe sequer disputou o Estadual.
Goleada histórica! Cruzeiro vence Araguari por 28 a 0 no futebol feminino
No ano passado, o Araguari voltou ao Estadual e conseguiu a pior campanha da história. Goleado por 17 a 0 pelo Atlético e por 21 a 0 para o Cruzeiro, as Guerreiras da Comarca amargaram mais uma vez a última colocação da primeira fase, com 64 gols sofridos em cinco jogos.
No período, o Araguari disputou apenas uma partida na cidade onde foi fundado. O Estádio Vasconcelos Montes recebeu o duelo contra o Uberlândia na edição de 2023 – o jogo foi vencido pelo time alviverde pelo placar de 10 a 0. Os demais jogos do clube como mandantes foram em Belo Horizonte, Confins ou Santa Luzia.
Arena Frimisa, em Santa Luzia
Divulgação | Prefeitura Municipal de Santa Luzia
Mesmo com o desempenho ruim no Campeonato Mineiro do ano passado, o Araguari se credenciou para a disputa da Série A3 do Brasileirão Feminino em 2026 após a desistência do time de Valadares.
Após duas derrotas, a gestão de Rodrigo Fagundes assumiu o projeto pouco antes da terceira rodada da competição. O time do Triângulo, mandando os jogos em Santa Luzia, perdeu as quatros partidas restantes que disputou na primeira fase, ficando atrás de Realidade Jovem-SP, Real Heips-RJ e São José-SP.
Por jogar o Brasileirão A3, o Araguari também se classificou para a Copa do Brasil pela primeira vez na história do clube. Em abril, a equipe venceu o Itapuense por 5 a 2 na primeira fase e avançou para a etapa seguinte – essa foi a primeira vitória do time profissional em uma competição oficial.
O sorteio colocou o tradicional Vasco da Gama no caminho das Guerreiras da Comarca na segunda fase. O duelo ocorreu em maio, no Estádio Luso-Brasileiro, e foi vencido pelo Cruzmaltino por 5 a 1. Mesmo com a derrota, a possibilidade de enfrentar um gigante do futebol brasileiro foi celebrado pelo time mineiro.
Vasco Araguari Copa do Brasil Feminina 2026
Araguari/Divulgação geRead More


