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Paratletas cearenses rompem limites e inspiram por meio do esporte; conheça histórias

Paratletas cearenses rompem limites e inspiram por meio do esporte; conheça histórias

Conheça Andreza Lima, paratleta cearense do futebol de cegas
O amor pode ser despertado ao primeiro som da bola ou na concentração com a espada na mão sob a cadeira de rodas. O esporte é o fio condutor de histórias que se cruzam na janela da inclusão social. Em meio à rotina desafiadora, paratletas no Ceará ganham novas perspectivas de vida a partir de diferentes modalidades.
Conheça Ivanilda Santos, atleta cearense da paraesgrima
Neste 21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, o ge traz três histórias inspiradoras. Andreza Lima, Ivanilda Santos e Carlinhos Rocha participaram do ParaSesc, que ocorreu em setembro, com 27 modalidades.
O ge acompanhou de perto a competição, que teve como objetivo promover o esporte como ferramenta de inclusão, convivência e transformação social e foi realizada pelo Sesc Ceará em parceria com a Adesul.
Ivanilda Santos, atleta da paraesgrima no ParaSesc
Divulgação / Sesc Ceará
Com o futebol de cegas, pelo mundo
Mais do que a prática esportiva em si, o futebol de cegas tem remodelado a maneira como Andreza Lima sente o mundo. A paratleta iniciou na modalidade em 2019 e, por meio dela, saiu do lugar-comum, conheceu outros países e descobriu novas culturas a partir da batida na bola.
Eu nasci cega, minha mãe teve rubéola na gravidez. Fui criada pela minha avó paterna, a quem dedico toda a minha gratidão por ter feito de mim a mulher que sou hoje. Eu estudei lá no Instituto de Cegos e minha infância foi, a maior parte, na escola, me alfabetizando, me reabilitando, aprendendo o braile e desfrutando das coisas boas que o colégio oferecia.”
Andreza Lima paratleta da seleção brasileira de futebol de cegas
Samuel Conrado/SVM
Antes de se encontrar no futebol de cegas, também conhecido historicamente como “futebol de cinco”, Andreza chegou a explorar outras modalidades. O paratletismo, por exemplo, surgiu ainda na infância, mas a verdadeira paixão veio anos depois, de forma despretensiosa, na Associação D’Eficiência Superando Limites (Adesul).
– Eu comecei a trabalhar com massoterapia em uma instituição que tem parceria com a equipe em que estou hoje, que é a Adesul. Foi assim que conheci o futebol de cegos e me apaixonei. Foi amor ao primeiro som da bola – conta Andreza Lima.
A dinâmica para os atletas com deficiência visual é norteada no silêncio da torcida e no guizo dentro da bola, que emite sons a cada movimento. É por meio desse sinal sonoro que os paratletas se orientam e se localizam durante as partidas.
Andreza Lima, paratleta do futebol de cegas
Samuel Conrado/SVM
Para além das linhas que definem os limites da quadra, Andreza, que é atleta da seleção brasileira de futebol de cegas, aponta para outra barreira: a do preconceito, que tenta fechar os espaços destinados às mulheres na sociedade. Apesar de democrático, o esporte ainda é uma arena de batalha para meninas que têm suas escolhas questionadas a todo instante por julgadores nas ruas e nas redes sociais.
Eu fico muito triste quando vejo páginas divulgando o futebol feminino e o pessoal comentando: ‘ah, não joga nada’, ‘lugar de mulher não é aí’, ‘o que mulher quer fazer com uma bola?’. Isso me entristece, porque o lugar da mulher é onde ela quiser, fazendo o que ela bem entender. Seja jogando bola, na cozinha ou onde for; o lugar dela é onde ela se sentir bem. Não é a sociedade que tem que ditar que mulher não pode jogar futebol, ou que tem que ser apenas bailarina, cabeleireira ou manicure. A mulher tem que ser o que a faz feliz.”
Os comentários julgadores não param Andreza Lima, que alça voos cada vez mais altos. O primeiro lugar no Campeonato Brasileiro de futebol de cegas veio representando a região Nordeste. Já no ano passado, a paratleta fez parte da seleção brasileira que ficou com a quarta posição no Mundial que aconteceu na Índia.
Andreza Lima com a seleção brasileira no Campeonato Mundial que aconteceu na Índia
Renan Cacioli/CBDV
Da diversão à inclusão
Conheça Carlinhos Rocha, paratleta cearense de futebol de cegos
Na mesma trilha de paixão, os desafios se apresentaram para Carlinhos Rocha, também paratleta do futebol de cegos. Foi ainda pequeno, no chão de terra batida de General Sampaio, município a cerca de 126 quilômetros de Fortaleza, que ele começou a se desafiar no esporte jogando entre primos e amigos.
O futebol sempre foi a principal diversão de Carlinhos, que jogava com bola comum, sem os guizos, na quadra, no campo ou no quintal de casa. Em meio às dificuldades visuais, ele dava um jeito de brincar, nem que fosse fazendo as vezes de goleiro.
Carlinhos Rocha, paratleta do futebol de cegos no ParaSesc
Samuel Conrado/SVM
A evolução aconteceu quando ele se mudou, ainda adolescente, para a capital cearense. Da brincadeira de infância, o esporte passou a ter um significado vital em sua rotina. Apesar disso, os primeiros passos no paradesporto não foi na quadra. Antes de acumular artilharias nas competições com a bola nos pés, Carlinhos começou no judô, mas a vocação o chamava de volta para o futebol.
No começo, minha mãe não aceitava muito a ideia de eu jogar e viajar sozinho por ser muito jovem. Na época, eu tinha 13 anos. Meu pai foi mais corajoso com isso. Eu sempre dizia que queria jogar bola, só não sabia como, pois não conhecia o futebol de cegos. Quando a oportunidade apareceu, meu pai aceitou e abraçou comigo. E lá fui eu, com um sonho e uma bola.”
Carlinhos não titubeou ao trocar o quimono pela bola e as traves. Como um exímio camisa 10, ele é quem assume a responsabilidade em quadra para avançar contra os adversários. Os guizos da bola deram um novo sentido ao seu dia a dia dinâmico.
Conheci o futebol de cegos em 2017 por meio de um amigo e comecei a treinar. Em 2018, estreei oficialmente como paratleta e, dois anos depois, conquistei uma vaga na seleção brasileira de base. Fiquei por lá até o ano passado, quando ultrapassei a idade limite do sub-23. Agora, o foco é trabalhar para chegar ao time principal.”
Carlinhos Rocha, paratleta do futebol de cegos no ParaSesc
Samuel Conrado/SVM
Como todo atleta de alto rendimento, a rotina de atividades físicas de Carlinhos é intensa. Ele acorda às 5h para organizar o dia, que se divide entre a academia e os treinos táticos em quadra, realizados às terças, quintas e sextas-feiras.
O cearense natural da região do Vale do Curu se inspira na história de Ricardinho Alves, que já foi eleito três vezes melhor jogador do mundo no futebol de cinco. No currículo, a referência carrega no histórico de ser tetracampeão paralímpico, tricampeão Mundial, além de ter conquistado o Parapan-Americano cinco vezes.
Já treinei com ele [Ricardinho] na Seleção, sempre tive contato. É um cara que eu gosto de jogar contra porque eu não sei o que ele vai fazer, nem que horas vai fazer. A mesma coisa que as pessoas falavam do Ronaldinho Gaúcho, que gostavam de jogar contra ele, conheciam ele, mas não sabiam o que ele ia fazer, que horas e o que ia fazer.”
Paraesgrima
Enquanto alguns atletas guiam seu ritmo de vida por meio de uma audição apurada, outros utilizam o tato, a precisão e a técnica sobre a cadeira de rodas para superar os obstáculos cotidianos. É com essa determinação que Ivanilda Santos constrói sua trajetória na paraesgrima.
A cearense compete na classe A, que é voltada para pessoas com bom equilíbrio sentado, sem suporte de pernas e sem dificuldades com o braço armado. No caso, os praticantes tem limitações mínimas, como deficiência de membros inferiores comparável a amputações abaixo do joelho, como explica a Confederação Brasileira de Paraesgrima.
Ivanilda Santos não nasceu com deficiência física. Sua condição é decorrente de uma má formação medular que só foi detectada quando tinha 16 anos. No início, vieram as dores e a dormência nas pernas, até o diagnóstico definitivo. Depois disso, a cirurgia fez com que sua vida seguisse, agora, sobre rodas há 28 anos.
Ivanilda Santos, atleta cearense de paraesgrima
Samuel Conrado/SVM
A partir dali, o mundo de Ivanilda ganhou novas barreiras, mas nada que a impedisse de realizar seus desejos com dedicação. É com a espada em mãos, jaqueta protetora, luvas, máscara e extrema concentração que a cearense executa seus movimentos com a elegância típica da paraesgrima.
– Meu primeiro contato com a esgrima foi visual. Só de ver a cadeira, a espada e a máscara, eu disse para mim mesma: ‘Não sabia que existia, mas agora eu quero isso para mim’. Três anos depois, a modalidade chegou a Fortaleza. Foi amor à primeira vista – revela Ivanilda.
Mãe de dois meninos, Ivanilda tornou-se o orgulho da família. Assim como os outros personagens desta reportagem, a esgrimista iniciou sua trajetória esportiva em outras modalidades. As braçadas na paranatação, seguidas do parabadminton, representaram o começo de tudo para ela.
Meus filhos nem me enxergam como uma pessoa com deficiência, eles sentem apenas orgulho. Na natação, lembro que minha primeira vitória veio após ouvir a voz do meu filho na arquibancada gritando: ‘Mãe, não para não, vai, só tem você, mãe!’. Eu via um monte de gente querendo passar por mim, mas depois que ouvi a voz dele, não parei por nada.”
Ivanilda Santos, atleta da paraesgrima no ParaSesc
Sesc Ceará
Apesar das conquistas nas piscinas, Ivanilda não permaneceu no esporte aquático. Na infância, eram os movimentos da capoeira que lhe enchiam os olhos. Inspirada na ginga que emb ala a atividade criada no Brasil Colônia, ela adaptou seu tempo e ritmo para as pistas de esgrima.
As medalhas no peito após as competições coroam o esforço diário de treinos, sempre acompanhados de perto pelo marido, David Xavier. Ivanilda já subiu ao lugar mais alto do pódio em competições regionais e no Campeonato Brasileiro. É com um sorriso largo no rosto que a paratleta cearense celebra suas conquistas.
A gente leva a medalha no peito com honra e mérito. Mesmo quando não subimos ao pódio, fica o orgulho de ter representado nosso estado. No meu primeiro Campeonato Brasileiro, havia poucos competidores nordestinos. Chegar ao pódio disputando com mulheres que já tinham mais de dez anos de carreira na modalidade foi uma alegria indescritível. Enquanto eu tiver fôlego, quero continuar. Minha meta é seguir em frente.”
Oportunidades fomentadas
O ParaSesc é mais uma porta aberta que integra paratletas por meio da acessibilidade no esporte. O evento, que chega à sua 4ª edição em setembro, reúne praticantes de 27 modalidades e promove o encontro de histórias de superação. A iniciativa de inclusão social espalha-se pelas unidades do Sesc em Fortaleza, Caucaia, Avenida Beira-Mar e Unifor.
De um ano para o outro, o evento ganhou sete novas modalidades. Segundo o presidente do Sistema Fecomércio Ceará, Luiz Fernando Bittencourt, o ParaSesc tem como meta superar a marca de 3 mil atletas participantes, o que consolida a iniciativa como uma poderosa ferramenta de transformação social.
O ParaSesc é um momento muito importante para nós, não apenas pelo aspecto esportivo. Ele carrega um valor social imenso. Queremos fortalecer cada vez mais a inclusão e os laços com essas pessoas para que, por meio do esporte, da cultura e do lazer, possamos gerar frutos para o seu desenvolvimento. O esporte é um agente transformador definitivo.”
O evento amplia a visibilidade de pessoas que, desafiando barreiras físicas, buscam oportunidades para continuar escrevendo suas histórias com protagonismo e reconhecimento. Andreza Lima, que dribla as adversidades no futebol de cegos, reforça a importância desse ecossistema de apoio.
– Uma pessoa com deficiência pode fazer o que ela quiser, respeitando, claro, as suas limitações físicas. Basta querer, ter foco e força de vontade. Se o resultado esperado vai vir ou não é uma consequência, mas o importante é saber que você tentou – aponta Andreza Lima.
Apesar da falta de acessibilidade urbana e do desconhecimento que ainda persistem na sociedade, os paratletas superam preconceitos com trajetórias inspiradoras. Seja guiados pelo som do guizo, pela precisão da espada ou na força das braçadas na água, o esporte une esses personagens em um território comum de superação e sensibilidade universal.
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