Christa Pike, primeira mulher que seria executada no Tennesse em 200 anos, sobrevive a injeção letal
Christa Pike em 12 de janeiro de 2023.
TDOC via AP
As autoridades do Tennessee não conseguiram executar Christa Gail Pike pela condenação por um assassinato cometido em 1995 nesta quarta-feira (30), segundo testemunhas da imprensa, depois que a injeção letal ficou suspensa por horas enquanto os tribunais analisavam um recurso de última hora em um caso que teria resultado na primeira execução de uma mulher no estado em pelo menos 200 anos.
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Pike, de 50 anos, estava programada para ser executada pelo assassinato cometido quando tinha 18 anos, depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou uma decisão de um tribunal de apelações que havia suspendido a injeção letal apenas uma hora antes do horário previsto para seu início. Em seguida, as autoridades tentaram prosseguir com a execução.
Segundo testemunhas, as autoridades aparentemente administraram duas doses de pentobarbital a Pike.
Às 19h46, funcionários da prisão fecharam a cortina que separava a sala da imprensa. Ela foi reaberta três minutos depois. Pike podia ser ouvida roncando alto, e a cortina foi fechada novamente às 20h06.
Ela continuou sendo ouvida roncando atrás da cortina fechada até que o microfone foi desligado por volta das 20h53. Nesse momento, foi anunciado que as testemunhas da imprensa deveriam deixar a área.
A porta-voz do Departamento de Correções do Tennessee, Dorinda Carter, disse às testemunhas que não poderia fornecer informações imediatas sobre o que havia acontecido.
Veículos de emergência foram vistos entrando e saindo da prisão.
Os advogados de Pike apresentaram um pedido de emergência à Suprema Corte dos Estados Unidos no fim da noite de quarta-feira para interromper imediatamente a execução, alegando que ela estava sofrendo uma “agonia desnecessária” e que seus direitos de não ser submetida a punições cruéis e incomuns estavam sendo violados.
Eles também protocolaram pedidos no Tribunal de Apelações do Sexto Circuito e em um tribunal distrital.
A petição afirma ainda que o Departamento de Correções deveria iniciar medidas para salvar a vida da condenada. “A falha em fornecer esse cuidado constitui indiferença deliberada a necessidades médicas legítimas e graves”, diz o documento.
Pike e seu namorado foram condenados pelo esfaqueamento e espancamento que matou Colleen Slemmer, de 19 anos, colega do casal em um centro de treinamento profissional em Knoxville, em 1995. O caso ganhou ampla repercussão porque um pentagrama gravado no corpo da vítima e outros elementos do crime alimentaram temores sobre cultos satânicos durante o chamado “pânico satânico” das décadas de 1980 e 1990.
Esta foi a segunda vez neste ano que o Tennessee não conseguiu concluir uma execução. Em maio, autoridades cancelaram a execução por injeção letal de Tony Carruthers depois que os executores passaram mais de uma hora tentando, sem sucesso, instalar o acesso intravenoso necessário para administrar o pentobarbital.
Suspensão foi rapidamente contestada
Inicialmente, Pike seria executada pela manhã. As testemunhas já estavam reunidas na Instituição de Segurança Máxima de Riverbend, em Nashville, quando o Tribunal de Apelações do Sexto Circuito decidiu, por 2 votos a 1, suspender a execução.
O tribunal afirmou que era necessário mais tempo para analisar se as alegações de abusos sexuais sofridos por Pike na infância haviam sido devidamente consideradas durante a sentença.
O procurador-geral do Tennessee recorreu à Suprema Corte, argumentando que a suspensão de última hora traumatizou a família da vítima e premiou o que classificou como “táticas abusivas de atraso” por parte dos advogados de Pike.
Mais tarde, a Suprema Corte autorizou a retomada da execução. A maioria conservadora não explicou a decisão. Já os três ministros liberais divergiram e afirmaram que as alegações da condenada mereciam análise mais aprofundada.
A ministra Sonia Sotomayor escreveu que a decisão de anular a suspensão interferiu na condução do caso pelo Sexto Circuito e “impede desnecessariamente que aquele tribunal dê a devida consideração à alegação de Pike”.
Pike não nega o assassinato, mas seus apoiadores afirmam que o estado deveria considerar sua idade à época do crime, problemas de saúde mental e alegações de graves abusos sexuais, incluindo estupros sofridos desde a primeira infância.
“É inconcebível que, no século 21, o sistema de Justiça criminal esteja prestes a executar uma sobrevivente de estupro e abuso sexual infantil cujo júri nunca teve a oportunidade de considerar esses fatos ao avaliar sua responsabilidade moral”, escreveram seus advogados.
Caso reacendeu debate sobre pena de morte para jovens
À medida que a data da execução se aproximava, o caso reacendeu o debate sobre a aplicação da pena de morte a criminosos muito jovens.
O defensor público federal adjunto Stephen Ferrell afirmou que a sentença de morte de Pike é uma exceção, já que outras condenações de jovens de 18 anos no Tennessee foram posteriormente anuladas.
Após o crime, Pike foi diagnosticada com transtorno bipolar e transtorno de estresse pós-traumático. Em seu pedido de clemência, disse que pretendia apenas brigar com Slemmer, mas a matou durante um ataque de fúria.
“Eu era uma jovem de 18 anos com doença mental. Levei muitos anos até mesmo para compreender a gravidade do que havia feito. Levei ainda mais tempo para aceitar quantas vidas afetei. Tirei a vida do filho, da irmã e da amiga de alguém. Hoje me enoja pensar que eu fui capaz de cometer um crime desses”, afirmou.
Mãe da vítima aguardava cumprimento da sentença
A mãe de Slemmer afirmou que queria que a execução fosse realizada e que aguardava havia décadas pelo cumprimento da sentença.
“Toda vez que penso nisso, penso em Colleen sentindo aquela dor e tentando se levantar e correr”, disse May Martinez à Associated Press.
Ela contou que um grupo arrecadou dinheiro para que ela e o marido viajassem da Flórida para o Tennessee para testemunhar a execução.
Martinez afirmou ainda que a idade da filha também deveria ser levada em conta na decisão sobre o destino de Pike.
“Não há um dia, nem um minuto, em que eu não pense em Colleen. Os feriados são os piores”, disse.
Execuções de mulheres são raras nos EUA
O Tennessee não executa uma mulher há pelo menos 200 anos, segundo Robin M. Maher, diretora-executiva do Death Penalty Information Center.
Desde que a Suprema Corte restabeleceu a pena de morte em 1976, apenas 18 mulheres foram executadas nos Estados Unidos, o equivalente a cerca de 1% de todas as execuções no país.
A execução mais recente de uma mulher ocorreu no Missouri, em 2023, quando Amber McLaughlin foi morta pelo assassinato cometido em 2003. Em 2021, o governo federal executou Lisa Montgomery, na primeira execução de uma mulher sob jurisdição federal em quase sete décadas.
Pike teria sido a 30ª pessoa executada nos Estados Unidos em 2026, após a execução realizada na Flórida na terça-feira (29).g1 > Mundo Read More


