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Por que eleição brasileira é teste para estratégia de Trump na América Latina

Por que eleição brasileira é teste para estratégia de Trump na América Latina

 ‘O Brasil será meu’: projeção em São Paulo ironiza interesse de Trump na eleição presidencial.
Amanda Perobelli/ Reuters via BBC
Em um momento em que os Estados Unidos vêm buscando ampliar sua influência sobre a América Latina, a eleição presidencial brasileira é vista por muitos analistas como um teste crucial para a estratégia do governo de Donald Trump na região.
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➡️ A disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição e um quarto mandato, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ocorre em meio a uma guinada à direita em vários países latino-americanos.
Uma vitória de Bolsonaro representaria a consolidação desse movimento e da influência regional de Trump, com o triunfo da direita e de um aliado político do republicano no maior país da região.
“Seria a peça fundamental da chamada ‘onda laranja’ (em referência ao presidente americano) de líderes alinhados a Trump que vêm ganhando força e se espalhando pela América Latina”, diz à BBC News Brasil o analista político Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly.
“O Brasil é o maior prêmio. É pessoalmente importante para Trump. Ele tem uma relação com a família Bolsonaro que remonta a muitos anos”, afirma Winter.
O analista observa que, por outro lado, uma vitória de Lula solidificaria o legado do petista como figura histórica da esquerda em todo o Sul Global. Também criaria uma “dor de cabeça no curto prazo” para Trump, diante da relação marcada por “altos e baixos”.
“Acho que a Casa Branca provavelmente reagiria com decepção caso Lula vença. E então buscaria algum tipo de entendimento pragmático com Lula”, diz Winter.
Na quinta-feira (1º), três dias antes do primeiro turno, Trump afirmou em conversa com jornalistas que está acompanhando “de perto” o pleito no Brasil.
“O Brasil é um país muito importante. É um ótimo país. As pessoas do Brasil são fantásticas. É uma eleição muito importante”, afirmou o presidente americano, sem mencionar nenhum dos candidatos.
Na sexta (2), questionado se iria apoiar Bolsonaro, Trump voltou a dizer simplesmente que está acompanhando a eleição de perto. As declarações foram feitas em meio ao receio do governo brasileiro de que Trump tente interferir na eleição brasileira.
Também na sexta, os Estados Unidos e a Austrália anunciaram o fechamento de suas embaixadas e consulados no Brasil. Sem detalhar os motivos, o governo americano disse que “tem como máxima prioridade a segurança e a proteção dos cidadãos americanos.”
Doutrina ‘Donroe’
Vitória de Lula criaria “dor de cabeça no curto prazo” para Trump, segundo analistas.
Elizabeth Frantz/ Reuters via BBC
Desde o início de seu segundo mandato, em janeiro do ano passado, o presidente americano declarou abertamente apoio a diversos candidatos de direita ao redor do mundo e, especificamente, na América Latina.
Entre os exemplos recentes estão Abelardo De La Espriella, eleito em junho na Colômbia, e Nasry Asfura, vencedor no pleito do ano passado em Honduras.
Na Argentina, a coalizão do presidente Javier Milei (que tomou posse em 2023, antes do retorno de Trump à Casa Branca) conquistou uma grande vitória nas eleições legislativas do ano passado após Trump sugerir que o auxílio financeiro ao país dependia do resultado nas urnas.
As manifestações públicas de apoio por parte de Trump ocorreram em meio a uma onda recente de vitórias da direita na América Latina.
Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador e Peru também estão entre os países da região cujas eleições presidenciais recentes foram vencidas por candidatos conservadores.
Trump mira na América Larina com Doutrina ‘Donroe’
👉 Oscilações à direita ou à esquerda são consideradas comuns e ocorrem periodicamente na América Latina.
Entre os exemplos estão a chamada “Maré Rosa”, como ficou conhecida a guinada à esquerda no início dos anos 2000, e as próprias vitórias de candidatos esquerdistas em vários países, entre eles o Brasil, no início da década atual.
Além disso, o movimento atual também é impulsionado pelo sentimento anti-incumbência.
“Acho que é uma questão menos ideológica e mais das pessoas insatisfeitas com os atuais mandatários”, diz à BBC News Brasil o especialista em relações Brasil-EUA Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da universidade Berea College, no Estado americano do Kentucky.
No entanto, analistas ressaltam que a atual onda de vitórias da direita ocorre em um contexto de maior pressão dos Estados Unidos sobre a América Latina.
As medidas do governo Trump na região vão desde tarifas, como as impostas sobre produtos brasileiros, até a captura do presidente da Venezuela, o líder chavista Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.
Poggio observa que a visão de política externa defendida por Trump e por seu secretário de Estado, Marco Rubio, é “uma visão de hegemonia nas Américas”.
“Acho que Rubio é a principal pessoa (no governo Trump) que está tentando colocar a América Latina na agenda”, complementa o cientista político Edgar Franco-Vivanco, especialista em política latino-americana e professor da Universidade de Michigan.
A interpretação do atual governo americano da Doutrina Monroe, de 1823, que defendia a predominância americana no continente, ficou conhecida como “Doutrina Donroe”, em referência ao primeiro nome de Donald Trump. O atual governo defende “restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental”.
Segurança
Uma questão central nesse cenário é a da segurança pública, que é prioridade tanto para os eleitores de vários países na América Latina quanto para a estratégia de Trump no continente.
Franco-Vivanco diz à BBC News Brasil que muitos eleitores latino-americanos estão decepcionados com as falhas de governos de esquerda em controlar a violência e agora querem tentar algo diferente. Isso abre uma vantagem para candidatos de direita.
“Pelo menos em eleições, a direita é muito boa em dizer que vai fazer algo sobre o problema”, observa.
Entre os líderes de direita eleitos nos últimos anos com a promessa de combater a violência está Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que reduziu a criminalidade em seu país, mas é criticado por supostos abusos de direitos humanos.
Muitos dos políticos de direita na América Latina alinhados a Trump estão abertos a maior cooperação com os Estados Unidos na área de segurança, inclusive com operações militares conjuntas.
O governo americano vem promovendo uma nova “guerra às drogas” na região e criou recentemente o chamado Escudo das Américas, iniciativa com o objetivo de ampliar a cooperação, a segurança e o combate ao narcotráfico, da qual o Brasil não faz parte.
A expectativa é a de que, sob um eventual governo Bolsonaro, o Brasil passasse a integrar o grupo.
O governo Trump também designou cartéis e facções criminosas da região como grupos terroristas. Foram incluídos nessa lista os grupos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), apesar da oposição do governo Lula.
“Na agenda política americana, sempre que se falava em América Latina, entrava a questão de migração, segurança, drogas. Mas, ao mesmo tempo, nunca foi prioridade na política externa americana”, destaca Poggio.
“O governo Trump parece que está colocando a América Latina como prioridade. Nesse sentido, as coisas podem tomar um novo rumo, porque você tem uma administração que está prometendo, e que já fez, operações militares no continente”, observa.
“A questão de colocar cartéis como organizações terroristas, a justificativa disso é utilizar ferramentas militares”, afirma Poggio.
Tarifas e sanções
Diferentemente de vários pleitos em outros países da região, Trump até o momento não declarou apoio abertamente a nenhum dos candidatos no Brasil.
“Com certeza, o governo Trump prefere que Bolsonaro vença esta eleição, porque é um aliado mais próximo e há maior afinidade política entre eles. No entanto, não houve (até agora) apoio direto”, salienta Franco-Vivanco.
No entanto, mesmo sem apoio declarado, há receio de tentativa de interferência. No ano passado, os Estados Unidos adotaram medidas contra o Brasil descritas como uma resposta “à caças às bruxas” sofrida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Entre as medidas estavam tarifas contra produtos brasileiros e sanções contra autoridades do país, entre elas o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Recentemente, o jornal Estado de S. Paulo revelou que, nas negociações na época, uma das demandas do governo Trump era a de que o Brasil permitisse a participação de “dissidentes políticos” no pleito deste ano. O lado brasileiro rejeitou os termos, lembrando que não há dissidentes no país, que é uma democracia.
No fim do ano passado, houve alívio das tarifas e sanções. Mas neste ano os Estados Unidos voltaram a impor novas tarifas contra produtos brasileiros, e autoridades de ambos os países tiveram vistos negados ou revogados.
Depois de uma visita de Lula a Washington, seu adversário, Flávio Bolsonaro, também foi recebido por Trump na Casa Branca. O anúncio da classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, defendida por Bolsonaro, veio logo após essa visita.
Diante das ações do governo Trump desde o ano passado, a resposta de Lula foi a defesa da soberania, e pesquisas e analistas indicam que as medidas podem ter beneficiado o presidente brasileiro mais do que seu adversário.
“Qualquer declaração mais forte de Trump, o tiro pode sair pela culatra”, resume Poggio, lembrando que, em diversos casos anteriores, o presidente americano declarou apoio a determinado candidato e acabou beneficiando o adversário.g1 > Mundo Read More