Bolsa de sangue raro cruza o país na cabine de avião comercial para chegar a paciente transplantado
Bolsa de sangue raro sai do Ceará até Minas Gerais
Paulo Cavalcanti/HEMOCE
Um paciente internado em Juiz de Fora (MG) precisava de um tipo de sangue que, no cadastro nacional, somente seis pessoas no Brasil podem oferecer. Uma delas mora no Ceará. Na quinta-feira (8), ela chegou cedo ao hemocentro do estado para doar, e a bolsa de sangue deixou o aeroporto às 18h dentro da cabine de um avião comercial, aos cuidados do piloto.
É um tipo de transporte que o Ministério da Saúde está formalizando com as companhias aéreas e que, até agora, só valia para órgãos. A chegada a Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, está prevista para as 5h desta sexta-feira (9). De lá, o sangue segue de carro até o hospital, onde será transfundido ainda pela manhã.
Quem espera a bolsa é um paciente que passou por transplante de rim, está estável e precisa de sangue porque a hemoglobina está baixa. O problema apareceu quando a equipe médica testou o sangue dele para a transfusão e encontrou um anticorpo que reagia contra as células vermelhas, as hemácias, usadas nos exames.
Novos testes mostraram a causa: o organismo do paciente produz anticorpos contra o Jsb, um marcador presente na superfície dessas células. Quase todo mundo tem o Jsb, e quem não tem não pode receber sangue que o carregue.
Agora no g1
Um tipo sanguíneo que vai além de A, B, AB e O
A maioria das pessoas conhece o tipo sanguíneo pela carteirinha: A, B, AB ou O, positivo ou negativo. Mas esse é só o começo. A superfície das células vermelhas do sangue, as hemácias, tem centenas de outras “etiquetas” que o laboratório não costuma checar. É o que explica a hematologista Fernanda de Oliveira Santos, integrante da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular e da Sociedade Brasileira de Trombose e Hemostasia.
Uma dessas etiquetas se chama Jsb, e quase todo mundo a tem. O paciente de Juiz de Fora não tem, e seu organismo produz anticorpos que reagem contra ela. Por isso, as defesas dele atacam o sangue de quase todos os doadores, e ele só pode receber o de quem também não tem a etiqueta, o que é muito raro. Além disso, o sangue precisa ser do tipo O, o mesmo dele.
Sangue raro foi transportado entre estados
Paulo Cavalcanti/HEMOCE
A incompatibilidade só aparece porque os hospitais fazem um teste de segurança em todas as transfusões. Antes de liberar qualquer bolsa, o laboratório mistura uma gota do sangue do paciente com uma amostra do sangue do doador. Se as células se juntam em grumos, o que os médicos chamam de aglutinação, a bolsa não serve. Foi o que aconteceu com ele.
O teste existe para impedir que o organismo destrua o sangue recebido, um processo que provoca inflamação e que, segundo a hematologista, pode ser grave mesmo quando demora a aparecer.
Seis nomes
Quando um hospital não encontra sangue compatível, a busca começa em bancos de sangue parceiros e, se nenhum tiver a bolsa, chega ao cadastro nacional de doadores raros, que reúne 2.032 pessoas.
Como poucos laboratórios conseguem identificar esse tipo de anticorpo, as amostras costumam seguir para serviços mais complexos, que confirmam a raridade.
Os nomes entram na lista a partir de doações comuns: quando o laboratório percebe que o sangue de alguém é incomum –o chamado ‘sangue raro’–, convida a pessoa a se cadastrar.
No caso do paciente de Juiz de Fora, o pedido chegou ao Ministério da Saúde entre 16h e 17h de quarta-feira (7), e o cadastro indicou seis doadores no país inteiro.
O doador do Ceará foi avisado às 22h e confirmou que poderia ir. Não foi a distância que decidiu, e sim estar apto naquele dia: quem doou há pouco tempo precisa esperar, 60 dias no caso dos homens e 90 no das mulheres. Quem entra no cadastro sabe que o telefone pode tocar e é orientado a não doar com frequência, para continuar disponível quando alguém precisar.
O Hemocentro do Ceará, que tem mais doadores raros cadastrados do que qualquer outro serviço do país, repetiu os testes para confirmar que o sangue era mesmo igual ao que o paciente precisava e acelerou os exames que descartam doenças como HIV e hepatites B e C, que normalmente levam cerca de dois dias. A identidade do doador é mantida em sigilo.
Acordo pode oficializar inclusão de sangue raro
A bolsa de 450 mililitros seguiu em uma caixa térmica preparada para manter a temperatura de geladeira por até 24 horas, com material de resfriamento calculado para a duração da viagem. Ela viajou na cabine do piloto. A companhia aérea escolheu o voo mais rápido e autorizou o transporte, com documentação encaminhada pelo Sistema Nacional de Transplantes.
A mudança vem de um novo arranjo, negociado neste ano, entre o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e as companhias aéreas. O acordo de cooperação técnica que já previa o transporte de rim, fígado, coração e pulmão na cabine está sendo reformulado para incluir também as bolsas de sangue raro.
Segundo a coordenadora-geral de sangue e hemoderivados do ministério, Luciana Maria de Barros Carlos, a política do sangue passa a seguir o modelo que já funciona nos transplantes, e o caso de Juiz de Fora está entre os primeiros em que ela é aplicada.
Em entrevista ao g1, ela afirma que as empresas já fazem o transporte, mesmo antes da assinatura do novo termo, sem cobrar do hospital nem do hemocentro.
Rede continua mobilizada
Uma bolsa pode não bastar. Outros dois doadores do cadastro foram acionados para o caso de novas transfusões nesse paciente, e a equipe do ministério o acompanha junto com o hemocentro e o hospital até que ele saia da situação crítica, para não convocar ninguém à toa nem tarde demais.
Segundo Luciana, sem esse preparo prévio, encontrar o doador certo a tempo seria como procurar uma agulha em um palheiro.
O ministério trabalha agora em duas frentes para encurtar esse caminho. Uma é o congelamento de bolsas de sangue raro. Hoje, cada pedido exige localizar um doador, esperar que ele possa ir ao hemocentro e colher a bolsa. Com as bolsas congeladas, será possível guardá-las para quando surgir um paciente.
A Pasta já negocia com a vigilância sanitária as soluções necessárias para o procedimento, e a expectativa é que as primeiras bolsas possam ser congeladas a partir de janeiro, o que, segundo Luciana, deve dar mais agilidade à resposta.
A outra frente é a entrada do Brasil na rede mundial de sangue raro, prevista para este mês. Com a adesão, o Brasil poderá pedir ajuda a outros países e também ser acionado por eles.
A mudança vale sobretudo para pacientes com um tipo de sangue comum em outra região do mundo, mas muito raro aqui, para os quais não existe doador no país e a bolsa teria de vir de fora. g1 Read More


