RÁDIO BPA

TV BPA

Consultor de arbitragem do Grêmio, Gaciba critica orientação da CBF: “O erro vem de cima”

Consultor de arbitragem do Grêmio, Gaciba critica orientação da CBF: “O erro vem de cima”

Gaciba fala sobre desdobramentos do lance polêmico do Gre-Nal 455; ouça a entrevista
Consultor do Grêmio, o ex-árbitro Leonardo Gaciba não concorda com a orientação da CBF que, segundo ele, tem sido passada aos árbitros: “menos arbitragem, mais futebol”. Para Gaciba, o conceito resultou no pênalti não marcado a favor da equipe no Gre-Nal 455. A Comissão de Arbitragem reconheceu o erro em documento enviado ao clube e ao qual o ge teve acesso (veja abaixo).
🔍 Adicione o ge nas suas fontes favoritas do Google
Veja: Caito recebe na área e cai quando Bernabei chega e coloca a mão nas costas dele
+ Alô, torcida tricolor! O ge Grêmio está no WhatsApp!
A reportagem conversou com Gaciba para entender a queixa do Grêmio e qual deveria ser, na opinião do profissional, o procedimento adotado pela arbitragem que teve Rodrigo José Pereira de Lima no campo e Caio Max Augusto Vieira no VAR. O Gre-Nal terminou empatado em 1 a 1, na Arena.
Para o ex-árbitro e presidente da Comissão de Arbitragem entre 2019 e 2021, o empurrão de Bernabei em Diego Caito no primeiro tempo do clássico foi infração clara. O VAR, portanto, deveria ter chamado Rodrigo de Lima para a revisão, o que não ocorreu. Caio Vieira validou a decisão de campo.
– É difícil de explicar. É um conceito que se quer levar de “menos arbitragem, mais futebol”. Mas só que a partir do momento que você tem um erro claro e óbvio, que todo mundo viu, tem que ter a interferência do árbitro de vídeo – comenta Gaciba.
– Essa é uma orientação passada para todo o quadro de árbitros. E aí me preocupa, porque é filosofia da arbitragem. Aí o erro vem de cima, na minha opinião – complementa.
Documento no qual a CBF afirma que pênalti deveria ser marcado em Diego Caito no Gre-Nal
Arquivo
O reconhecimento do erro veio, primeiro, verbalmente, em reunião com representantes dos clubes e o diretor da Comissão de Arbitragem, Netto Góes, e Alicio Pena Junior, inspetor de arbitragem da CBF. Trata-se de uma conversa semanal, conhecida como reunião devolutiva, na qual são abordados assuntos sobre os quais os times ficam com dúvidas.
Ao Clube, causa incredulidade e estranheza o relato da Comissão de Arbitragem da CBF, sob comando do Sr. Sandro Meira Ricci, admitindo a ocorrência do pênalti e, ao mesmo tempo, justificando a não-intervenção do VAR sob o pretexto da orientação de “menos arbitragem, mais futebol”. Portanto, pode-se depreender que, mesmo constatando o erro de campo, o VAR não intervém e o legitima?
A Comissão de Arbitragem da CBF enviou uma nota à reportagem, na qual explica a orientação do termo “menos futebol, mais arbitragem”. A entidade dá sua versão sobre a jogada do Gre-Nal e defende que, embora a melhor decisão seja a marcação do pênalti, o lance foi de interpretação.
– Trata-se de um lance interpretativo, no qual a leitura do árbitro em campo é possível. A Comissão de Arbitragem entende que a intensidade do contato nas costas do atleta do Grêmio comporta interpretação e que não houve extensão completa do braço do defensor, elemento que caracterizaria um erro claro e óbvio. Ainda que, na avaliação da Comissão, a melhor decisão em campo tivesse sido a marcação do pênalti, ela não é a única possível, em razão do caráter interpretativo do lance que justificou a não intervenção do VAR – diz a nota enviada pela assessoria.
– A orientação de “menos arbitragem, mais futebol” não é um pretexto, mas parte de um esforço estruturado, transparente e contínuo da CBF para aumentar o tempo de bola rolando, reduzir interrupções desnecessárias e tornar o jogo mais fluido – também diz o texto.
Leonardo Gaciba já foi presidente da Comissão de Arbitragem da CBF
Stephanie Pacheco/GloboEsporte.com
Leia abaixo a conversa do ge com Leonardo Gaciba, contratado em agosto para atuar com consultor de arbitragem. Em seguida, veja também o posicionamento da CBF sobre o assunto.
ge – O VAR chega a falar que foi pênalti no Diego Caito?
Leonardo Gaciba — Não. Eles mostram os áudios e os vídeos dessas jogadas para que todos os presentes que possam ver o que foi mostrado. O árbitro de vídeo observou a jogada e pergunta ao árbitro o que ele viu. O árbitro (de campo) disse que é um pequeno contato, e ele (VAR) valida a decisão de campo, não chama pra revisão. A Comissão de Arbitragem fala que entende que foi pênalti, que houve pênalti na jogada, mas que não era uma jogada para o árbitro de vídeo chamar.
E esse é teu maior ponto de preocupação, essa orientação para não chamar a revisão?
– É difícil de explicar, né? É um conceito que se quer levar de “menos arbitragem, mais futebol”. Mas só que a partir do momento que você tem um erro claro e óbvio, que todo mundo viu, tem que ter a interferência do árbitro de vídeo. Acredito que não se conta a qualidade de uma arbitragem pelo número de vezes que ele chama para uma revisão na beira do campo. Então, infelizmente, eu acho que está equivocado esse tipo de sentimento.
Eu acho que tem que se recomentar (a revisão) exatamente pelo contrário, porque é muito claro que há um tranco ilegal nas costas, um jogador que não disputa a bola. Então, para mim, isso é um erro claro e óbvio do campo. Aliás, em lances que têm dúvida, eu nem reclamo porque são coisas que eu não coloco lá pra correção, essas jogadas que a gente chama de cinzentas dentro do mundo da arbitragem, não são pretas e não são brancas, aquela jogada que fica na margem de interpretação do árbitro. Eu acho que isso faz parte do jogo. O árbitro tem que interpretar pra um lado ou para outro. Eu só relato exatamente jogadas que eu não tenho dúvida que houve um equívoco.
Mas, supondo então que o árbitro de vídeo entendeu que não foi pênalti, não foi por isso que ele não chamou o árbitro de campo para a revisão?
– O árbitro de vídeo fica receoso, mas, acima de tudo, pergunta ao árbitro de campo se ele viu a jogada ou não. A partir do momento em que o árbitro de campo descreve esse pequeno contato nas costas, ele (VAR) acaba validando a decisão. Por que eu chego a esse tipo de conclusão? Porque foi dito pela própria Comissão, foi afirmado, que a decisão correta era a penalidade ser marcada, mas que o arbitro estava certo em não chamar pelo fato de o árbitro ter visto a jogada e interpretado.
Qual a sua opinião sobre a quantidade de erros de arbitragem que têm sido reconhecidos pela CBF?
– Não é uma reclamação específica do Grêmio, tem vários clubes lá que tem reclamação, vários clubes que colocaram a preocupação em relação a isso, não é especificamente o Grêmio. Eu estou representando o Grêmio nesse momento. Fizemos outras reclamações no qual eles admitiram o erro, mas as outras reclamações, só que dessa vez o que me preocupou foi isso, porque essa é uma orientação que é passada para todo o quadro de árbitros. E aí me preocupa, porque é filosofia da arbitragem. Aí o erro vem de cima, na minha opinião.
Pode haver um grande problema de comunicação entre os árbitros e para o público externo sobre quando o VAR deve recomendar a revisão do lance para o árbitro de campo. Na sua opinião, quando a revisão à beira do campo deve ocorrer?
– Eu passei três anos à frente da comissão. O que melhor foi compreendido, o que fez o nível de erro baixar o máximo possível, é o árbitro de vídeo chamar o árbitro (de campo) sempre que ele tiver imagem que comprove um erro claro e óbvio do árbitro dentro do campo, independentemente do que ele descrever.
Só que isso acaba, por vezes, esbarrando na opinião do VAR. O árbitro de vídeo pode entender que não foi um erro claro do árbitro de campo.
– Mas aí teremos que ter dois erros, do campo e do vídeo, nesse caso um erro é o suficiente, no critério utilizado atualmente.
Em uma das suas entrevistas recentes, o senhor disse que o presidente da Comissão de Arbitragem é um “semideus”. Por quê?
– Pela própria comissão. Isso é que nem o chefe. É difícil você ter alguém que questione o chefe. É difícil você ter alguém que coloque em dúvida as decisões do chefe normalmente. O chefe é um cara que se aceita, e você faz o que o chefe manda. Por isso que eu digo que é um semideus. Por isso que é importante esta pessoa que está comandando ter essa dimensão de que esse alerta de fora está aqui para ajudar o futebol brasileiro como um todo.
Então, não é uma crítica direta ao presidente Sandro Meira Ricci?
– Eu fui um semideus um dia. A gente chega lá e assim, tudo que se fala as pessoas consideram que é uma solução mágica. Podemos colocar as nossas ideias em jogo, só que muitas ideias não funcionam, por isso que é importante ouvir o lado externo também.
Qual é o conselho que o senhor deu ou vai dar para o Grêmio a partir de agora?
– Acho que, na prática, o Grêmio já está agindo com um profissionalismo bem grande. A partir do momento que ele contrata um profissional do meio da arbitragem para conseguir enxergar isso, mostra o cuidado que o Grêmio está tendo com esse tipo de departamento. Estamos orientando, porque não estou ali só para reclamar pelas decisões tomadas de forma equivocada. Então, tudo que temos feito em cima disso é enxergar a arbitragem. O Grêmio está fazendo a parte dele assim como vários clubes estão fazendo. Agora é questão da CBF ouvir e ter a humildade de mudar os seus critérios, se é que tem a intenção de fazer uma melhora do serviço que está sendo prestado.
Veja a nota completa da Comissão de Arbitragem da CBF
“A CBF recebeu com surpresa o raciocínio apresentado pelo consultor de arbitragem do Grêmio, cuja formulação revela uma interpretação excessivamente simplista sobre o protocolo vigente do VAR, que é de conhecimento público.
A orientação de “menos arbitragem, mais futebol” não é um pretexto, mas parte de um esforço estruturado, transparente e contínuo da CBF para aumentar o tempo de bola rolando, reduzir interrupções desnecessárias e tornar o jogo mais fluido. Esse trabalho envolve treinamentos, revisões de protocolo, acompanhamento estatístico e alinhamento da atuação do VAR nas partidas.
Em nenhum momento esse princípio significa legitimar o erro. Ele estabelece apenas que o VAR deve intervir quando a análise de vídeo revelar, de forma clara e óbvia, que a decisão tomada em campo foi equivocada. Não foi o caso do lance em questão na partida entre Grêmio e Internacional. Trata-se de um lance interpretativo, no qual a leitura do árbitro em campo é possível. A Comissão de Arbitragem entende que a intensidade do contato nas costas do atleta do Grêmio comporta interpretação e que não houve extensão completa do braço do defensor, elemento que caracterizaria um erro claro e óbvio. Ainda que, na avaliação da Comissão, a melhor decisão em campo tivesse sido a marcação do pênalti, ela não é a única possível, em razão do caráter interpretativo do lance que justificou a não intervenção do VAR.
A intervenção do VAR no jogo não pode gerar demora excessiva nem duvidas na análise do arbitro à frente do monitor, o que afeta a credibilidade da decisão, o controle do jogo e autoridade do profissional em campo.
A conclusão apresentada pelo consultor, sugerindo que o VAR “constata o erro e o legitima”, não encontra respaldo em nenhum documento, diretriz ou prática da Comissão de Arbitragem. Trata-se de uma leitura rasa, que ignora o funcionamento real do protocolo, os limites de atuação do árbitro de vídeo e o compromisso institucional da CBF com a evolução da arbitragem brasileira”.
🎧 Ouça o podcast ge Grêmio 🎧
+ Assista: tudo sobre o Grêmio no ge e na TV geRead More