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Da quebra de banco à renúncia do presidente: entenda o escândalo financeiro que abalou o Paraguai

Da quebra de banco à renúncia do presidente: entenda o escândalo financeiro que abalou o Paraguai

 Santiago Peña, economista e presidente do Paraguai, foi ministro da Fazenda durante o governo de Horacio Cartes. Eleito pelo Partido Colorado, Peña assumiu a Presidência em 2023.
REUTERS
A crise do banco digital Ueno e a pressão pela abertura de um processo de impeachment por seu suposto envolvimento no caso levaram o presidente do Paraguai, Santiago Peña, a renunciar ao cargo nesta quinta-feira (5).
A crise começou na terça-feira (3), quando o Banco Central paraguaio decidiu liquidar o banco digital após identificar operações que comprometeram a saúde financeira da instituição.
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O rombo tinha origem em empréstimos concedidos pelo Ueno a empresas ligadas ao próprio banco, que comprometeram seus recursos e deixaram milhares de clientes sem acesso ao dinheiro.
Diante da situação, clientes foram às ruas para cobrar a liberação do dinheiro depositado no banco. Houve confrontos entre manifestantes e policiais em Assunção.
O escândalo também levou à renúncia de Carlos Carvallo, presidente do Banco Central do Paraguai. Carvallo havia comandado o Ueno até agosto de 2023. Tanto ele quanto o Banco Central vinham sendo criticados por parlamentares por sua atuação na supervisão da instituição.
Peña também passou a ser pressionado por ter sido acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. Ele já era sócio do grupo antes de assumir a Presidência, em 2023. A oposição ainda acusa Peña de manipular regras e desviar dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e outros benefícios. (entenda mais abaixo)
Veja abaixo os detalhes do escândalo financeiro.
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Crise no Ueno
O Ueno, que tinha cerca de 3 milhões de clientes e era o maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, enfrentava problemas financeiros e era alvo de investigações.
Após uma revisão dos registros financeiros do banco, o índice de solvência — que mede a capacidade de uma instituição de cumprir suas obrigações — caiu para menos da metade do mínimo exigido pelas autoridades.
O problema estava relacionado a empréstimos concedidos a empresas ligadas à própria instituição.
Os reguladores também investigavam se o banco havia financiado indiretamente a venda de uma carteira de ativos de uma empresa ligada ao Grupo Vázquez. O Ueno negava participação nessa operação.
⚖️ Diante da situação, o BC paraguaio iniciou o processo de liquidação do Ueno para proteger os depositantes e limitar possíveis impactos sobre outros bancos e instituições financeiras.
O Ministério Público também abriu uma investigação criminal sobre o caso:
Oito pessoas ligadas ao banco se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão.
A Procuradoria apresentou acusações formais contra 27 pessoas, e a Justiça determinou o bloqueio dos bens dos investigados.
O banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões (R$ 4,63 bilhões) em recursos públicos no Paraguai, incluindo valores do Instituto de Previdência Social (IPS) e de outros fundos destinados ao pagamento de aposentadorias e benefícios.
Na terça-feira, clientes foram às agências do banco, mas encontraram as portas fechadas. Entre eles estavam aposentados que recebem benefícios do governo por meio do Ueno.
“Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno”, disse à agência Reuters Manuel Cáceres, morador de Ñemby, nos arredores de Assunção. “Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim.”
Peña anunciou medidas para ressarcir clientes
Diante da crise, Peña anunciou um acordo com líderes do Congresso para acelerar a votação de um projeto que permite utilizar recursos do Fundo de Garantia do país para ressarcir os clientes do banco.
O presidente afirmou ainda que a medida deve garantir a devolução dos recursos públicos depositados no banco, incluindo valores do IPS e de outros fundos públicos de previdência.
Nesta quarta-feira (4), Peña promulgou a lei que permitirá aos clientes do Ueno recuperar seus recursos mais rapidamente. O presidente afirmou na rede social X que os responsáveis por eventuais irregularidades deverão responder à Justiça, sem exceções.
“Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, afirmou.
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Governo tenta conter preocupação com sistema financeiro
A crise também preocupou clientes de outras instituições financeiras. Nesta quarta-feira (4), circularam relatos de falhas nos aplicativos de outros bancos, em meio ao aumento das transferências de recursos do Ueno para outras instituições.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que os bancos trabalhavam para atender ao aumento da demanda por transferências de dinheiro. A entidade ressaltou que o sistema bancário continuava “operando normalmente”.
O Banco Central também afirmou que o caso do Ueno é isolado e não representa problemas mais amplos no sistema financeiro do país.
Peña procurou afastar o temor de que a crise atingisse outros bancos e disse que “este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”.
Segundo o Banco Central, a Superintendência de Bancos vai nomear auditores para avaliar os ativos do Ueno, como os bens e os valores de empréstimos que a instituição tem a receber.
Agência do Ueno fechada enquanto parlamentares da oposição avançam com o processo de impeachment do presidente Santiago Peña, a quem responsabilizam pela crise bancária desencadeada pelo colapso da instituição financeira digital, em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026.
REUTERS/Cesar Olmedo
Renúncia de Peña
A oposição acusa Peña de conivência com a quebra do banco digital, conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, entre outras irregularidades. Os parlamentares também afirmam que o Banco Central paraguaio teria encoberto irregularidades.
Nesta quinta-feira (5), o Congresso do Paraguai havia dado os primeiros passos para votar pedidos de impeachment contra Peña e seu vice, Pedro Alliana.
O pedido de impeachment ganhou força após Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado, sigla de Peña, retirar o apoio ao governo. Cartes é considerado o mentor político de Peña. O presidente do Congresso, Basilio Núñez, também do Partido Colorado, havia retirado seu apoio.
Em um vídeo publicado nas redes sociais, Peña anunciou sua renúncia e pediu desculpas à população que ficou sem acesso ao próprio dinheiro. Ele afirmou que tomou a decisão “pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”.
A Câmara dos Deputados do Paraguai, no entanto, não aceitou a renúncia e decidiu dar continuidade ao processo de impeachment contra Peña. A decisão foi unânime. Além disso, os deputados rejeitaram o pedido contra Alliana.
Segundo Ariel Palacios, comentarista da GloboNews e especialista em América Latina, ao anunciar a renúncia, Peña tentou se proteger politicamente e preservar seu foro privilegiado. Isso porque, segundo a Constituição do Paraguai, ex-presidentes da República podem ocupar o cargo de senador vitalício ao deixar a Presidência.
* Com informações da agência de notícias Reutersg1 > Mundo Read More