Gabigol se declara a Santos e Flamengo, revive polêmicas e garante: “Eu me sinto no auge”
Gabigol se declara a Santos e Flamengo, revive polêmicas e garante: “Eu me sinto no auge”
Não é apenas diante dos marcadores adversários que Gabigol demonstra personalidade e firmeza. Na frente das câmeras e microfones, o atacante do Santos aparenta a mesma convicção. Alguns podem até enxergar uma dose de marra, mas ele garante que é apenas autoconfiança.
– Eu poderia vir aqui e falar tudo o que vocês querem: “Ah, estou muito feliz pelos três prontos, é muito bom jogar no Santos”. Mas não é assim. Então tem que lidar com a realidade e com cada personalidade que tem – afirmou o jogador, de 30 anos.
De bermuda, chinelo e o sorriso no rosto de quem voltou a reencontrar o caminho do gol nesta temporada, Gabriel Barbosa recebeu a reportagem do ge no CT Rei Pelé para uma entrevista de cerca de uma hora ao quadro Abre Aspas.
Gabigol destaca alegria no Santos, mas vê futuro incerto
Sem papas na língua, falou sobre passado, presente e futuro da carreira. Comentou episódios polêmicos, como a acusação de tentativa de fraudar exame antidoping e a aparição vestindo uma camisa do Corinthians; sobre a relação com a imprensa e apontou que “todo mundo quer lacrar”; explicou o amor dividido por Flamengo e Santos e disse merecer uma vaga na Seleção; deixou o futuro indefinido, mas revelou o desejo de jogar nos Estados Unidos.
O papo também passou pela relação com Neymar (com quem imaginava jogar no Flamengo), o desempenho no Cruzeiro, a conexão com os fãs, o sonho de conhecer o piloto Lewis Hamilton e muito mais.
FICHA TÉCNICA
Nome: Gabriel Barbosa Almeida
Apelido: Gabigol
Idade: 30/8/1996 (30 anos)
Clubes: Santos, Inter de Milão, Benfica, Flamengo e Cruzeiro.
Títulos: Libertadores (2019 e 2022), Brasileirão (2019 e 2020), Copa do Brasil (2022 e 2024), Recopa Sul-Americana (2020), Supercopa do Brasil (2020 e 2021), Campeonato Carioca (2019, 2020, 2021 e 2024) e Campeonato Paulista (2015 e 2016).
Pela Seleção: 18 jogos e cinco gols pela equipe principal. Foi medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.
Gabigol, atacante do Santos, posa com a sua comemoração característica
Marcos Ribolli
ge: A que você atribui esse bom momento que está vivendo?
Gabigol: – Só joguei. Simples assim. Em 2023, com o Flamengo, foi um ano difícil para todo mundo, não só para mim. Eu faço parte de um time. Em 2024, estive com o Tite o ano todo e não joguei, todo mundo sabe o motivo. E com o Filipe Luis eu joguei, fiz dois gols na final, fiz outros gols também, foi importante para o time. Em 2025, eu estive apto, mas é claro que precisava me reencontrar num novo time, num novo cenário, com novos jogadores. Não joguei muito, mas, se for pegar as médias de gols com os meus jogos, já era muito alta e esse ano eu joguei o ano todo. Eu não tenho dúvida que, se eu jogar, vou bem.
Você acostumou mal não só o torcedor como também a opinião pública?
– Não, não. Eu acostumei vocês bem, tem que fazer gol mesmo. Saber que não é tudo com uma varinha de mágica que as coisas acontecem, eu preciso sequência, preciso conhecer os meus companheiros, preciso estar em um sistema que me ajude, e isso depende de muitas pessoas, não só de mim. Aqui no Santos foi onde eu reencontrei tudo isso, tem o DNA ofensivo, tem jogadores que me ajudam, e eu vou fazer gol.
Na sua chegada, você disse: “Talvez eu precise mais do Santos do que o Santos de mim”. O que o Santos entregou este ano para você devolver com tantos gols e tantas assistências?
– Minha felicidade de estar na cidade, com as pessoas que eu amo, o DNA ofensivo do time. Se me colocarem em um time que não ataca, eu não vou jogar nada, isso é a coisa mais simples do mundo. Jogadores que me ajudam, então vou jogar com Cebolinha, Neymar e Coutinho. Se eu não fizer gol, a culpa é minha. É simples assim. E ter um treinador que confia em mim.
É curioso que você tem dois momentos de pico de gols e de assistências na temporada, ambos na ausência do Neymar. Primeiro, às vésperas da Copa do Mundo, e depois quando o Neymar se lesiona na Copa do Brasil, contra o Palmeiras. Muda alguma coisa taticamente para você quando o Neymar não está?
– Não, eu acho que é uma coincidência, porque do Neymar não tem o que falar. É claro que com ele em campo eu tenho outras funções. É normal. Quando joguei com o Pedro, eu também tinha uma função. Quando joguei com o Bruno Henrique, eu tinha outra função. Quando joguei com o Thaciano, eu tinha outra função. É coisa de jogo, normal. Creio que com ele em campo é normal que as coisas se direcionem mais para ele, porque é o nosso 10, é o cara que tem que estar com a bola sempre, que vai armar o jogo. Mas jogar com ele é bem mais fácil.
Gabigol vê coincidência em queda de gols quando joga com Neymar
A sua história se conecta com a do Neymar há muitos anos. Você estreia na despedida dele. Depois jogam juntos na Seleção, ganham a Olimpíada de 2016. Como tem sido reeditar essa parceria?
– Primeiro, falar que eu sempre via o Neymar jogando no futsal. Eu jogava antes do que ele, porque era mais novo, depois via ele. Depois, quando tinha eventos de camisa nova do Santos, ele sempre levava os Meninos da Vila, e eu sempre estava com ele. Às vezes, a gente se encontrava no caminho. Nós sempre fomos grandes amigos. Quando ele começou a jogar e virou o Neymar que virou, eu estava em todos os jogos dele na Vila. Eu estava em 2011 no Pacaembu, na final da Libertadores. Depois a gente se encontrou na seleção principal, foi campeão das Olimpíadas, jogou Copa América, Eliminatórias. Só não jogamos a Copa do Mundo.
– Quando eu estava no Flamengo, achava que iria jogar com ele no Flamengo. Que em algum momento ele iria para o Flamengo. Nunca imaginei que ia acontecer isso agora. Quando aconteceu a oportunidade e ele estava aqui, eu falei: “Caraca, não é possível”. E aí, realmente, a gente se falou muito durante as férias para eu poder vir. Também era uma vontade dele, uma vontade minha, uma vontade das famílias. Acabou que eu realizei meu sonho da melhor forma possível. Jogar no time do seu coração, com o seu ídolo que você viu, que é seu amigo, e também poder desfrutar com ele no treino, nos jogos, nas viagens. É algo que eu nunca esperei que acontecesse e está sendo muito legal.
Em algum momento você chegou a convidá-lo para jogar no Flamengo?
– Não, porque ele estava no Paris [Saint-Germain], não tinha possibilidade nenhuma. Mas, como eu achei que ia ficar no Flamengo até me aposentar, também achava que ele poderia em algum momento vivenciar aquilo. Futebol é uma coisa que você não controla, as coisas vão acontecendo, e a gente se encontrou acho que no melhor lugar, né? A gente, revelado pelo Santos, da nossa cidade, as famílias perto, eu vou na casa dele, ele vem na minha casa, a gente conseguiu ainda que venha o Arthur, o Coutinho, o Rodinei, o Arão, que eu joguei lá atrás, o Cuca, por quem eu fui treinado em 2018. Então, foi uma junção de coisas que aconteceram e que acabou deixando a gente muito feliz.
Quem vê de fora tem a impressão de que o clima está muito mais leve no Santos. Isso mudou foi com os resultados ou com a chegada de novos jogadores?
– Essa pergunta é simples: vitória. O que traz alegria, o que traz paz é a vitória. Ganhou, está tudo bem. Quando perde e joga mal é muito pior. Agora, quando perde e joga bem, acho que o clima fica bom, porque você sabe que fez o certo. Agora é óbvio que a gente tem o Rodinei, que é espetacular. A gente tem jogadores que são amigos, dentro e fora de campo, e que também influenciam. E não tem vaidade nenhuma, né? Totalmente zero, não importa quem faz o gol, quem é o cara da rodada, quem é o titular, quem é o reserva, o nosso grupo se comunica muito bem com os meninos da base, com os mais experientes. É uma união de coisas que traz a vitória e aí fica tudo mais tranquilo. A gente tem um grupo fenomenal.
Esse bom ambiente pode ser um fator a mais para você ficar no Santos ano que vem?
– Sem dúvida, eu acho que jogar com pessoas que você ama, que as famílias se conhecem, que sai do jogo e cada um vai para a casa do outro, quando tem folga sai junto, vai ao circo junto, vai para casa… A gente está com o projeto agora de ir na feira, comer um pastel, tomar caldo de cana. Então, acaba que você está jogando com amigos, com pessoas que gostam de você, você sabe que não vai ter nenhum ego, nenhuma vaidade que vá atrapalhar, independentemente de quem fique no banco, todo mundo está torcendo. E no final a gente só quer vencer e se divertir, e dar alegria para o torcedor.
Vocês falam com o Cruzeiro? A diretoria do Santos já te procurou para tentar adiantar algo?
– Ninguém falou comigo. Nem do Santos, nem do Cruzeiro. É legal que eu vejo que o Santos foi até BH falar com o Cruzeiro (risos). Se estão fazendo, eu não sei. Eu não sei o que vai ser ano que vem.
Você lida na boa com essa incerteza?
– Lido. Eu acho que eu preciso jogar bem no Santos. No final acaba sendo a mesma coisa: pode ser que eu fique, pode ser que eu vá embora, então quero aproveitar todos os jogos com a camisa do Santos. Pode ser também a última vez que eu jogue com o Ney, ele tem 34 anos, não sei se vai dar tempo de a gente se encontrar de novo. O Coutinho tem 34 anos, será que eu vou jogar com o Coutinho e o Neymar de novo? Com o Rodinei, com o Arão, com quem joguei no Flamengo? Então tento aproveitar todo treino, todo jogo. Será que um dia eu vou jogar no Santos de novo? Então eu tento sempre aproveitar e desfrutar do que está acontecendo.
Parece que sua preferência é ficar e ser feliz no Santos…
– Eu posso ser feliz em vários lugares. É muita coisa que falta. Eu tenho mais dois anos de contrato com o Cruzeiro. O Cruzeiro também é uma equipe muito grande, que está em terceiro no Brasileiro. Eu amo muito o Santos. São muitos fatores que têm que acontecer para as coisas aflorarem. Não conversei nada sobre isso com ninguém do Cruzeiro, com ninguém do Santos. As únicas coisas que acontecem é que o meu empresário às vezes me liga perguntando que teve interesse dos Estados Unidos, interesse da Turquia, “Como é que seria? Ok? Não? Como é que a gente faz? Pode ser? Não pode?”. Só isso. Mas não sei o que vai acontecer. Eu juro por Deus. Talvez eu renove o apartamento que moro, não sei se vou atrás de outra casa.
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Você falou também ao longo da temporada que não era hora de pensar em Seleção. Hoje você entende que seu desempenho o credencia para ser convocado?
– Sim, hoje sim. Acho que tem quatro atacantes no Brasil que são os melhores: Viveros, Pedro, Flaco [López] e eu. Acho que praticamente os três foram convocados, só eu que não. Hoje sim, não sei em janeiro, não sei em fevereiro, mas hoje, pelo que eu venho fazendo, eu mereço.
É algo que almeja?
– Óbvio que eu tenho vontade de usar a camisa da Seleção de novo, mas não é algo que eu pense todo dia, venho treinar pensando nisso ou quando tem jogo da Seleção fico me imaginando lá. Não, é natural. Eu sei que eu preciso trabalhar muito bem aqui para estar bem. No final, o que eu posso controlar é isso. Eu estar bem, desempenhando, ajudando meus companheiros para estar pronto se caso for convocado.
Não é algo que você usa como motivação?
– Eu quero ganhar o treino hoje, não é uma questão só do jogo, é uma questão minha, eu sou assim. Eu quero vencer o treino, quero vencer no videogame, quero vencer. Eu acho que as coisas vão me levando para esse caminho e tento vencer todo dia. A verdade é essa.
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Na sua intimidade, em algum momento você para e pensa: “Olha o que eu já realizei. Tenho mais de 100 gols por dois clubes gigantescos no Brasil. Eu sou ídolo de duas enormes torcidas do Brasil. Eu sou ídolo de duas das maiores camisas do Brasil”?
– Eu acho que isso me dá a certeza que estou no caminho certo. Eu sei o caminho e também sei quando saio dele. Então, isso me dá uma direção do que tenho que fazer, do que tenho que trabalhar, do que tenho que melhorar. E sei quando saí do caminho, mas nunca olhei assim. Eu acho que vou olhar quando estiver aposentando, talvez pare e comece a ver as coisas e caia na real que já sou um grande jogador. Se minha carreira acabasse agora, eu já seria um grande jogador, mas a verdade é que a minha cabeça ainda não deixa. Eu sei que eu preciso ganhar amanhã, não consigo olhar para trás ainda, mas creio que um dia isso vai acontecer.
Como é lidar com essa idolatria por duas torcidas?
– Eu lido com a verdade. A verdade é essa: se me perguntarem mil vezes sobre o Flamengo, eu vou falar mil vezes que amo o Flamengo. E eu amo. Amo o time, amo a torcida, amo a cidade. E quando eu estava lá e perguntavam do Santos, eu falava a mesma coisa: que eu amo o time, amo a torcida, amo a cidade. É a verdade. Não tem o que fazer. Eu não sei o que esperam que eu fale quando me perguntam sobre isso. Se me perguntassem de outros times, como a Inter [de Milão] ou o Benfica, é um sentimento totalmente diferente. Com o Cruzeiro é um sentimento diferente. Mas Santos e Flamengo são meus times, então não tem o que eu fazer.
Que sentimento ficou do Cruzeiro, afinal?
– Um sentimento que poderia ter dado certo. A gente tinha um treinador com uma característica, um jeito de jogar que era diferente do meu. A gente conversou sobre isso, eu e o treinador, por isso que a gente tem uma relação incrível. E as coisas não encaixaram, não é só o jogador, não é só o treinador. Às vezes o treinador quer muito, o jogador não está bem. Às vezes o jogador está muito bem, e o treinador opta por outro esquema tático, por outra função do jogador, e as coisas não dão certo. É uma junção de coisas, mas se pegar os meus números no Cruzeiro, a minutagem e o que eu fiz mostram que poderia ter dado certo.
Você acha que faltam mais personagens como você no futebol, que falem de forma mais aberta e sincera? O fato de isso não ser comum faz com que as pessoas estranhem sua postura?
– Pode ser. Pode ser que eu seja um pouco diferente de todo mundo, mas… Eu também acho que não tem como você falar para a pessoa “você tem que ser assim”. É igual pedir para eu lidar de uma forma que não consigo. Não consigo lidar de outra forma. Eu consigo lidar com a verdade, consigo falar as coisas que eu sinto. Até tive que pedir desculpas para a torcida do Santos e para alguns jornalistas que levaram as coisas para um lugar que não era aquele lugar. Mas se me perguntarem do Flamengo e do Santos onde eu estiver, vou ter que falar bem, porque não tem jeito.
Essa crítica talvez venha de torcedores que gostariam de ter você no time?
– Sem dúvida, sem dúvida. Eu sei disso, mas talvez se fosse para outro time, pode ser que eu crie isso também, não sei. Mas o Santos e o Flamengo são os times que eu me sinto em casa e que amo. Quando jogava no Flamengo e vinha para a Vila Belmiro, para mim era muito difícil jogar contra o Santos. Eu passava nas ruas que corria, que estava com os meus amigos, que ia para a escola. Chegava na Vila, as pessoas que arrumam o campo eram as que me viram com oito ou nove anos. Não pode ser normal uma coisa dessa, não posso sentir uma coisa como se fosse jogar em outro lugar. Não é. E agora a mesma coisa, quando eu vou ao Maracanã para jogar contra o Flamengo não me sinto à vontade também. E é simples.
Mas é curioso que mesmo com esse sentimento você nunca se furtou de comemorar, de tirar onda, independentemente da relação que você tinha com o clube, né?
– Quando começava o jogo, eles também me xingavam muito. Com o Flamengo já é uma coisa mais diferente, aqui na Vila eles cantaram a música que cita meu nome, bateram palmas. Com o Flamengo, eu nunca fui ao Maracanã ou em outro lugar do país que eles não me idolatrem. Então contra o Flamengo eu nunca tive que comemorar um gol. Com o Santos já foi mais diferente, as pessoas começaram a me xingar e a minha única forma de, entre aspas, revidar era fazendo um gol e comemorando. Como eu falei, agora eu estou aqui e todos também me idolatram, para mim é algo que acaba sendo normal, coisa de jogo.
Gabigol em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Isso aconteceu em outros estádios, como do Athletico-PR ou, mais recente, com um torcedor do Fluminense, no Maracanã. Você é provocado, hostilizado e responde fazendo gols.
– É, tem jogadores que não ligam, que não se importam, que sentem. Eu gosto. Talvez se eu fosse para o estádio e tivesse lá um Gabigol, eu ia falar assim: “Ah, mano, nem vou xingar esse cara não. Eu vou deixar ele quieto, vamos bater palma para ele para ficar mais tranquilo”. Contra o Fluminense foi um cara que estava me chamando de mulambo, me chamando de tudo. E eu vi. Se eu não visse, talvez, não ia acontecer nada. Mas eu enxerguei ele, ele estava me xingando, eu usei aquilo como uma motivação, e a gente venceu o jogo. Mas também nada pessoal com ele, está tudo bem. Faz parte do jogo.
Ele mesmo depois levou na boa, disse “que m… que eu arrumei para minha vida”.
– Eu também não esperava que a torcida do Fluminense iria bater palma para mim. Mas eu acabei enxergando ele… Contra o Vasco também, me chamaram de mulambo e tal.
Você é mulambo?
– Sou, sou. Eu não levo isso como um xingamento, eu acho que faz parte, está tudo bem.
Essas provocações acabam sendo um combustível?
– Não sei se é um combustível, eu sou assim. Não é algo que eu faça forçadamente, não é algo que eu procuro e vou ficar procurando quem está me xingando. Não, acontece. Como também eu prefiro jogar jogos mais importantes do que outra coisa, e acaba que Flamengo x Santos, quando a gente vinha aqui, sempre se tornava um jogo enorme e isso me dá mais motivação. Então, acontece, não é algo que eu procuro.
Gabigol sorri durante gravação do Abre Aspas
Marcos Ribolli
Estamos falando dessa sua identificação com Flamengo e Santos, e me parece que vai além do que você construiu em campo. Você parece se envolver com o que esses times representam também fora de campo, a magia em torno de cada um deles.
– É claro que não posso ser mentiroso e falar que o futebol também não é um negócio. É claro que você procura sempre fazer a melhor coisa para sua família. O Santos tem a questão da música, dos Meninos da Vila, do DNA ofensivo. Eu estou na minha cidade, amo jogar pelo Santos. Quando eu estava no Flamengo, via todos os jogos do Santos. É uma identificação talvez do ser humano mesmo, o Gabriel.
– Com o Flamengo é a mesma coisa: é a torcida, o Maracanã lotado, o uniforme. Eu acho a camisa do Flamengo linda. Eu me sentia muito bem indo para o Maracanã. Eu vi na torcida algo que era diferente. Eu gostava muito quando a gente ganhava o jogo e no outro dia estava todo mundo de Flamengo, então eu ia para o treino e via todo mundo com a camisa do Flamengo, isso me deixava muito feliz. As crianças fazendo a minha comemoração, o cabelo loiro. O pessoal do Rio sempre me tratou super bem. Vai acontecendo, não é algo que você vai buscando. Talvez na Inter e no Benfica não tenha acontecido muito isso. Meu pai amava quando eu estava no Benfica. Eu já não gostava de Portugal. Só que no Rio e aqui em Santos é tudo perfeito. E também tem praia. Estou começando a achar que só vou bem em time de praia. Eu gosto muito da praia também.
Você falou que imaginava se aposentar no Flamengo. Já são dois anos desde que saiu. Quando olha para trás, como avalia a saída?
– Futebol tem coisas que você não controla. Eu estava renovado com o Flamengo, apertaram a minha mão, deram parabéns, me deram camisa, até postei o vídeo da renovação esses dias. Minha casa estava comprada, estava tudo certo. Então, não tinha por que eu achar que não ia encerrar minha carreira no Flamengo. E aí começou aquela coisa da imprensa, né? “Está desgastado, cinco anos de contrato é muito”. Mas eles nunca ofereceram um, dois, três anos ou seis meses de contrato, nunca teve essa conversa. E acabou que eu saí, mas saí de lá feliz e realizado, totalmente realizado com o que eu conquistei, com o carinho que eles têm por mim. E realmente eu achava que iria encerrar minha carreira lá.
Depois desse aperto de mão, você também passa a ficar irredutível? Ou seria naqueles termos ou não seria de forma alguma?
– Não, porque não teve outra conversa. Não teve: “Gabi, acertamos cinco, pode ser dois? Pode ser um, pode ser três meses?”. Não teve essa conversa. Teve o que a imprensa falou que poderia ter sido feito, mas nunca teve essa conversa.
Ainda olhando para trás: como avalia hoje os episódios do exame antidoping e de quando vestiu a camisa do Corinthians. São coisas que você faria novamente ou que se arrepende?
– Sobre o exame, foi a primeira vez que um jogador caiu no doping sem estar no doping. É a primeira vez que acontece isso no futebol. Eu fiz exame de sangue e de urina. Todo mundo sabia que era verdade. Tanto que o Flamengo liberou as câmeras para o julgamento, me viram fazendo o exame. Talvez eu pudesse ter sido mais cordial? Poderia, poderia. Mas isso não tem a ver com o doping, né? O doping é uma coisa, ser cordial é outra. Todo mundo sabia que não tinha como cair, porque o exame foi feito, o protocolo foi feito, foi enviado. Foi a primeira vez que um jogador caiu no doping sem cair no doping. Porque eu fiz urina e o sangue.
– E a camisa, cara, talvez… Ontem eu ganhei uma camisa do Everton Ribeiro e botei a camisa do Bahia. Não acho que é algo que atrapalhe. Claro, a foto vazou, mas eu não tive controle disso. Não queria que tivesse vazado. No futebol você troca camisa, usa camisa de basquete, usa a camisa da Europa. Eu gosto muito, por exemplo, do João Pedro, do Chelsea. Acho um jogador fenomenal. Eu comprei uma camisa do João Pedro e usei para ir na festa do Davi Lucca, filho do Ney.
É que era um momento em que o Corinthians tinha interesse na sua contratação.
– Não, não tinha interesse. É que saía que tinha interesse. O Corinthians nunca falou com ninguém. Aquilo foi uma coisa que foi se criando, criando, criando, criando e aconteceu.
Então teve zero contato do Corinthians naquela época?
– Eles podiam ter o interesse. Poderia, mas aí outro time também tinha. Acabou meu contrato com o Flamengo. O Palmeiras também me procurou. E eu falei que eu não ia para o Palmeiras.
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Por quê?
– Porque eu joguei no Flamengo. Eu não vou jogar no Palmeiras.
Você diz “joguei no Flamengo” e não “joguei no Santos”, que é do mesmo estado e tem uma rivalidade até mais antiga com o Palmeiras…
– Eu estava no Flamengo, não tem como pensar no Santos estando no Flamengo. É óbvio que todo mundo sabe que o meu carinho pelo Flamengo e pelo Santos são especiais. Como joguei no Cruzeiro, eu não vou jogar nunca no Atlético-MG.
Quando você sai do Flamengo, o torcedor do Santos já sonhava com a sua volta. Naquela época teve alguma conversa?
– Teve sim a conversa. Mas eu acreditava e acredito que o projeto do Cruzeiro vai dar certo. Naquele momento eu realmente achava que o Cruzeiro era a melhor opção. E foi assim a tomada de decisão. Eu também naquele momento queria mudar um pouco de ar, ir para um lugar diferente e o Cruzeiro pintou como uma opção muito boa. Acho que foi a decisão certa.
Se tivesse uma praia em BH facilitaria as coisas, né (risos)?
– Mas eu gostei muito de BH. Não tinha praia, mas eu ia para o Rio Seco quando tinha fome. Mas BH é muito bom, os mineiros, a comida, a cidade. Eu gostava muito.
Ainda sobre sua relação com o Flamengo, esse vínculo e carinho recíproco permanece apesar de episódios turbulentos, não é?
– Sem dúvida, o Flamengo é algo que está na minha vida, eu vivi lá coisas que eu nunca imaginei, a torcida aqui na Vila cantou a música. Como eu também esperava quando jogava no Flamengo, que eu viesse no Santos e seria bem recebido, também tinha essa curiosidade, porque jurava que ia ser bem recebido. E não fui. E também está tudo bem, faz parte do jogo. Mas é claro que eu acho que com o Flamengo as coisas são diferentes, porque a torcida lida de uma forma diferente. Cada torcida tem um jeito diferente, e na verdade eu e o Flamengo parece que a gente lida do mesmo jeito, tem a mesma personalidade, tem a mesma… Sei lá, jeito de ser, e por isso talvez seja tão real a conexão.
No próximo dia 15 serão lançados os bustos do Bruno Henrique e do Arrascaeta na Gávea. Mesmo não tendo um busto, hoje você já se vê eternizado no Flamengo? É claro, sua história de vida é muito maior, mas o que te fará perdurar pela eternidade são aqueles momentos?
– Claro que sim, eu acho que tudo o que vivi lá não foi algo normal. Se você vir os jogos, os números, as festas, tudo foi algo que parece um filme. Fiquei muito feliz pelo Arrasca e pelo Bruno, eles merecem. E talvez o busto seja pouco ainda pelo que eles merecem. Sem dúvida nenhuma, minha passagem no Flamengo foi algo histórico que talvez quando eu parar as pessoas vão cair na realidade. Então, acho que eles merecem, como mais jogadores também merecem. Filipe Luis, campeão jogando e como treinador, merece. Aquele time era espetacular. Aquele time vai ser inesquecível. As pessoas colocam muito 2019, mas 2022 também foi muito importante. Duas vezes chegar à final, duas vezes fazer o gol. Invicto também em 2022.
Você acha que sua história no Flamengo está encerrada ou ainda tem mais um capítulo a ser escrito?
– Como é que eu vou saber disso? Não tem como saber disso. Futebol é muito dinâmico. Eu imaginava uma coisa, aconteceu outra, talvez agora eu imagine uma coisa e não aconteça. Não sei, é difícil, não tem como saber. Essa pergunta é impossível de responder. Não tem como.
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Marcos Ribolli
Impossível comentar daquele time sem lembrar do Jorge Jesus. E por falar nele: Cristiano Ronaldo talvez não soubesse com quem estava lidando…
– Eu não sei o que aconteceu. Poderia dar uma aqui de imprensa, querer falar: “Ah, já sabe”. Mas como é que foi a conversa dos dois? Como é que foi mano a mano os dois? Não sei como é que foi, então eu não posso dar a minha opinião.
Nem pela personalidade dele, de você saber que o Jorge é um cara convicto, a postura dele como líder…
– Mas e se o Jorge falou uma coisa para ele e também não cumpriu? Eu não sei. Não tem como a gente dar a opinião porque não estava lá. Como é que foi o café dos dois? Se ele falou: “Olha, deixa comigo, eu vou te colocar”, e aí vai e não coloca. Será que o Cristiano não está tão errado assim também? A gente não sabe, a gente, na verdade, nunca vai saber. Só os dois vão saber o que aconteceu, então não tem como dar a minha opinião.
Você comentou de ocasiões em que seu empresário te perguntou sobre ir para os Estados Unidos ou Turquia. Quando ele vem com essas possibilidades de ir para o exterior, é algo que você olha com bons olhos ou sair do Brasil não é algo que você gostaria?
– Não tem como eu responder isso também, porque depende de tudo que vai acontecer com o Cruzeiro, com o Santos, com algum outro time, com algum time lá de fora. Qual o time lá de fora e qual o país vai ser? Quanto tempo de contrato? Será que isso vai me encher os olhos? Será que isso vai me fazer feliz? Pode ser que em dezembro chegue outro time. Pode ser que em dezembro o Cruzeiro fale “a gente vai te usar, você vai ficar aqui”. Pode ser que o Santos vá lá, pode ser que…
– Uma coisa é certa, em algum momento eu quero jogar nos Estados Unidos.
Gabigol diz que acreditava que encerraria carreira no Flamengo
Por quê?
– Pelo país, pelo hip-hop que eu gosto, pelo jogo de uma forma diferente, pela tranquilidade para a família. Talvez quando eu tiver uns filhos eles morarem nos Estados Unidos. Não sei, não tem como saber assim, mas eu me identifico muito com os Estados Unidos, sempre vou de férias, criei amigos lá, gosto muito de Miami, a minha mulher gosta muito de Orlando, são coisas que acontecem, sabe? Não sei como é que vai ser, mas a minha vontade é jogar nos Estados Unidos. Como também em algum momento eu acho que poderia ter jogado na Espanha.
Pela liga ou pelo país?
– Pela liga, pelo futebol que é ofensivo, pelos campos que são bons, independentemente do time eles jogam para frente, acho que isso iria me facilitar. Eu tive momentos que quase fui e acabou não dando certo. Mas Estados Unidos e Espanha são lugares que eu teria gostado de jogar.
Ouvimos muitos personagens dizendo que o futebol brasileiro está muito hostil, carregado pelas redes sociais e até por parte da imprensa. Há quem diga que também virou um ambiente chato, com muita gente de fora querendo impor determinados comportamentos. Como vê isso?
– Todo mundo quer lacrar, né? Todo mundo quer views, seguidores, postar uma foto em vez de curtir um momento. Eu acho que é mais isso, as pessoas ficam na bancada te julgando, às vezes nem jogou bola, nunca botou uma chuteira, nunca teve a sensação do que é fazer um gol. Nunca teve a sensação do que é tomar um carrinho, nunca teve a sensação de o juiz mandar calar a boca.
– O futebol acaba sendo legal porque é imperfeito. É um lugar imperfeito. Se fosse perfeito não teria graça nenhuma. O Flamengo e o Palmeiras sempre iriam ganhar, o Estudiantes nunca ganharia do Flamengo no Maracanã, o Palmeiras não pode perder para o Estudiantes, o Santos sempre vai ganhar da Chapecoense e do Remo que estão entre os últimos. Os jogadores seriam robôs.
– A gente tem aqui, sei lá, 30 jogadores, cada um lida de uma maneira, suporta a pressão de uma maneira, cada um tem uma mulher diferente em casa, cada um tem um filho diferente em casa. Então não tem como uma pessoa ir lá e falar assim: “Não, isso é o certo”. Não tem como, porque ele não vive aquilo, não sabe como a pessoa lida, não sabe dos segredos da pessoa. Eu acho muito errado uma pessoa na TV começar a te julgar de uma forma que ele não sabe. Às vezes falam: “O cara chutou a bola errado”. Às vezes o cara torceu o tornozelo no treino e está com dor, às vezes brigou com a mulher um dia antes e está mais irritado do que o normal. São coisas que acontecem, e as pessoas julgam como se elas soubessem de tudo que está acontecendo lá. No final, como sempre falo, não sabem de nada.
Você falou de críticas feitas sem conhecimento. Mas isso também não é em decorrência dos clubes se fecharem à imprensa?
– Não, eu acho que o futebol está certo, tem que fechar mesmo. Porque, de qualquer forma, vocês vão mentir. Acontece uma chegada aqui mais forte, o cara fica puto e vai sair a matéria amanhã: “Gabriel brigou com o zagueiro”. Tipo assim, é coisa normal. Às vezes a gente se xinga aqui também, às vezes a gente dá carrinho no outro, faz algumas coisas que estão erradas. Na minha opinião, tem que continuar sendo fechado. Talvez, não falando da imprensa em si e não julgando um, mas eu acho que as pessoas ainda não têm a maturidade certa para ver os treinos e ver certas coisas que acontecem no futebol.
Gabigol critica imprensa esportiva e reflete sobre “fechamento” dos clubes
Marcos Ribolli
A gente acabou enveredando para a relação entre jogador e imprensa, mas essa questão do ambiente hostil vai além. Você percebe uma impaciência maior de uns tempos para cá ou é assim desde que você está no futebol?
– Acho que sempre foi. Eu subi quando tinha 16 anos. Fui embora com 18. Dos 16 aos 18, eu trabalhei com três ou quatro treinadores. Sempre foi algo que aconteceu no Brasil. “Gabriel, você acha certo?”. Não, não acho certo. Mas também acho que às vezes o trabalho não está dando certo com um mês, dois meses. Pode ser que sim. Mas eu acho que tem que dar espaço para todo mundo. Como tem que dar espaço para mim, que precisa jogar, precisa ter sequência, também precisa dar espaço para o menino da base, para o auxiliar técnico, preparador de goleiro, treinador, presidente. Eu também acho que sim. A impaciência acaba atrapalhando um pouco, mas acaba que o futebol no Brasil vai se levando pra esse lado, e talvez alguém tenha que chegar e, como a Leila fez, deixar o Abel ganhando ou perdendo, e está dando resultado.
No começo deste ano, o Crespo foi ser sincero sobre as ambições do São Paulo e acabou demitido.
– É um problema geral. Como a gente está passando aqui no Santos também. Quando a gente se reuniu com a torcida um tempo atrás, eles falavam: “Não interessa ser campeão ou não, a gente só não pode cair”. Porque a gente estava num momento realmente delicado. E quando a gente perdeu para o Atlético-MG (nas quartas da Copa Sul-Americana), eles queriam matar a gente. E talvez se a gente não vai para a Libertadores, vai acabar sendo um ano ruim. Mas será que em janeiro, se a gente falasse assim: “Olha, vamos ficar em sétimo no Brasileiro e não vamos ganhar nada”, será que eles não falariam “ano do c…”. Agora não, já mudaram as expectativas. Se a gente não chega na Libertadores já fica uma imagem de um ano que poderia ter chegado. Sendo que o primeiro objetivo era não cair. Eu acho que é um trabalho que pode ser feito geral, que na minha opinião só vai acabar quando falar a verdade.
Como vocês lidam com a questão dos vazamentos?
– No Flamengo era muita mentira. Se perguntasse para mim, eu ia falar que era verdade, mas no Flamengo era muita mentira. No Santos também é muita mentira. E aí como é que a gente faz? O cara vai e te fala, aí você vai e solta a mentira. A torcida vai achar que é verdade. Só que é mentira! E aí o que acontece? Acaba se distanciando. Mas eu também sei que tem pessoas que vazam para o benefício delas. A gente também sabe disso, que vaza uma coisa que quer que vaze para enaltecer ele ou para acontecer alguma coisa. A gente também sabe disso, que às vezes no futebol tem pessoas que usam desse artifício para poder se valorizar.
– Mas eu acho que é muito difícil uma pessoa vir falar uma coisa e você soltar a matéria. Se for comigo, eu prefiro que liguem para alguma pessoa, todos têm telefone de todo mundo, do meu empresário, do assessor de imprensa do Santos. Eu acho que é melhor conversar do que sair soltando as coisas, sendo que as pessoas vão acreditar. São todas? Não, mas de 20, sei lá, 15 vão acreditar e a pessoa vai para o estádio já puta contigo, já vai te xingar porque leu que você quer ir embora. Eu acho que é isso que acaba também enervando a torcida, enervando tudo, e aí vira uma bola de neve.
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Marcos Ribolli
Temos ouvido relatos de que você está diferente, mais maduro. Você também nota essas mudanças?
– Eu acho que sim, com a idade você vai aprendendo as coisas e também vai escolhendo as guerras que você luta. É claro que isso te amadurece, faz crescer e também as coisas que você vai passando durante a sua vida. Acho que sim, um pouco mais maduro. Eu me sinto no meu auge, na verdade, porque com 30 anos já tenho um longo tempo de carreira, de experiência, de coisas que pude passar no futebol. Creio eu que já passei por tudo. Isso te faz saber lidar com os momentos melhores e também os piores. É um pouco mais experiente, um pouco mais tranquilo e, na minha opinião, no meu melhor momento.
Que tipo de guerra não vale a pena mais lutar?
– Com juiz (risos). Acho que no modo de falar com o juiz, até mesmo lidar com um companheiro que é muito diferente de você. Nosso campo da Vila está muito ruim, eu tento focar somente em jogar. Coisas que acontecem assim no dia a dia, nada muito específico, mas é tentar lidar da melhor maneira possível e focar somente em jogar. Não que eu não fizesse isso antes, mas talvez mais coisas me irritavam com 23, 24 anos do que agora.
Quando você bate esse número redondo, dos 30 anos, provoca uma reflexão? Você passou por um momento de olhar para si?
– Não, não penso assim. Como eu falei, estou no meu melhor momento, na minha opinião, tanto no futebol como fora de campo. Não me criou isso, mas creio eu que você vai passando por tudo durante o futebol, vai começando a entender melhor as coisas. Normal, acho que na vida de todo mundo ninguém tem a mesma atitude com 30 e com 19 anos, isso é normal. Então eu acho que não me criou isso, mas realmente as coisas vão mudando.
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O que você passou a valorizar mais nessa fase da vida?
– Não é também que mudou muita coisa, não. Continuo explosivo, sentindo muito o jogo, o treino. Se vocês vissem os treinos, ia ser a mesma coisa do jogo, quero ganhar, fico bravo, perco e vou embora muito puto. Não é também que mudou muita coisa, mas creio que as coisas vão mudando, você já vai passando pelas coisas e lida de outra maneira. Qualquer coisa na vida também, quando você lida uma vez, é diferente. Na 15ª vez já não é tão diferente. Então, acho que as coisas vão mudando, mas não é algo que eu pense.
Alguma coisa que você acredita que ainda tem que melhorar?
– Claro que aqui, agora sentado, você quer melhorar tudo, mas dentro de campo está à flor da pele, quer vencer, ser o melhor. Talvez a pessoa que mais me cobra no mundo sou eu mesmo. Não tem algo que eu colocaria, mas eu quero melhorar em tudo, aproveitar todos os momentos e no final desfrutar, aproveitar do futebol porque é muito bom.
Você é muito exigente consigo mesmo?
– Muito. O pior, sem dúvida nenhuma. A minha cabeça é algo que eu não controlo, quero ser o melhor, quero melhorar, quero quebrar recordes, fazer gols todos os jogos. Isso faz também que fora de campo eu me cuide mais. Eu esteja sempre 100% para jogar todos os jogos, para também não me machucar. Essa temporada eu praticamente não tive lesão, como minha carreira toda não tive. Espero continuar assim. E que posso estar saudável dentro do campo e que tenha a oportunidade de mostrar o meu valor.
Você falou de se cuidar mais, e sabemos que desde abril você faz trabalhos particulares com o médico e fisioterapeuta Alex Evangelista. Como isso te ajuda a ter poucas lesões?
– Desde os meus oito anos eu tive fisioterapeuta, meu pai sempre cuidou de mim nesse sentido. Na Inter de Milão também, Thiago [Lobo], que agora está com o Vinicius Junior, foi comigo para a Inter de Milão. No Benfica, também tinha uma pessoa portuguesa. No Flamengo, a maior parte foi o Laniyan [Neves], que está com o Arrascaeta. Em todos os lugares que passei eu sempre tive a minha equipe de nutricionista, de fisioterapeutas. No Flamengo, também a gente tinha acompanhamento mental. Eu sempre me cuidei muito, nunca machuquei, sei que as pessoas às vezes me veem no show de rap e acham que aquilo é uma coisa que acontece todos os dias, mas não, sempre trabalhei muito, nunca tive lesão praticamente.
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Marcos Ribolli
Quando precisa tomar a decisão sobre mudar de clube ou renovar um contrato, você faz isso sozinho? A sua palavra é a última ou, mesmo aos 30 anos, ouve seus pais?
– Todo mundo pode dar uma opinião. Todo mundo que eu digo são as pessoas que estão em volta de mim. Mas no final sou eu.
A partir de que momento você passou a tomar os rumos da própria carreira?
– Eles tiveram um peso, mas a Inter de Milão fez uma proposta que era irrecusável. E eu também tinha vontade de jogar na Europa. Depois, as coisas acabaram não dando certo, a gente foi para o Benfica, porque eu achava que teria mais oportunidades, era um time numa liga portuguesa, a língua não ia me atrapalhar, foi um consenso geral. Na volta para o Santos meu pai teve um peso enorme, em 2018. E depois do Flamengo, aí já fui eu. Quando chegou o Flamengo, eu falei: “Preciso jogar no Flamengo”. Eu sempre tive vontade de jogar no Flamengo. Quando chegou, aí não ouvi mais nada. Era o Flamengo e podia vir acho que Real Madrid ou Barcelona que eu ia para o Flamengo.
Você tem muitas tatuagens. Tem alguma que você considera mais especial?
– Difícil. Talvez a das costas, porque quando jogava no São Paulo, a gente tinha que pegar três ônibus para sair de São Bernardo e ir até o Morumbi. E aí a gente pegava os três para ir e tinha que fazer três na volta. Ou fazia três e deixava para comer alguma coisa em casa depois do treino ou pegava dois e comia. Então às vezes eu falava: “Não vai dar, pai, preciso comer alguma coisa, não vai ter como”. Aí ele me botava nas costas e a gente ia até em casa andando. Então eu fiz essa tatuagem nas costas. Às vezes eu preferia comer e quem se ferrava era ele. Ele me botava nas costas porque eu estava cansado do treino. Essa, então, é a especial.
Na comemoração do título da Libertadores em Guayaquil, todo mundo ia até você e pedia foto. Aí você falou: “Só queria alguém que chegasse aqui e falasse ‘vamos tomar uma'”. Do que mais você sente falta da vida comum?
– Eu até gosto desse momento, mas eu fico pensando… Com o Neymar é muito engraçado também. A pessoa, ao invés de pedir um abraço ou trocar uma ideia com ele, pede uma foto. E eu acho isso tão… Uma bobagem. Imagina a pessoa assim: “Olha aqui a foto que eu tirei”. Ah, mas e aí? Ele é maneiro? Então, qualquer pessoa que vier até mim e falar assim: “Como é que está? Tudo bem? Tranquilo? Vamos tomar cervejinha?”. A pessoa vai ficar do meu lado. Agora, ficar toda hora pedindo foto, aí sim é chato.
– Comigo e com o Filipe Luís era incrível. A gente encontrava alguém no elevador, a pessoa parava para conversar, a gente conversava, ficava no elevador, porque queria realmente ter uma troca. Mas às vezes a troca não era uma foto, às vezes a troca era: “Está ansioso para o jogo de amanhã? De onde você veio para ver o jogo?”. Então, eu particularmente preferiria muito mais tomar uma cerveja, conversar, falar sobre alguma curiosidade que ele tem. Talvez as pessoas que me encontram têm a curiosidade de saber como era o Jorge, como era o Filipe, o Arrasca, mas não perguntam, preferem a foto. Eu acho isso errado, sabe? Quando a gente está almoçando com o Ney, a gente se pergunta: “como era no Bayern? Como é que era no Liverpool? Como é o Salah?”. Isso é muito mais do que uma foto, né?
Fora do futebol, quem você encontrou e teve a oportunidade de ter essa troca?
– Eu não peço foto. O meu maior ídolo no futebol é o Neymar. Ele já é praticamente meu amigo. Quando eu encontro o Matuê é muito legal. O Filipe Ret é muito maneiro. É que o meu maior ídolo mesmo é o Lewis Hamilton. Então eu estou tentando agora. Teve uma vez que eu ia encontrar com ele, não deu certo. E agora é a primeira vez que eu vou à Fórmula 1. Eu nunca fui. Eu prefiro Fórmula 1 do que futebol. Eu queria encontrar o Hamilton. Esse vou ter que pedir uma foto, mas o que queria mais era conversar com ele. Perguntar: “Está nervoso? Está ansioso? Como é que foi e tal?”. Estou vendo com ele para a gente trocar essa ideia.
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Surpreendeu você falar que gosta mais de Fórmula 1 do que de futebol…
– Porque é algo que eu sempre vi com o meu pai. Meu pai é totalmente fascinado também. Eu lembro que a gente sempre parava para ver as corridas. E até hoje é o que eu mais vejo. Tenho um simulador em casa. Às vezes falo com os pilotos também. Com o Bortoleto já falei, com o Gasly, com o Hamilton também por Instagram. Acho que é o esporte que me dá mais curiosidade, que eu gosto mais de ver do que ver um jogo.
Mas futebol você assiste? O Neymar deu entrevista outro dia falando que não assiste futebol.
– Não, eu assisto o Flamengo. Assistia o Santos quando estava no Flamengo, assisto o Cruzeiro agora. E gosto muito de ver jogos que têm jogadores que eu gosto, que me identifico. Barcelona por causa do Lamine, Real Madrid por causa do Mbappé, o Inter Miami por causa do Messi. Vejo jogos esporádicos. Vai ter a final da Libertadores agora, Palmeiras e Estudiantes. É óbvio que eu vou ver, né? geRead More


