Líder de seita acusado pela morte de 190 crianças é condenado a 200 anos de prisão
Paul Mackenzie, líder de culto no Quênia, comparece ao tribunal
REUTERS/Stringer
Um tribunal do Quênia condenou nesta sexta-feira (6) o líder religioso Paul Mackenzie a 200 anos de prisão pelos assassinatos de 190 crianças. Elas morreram de fome por ordem dele e foram enterradas em uma floresta.
As vítimas fazem parte de um grupo de cerca de 500 pessoas que teriam morrido em um dos piores massacres ritualísticos dos tempos modernos.
O caso de Mackenzie mobiliza o país da África Oriental desde abril de 2023, quando policiais encontraram restos mortais em uma floresta próxima à cidade costeira de Malindi, às margens do Oceano Índico. A descoberta deu início a uma investigação que levou à localização de mais de 400 corpos, quase metade deles de crianças.
Ex-motorista de táxi, Mackenzie fundou a Igreja Internacional Boas Novas em 2003. Com o passar dos anos, passou a fazer pregações cada vez mais apocalípticas e a incentivar seus seguidores a deixar de comer, assim como seus filhos, até morrerem de fome. Segundo ele, isso permitiria que todos chegassem ao céu antes do fim do mundo.
Seita religiosa deixa mortos no Quênia
Em um vídeo publicado no YouTube em março de 2023, Mackenzie, que tinha milhares de seguidores presencialmente e na internet, afirmou que era guiado pela “voz de Cristo” ao transmitir mensagens de que o mundo acabaria naquele ano.
“Segui a voz que me dizia que eu havia concluído o trabalho”, afirmou.
Mortes poderiam ter sido evitadas
Vídeos do pregador mostram Mackenzie usando roupas simples e falando calmamente para centenas de pessoas. Nas gravações, ele relatava suas experiências como exorcista e dizia ter vencido espíritos “demoníacos”.
Mackenzie negou as acusações de assassinato, homicídio culposo, tortura de crianças e terrorismo. O caso expôs falhas das autoridades quenianas e a falta de fiscalização sobre as igrejas no país, de maioria cristã.
A Comissão Nacional de Direitos Humanos do Quênia, órgão independente, afirmou que era deplorável que Mackenzie tivesse sido preso pela primeira vez em 2017 e acusado de radicalização, mas continuasse atuando por anos.
“Isso aponta para uma falha nos processos de investigação e acusação. A prisão deveria ter desencadeado investigações que teriam salvado a vida de várias pessoas”, afirmou a comissão em um relatório de 2024.
O presidente do Quênia, William Ruto, declarou que os órgãos do governo deveriam ter conseguido evitar as mortes. Ele também disse assumir a responsabilidade pelo ocorrido na condição de chefe de Estado.
Crianças viviam em terreno do pregador
Mackenzie cresceu em Kwale, uma região rural no sudeste do Quênia, e se mudou para Malindi no início da década de 1990, onde começou a trabalhar como motorista de táxi.
Na cidade, passou a se dedicar cada vez mais à religião, contou à Reuters, em 2023, Japheth Charo, que trabalhava como motorista ao lado dele.
“Ele começou a atacar outras religiões, como o islamismo e o catolicismo. Suas pregações começaram a ficar extremistas”, disse Charo, cuja família chegou a frequentar a igreja de Mackenzie, mas deixou o grupo depois que os sermões passaram a assustá-los.
Em 2012, Mackenzie registrou uma empresa de televisão chamada Good News Media e passou a transmitir suas pregações em um canal no YouTube que chegou a ter 7 mil inscritos, segundo a Comissão Nacional de Direitos Humanos do Quênia em um relatório sobre o caso.
Em 2017, a polícia fez uma busca no terreno de Mackenzie em Malindi e encontrou dezenas de crianças vivendo no local sem frequentar a escola. Ele foi acusado de oferecer educação em uma instituição não registrada, mas continuou com suas pregações até 2019, quando sua igreja foi fechada. Depois disso, mudou-se para a floresta de Shakahola.
Segundo a comissão de direitos humanos, as pessoas eram atraídas para o local pela promessa de terras cultiváveis a preços acessíveis. No entanto, ao chegar, encontravam uma milícia armada que impunha o jejum e a morte dos seguidores.
Aqueles que desobedeciam às ordens de ficar sem comer, ou que tentavam fugir, eram estrangulados ou mortos a pauladas, acrescentou o órgão.
Pregador mandava seguidores passar fome antes do fim do mundo
Mackenzie, que se acredita ter pouco mais de 50 anos, exercia forte controle sobre seus seguidores e os obrigava a romper relações com a sociedade. Segundo familiares das vítimas, ele proibia que frequentassem escolas ou hospitais, instituições que classificava como satânicas.
“Ele dizia para que passassem fome antes do fim do mundo, em 15 de abril, e afirmava que seria o último a fazer isso e que trancaria as portas”, contou à Reuters, em 2023, Stephen Mwiti, cuja mulher e seis filhos morreram.
A influência de Mackenzie sobre seus seguidores continuou mesmo depois que as valas comuns de Shakahola foram descobertas. Os promotores também o acusaram de envolvimento na morte de outras 52 pessoas, cujos corpos foram exumados no ano passado na vila de Kwa Binzaro, a cerca de 30 quilômetros de Shakahola.
Segundo a acusação, Mackenzie planejou e supervisionou os crimes em Kwa Binzaro mesmo enquanto estava detido, usando pregações extremistas para atrair vítimas ao local remoto.
Ele se declarou inocente nesse processo.g1 > Mundo Read More


