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Artista russa é presa por protestar contra a guerra nas etiquetas de preços

A artista russa Aleksandra Skochilenko foi presa em São Petesburgo por protestar de uma forma inusitada contra a guerra na Ucrânia: ela substituía as etiquetas de preços nos produtos dos supermercados locais por mensagens antiguerra, de acordo com a ONG Anistia Internacional.

Colocada em detenção pré-julgamento, a artista pode ser condenada a até dez anos de prisão, com base na recente lei que proíbe o cidadão russo de “desacreditar as forças armadas” e de divulgar o que o governo considera informações falsas sobre a guerra.

Detida inicialmente no dia 11 de abril, Skochilenko foi interrogada até as 3h da manhã seguinte. Na quarta-feira (13), uma corte de São Petersburgo ordenou que ela fosse colocada em prisão preventiva até 1º de junho, acusada justamente de “desacreditar as forças armadas russas”.

A audiência foi fechada ao público para “preservar o sigilo da investigação” e “garantir a segurança das testemunhas”, procedimento habitual na repressão aos dissidentes na Rússia. Segundo o advogado da artista, ela foi denunciada por um cliente de supermercado e presa inicialmente por “hostilidade política” e por “disseminar informações falsas”.

Aleksandra Skochilenko, presa por protestar contra a guerra nas etiquetas de preços (Foto: Instagram)

Skochilenko faz parte do movimento Resistência Feminista Antiguerra, que tem como uma de suas marcas a substituição das etiquetas de preços por mensagens de protesto. Até onde se sabe, o primeiro a fazer isso na Rússia foi Vladimir Zavyalov, preso na cidade de Smolenskno dia 5 de abril sob a mesma acusação que pesa agora contra a artista de São Petesburgo.

“Reprimir esse movimento antiguerra liderado por feministas representa mais uma tentativa desesperada de silenciar as críticas à invasão da Ucrânia pela Rússia. As autoridades russas continuam a fazer guerra contra os direitos humanos do povo russo”, disse Marie Struthers, diretora da Anistia para a Europa Oriental e Ásia Central.

Outra forma de protesto inusitada da Resistência, além dos tradicionais panfletos e de grafites nos muros das cidades russas, é estampar mensagens antiguerra em notas e moedas de rublo. Os ativistas também lançaram uma linha direta para oferecer apoio psicológico a outros ativistas, bem como uma fundação que ajuda cidadãos demitidos de empregos ou expulsos de universidades por suas opiniões.

Por que isso importa?

Na Rússia, protestar contra o governo já não era uma tarefa fácil antes da eclosão da guerra na Ucrânia. Desde a invasão do país vizinho por tropas russas, no dia 24 de fevereiro, o desafio dos opositores do presidente Vladimir Putin aumentou consideravelmente, com novos mecanismos legais à disposição do Estado e o aumento da violência policial para silenciar os críticos.

Nos últimos anos, os protestos coletivos praticamente desapareceram das ruas da Rússia. Isso porque o governo passou a usar a pandemia de Covid-19 como argumento para punir grandes manifestações, sob a alegação de que o acúmulo de pessoas fere as normas sanitárias. Assim, tornou-se comum ver pessoas solitárias erguendo cartazes com frases contra o governo.

Dentro da severa legislação para controle das manifestações na Rússia, os detidos têm que pagar multas que chegam a 300 mil rublos (R$ 16,9 mil), com possível pena de prisão por até 30 dias. Já uma lei do início de março, com foco na guerra, pune quem “desacredita o uso das forças armadas”. A pena mais rigorosa é aplicada por divulgar “informações sabidamente falsas” sobre o exército e a “operação militar especial” na Ucrânia, que é como o governo descreve a guerra. A reclusão pode chegar a 15 anos.

Jovem russa exibe cartaz com a frase “não matarás” em protesto antiguerra (Foto: reprodução/Twitter)

Apesar dos riscos, muitos russos enfrentam a repressão e a possibilidade de serem presos e protestam de diversas maneiras para deixar clara sua oposição ao conflito.

Em Moscou, no dia 15 de março, ignorando todos esses riscos, uma mulher escolheu como ponto de protesto a Catedral do Cristo Salvador. Em um cartaz, reproduziu o sexto mandamento segundo a Igreja Ortodoxa: “Não matarás”. Outra mulher desafiou a censura e se posicionou em uma esquina próxima do Kremlin com um cartaz que dizia “Não à guerra”. Ambas foram retiradas por policiais e colocadas em um camburão menos de dez minutos depois de exibirem os cartazes.

Yevgenia Isayeva, uma artista e ativista da cidade russa de São Petesburgo, optou por um protesto mais gráfico no domingo passado (27). Com um vestido branco, ela se posicionou em frente à prefeitura da cidade e, então, despejou tinta vermelha sobre a roupa, enquanto dizia repetidamente: “Meu coração sangra, meu coração sangra…”. Também teve poucos minutos para se manifestar antes de ser retirada à força.

Há, ainda, os manifestantes que querem deixar sua mensagens sem expor a própria imagem. Casos dos grafiteiros que têm feito surgir nos muros de cidades russas mensagens antiguerra. Também no domingo passado (27), dois homens foram presos na cidade de Tula, no sul do país, acusados de grafitar mensagens como “Derrubem Putin” e “Parem Putin”.

A jornalista russa Marina Ovsyannikova, por sua vez, ficou conhecida mundialmente por interromper um noticiário na TV estatal russa Canal 1 (Piervy Kanal) para protestar contra a invasão da Ucrânia. No dia 14 de março, ela se postou repentinamente atrás da apresentadora de um telejornal com um cartaz escrito em russo e inglês que dizia “Não à guerra, não acredite na propaganda. Eles estão mentindo para você”. Ela ficou no ar durante vários segundos até que o canal a tirasse de cena.

No dia seguinte ao protesto, a Justiça russa condenou a jornalista a pagar também uma multa de 30 mil rublos (cerca de R$ 1,69 mil), justificando de se tratar de uma “tentativa de organizar um protesto não autorizado”. Ovsyannikova diz que pediu demissão e que não pretende sair do país, alegando ter recusado uma oferta de asilo da França. Em abril, ela foi contratada como correspondente freelancer do jornal alemão Die Welt.

Coletivamente, um jeito diferente de protestar tem sido através de mensagens escritas em cédulas e moedas de rublos. O fenômeno passou a ser compartilhado em plataformas como Twitter, Telegram e Reddit. As mensagens são normalmente escritas à mão, sendo as frases mais comuns “não à guerra” e “russos contra a guerra”.

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Artista russa é presa por protestar contra a guerra nas etiquetas de preços

A artista russa Aleksandra Skochilenko foi presa em São Petesburgo por protestar de uma forma inusitada contra a guerra na Ucrânia: ela substituía as etiquetas de preços nos produtos dos supermercados locais por mensagens antiguerra, de acordo com a ONG Anistia Internacional.

Colocada em detenção pré-julgamento, a artista pode ser condenada a até dez anos de prisão, com base na recente lei que proíbe o cidadão russo de “desacreditar as forças armadas” e de divulgar o que o governo considera informações falsas sobre a guerra.

Detida inicialmente no dia 11 de abril, Skochilenko foi interrogada até as 3h da manhã seguinte. Na quarta-feira (13), uma corte de São Petersburgo ordenou que ela fosse colocada em prisão preventiva até 1º de junho, acusada justamente de “desacreditar as forças armadas russas”.

A audiência foi fechada ao público para “preservar o sigilo da investigação” e “garantir a segurança das testemunhas”, procedimento habitual na repressão aos dissidentes na Rússia. Segundo o advogado da artista, ela foi denunciada por um cliente de supermercado e presa inicialmente por “hostilidade política” e por “disseminar informações falsas”.

Aleksandra Skochilenko, presa por protestar contra a guerra nas etiquetas de preços (Foto: Instagram)

Skochilenko faz parte do movimento Resistência Feminista Antiguerra, que tem como uma de suas marcas a substituição das etiquetas de preços por mensagens de protesto. Até onde se sabe, o primeiro a fazer isso na Rússia foi Vladimir Zavyalov, preso na cidade de Smolenskno dia 5 de abril sob a mesma acusação que pesa agora contra a artista de São Petesburgo.

“Reprimir esse movimento antiguerra liderado por feministas representa mais uma tentativa desesperada de silenciar as críticas à invasão da Ucrânia pela Rússia. As autoridades russas continuam a fazer guerra contra os direitos humanos do povo russo”, disse Marie Struthers, diretora da Anistia para a Europa Oriental e Ásia Central.

Outra forma de protesto inusitada da Resistência, além dos tradicionais panfletos e de grafites nos muros das cidades russas, é estampar mensagens antiguerra em notas e moedas de rublo. Os ativistas também lançaram uma linha direta para oferecer apoio psicológico a outros ativistas, bem como uma fundação que ajuda cidadãos demitidos de empregos ou expulsos de universidades por suas opiniões.

Por que isso importa?

Na Rússia, protestar contra o governo já não era uma tarefa fácil antes da eclosão da guerra na Ucrânia. Desde a invasão do país vizinho por tropas russas, no dia 24 de fevereiro, o desafio dos opositores do presidente Vladimir Putin aumentou consideravelmente, com novos mecanismos legais à disposição do Estado e o aumento da violência policial para silenciar os críticos.

Nos últimos anos, os protestos coletivos praticamente desapareceram das ruas da Rússia. Isso porque o governo passou a usar a pandemia de Covid-19 como argumento para punir grandes manifestações, sob a alegação de que o acúmulo de pessoas fere as normas sanitárias. Assim, tornou-se comum ver pessoas solitárias erguendo cartazes com frases contra o governo.

Dentro da severa legislação para controle das manifestações na Rússia, os detidos têm que pagar multas que chegam a 300 mil rublos (R$ 16,9 mil), com possível pena de prisão por até 30 dias. Já uma lei do início de março, com foco na guerra, pune quem “desacredita o uso das forças armadas”. A pena mais rigorosa é aplicada por divulgar “informações sabidamente falsas” sobre o exército e a “operação militar especial” na Ucrânia, que é como o governo descreve a guerra. A reclusão pode chegar a 15 anos.

Jovem russa exibe cartaz com a frase “não matarás” em protesto antiguerra (Foto: reprodução/Twitter)

Apesar dos riscos, muitos russos enfrentam a repressão e a possibilidade de serem presos e protestam de diversas maneiras para deixar clara sua oposição ao conflito.

Em Moscou, no dia 15 de março, ignorando todos esses riscos, uma mulher escolheu como ponto de protesto a Catedral do Cristo Salvador. Em um cartaz, reproduziu o sexto mandamento segundo a Igreja Ortodoxa: “Não matarás”. Outra mulher desafiou a censura e se posicionou em uma esquina próxima do Kremlin com um cartaz que dizia “Não à guerra”. Ambas foram retiradas por policiais e colocadas em um camburão menos de dez minutos depois de exibirem os cartazes.

Yevgenia Isayeva, uma artista e ativista da cidade russa de São Petesburgo, optou por um protesto mais gráfico no domingo passado (27). Com um vestido branco, ela se posicionou em frente à prefeitura da cidade e, então, despejou tinta vermelha sobre a roupa, enquanto dizia repetidamente: “Meu coração sangra, meu coração sangra…”. Também teve poucos minutos para se manifestar antes de ser retirada à força.

Há, ainda, os manifestantes que querem deixar sua mensagens sem expor a própria imagem. Casos dos grafiteiros que têm feito surgir nos muros de cidades russas mensagens antiguerra. Também no domingo passado (27), dois homens foram presos na cidade de Tula, no sul do país, acusados de grafitar mensagens como “Derrubem Putin” e “Parem Putin”.

A jornalista russa Marina Ovsyannikova, por sua vez, ficou conhecida mundialmente por interromper um noticiário na TV estatal russa Canal 1 (Piervy Kanal) para protestar contra a invasão da Ucrânia. No dia 14 de março, ela se postou repentinamente atrás da apresentadora de um telejornal com um cartaz escrito em russo e inglês que dizia “Não à guerra, não acredite na propaganda. Eles estão mentindo para você”. Ela ficou no ar durante vários segundos até que o canal a tirasse de cena.

No dia seguinte ao protesto, a Justiça russa condenou a jornalista a pagar também uma multa de 30 mil rublos (cerca de R$ 1,69 mil), justificando de se tratar de uma “tentativa de organizar um protesto não autorizado”. Ovsyannikova diz que pediu demissão e que não pretende sair do país, alegando ter recusado uma oferta de asilo da França. Em abril, ela foi contratada como correspondente freelancer do jornal alemão Die Welt.

Coletivamente, um jeito diferente de protestar tem sido através de mensagens escritas em cédulas e moedas de rublos. O fenômeno passou a ser compartilhado em plataformas como Twitter, Telegram e Reddit. As mensagens são normalmente escritas à mão, sendo as frases mais comuns “não à guerra” e “russos contra a guerra”.

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