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Líder checheno insta governadores russos a mobilizar voluntários para a guerra

Incomodado com o fraco desempenho militar das tropas da Rússia na Ucrânia, sobretudo depois de Kiev reconquistar milhares de quilômetros quadrados de território graças a uma bem-sucedida contraofensiva, o líder checheno Ramzan Kadyrov instou governadores de outras regiões a iniciar uma mobilização de voluntários para reforçar as tropas de Moscou no campo de batalhas. As informações são do jornal independente The Moscow Times.

“A Rússia é um Estado federal, no qual as regiões podem iniciar qualquer empreendimento, como a automobilização”, afirmou Kadyrov em seu canal no aplicativo de mensagens Telegram. “Não devemos esperar que o Kremlin declare a lei marcial ou sentar e esperar pelo fim da [campanha] na Ucrânia”.

Após a Ucrânia anunciar o sucesso de sua contraofensiva, Kadyrov havia criticado a estratégia russa, projetando que o território perdido seria retomado futuramente. “Não sou um estrategista como os do Ministério da Defesa. Mas é claro que erros foram cometidos. Acho que eles vão tirar algumas conclusões”, disse o líder checheno no começo da semana, segundo o jornal independente Novaya Gazeta Europa.

Encontro entre o presidente russo Vladimir Putin e Ramzan Kadyrov em 2018 (Foto: Kremlin)

Com a proposta de mobilização, o objetivo do líder checheno é o de que cada região envie ao menos mil voluntários, o que permitiria a Moscou reforçar suas forças com 85 mil combatentes. Num primeiro momento, três governadores das 85 regiões russas manifestaram “apoio total” à iniciativa.

Entre os entusiastas da ideia está Sergei Aksyonov, que comanda a península da Crimeia, anexada por Moscou em 2014. Ele afirmou que a região já enviou 1,2 mil combatentes e pretende formar mais dois batalhões. “Estamos fornecendo a eles uniformes de combate, equipamentos de proteção, equipamentos de comunicação e reconhecimento”, declarou.

Por sua vez, Roman Starovoit, governador de Kursk, disse que enviou 800 voluntários à guerra e que mais pessoas estão sendo recrutadas para defender a região de uma eventual ataque ucraniano. O terceiro a apoiar Kadyrov foi Sergei Nosov, de Magadan. Ele, no entanto, afirmou que cada região deveria contribuir dentro das suas capacidades, sugerindo uma mobilização proporcional ao número de habitantes.

Por que isso importa?

As baixas russas na guerra seguem um mistério, pois o país não divulga dados oficiais. No dia 8 de agosto, Washington apresentou uma estimativa, sugerindo que entre 70 mil e 80 mil soldados russos foram mortos ou feridos. Alguns dias antes, em 20 de julho, William Burns, diretor da CIA (Agência Central de Inteligência), afirmou que 15 mil soldados russos haviam morrido na guerra até então.

A fim de contornar o problema, o presidente Vladimir Putin determinou em agosto o aumento legal do efetivo de suas forças armadas. Um decreto assinado por ele criou 137 mil novos postos militares, aumentando em 10% o número de combatentes ativos e atingindo assim um efetivo de 1,15 milhão. Não haverá aumento nas vagas destinadas a civis, que completam o quadro das forças armadas. Atualmente, há 1,9 milhão de postos, entre civis e militares. Com o novo recrutamento, que entra em vigor no dia 1º de janeiro de 2023, serão cerca de 2,05 milhões.

Enquanto o decreto não entra em vigor, a Rússia tem recorrido a alternativas emergenciais para ampliar seu efetivo na Ucrânia. Uma delas é enviar ao campo de batalha soldados com pouco treinamento militar, uma prática que coloca a vida deles em risco e compromete o rendimento geral das tropas, segundo especialistas.

Soldados que participaram do conflito confirmaram ter passado por um treinamento curto, com duração entre cinco e dez dias. Uma prática que contraria o Ministério da Defesa da Rússia, segundo o qual uma preparação de quatro semanas é necessária para considerar o soldado apto. 

O ministério descreve a rotina de preparação e deixa claro o prazo: “Em quatro semanas, são realizadas aulas práticas (até 240 horas), aulas em simuladores (até 10 horas), treinamento físico (até 36 horas), treinamento tático (até 32 horas), treinamento especial (até 50 horas), exercícios de tiro AK-74 (9 vezes e 200 rodadas) e lançamento de granadas (7 vezes)”.

Soldados do exército russo em treinamento: falta de mão de obra (Foto: eng.mil.ru)

O analista militar independente Pavel Luzin avalia como inadequada a preparação reduzida. “Uma semana [de treinamento] não é nada. Para um soldado, é um caminho direto para um hospital ou um saco para cadáveres”, afirmou.

Samuel Cranny-Evans, analista militar do think tank Royal United Services Institute, em Londres, diz que não é apenas o treinamento de combate que faz falta: “Há muito a aprender em termos de coordenação e cooperação com uma equipe. E é bastante demorado”.

A situação é ainda mais delicada no caso dos conscritos, soldados recrutados pelo governo e enviados ao campo de batalha mesmo contra a própria vontade. Nessas situações, o envio à guerra só é permitido pela legislação russa após quatro meses de serviço militar.

Desde o início do conflito, Moscou afirma que apenas soldados profissionais fazem parte do que o governo classifica como “operação militar especial“. Em março, porém, o Ministério da Defesa admitiu que alguns conscritos foram enviados por engano, mas já teriam sido levados de volta à Rússia. Inclusive, houve a promessa de punições aos oficiais que os enviaram à guerra.

Até presidiários tornaram-se uma opção para as forças armadas. A ONG de direitos humanos Gulagu.net, que monitora o sistema carcerário do país, diz que detentos têm sido convocados para a guerra pela FSB (Agência de Segurança Federal, da sigla em inglês) e pelo Wagner Group, uma organização paramilitar que serve aos interesses do Kremlin e esta ativa na Ucrânia. Os centros de recrutamento seriam colônias penais das regiões de São Petesburgo, Tver, Ryazan, Smolensk, Rostov, Voronezh e Lipetsk.

De acordo com Vladimir Osechkin, chefe da ONG, o recrutamento nas prisões chegou a ser feito pessoalmente por Yevgeny Prigozhin, principal financiador do Wagner Group e importante aliado de Putin. Ele foi a algumas unidades prisionais oferecer o perdão presidencial em troca dos serviços no campo de batalhas na Ucrânia. Um preso que presenciou o recrutamento afirmou que condenados por homicídio premeditado e roubo são especialmente bem-vindos, nas palavras do recrutador.

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Incomodado com o fraco desempenho militar das tropas da Rússia na Ucrânia, sobretudo depois de Kiev reconquistar milhares de quilômetros quadrados de território graças a uma bem-sucedida contraofensiva, o líder checheno Ramzan Kadyrov instou governadores de outras regiões a iniciar uma mobilização de voluntários para reforçar as tropas de Moscou no campo de batalhas. As informações são do jornal independente The Moscow Times.

“A Rússia é um Estado federal, no qual as regiões podem iniciar qualquer empreendimento, como a automobilização”, afirmou Kadyrov em seu canal no aplicativo de mensagens Telegram. “Não devemos esperar que o Kremlin declare a lei marcial ou sentar e esperar pelo fim da [campanha] na Ucrânia”.

Após a Ucrânia anunciar o sucesso de sua contraofensiva, Kadyrov havia criticado a estratégia russa, projetando que o território perdido seria retomado futuramente. “Não sou um estrategista como os do Ministério da Defesa. Mas é claro que erros foram cometidos. Acho que eles vão tirar algumas conclusões”, disse o líder checheno no começo da semana, segundo o jornal independente Novaya Gazeta Europa.

Encontro entre o presidente russo Vladimir Putin e Ramzan Kadyrov em 2018 (Foto: Kremlin)

Com a proposta de mobilização, o objetivo do líder checheno é o de que cada região envie ao menos mil voluntários, o que permitiria a Moscou reforçar suas forças com 85 mil combatentes. Num primeiro momento, três governadores das 85 regiões russas manifestaram “apoio total” à iniciativa.

Entre os entusiastas da ideia está Sergei Aksyonov, que comanda a península da Crimeia, anexada por Moscou em 2014. Ele afirmou que a região já enviou 1,2 mil combatentes e pretende formar mais dois batalhões. “Estamos fornecendo a eles uniformes de combate, equipamentos de proteção, equipamentos de comunicação e reconhecimento”, declarou.

Por sua vez, Roman Starovoit, governador de Kursk, disse que enviou 800 voluntários à guerra e que mais pessoas estão sendo recrutadas para defender a região de uma eventual ataque ucraniano. O terceiro a apoiar Kadyrov foi Sergei Nosov, de Magadan. Ele, no entanto, afirmou que cada região deveria contribuir dentro das suas capacidades, sugerindo uma mobilização proporcional ao número de habitantes.

Por que isso importa?

As baixas russas na guerra seguem um mistério, pois o país não divulga dados oficiais. No dia 8 de agosto, Washington apresentou uma estimativa, sugerindo que entre 70 mil e 80 mil soldados russos foram mortos ou feridos. Alguns dias antes, em 20 de julho, William Burns, diretor da CIA (Agência Central de Inteligência), afirmou que 15 mil soldados russos haviam morrido na guerra até então.

A fim de contornar o problema, o presidente Vladimir Putin determinou em agosto o aumento legal do efetivo de suas forças armadas. Um decreto assinado por ele criou 137 mil novos postos militares, aumentando em 10% o número de combatentes ativos e atingindo assim um efetivo de 1,15 milhão. Não haverá aumento nas vagas destinadas a civis, que completam o quadro das forças armadas. Atualmente, há 1,9 milhão de postos, entre civis e militares. Com o novo recrutamento, que entra em vigor no dia 1º de janeiro de 2023, serão cerca de 2,05 milhões.

Enquanto o decreto não entra em vigor, a Rússia tem recorrido a alternativas emergenciais para ampliar seu efetivo na Ucrânia. Uma delas é enviar ao campo de batalha soldados com pouco treinamento militar, uma prática que coloca a vida deles em risco e compromete o rendimento geral das tropas, segundo especialistas.

Soldados que participaram do conflito confirmaram ter passado por um treinamento curto, com duração entre cinco e dez dias. Uma prática que contraria o Ministério da Defesa da Rússia, segundo o qual uma preparação de quatro semanas é necessária para considerar o soldado apto. 

O ministério descreve a rotina de preparação e deixa claro o prazo: “Em quatro semanas, são realizadas aulas práticas (até 240 horas), aulas em simuladores (até 10 horas), treinamento físico (até 36 horas), treinamento tático (até 32 horas), treinamento especial (até 50 horas), exercícios de tiro AK-74 (9 vezes e 200 rodadas) e lançamento de granadas (7 vezes)”.

Soldados do exército russo em treinamento: falta de mão de obra (Foto: eng.mil.ru)

O analista militar independente Pavel Luzin avalia como inadequada a preparação reduzida. “Uma semana [de treinamento] não é nada. Para um soldado, é um caminho direto para um hospital ou um saco para cadáveres”, afirmou.

Samuel Cranny-Evans, analista militar do think tank Royal United Services Institute, em Londres, diz que não é apenas o treinamento de combate que faz falta: “Há muito a aprender em termos de coordenação e cooperação com uma equipe. E é bastante demorado”.

A situação é ainda mais delicada no caso dos conscritos, soldados recrutados pelo governo e enviados ao campo de batalha mesmo contra a própria vontade. Nessas situações, o envio à guerra só é permitido pela legislação russa após quatro meses de serviço militar.

Desde o início do conflito, Moscou afirma que apenas soldados profissionais fazem parte do que o governo classifica como “operação militar especial“. Em março, porém, o Ministério da Defesa admitiu que alguns conscritos foram enviados por engano, mas já teriam sido levados de volta à Rússia. Inclusive, houve a promessa de punições aos oficiais que os enviaram à guerra.

Até presidiários tornaram-se uma opção para as forças armadas. A ONG de direitos humanos Gulagu.net, que monitora o sistema carcerário do país, diz que detentos têm sido convocados para a guerra pela FSB (Agência de Segurança Federal, da sigla em inglês) e pelo Wagner Group, uma organização paramilitar que serve aos interesses do Kremlin e esta ativa na Ucrânia. Os centros de recrutamento seriam colônias penais das regiões de São Petesburgo, Tver, Ryazan, Smolensk, Rostov, Voronezh e Lipetsk.

De acordo com Vladimir Osechkin, chefe da ONG, o recrutamento nas prisões chegou a ser feito pessoalmente por Yevgeny Prigozhin, principal financiador do Wagner Group e importante aliado de Putin. Ele foi a algumas unidades prisionais oferecer o perdão presidencial em troca dos serviços no campo de batalhas na Ucrânia. Um preso que presenciou o recrutamento afirmou que condenados por homicídio premeditado e roubo são especialmente bem-vindos, nas palavras do recrutador.

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