Jogadores vão e vêm
O futebol detém uma beleza única nas suas histórias e enredos singulares que facilmente nos fazem confundi-lo com uma fábula. Histórias que só poderiam existir em contos, vez ou outra acontecem na vida real do futebol, como por exemplo, ver o título do Brasileirão escapar por entre os dedos num ano, mas no ano seguinte conquistá-lo, ou ser campeão da Libertadores com um jogador a menos desde o primeiro minuto da partida final. As histórias que o futebol realiza são tão fantásticas que parecem surreais.
A vivência de feitos incríveis como esses e das tristezas das derrocadas forma o elo essencial e indissolúvel do futebol: aquele entre clube e torcida. Um amor que transcende a lógica e o resultado e que resiste ao tempo. O amor da torcida com o clube é a única coisa inquebrantável no futebol. Todo o resto, uma hora ou outra, se vai.
Marlon Freitas beija taça da Libertadores do Botafogo
Vitor Silva/Botafogo
Encerrar ciclos é importantíssimo para a vida do clube – e também para a vida do jogador. É difícil de fazê-lo e mais difícil ainda de ser compreendido por quem, da arquibancada, aprendeu que futebol é sinônimo de amor incondicional. Mas o futebol longe do conto de fadas é racional e profissional. Essa constatação já foi feita há muito tempo pelos jogadores, e os clubes bem administrados finalmente compreenderam essa lógica. Não há espaço para sentimentalismo num esporte que virou negócio.
Marlon Freitas, o capitão, fez muito pelo Botafogo. Mas aos 30 anos se viu diante de uma bela proposta salarial e 3 anos de contrato. É totalmente natural que o atleta, profissional, pondere o que é interessante nesse momento da carreira, tão curta como é a de um atleta. Vai servir um rival dos últimos anos, com a competência de sempre, porque, como já dito, é um profissional.
O Botafogo também parece ter visto a situação como um bom negócio, tanto que liberou o jogador para seguir a negociação. Deve ter entendido que o ciclo do capitão se encerrou e preferiu fazer um bom negócio a insistir em mais alguns anos de um ciclo que poderia ser custoso de ser encerrado lá na frente. Sempre acreditei que uma das maiores dificuldades dos clubes brasileiros depois que conseguem ser campeões é justamente ter a frieza de abrir mão de jogadores-ídolos. Elogio, inclusive, a capacidade que o Flamengo teve de decidir que alguns jogadores icônicos deveriam sair, sem fazer muito esforço para mantê-los, como Everton Ribeiro e Gabigol, dois jogadores de muita qualidade, mas que por alguma razão não se encaixavam mais no projeto. O Flamengo foi campeão de novo esse ano. Sem esses jogadores.
É irônico como o clube é dependente de bons negócios para se manter competitivo, ao mesmo tempo em que só encontra razão de existir se é sustentado pelo amor desmedido da torcida. No mundo real, o jogo é frio, é número, é negócio. Mas paixão é indispensável. No final das contas, é ela quem dá a certeza de que o clube vai seguir e sobreviver, independente de quem vai embora. geRead More


