Algoz do Flamengo se divide entre o Carioca e o medo de forçarem sua família a voltar para o Haiti
Garrinsha brilha pelo Bangu e Flamengo segue sem vencer no Cariocão
Um atacante haitiano com nome de craque roubou a cena na primeira rodada do Campeonato Carioca: Garrinsha, batizado em homenagem à lenda do futebol brasileiro e mundial, deu assistência e fez um golaço na vitória do Bangu por 2 a 1 sobre o Flamengo. O chute inapelável de chapa foi parar no ângulo de Léo Nannetti, jovem goleiro rubro-negro.
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Ao mesmo tempo em que colhe os louros da grande atuação, Garrinsha faz o que pode à distância e acompanha a demora no processo de retirada do visto dos pais e da irmã mais nova, que vivem nos Estados Unidos. O jogador de 24 anos se divide entre o melhor momento da carreira e o medo de forçarem sua família a voltar para o Haiti.
“Tudo que eu quero é minha família aqui comigo”, confessou ao ge.
Garrinsha comemora gol do Bangu contra o Flamengo
João Gama / Bangu
Garrinsha vive a expectativa de que a família se junte a ele no Rio de Janeiro nos próximos meses. Ele conta com o apoio da organização não governamental que está por trás do projeto do Pérolas Negras, clube que detém os seus direitos – o haitiano está emprestado ao Bangu até o dia 15 de março. O Viva Rio presta auxílio consular aos refugiados sob sua responsabilidade e está a par da situação de Joseph Garry (pai), Gina Jean (mãe) e Gabriela (irmã).
Captado pelo Pérolas Negras, o jogador do Bangu saiu do Haiti em 2019. Sua família seguiu no país, mas em 2022 buscou refúgio nos Estados Unidos depois que o assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse provocou uma escalada na crise política e de segurança. O Haiti no momento é palco de uma violenta guerra civil.
– Depois que mataram o presidente lá, invadiram o nosso bairro, mataram muita gente. Meus pais tiveram que sair de lá. […] Se Deus quiser, em breve eles vão estar aqui comigo – torce Garrinsha.
O plano inicial era trazê-los para o Brasil. Nesse caso, eles poderiam solicitar o visto de reunião familiar, mas um erro na emissão do passaporte brasileiro de Garrinsha adiou esse sonho: no documento, o sobrenome Estimphile foi escrito com “n” em vez de “m”, o que poderia ser um empecilho no momento de provar que ele, os pais e a irmã são da mesma família.
Joseph, Gina e Gabriela, então, aproveitaram a política facilitadora do governo de Joe Biden no que diz respeito ao acolhimento de refugiados e conseguiram se mudar para os Estados Unidos – na época do presidente democrata, era possível solicitar os vistos de maneira online. Eles foram viver na cidade de Durham, no estado da Carolina do Norte.
Os pais e a irmã mais nova de Garrinsha, atacante do Bangu, vivem nos Estados Unidos e querem vir para o Brasil
Arquivo Pessoal
“É uma situação um pouco dramática”
O cenário mudou depois que Donald Trump venceu as eleições de 2024 e retomou a presidência dos Estados Unidos. Defensor de uma política conservadora, o republicano desde então vem fechando o cerco contra os imigrantes no país.
– É uma situação um pouco dramática. Com o Trump, os Estados Unidos passaram a pressionar os imigrantes não apenas para serem deportados, mas para que sejam deportados de volta para seus países de origem. O Haiti se tornou um inferno nesses últimos anos, o haitiano hoje tem dificuldade de ir na esquina comprar verdura, com episódios de minissequestros e violência. Ficou inviável viver lá – explicou ao ge Rubem César Fernandes, um dos diretores-fundadores do Viva Rio e do Pérolas Negras.
A família de Garrinsha, que havia se estabelecido nos Estados Unidos, voltou a concentrar esforços para obter o visto brasileiro. Recentemente, o pai do jogador, que tinha um emprego de vendedor, teve a permissão de trabalho suspensa.
Garrinsha comemora gol em Bangu x Flamengo
João Gama/Bangu
Como o consulado mais próximo de Durham fica em Washington, até mesmo a viagem de cerca de seis horas de duração até a capital representa um perigo para os haitianos diante das ameaças do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês). Na semana passada, uma mulher foi assassinada a tiros por um agente do ICE em Minneapolis.
Com ajuda do projeto Haiti Aqui, um dos braços do Viva Rio que cuida da integração social e proteção legal a imigrantes, a família de Garrinsha está em contato com o consulado brasileiro desde ao ano passado e vem reunindo a documentação necessária para dar entrada no pedido do visto, o que deve ocorrer nas próximas semanas. A expectativa é de que, depois disso, o processo corra com agilidade. geRead More


