Larri Passos explica fama de pitbull do Guga, revela recusa a Djoko e diz que ATP protegia gringos: “Máfia”
“Era o Guga e eu contra o mundo”. Essa era a sensação do técnico Larri Passos ao percorrer o circuito profissional de tênis ao lado do pupilo no fim dos anos 90 e início do anos 2000. Em meio a americanos, ingleses, russos e demais feras do esporte, estavam lá, disputando o topo do ranking mundial e os títulos mais importantes dos torneios, o catarinense, apelidado de Manezinho da Ilha, e seu inseparável treinador, careca, com bigode imponente e sotaque gaúcho. Eram os “penetras” na festa de norte-americanos e europeus.
Larri Passos relembra sucesso com Guga, “máfia” da ATP e luta contra o câncer
Em entrevista concedida ao quadro Abre Aspas, do ge, em sua academia de tênis na cidade de Camboriú, Santa Catarina, Larri Passos justifica que o sentimento de “contra tudo e contra todos” acontecia por ver que a ATP tinha seus “atletas preferidos”.
— Era uma máfia, você tinha que enfrentar. (…) A ATP protegia os ingleses, os americanos. Vocês acham que a ATP torcia para o Guga ser o número 1 do mundo? De maneira nenhuma! Um americano, um europeu, terminar como melhor do mundo, vai dar muito mais… A gente lutava contra o mundo, cara.
Larri Passos e Guga, selo Abre Aspas
Infoesporte
A presença constante ao lado de Guga Kuerten fazia Larri Passos ser o encarregado de fazer o árduo trabalho de dizer “não”. Era o técnico que se indispunha para servir de escudo e proteger o pupilo.
— Os caras davam no meio de mim. Eu tinha que fazer isso porque, para atingir o sucesso, eu teria que pagar um preço bem caro. E esse preço eu paguei muito caro, tomei muita porrada. Ah, o Larri é carrasco, é o pitbull. Minha academia era considerada um bunker.
Larri Passos vive nos Estados Unidos há mais de uma década
Marcelo Barone
Entre recordações de títulos históricos — como o tricampeonato de Guga em Roland Garros —, e momentos felizes da carreira, Larri Passos só chora ao falar sobre o diagnóstico de câncer. Em 2018, foi submetido a uma cirurgia para retirar a próstata. Temeu pela vida. Profissionalmente, a trajetória estava consolidada, mas, na vida pessoal, acompanhava o crescimento das filhas Bettina e Sofia.
— Conversei com Deus e perguntei para ele se eu tinha uma chance. Fui feliz na Terra, conquistei tudo o que queria, mas tinha duas filhas. Elas subiam no ônibus escolar, e eu chorava que nem um condenado. Minhas filhas estavam no auge. Era muito difícil. Meu câncer tinha um grau muito alto. Se eu olhar para trás, eu não cuidei de mim. Cuidei de todo mundo e esqueci de cuidar de mim.
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Radicado na Flórida, Larri divide sua rotina e vem com frequência ao Brasil, onde é dono e administra a Larri Passos Tênis Pro. Nos Estados Unidos, trabalha como técnico particular, presta consultoria e ministra clínicas e palestras. Aos 68 anos, ainda sonha com o topo.
— Aqui se formou um número 1 do mundo. A parte de inspiração, de querer chegar de novo e ter um jogador no topo, é a mesma de quando eu tinha 23 anos de idade. Meus sonhos continuam muito vivos.
Questionado sobre qual atleta gostaria de ter treinado, ele cita Novak Djokovic e revela que houve esta possibilidade no início da carreira do sérvio, mas recusou o convite.
— Eu tive oportunidade de trabalhar com Djokovic, Murray, mas na época eu não quis. Minha relação com Guga foi tão forte, tão forte, que achei que nunca mais fosse treinar um homem. Comecei a trabalhar com tênis feminino. Mas talvez eu devesse ter aceitado o convite do manager do Djokovic, quando ele tinha 19 anos. Seria uma parceria legal com o Djoko. Tsonga me sondou também para trabalhar com ele. Eu e Djoko seria legal, melhoraria o jogo dele no saibro, ele ganharia mais no saibro. O Djoko tinha condições de ganhar mais no saibro.
Ficha Técnica
Nome: Larri Antônio dos Passos
Idade: 68 anos (30 de dezembro de 1957)
Atletas que treinou: Gustavo Kuerten, Bia Haddad Maia, Thomaz Bellucci, Daniela Hantuchova, Tamira Paszek, dentre outros
Abre Aspas: Larri Passos
ge: A conquista do Guga Kuerten em Roland Garros 1997 surpreendeu o Brasil. Para você, como foi? Fala-se sempre na mudança de vida do Guga depois desse título, mas também mudou a sua trajetória.
— Sem dúvida nenhuma, 1997 foi um divisor de águas. Pegou todo mundo de surpresa pela vitória dele. Mas, para mim, não foi surpresa nenhuma pela performance que ele vinha tendo. Deu muito trabalho (risos), mas eu me preparei bem. Desde 1986, quando fui para a Europa buscar conhecimento, tinha na cabeça que poderia acontecer alguma coisa. O dia seguinte (da conquista) foi bastante duro, porque quando ele começa a ter resultado nas quartas de final, não tinha mais bolso para guardar cartões de visitas de empresários. Eu tentava manter os pés no chão. O bacana foi que eu preparei um iglu para a minha equipe lá dentro. A gente se fechou, a energia não saiu ali de dentro. Esperar para depois falar de negócios. Foi um desafio muito grande. Eu estava bem preparado para suportar tudo isso, para falar: “pessoal, hoje ele não vai dar entrevista, vamos trabalhar, treinar”.
Larri recorda conquistas históricas de Guga Kuerten
Guga e Larri: parceria de longa data
Arquivo Pessoal
Quais as lembranças da comemoração?
— Eu me lembro bem do match point. Quando ele ganha, eu desapareci, até me arrepio, sinto muito esse momento. “E agora, meu Deus do céu? Me ajuda”. Já estava pensando na segunda-feira. A comemoração interna foi zero. Hoje, pensando bem, deveria ter comemorado muito mais. Fomos para Bolonha treinar logo depois. Depois da vitória, fomos para o vestiário, nós dois, no canto, fazendo nossa oração, foi um momento único. E a frase que não sei de onde veio foi: “Vamos continuar os mesmos”. Uma frase pura, natural. Em vez de gritar “conseguimos, cavalo”. Foi uma frase típica de um momento em que eu estava vendo o futuro e precisava segurar a cabeça dele. Ele olhou para mim e disse: “Sim, vamos. Vamos continuar os mesmos”. Foi bacana. Não o coloquei dentro de uma redoma, deixei o Manezinho da Ilha solto, natural, simples, humilde, sem glamour. Foi um momento muito bacana.
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Foi uma frase de quem sabia que a fama atrairia dinheiro, novas amizades, assédio de fãs, de patrocinadores e outras possibilidades?
— Você levanta uma questão muito legal. Um desses cartões que eu recebi era de um expert em propaganda, querendo fazer um trabalho de marketing em cima do Guga. Eu tive que continuar sendo o escudo dele naquele momento, sabendo da personalidade dele. O primeiro contrato que veio foi de bebida alcoólica, uma cerveja. Era uma pu** grana. Na reunião de Wimbledon foi incrível, são bastidores que ninguém sabe. Botaram o valor na mesa, foi incrível (risos). E eu disse não. Todo mundo me olhou assim… Pessoal, se abrirmos a imagem dele com bebida alcoólica, vamos matar os futuros contratos. Bebida alcoólica, agora, não. Ele tem que ser trabalhado de uma forma bacana, alegre, da personalidade dele. O Guga não é da noite, de sair, de beber. Eu continuei matando no peito, sendo o escudo dele por muitos anos.
De que forma você fazia essa blindagem? Certamente houve muitas outras propostas recusadas. Teve algum momento em que o Guga questionou alguma decisão sua?
— Eu levava (a proposta) para ele, a gente se sentava e conversava. Em 1996, tinha uma proposta para jogar seis partidas do Interclubes por 300 mil dólares, e eu ganharia 20%. E eu era “durango”, não tinha dinheiro em 1996, nós dois éramos. Quando levei a proposta no quarto — com 100 mil a gente viajaria o ano inteiro — ele olhou para mim e disse: “Você que decide”. Eu falei: “Você não vai jogar o Interclubes. Vamos jogar o circuito ATP”. Desci do andar e falei para o manager que não ia fechar. Eu era manager também, um pouco manager e um pouco coach. Como não aceitar essa proposta? Sessenta mil dólares na época era muito dinheiro para mim.
— Todas as decisões eram tomadas no quarto com ele, eu conversava, explicava o calendário. Naquele momento foi uma tomada de decisão muito boa. Como eu o blindava? Eu dizia assim: “Batam em mim, mas não batam nele”. O cara viajava 14h de avião e tinha que atender a imprensa. Ele dizia: “Larri, não estou com saco, não”. Eu chegava e falava: “O Guga não vai dar entrevista. Vamos trabalhar, treinar”. Os caras davam no meio de mim. Eu tinha que fazer isso porque, para atingir o sucesso, eu teria que pagar um preço bem caro. E esse preço eu paguei muito caro, tomei muita porrada.
Quais foram as porradas?
Escudo de Guga, Larri explica fama de pitbull e diz que apanhou para defender pupilo
— Ah, o Larri é carrasco, é o pitbull, tem um bunker. Minha academia era considerada um bunker. Tinha 500 pessoas do lado de fora, eu botava de 50 em 50 para assistir aos treinos, organizava de uma forma que não tirasse a privacidade. Era difícil. O pessoal batia na porta, as televisões vinham, e eu dizia: “Pessoal, a coletiva de imprensa é sexta-feira, não vou abrir mão”. Começaram a me questionar. Foi difícil. Foi muita porrada para administrar tudo isso até chegar a número 1 do mundo. Hoje, com a mídia toda, é muito mais tranquilo de administrar.
Guga – Roland Garros 1997
Gary M. Prior/Getty Images
Você falou que era “durango”. Quando a maré começou a virar?
— Em 1998, eu morava em um apartamento de dois quartinhos no térreo. O pessoal vinha e apertava o interfone. Uma vez me falaram: “Larri, você tem que comprar um apartamento diferenciado, em um lugar mais alto”. Será que tenho que fazer isso? Troquei o apartamento, fui morar em um lugar mais privado, para ter um pouquinho mais de sossego. O final de 1999 foi um divisor de águas para mim, eu falei: “Puxa vida, está acontecendo tanta coisa boa”. Eu resolvi fazer um projeto social aqui na minha área. Eu chegava no restaurante para pagar e falavam: “Você não vai pagar a conta”. “Agora que eu tenho dinheiro não pago a conta? Quando eu não tinha vocês cobravam”. Eu brincava muito (risos).
— Tem uma história legal sobre dinheiro. Em 96, a gente estava em Praga. O Guga fez a final do Challenger. Passou pelo qualifying do ATP Tour, ganhou do (Andrei) Chesnokov na primeira rodada, fui ver o “prize money” (valor da premiação) e falei: “Meu Deus do céu, agora ficou bom”. O Guga ia jogar contra o (Fabrice) Santoro, e eu falei para ele tomar cuidado. “O Santoro é muito ruim, Larri”. Perdeu para o Santoro! Pelo amor de Deus, nunca mais vou olhar o “prize money” e os pontos. Tirei os números da cabeça. Fui correr por uma hora e meia na beira do rio Danúbio para esquecer a cagada que eu tinha feito, porque foquei no dinheiro e nos pontos.
O Guga te deu um carrão importado dois anos depois, pelo menos.
— Ele me deu uma Mercedes, em 1998. Foi um presente de grego, vocês não têm ideia do perrengue. No vestiário, ele falou: “Larri, o que eu faço se eu ganhar o carro?”. Eu falei: “Se vira”. Quando ele ganhou, ele disse: “O carro vai para o meu coach Larri Passos”. Meu Deus do Céu! Eu sabia que para trazer o carro para o Brasil tinha que pagar 70% de imposto. Falei com o diretor para deixar a Mercedes lá e vendi no fim do ano, custava 50 mil dólares. Na época tinha o Marea Turbo. Comprei para o Guga dizer que me deu um carro. Usei até fundir o motor. E a segunda Mercedes, eu falei: “Você tem seu Instituto. Vende e aplica o dinheiro no projeto social”. E ele realmente fez. Eu não queria andar de Mercedes. Mais tarde tive um Porsche nos Estados Unidos, era meu sonho.
Larri diz que carro foi presente de grego
— Eu comprei meu Jeep Wrangler em 2000. Tenho até hoje, está aqui em casa rodando (risos). Comprei imóveis, investi nestas terras para fazer minha academia. Quando eu estava aterrando aqui, um senhor que preparava o lugar para o Guga poder treinar, quadra dura, piscina, ele falava: “Só de caminhão de terra dava para o senhor comprar umas cinco Ferraris”. E dava risada. Eu sou um cara que gosto de agradecer sempre, nunca pedi nada. Quando começou a entrar grana, vamos estabilizar, comprar uma apartamento legal, para ter uma vida mais tranquila no futuro.
Foi o presente mais marcante que ele te deu?
— Uma vez estávamos indo para Tóquio. Quando chego no avião, ele abre uma caixinha e fala: “Larri, comprei esse relógio para você”. Que relógio bonito, Guga, deve ter custado mil e quinhentos dólares, o que era muito dinheiro para mim. Ele tinha muito isso de dar presente. Quando ele lança os 100 relógios dele, eu estava fazendo minha clínica com as crianças, ele entra na quadra, abre a caixa e era um Hublot. Eu tenho até hoje. Ele disse: “É o número 3, do tricampeonato de Roland Garros”. Essas coisas de coração, até hoje ele é assim. Quando eu tive o meu câncer em 2018, ele veio correndo. Quando eu vi, estava na minha casa, dormiu no meu quarto no hospital. Esse é o Guga. É o Guga e o Larri. Eu estive na cirurgia dele, e ele na minha. Esse são os maiores presentes que a gente tem.
Em 2000, o Guga chega ao bicampeonato de Roland Garros. E defende o título com sucesso no ano seguinte. Para você, como foi essa sequência?
— Em 1999 o torneio tinha escapado, era para ter vencido o segundo. Em 2000 foi perfeito, redondinho. Claro que, quando olhei a chave, eu falei: “Kafelnikov de novo nas quartas. Ferrero, que era duríssimo, na semi”. O Kafelnivok tirava meu sono. Eu precisava assistir a todos os jogos dele. Não é que nem hoje. Naquele tempo tinha que sentar na arquibancada, cruzar os braços e olhar o adversário. Ficar três ou quatro horas olhando o seu adversário. O Guga ia para o hotel descansar, e o coach ia trabalhar. Em 2000, funcionou tudo certinho. Às quartas-feiras, eu levava o Guga para comer churrasco, arroz e feijão, em uma churrascaria chamada Terra Samba, em Paris. A gente tocava baixo para se desligar das coisas. A primeira comemoração era íntima, comemos um baita de um churrasco e depois tinha a comemoração glamourosa com outros jogadores.
Gustavo Kuerten e Larri Passos na festa do título de Roland Garros em 2000
Getty Images
— O tricampeonato foi bem punk. Defender o título… poucos jogadores na história defendiam o título. E ele ganhou. Foi uma comemoração muito grande, me realizei. E falei para o meu manager: “Deu para mim. Depois disso não quero ser mais técnico de tênis”. Ele ria e ria e falava: “Você vai continuar”. Foi um marco muito grande. Eu queria cinco títulos na minha cabeça. Depois do terceiro, você fica louco, quer mais. É Grand Slam. Criei uma coisa tão forte na minha cabeça de querer, querer e querer mais. Em 2001, foi sensacional, mudou tudo. O Larri Passos existe, é um técnico, realizou, formou o melhor do mundo. O mundo inteiro passou a ver o Larri Passos, não era só o técnico do Guga, era o cara que começou na escolinha e botou o cara no topo. Minha vida mudou bastante.
Por que sente que somente em 2001 chegou a esse nível de reconhecimento?
— Em 2001, a mídia, o mundo… Tinha celular, as imagens, a EuroSport vinha fazer matéria, as transmissões eram mais rápidas. Mudou muito. Eu caminhava na rua, e diziam: “Monsieur Passos”. Uma vez eu estava caminhando na rua em Ghanzou, e um senhor de idade, humilde, olhou para mim e falou: “Gugá! Gugá! Gugá”. Foi em 2007. Nossa senhora, realmente eu fiquei conhecido. Atingiu um público maior em 2001. Eu passei a ficar conhecido que nem feijão preto (risos).
Larri Passos em entrevista ao quadro Abre Aspas
Marcelo Barone
Você disse que não ficou surpreso com o título de 1997. E quando o Guga se tornou número 1? Imaginava que fosse acontecer?
— Tinha duas feras na frente dele que eram muito difíceis: Agassi e Sampras. Quando fui conversar com ele, em um café da manhã, eu falei: “Guga, vamos tentar chegar a número 1 do mundo, vamos colocar aquele algo a mais?”. Foi um trabalho de mentalizar, de entrar na cabeça, de nos fecharmos. Ele odiava treinar slice. Treinava que nem um condenado nessa quadra dura ali. “Faz slice, joga no fundo, depois espinafra na paralela. Você tem que ser mais agressivo na devolução”. Foi tudo entrando na cabeça. Se você olhar para trás, com as condições que tínhamos, só um milagre nos levaria a número 1 do mundo.
— Era acreditar, acreditar e trabalhar. As condições eram zero. Em 97, quando ele ganha do Agassi, eu falei no vestiário: “Você vai ganhar do Agassi, está jogando como Top 10”. A cabeça dele começa… pega a bola na frente, joga bem em quadra dura.. Era uma questão de virada de chave. Pra chegar a número 1 do mundo faltava ajustar detalhes do jogo. Ele tinha um excelente segundo saque, um dos melhores do mundo, o que era fundamental na época. Mas tinha o Agassi e o Sampras.
Larri e Guga marcaram época no tênis mundial
Arquivo Pessoal
Ele se tornou número 1 justamente depois de vencer o Agassi, por 3 sets a 0, naquela partida em que trocou de tênis, pela Masters Cup, em Lisboa…
— O Guga tinha dois pares de tênis pretos que ele adorava. E a marca de calçado dele disse que, em Lisboa, ele teria que usar o modelo novo. Era branco, bonito, mas ele firmava o pé e não dava segurança. Peguei os tênis pretos, fui de carro no sapateiro (em Camboriú), pedi para ele lixar e tirar as ranhuras. Botei os pares na mala e fomos para Lisboa. O tênis (branco) arrebentou no meio do jogo. Falaram que era questão de marketing. Marketing coisa nenhuma, foi intuição minha, loucura. O tênis arrebenta (e usa o preto). Ele ganha do Sampras na semifinal e mata o Agassi na final, 6/4, 6/4 e 6/4.
— Antes do jogo, ele fez mentalização, sempre fazíamos antes dos jogos. Ele resolve tomar banho – nunca tomava antes de ir para a quadra. Fui no chuveiro e falei: “Só tem uma maneira de você ganhar desse cara: vai ter que espancar a bola, ser agressivo. Sacar e meter a mão na bola, senão ele vai te jogar para trás, e você não vai aguentar. Você vai ser o mais agressivo que puder”. Ele entra e ganha do Sampras na semi e do Agassi na final, indoor. É o sonho!
Larri Passos guarda tênis preto utilizado por Guga
Arquivo Pessoal
Naquela época, vocês se sentiram menosprezado por algum adversário? Um olhar de arrogância, por exemplo, em relação a vocês?
— Essa pergunta é boa (risos). Foi em Cincinnati, quartas de final, em 2000. Estou no vestiário, e o Guga dando uma alongada com o fisioterapeuta. O Todd Martin começa a falar em inglês: “Onde já se viu um brasileiro ganhar de mim na quadra dura?”. “Never!”. “Jamais!”. O piso era rápido. Hoje o piso está lento, está bom para jogar, o Guga ganharia mais 10 ATPs. O Todd Martin não gostava de mim. Eu adorava que ele não gostava de mim. Eu era o coach, não vim para brincar no circuito. Era o Guga e eu contra o mundo. O Todd Martin sai, eu pego o Guga e falo: “Esse filho de uma p.! Vamos matar ele hoje! Tu vai entrar e extravasar, atacar antes dele”. A quadra estava super rápida. O Guga ganha por 7/6 no terceiro set. O Todd Martin era um dos melhores jogadores em quadra dura. Tinha muita provocação no circuito. Essa foi a provocação mais dura. Depois que o Guga ganha, eu começo a dançar em cima da arquibancada, gritando que nem um condenado: “O samba ganhou do jazz”. A minha vibração era dura, porque era eu e Guga contra o mundo.
Guga abraça Braguinha e Larri Passos na arquibancada de Roland Garros em 2000
JACK GUEZ / AFP
— No ano seguinte, o Guga foi jogar contra o Tim Henman, o protegido da ATP. A ATP sempre o protegia, botava no melhor horário. O jogo era às 7h da noite, caiu o mundo em Cincinatti, e o cara da ATP só cancelou o jogo às 11 da noite: “Larri, amanhã às 10h da manhã”. Eu ri da cara dele e falei: “Guga, vamos chegar 11h30”. O Guga precisava jantar, se recuperar na piscina do hotel, fazer todo o processo, como jogaria às 10h da manhã? Tchau, pessoal, às 11h30 estarei aqui. Fomos para o estacionamento, e vem o cara da ATP correndo atrás de mim. “Larri, 11h30 então. O jogo será meio-dia”. Nós sempre queríamos matar o Tim Henman, cara, porque ele era protegido. A ATP protegia os ingleses, os americanos. Eu batia de frente com os caras. Ele ganha do Tim Henman, termina o jogo e falo: “Vamos treinar agora”. Eram 45 graus de calor, a final seria contra o Rafter. Fui lá para trás na quadra três, ninguém olhando, e mandei ele devolver de dentro de quadra. Você está morto, se for devolver de trás, o Rafter vai no slice e vai te matar. Ele vai no saque e voleio, vamos tirar o tempo da bola dele. 6/2 e 6/3 na final. O Tony Roche, que era um dos técnicos mais tops do mundo, falou: “Larri, que trabalho! Parabéns, Guga”. O circuito tinha isso. Tinha que ser forte, enfrentar, não pode lembrar dos teus preconceitos do passado. Hoje as coisas estão diferentes, outro nível. Colocar um jogador no topo hoje é muito mais fácil do que antigamente.
O que mais você notava que a ATP fazia para proteger alguns atletas?
— Tinha supervisores que marcavam treinos nos melhores horários. Era uma máfia, você tinha que enfrentar. Quando o Guga ganha em Lisboa, eu não pensava se ele seria o número 1 ganhando o torneio. Quando termina o jogo, eu juro para vocês, o Guga me abraça, eu subo e vou ao escritório da ATP. Estavam o Vittorio (Selmi, supervisor da ATP) e o Paul, americano. E eu pergunto, e agora? O que acontece com o Guga? “Larri, você não sabe? O Guga é o novo número 1 do mundo”. Eu falei: “Uau!”. E eles com cara de velório. Velório. Vocês acham que a ATP torcia para o Guga ser o número 1 do mundo? De maneira nenhuma! Um americano, um europeu, terminar como melhor do mundo, vai dar muito mais… A gente lutava contra o mundo, cara! Era cara de velório, os dois assim. “What the fuck? (Que po***é essa?) Vibra!”. Eu saí lá de dentro, falei: “Guga, você é o novo número 1 do mundo! Eu nem sabia”. Ele falou: “Larri, você não sabe calcular?”. Eu não calculo nada. Foi incrível isso! O foco era só no momento, no agora. Era matar ou morrer.
Larri afirma que ATP protegia americanos e ingleses: “Máfia”
Como o Guga reagia ao ser preterido pela ATP em relação aos outros atletas?
— Você não viu a cena em Wimbledon? “Eu sou roubado em tudo que é lugar, po***!”. A cena que ele pega a bola nas quartas de final em Roland Garros e fala “chega de me roubar”. O cara faz uma dupla falta, e a bola passa a isso aqui do juiz. Se pega, ele seria desclassificado. Era o Rafter e o Bjorn contra o Guga e o Fininho (Fernando Meligeni). Era impressionante, cara. E a final de Miami que ele perde para o Sampras? Roubaram ele. Era para ganhar do Agassi e do Sampras no mesmo torneio de novo. E os caras roubaram. A bola cai lá dentro, a TV não mostra o replay. Jogar contra americano era assim. Quando a bola batia no chão, o (Michael) Chang olhava para o juiz cantar fora. Era assim, a gente tinha que enfrentar. Hoje com essa eletrônica é brincadeira, não tem problema. Naquela época… Hoje eu olho para trás e falo: “Meu Deus do Céu, como eu suportei esse perrengue?”.
Em 2005, você e Guga se separam após anos de uma parceria longa e bem sucedida. O que aconteceu?
— Ali houve o envolvimento da família, né? Fizeram um pouco a cabeça dele para mudar de técnico, tentar um técnico diferente. Acho que ele entrou na jogada. Ele ficou seis meses sem trabalhar comigo. Um dia, de repente, eu estava jogando golfe em Gramado, e ele me liga. Eu disse: “Vai na minha academia”. Quando ele entrou aqui, ficou até arrepiado, foi uma emoção muito grande. Quando ele se separou nesses seis meses, a imagem dele caiu bastante. Existiam certos comentários, o técnico (Hernan Gumy) o levava muito para a noite. Eu não sei, eu estava fora.
Larri diz que imagem de Guga estava indo pelo ralo
— Quando ele entra aqui e começamos a bater bola na quadra dura, a única coisa que eu falo para ele é: “Você é um grande vencedor. Você é o maior vencedor de todos os tempos. E essa imagem de vencedor não pode cair nunca, cara. E não está legal. Vamos levantar isso aqui. Vamos fazer isso, isso e isso com a sua imagem. Você confia em mim?”. Tudo que você me pedir, eu vou fazer. Ali foi a segunda parte, aquela coisa de paizão. A imagem dele estava se deteriorando. Eu peguei ele no colo de novo, tinha que recuperar. Foi sensacional. A gente consegue fazer a despedida, tudo como tinha que ser feito. Foi perfeito. Sinceramente, acho que só por ele, ele não faria esse “break”.
Você entendeu o lado dele nesse “break” ou ficou incomodado?
— No final de 2004, eu errei. Tinha que ter sido mais duro com ele. Fui aos Estados Unidos, ele estava com médicos e fisioterapeutas sensacionais. Estávamos em Pittsburgh no inverno, vimos o jogo dos Steelers. Quando ele chegou aqui (no Brasil), ele falou: “Quero fazer minha recuperação em Florianópolis”. Foi um dos maiores erros que eu cometi. Eu devia ter sido duro: “Não. Vamos fazer aqui dentro, é o nosso lugar, com o fisio”. É uma das coisas que me arrependo. Eu não podia bater de frente com ele a vida inteira, tinha que dar a liberdade dele, que decidiu fazer a recuperação em Florianópolis. Ele não estava legal, não estava bom. Foi quando surgiu o momento que ele decide, junto com a família, dar um tempo comigo.
Como recebeu esse pedido dele para voltar a trabalhar com você?
— Eu sabia os bastidores do que estava acontecendo. Eu criei um ídolo brasileiro, um cara que vai ser eterno, e a imagem dele estava indo pelo ralo. Foi punk para mim. A minha vida estava legal, casado, esperando a primeira filha, academia estruturada. Esse cara precisa de mim… A nossa entrada na quadra ali foi… ele chorando o tempo inteiro. Foi muito triste. “Larri, o que eu tenho que fazer?”. Coisas particulares dele, ações que foram tomadas erradas. Quando ele retoma o processo, as coisas mudam. Foi muito bacana esse período até 2008, uma despedida sensacional. Hoje tenho certeza que ele me agradece mais nesse período da retomada, que eu entro na cabeça dele e faço um pouco de tudo.
— Foi muito bacana. Depois que ele parou de jogar, eu fiquei um ano indo toda quarta-feira a Florianópolis para almoçar, trocar ideia. Essa é a imagem das minhas últimas palavras para ele: “Guga, olhe bem para mim, não te prostitua”. “Larri, já entendi”. Toda essa engrenagem de saber fazer as coisas, o business, a vida particular… Um cara que vem na minha casa e fala para mim: “Larri, estou pensando em casar”. Eu faço cinco perguntas, ele me responde. E eu falo: “Ela é a mulher da tua vida, cara, vai firme”. Essa é uma parte muito bonita.
O Guga sofreu com problemas físicos que abreviaram a vida dele no tênis profissional. Como teria sido a carreira dele sem tantas lesões?
— Não existia a tecnologia de hoje, que você opera o quadril com 19 anos. Ele ganha do Max Mirnyi de virada, faz quartas de final (em 2001, pelo US Open), e ali começou a pegar. Hoje a quadra está mais lenta, a bola está mais lenta… Naquela época era tudo rápido. Todas as quadras eram feitas para os americanos. Mesmo assim fez duas quartas de final. Eu olho para trás… tranquilamente, o Guga teria vencido mais uns três ou quatro Grand Slams. Fez 32 finais, ganhou 20 ATP Tour. Poderia ter chegado nos 30. Naquele tempo, do 1 ao 20, podia ganhar o torneio, a diferença técnica era muito pequena. Hoje a turma está conformada, porque a grana que envolve ali…
— O cara que é o décimo do mundo vai querer ser o primeiro para quê? Para dar mais entrevistas todo dia, fazer mais coisas para a imprensa. Se ficar em 20 do mundo durante quatro anos, não precisa mais trabalhar, a vida está ganha. Naquele tempo, o “prize money” era menor, você tinha que ralar, 16 jogadores podiam ganhar no saibro. O Guga podia jogar rápido hoje, mais alto, variar, dar voleio, subir à rede, tinha um segundo saque bom. O Guga era um jogador completo. A lesão abreviou a carreira, porque o desgaste era normal. Ele não nasceu para ser atleta. Eu que resolvi trabalhar para ser jogador. O quadril dele era diferente, com problema nato. Os médicos falavam: “Larri, não é perfeito”.
A saúde mental tem sido um tema recorrente no tênis, permeado por casos de depressão e ansiedade. A Naomi Osaka deu um tempo na carreira, o Alexander Zverev e o Nick Kyrgios já se abriram sobre o assunto. Por que tem tanto caso na modalidade?
— Eu acompanhei muito a Osaka, moro nos Estados Unidos há 11 anos. Lembra que eu falei de Roland Garros? Aquela parafernália de coisas, de patrocinador, que eu fui de sola, segurei? Quando a Osaka começa a fazer sucesso… O jogador não tem essa relação mais intimista com o técnico para trocar ideia, dar o break. O técnico hoje é um objeto, um instrumento na mão do jogador. E aí entra o manager querendo te vender, vender e vender. Chega uma hora que explode. Quando o Guga deixa Lisboa, ele vai para o Havaí. Quem atende à imprensa? Chego em São Paulo e tem 30 repórteres, tinha cara querendo filmar meu apartamento. “Você é celebridade”. Que celebridade?! Quando o Guga subiu em um carro de bombeiro? Nunca! Tapete vermelho no Aeroporto Hercílio Luz. Se não tirar esse tapete vermelho, não vamos embarcar. Preservar a relação é a coisa mais importante. Hoje termina o treino e “see you tomorrow (vejo você amanhã)”. Cara, não existe isso.
— O Guilherme (Teixeira, técnico do João Fonseca) está seguindo um caminho muito legal. O meu contato com ele e com a Diana Gabanyi (assessora de imprensa de João Fonseca) é muito intimista, mando um audiozinho, um videozinho de parabéns. Controle, está ali com o menino, seguindo esse padrão Larri Passos e Guga de manter os pés no chão. Essa coisa do estresse mental é porque o extra quadra não existe mais. Você não tem mais essa parte de relacionamento, de dar um pulo no mar. Eu sentava na cadeira, tomava uma cervejinha, e o Guga surfava. Durante o jantar, zero tênis, não se falava em tênis. O negócio está muito mecânico, artificial, abstrato. Essa história de mídia social, de tenho que postar, é o fim da picada. Ninguém aguenta isso.
Essa questão de saúde mental passa pelas redes sociais, pelas comparações, por estar suscetível às críticas?
— Eu acho que o jovem com 18 ou 19 anos, como a Osaka, que sofreu essa coisa toda… Eu fui convidado para trabalhar com ela quando ela tinha 17 anos. Pelo perfil dela eu não conseguiria trabalhar, porque não ia ter o relacionamento, é uma cultura diferente, é muito difícil. O caso da Osaka foi muito pela parte de “management” (“gerenciamento”, na tradução para o português) da imagem dela. Foi muito violenta. Quando o Guga ganha Roland Garros, foi muito bacana. No máximo três patrocinadores, três dias para cada no ano. Ele tinha que ter o tempo para surfar, namorar, treinar, se divertir, fazer outras coisas. Essa relação fria com o time não pode acontecer. O treinador tem que saber. Uma frase que eu digo é: jogue com alegria todo dia.
— A relação entre coach e jogador é muito importante. Hoje ninguém mais dá risada. O (Carlos) Alcaraz é o mais relax, o caráter dele é esse. Vai mudar? Eu não mudaria nunca. Antigamente a frase era “não estou bem de cabeça”. Hoje diz que o cara está com burnout. Po***, burnout é um pai que tem cinco filhos, tem que botar alimento dentro de casa e não tem um centavo. Vamos ter vergonha na cara também, né? Uma vez eu estava no Hilton Cavaliere, que é um hotel considerado seis estrelas, porque o Guga ia jogar a final em Roma. Estou deitado na beira da piscina, e um cara chega para mim: “Larri, e a pressão?”. Pressão é um pai desempregado que tem que trazer alimento para os filhos. Ninguém pensa nisso. Estou em um hotel seis estrelas, deitado, tranquilo, como vou sentir pressão? Que burnout é esse? Vamos pensar um pouquinho.
Você conhece a Bia Haddad Maia, com quem trabalhou desde a época que ela era adolescente. Ela teve um 2025 muito ruim, sofreu derrotas amargas e eliminações precoces. Qual é a sua leitura sobre a queda de rendimento?
— Eu acho que ela perdeu um pouco a alegria de jogar. Tem que dar mais risada, dar uns balões quando precisa. A vida é essa. De repente, administrar essa parte. A mulher tem que ter essa parte emocional mais bem trabalhada. (…) Eu não sei o fator que a levou a esse burnout. A minha Bia era alegre, feliz, dando risada. Errava uma devolução que não podia errar e falava: “Desculpa, Larri”. Desculpa é o cacete, erra 50, não tem problema nenhum. Ela é uma jogadora que tem que jogar alegre, feliz, se divertindo, tem que buscar esse equilíbrio. Ela está com quase 30 anos, agora que pode chegar no melhor momento da carreira dela, porque está com uma experiência boa. É voltar a curtir, jogar com alegria. A mulher 200 (do ranking) pode ganhar de uma Top 10, por conta do estilo do feminino, um é muito parecido com o outro. Tem que buscar a alegria de jogar de novo, é meu ponto de vista.
Larri diz que Bia perdeu alegria de jogar e elogia João Fonseca: “Eu o vejo no topo”
Por outro lado, João Fonseca teve o melhor ano da carreira. Como vê a ascensão dele?
— O João vem de uma formação cultural muito boa, sabe se expressar. É um menino culto, de uma família super bem-estruturada. Ele tem um técnico excelente, o Guilherme, que fez curso comigo aqui. O João está sendo bem montado, não tem buracos, é importante chegar no circuito assim, é bacana. Tem uma pegada boa, está formadinho, completo. O João está sendo bem preparado. Achei sensacional ele optar por não ir para o Tour Asiático, que é desgastante, fez uma outra trajetória, jogou na Europa. Estão balanceando bem o calendário.
— Nos últimos jogos que vi do João, ele estava com muito mais paciência, variação, provocando mais o erro do adversário. O circuito está ensinando ele a jogar, não são só o coach. O João está entendendo o circuito, é bacana, está completo. (…) Não podemos comparar a trajetória dele com a do Guga. Não tínhamos quadra para treinar, bola, nada. O pai do João foi lá e construiu as quadras para ele, é muito bacana isso, montou uma estrutura. No saibro ele pode evoluir mais, tem muita coisa para aprender, comer muito pó de tijolo ainda (risos), mas na dura está jogando muito bem.
Ele repetirá o feito do Guga? O Brasil voltará a ter um tenista como número 1 do mundo?
— É uma esperança que a gente tem. Sem dúvida nenhuma eu o vejo no topo. Não vou dizer o número, mas vai chegar ao topo. Tem dois caras diferenciados hoje, que são Alcaraz e (Jannik) Sinner. No circuito tem que comer pelas beiradas… o Sinner está errando mais na direita, a direita do Alcaraz engana um pouco… O circuito é assim. Tem que ir montando as estratégias, uma semana pode fazer a diferença.
Ainda sobre o tênis atual. Qual é a sua opinião sobre o saque por baixo? Tem gente que não vê problema por estar na regra, mas há quem critique…
— Eu acho válido, tranquilo. Faz parte do jogo. Caiu lá dentro tem que devolver. Meu amigo, passou a bola para o outro lado, tem que se virar nos trinta para devolver. Dá dois passos para dentro e massacra o outro. Fecha o olho e vai para cima. Não tem nada a ver, sem polêmica para mim. Sem balão não há salvação. Se estou no perrengue, vou ganhar no balão, passando de slice de esquerda ou direita. Tem que ganhar o jogo.
Em 2018, você passa por um problema grande de saúde. Você, que sempre foi uma fortaleza para sua família e para o Guga, recebe um diagnóstico de câncer. Como assimilou esse diagnóstico?
— Cara, 2018 foi um ano… Quando eu olho para trás hoje, não teria feito o que fiz, fui muito louco. Entrava em uma quadra de tênis às 7h e saía 11h30 e não ia ao banheiro fazer xixi. Meu foco era tão grande, que desenvolvi a síndrome da bexiga de esforço. Fui descobrir isso quando eu estava com o Belucci em Auckland. Estava indo ao banheiro de 10 em 10 minutos. Quando fui no urologista, ele falou que eu tinha essa síndrome, me deu um remédio e foi maravilhoso, aliviou tudo. Em 2018, vim para o ATP de São Paulo, com o Guilherme Clezar e o João Domingues, e pedi para o meu gastro fazer uma geral. Ele tirou 16 imagens e ficou louco: “Larri, volta correndo para os Estados Unidos. A sua próstata está entrando pela sua bexiga”. Fui ao urologista e mostrei as imagens. Ele disse para fazermos uma biópsia: câncer de grau quatro, cinco. Minha próstata estava completamente tomada. Eu falei para ele operar, tirar a próstata, limpar tudo. Ele falou: “Você é louco”. No outro dia, ele marcou uma reunião com a Carla (Passos, esposa), ela começou a chorar. “Por que está chorando? Não vai me atrapalhar, vai limpar tudo e ficar tudo bem”. Eu só falei para minha esposa, minhas duas filhas e para o Guga.
Larri Passos chora ao falar sobre câncer: “Cuidei de todo mundo e esqueci de mim”
Você não falou muito sobre isso na ocasião. Por quê?
— Hoje todo mundo divulga, eu não queria nada disso. Interiormente, era um desafio para mim. Saí dali para um canto, conversei com Deus e perguntei para ele se eu tinha uma chance. Fui feliz na Terra, conquistei tudo que queria, mas tinha duas filhas. Elas subiam no ônibus escolar, e eu chorava que nem um condenado. Minhas filhas estavam no auge. Era muito difícil. Eu operei, o médico me chamou de maluco, porque quando tiraram a próstata, estava completamente contaminada. Meu câncer tinha um grau muito alto. Se eu olhar para trás, eu não cuidei de mim. Cuidei de todo mundo e esqueci de cuidar de mim. Aí sim foi a minha vez de cuidar de mim.
Como o Guga te ajudou?
— Quando eu avisei ao Guga, marquei a cirurgia para 17 de abril de 2018. Um dia antes da operação saímos de bicicleta pelo condomínio, fizemos musculação e caímos na piscina. A operação duraria 2h30 e durou oito horas. Tive que refazer a bexiga, foi supercomplicada e, graças a Deus, sobrevivi (choro). No ano passado apareceram dois linfonodos, fiz um “scan” e hoje vivo sem testosterona. Vivo de dopamina e endorfina só, meu organismo não pode gerar testosterona, é um tratamento para a vida inteira. O urologista falou: “Larri, você vai viver uma vida normal, mas vai ter que cuidar da parte física”. A quadra eu não largo. Trabalho quatro ou cinco horas, saio da quadra, e a musculatura está dura que nem um pau. É só dopamina e endorfina. O remédio que eu tomo é forte, me mantém inteiro, mas vai ser para o resto da vida. Eu me sinto mais forte do que quando eu tinha 40 anos de idade. Você sente o valor da vida. Hoje tenho que cuidar de mim, alongar, ir à piscina, fazer trabalho de recuperação, me alimentar bem, me cuidar. É a vida. Foi uma lição muito grande passar por isso. Agora estou cuidando de mim.
De que forma isso transformou você? Sentiu de perto que a vida pode mudar de repente?
— Transformou muito, cara. A minha relação com minha esposa e minhas duas filhas é… “Eu te amo, miss you” (sinto saudades). Você valoriza cada vez mais o momento que está com a pessoa. O lugar que eu mais amo estar é dentro da quadra, queria estar em um Grand Slam de novo, colocando um cara no topo. Tenho essa sensação. Mas a relação com minha esposa e minhas filhas é completamente diferente, uma sensação diferente. Passa a valorizar. Olho para trás e tudo o que construí de tornar o impossível em possível foi um milagre. A minha carreira foi um milagre de fé, de energia, de acreditar o tempo inteiro.
— Tem uma cena muito engraçada, que vocês não acreditam no que aconteceu. O Guga e eu estávamos em um voo, deu uma turbulência muito forte, e o Guga dormindo ao meu lado. Eu agarro ele, inconscientemente, na hora da turbulência. Senso de proteção, cara. Quando ele acordou…. Guga, fomos mil metros para baixo, todo mundo gritando, copo voando. Eu não pensava em mim, entendeu? Depois desse episódio mudou bastante a minha vida, passei a encarar de uma maneira diferente, no sentido de ter uma relação de mais carinho, de relaxar mais, de dar risada. Às vezes estou aqui trabalhando com crianças, dando clínica, e não penso no resultado final, mudou bastante a minha vida.
Depois disso tudo, o que te motiva?
— Queria muito voltar, pegar um menino que realmente queira chegar lá… Minha energia é a mesma, sou muito doido. Se o cara me der 50%, eu dou os outros 50%, 100%. Minha vida está completamente ajustada, uma filha está se formando na faculdade, a outra está entrando e vai estudar na Flórida. Fiz as coisas tão certinhas que, além do governo americano me receber, sou aposentado nos Estados Unidos. É uma vida muito tranquila. Posso vir ao Brasil a hora que eu quero, vir à minha academia. Quando entro aqui, vocês não têm ideia do que é isso aqui. A minha energia vira 120%. Aqui se formou um número 1 do mundo. A parte de inspiração, de querer chegar de novo e ter um jogador no topo, é a mesma de quando eu tinha 23 anos de idade. Meus sonhos continuam muito vivos.
Para finalizarmos a entrevista, cinco perguntas para responder com o que vier à cabeça.
Adversário mais duro?
— Kafelnikov. Devolvia muito, fazia te jogar todos os pontos, era uma carniça.
Jogador mais gente boa do circuito?
— Roger Federer. Um gentleman. Sem dúvida nenhuma. Ele sempre perguntava como estava a minha família, um cara dócil. Nadal era fantástico também, são vários. Esses dois foram sensacionais.
Atleta mais marrento?
— O Todd Martin era marrento pra caramba (risos), às vezes, desrespeitoso. Não gostava nem um pouco dele.
Maior tenista de todos os tempos?
— Roger Federer. Tenho uma história bacana com ele, em 2009. Eu pedi pra ele não parar de jogar tão cedo, porque eu tinha que ensinar os golpes dele aos meus jogadores. Ele falou: “Larri, vou dar o meu melhor”. Jogou até pouco tempo atrás. É o maior de todos os tempos.
Quem gostaria de ter treinado?
Larri Passos relembra oportunidade de ser treinador de Djokovic
— Eu tive oportunidade de trabalhar com Djokovic, Murray, mas na época eu não quis. Minha relação com Guga foi tão forte, tão forte, que achei que nunca mais fosse treinar um homem. Comecei a trabalhar com tênis feminino. Mas talvez eu devesse ter aceitado o convite do manager do Djokovic, quando ele tinha 19 anos. Seria uma parceria legal com o Djoko. Tsonga me sondou também para trabalhar com ele. Eu e Djoko seria legal, melhoraria o jogo dele no saibro, ele ganharia mais no saibro. O Djoko tinha condições de ganhar mais no saibro. geRead More


