Marcos Braz revela bastidores de Flamengo e Remo, admite erros e diz quem foi mais difícil entre Gabigol e Adriano
Acesso com o Remo, memórias de Flamengo e polêmicas: Marcos Braz relembra carreira
O gelo no sangue que virou bordão no mercado de contratações derrete rapidinho quando vê um microfone na frente. Marcos Braz é daqueles dirigentes à moda antiga, que chamam os holofotes para si e a centralizam responsabilidades. Multicampeão pelo Flamengo, montou em 2025 o elenco que levou o Remo de volta à Série A após mais de três décadas. No meio de tudo isso, muita história para contar.
Marcos Braz em entrevista ao Abre Aspas
André Durão / ge
O apetite para contratações segue o mesmo da época em que montou o elenco estelar que recolocou o Flamengo no caminho dos títulos. Para a volta do clube do Norte à elite do futebol brasileiro, já foram 11 reforços e o título recém-conquistado da Supercopa Grão Pará. Elementos que mantêm Braz com a língua afiada e a autoestima em dia. Vitorioso “com e sem dinheiro”, como ele mesmo define, o diretor executivo do Remo recebeu o “Abre Aspas” para abrir seu baú de histórias e prestar “esclarecimentos”.
Ficha Técnica
Nome: Marcos Teixeira Braz
Idade: 54 anos (21/04/1971)
Carreira: Diretor de futebol do Flamengo em 2006, vice-presidente do Flamengo em 2009-10 e 2019-2024, diretor executivo do Remo desde 2025; vereador no Rio de Janeiro 2021-2024
Títulos: Libertadores (2019 e 2022), Brasileirão (2009, 2019 e 2020), Copa do Brasil (2006, 2022 e 2024), Supercopa do Brasil (2020 e 2021), Recopa Sul-Americana (2020), Carioca (2019, 2020, 2021 e 2024), Supercopa Grão Pará (2026).
Acesso da Série B para Série A: Remo (2025).
Da relação entre tapas e beijos com Gabigol, passando pelas demissões de técnicos em momentos conturbados, o antes dirigente amador estatutário e agora executivo profissional não fugiu de temas. Deu sua versão sobre a briga que teve com um torcedor rubro-negro em shopping no Rio e admitiu falha da gestão Landim na condução da tragédia do Ninho.
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Peito aberto para quase tudo. Às vésperas do início da Série A, admite que pensar em enfrentar o Flamengo mexe com ele e o faz fechar portas no mercado:
– Tenho a cabeça muito tranquila do meu ciclo fechado no Flamengo. O que eu não tenho tranquilo e me tornar adversário direto pelos objetivos do Flamengo. Para deixar bem claro, os objetivos do Remo na competição de 2026 nada têm a ver com os objetivos do Flamengo. Me dá frio na barriga pensar em estar em um clube que tenha os mesmos objetivos do Flamengo.
A estreia do Remo na Série A está marcada para a próxima quarta-feira, diante do Vitória, no Barradão, em Salvador. O duelo com o Flamengo está marcado somente para o dia 19 de março, no Maracanã. Mas antes Marcos Braz “abre aspas” e conta (muitas) histórias:
Júlio César recebeu uma camisa personalizada do Remo das mãos de Marcos Braz
Raul Martins / Remo
Marcos, a gente tem muito para falar de Remo, mas não dá para fugir do Flamengo. Como é que foi viver um título do Flamengo de Libertadores do lado de fora?
– Essa conquista acaba que a gente vive como torcedor. Claro, e também pela relação pessoal das pessoas, dos amigos que a gente deixou lá dentro. Se não me engano, dentro do time titular da final, tinham oito jogadores contratados pela gente e mais dois que entraram. Então, acaba aqui o envolvimento ele é enorme, você tem um carinho por esses jogadores, a comissão técnica, o Filipe Luís também vem desde o primeiro processo com a gente. Então assim, oito jogadores, mais dois que entraram, mais a comissão técnica… Você não tem como fugir de uma relação pessoal, uma relação carinhosa, uma relação de agradecimento da instituição. Frequento a Gávea desde os meus oito, dez anos, sou grande benemérito. Acho que isso são 27 ou 28 grandes beneméritos no Flamengo. Então, assim foi especial por esse fato da gente já estar fora, mas foi muito intensa pela relação pessoal que eu tenho lá dentro. Não chega a ser estranho, mas chega a ser diferente. É um processo natural. Quando está resolvido.
Chorou com o título?
– Não, não chorei, mas fiquei feliz. O rosto já diz que eu fiquei muito feliz. Acaba que a gente vive como torcedor e também pela relação com os amigos que a gente deixou. Tenho certeza absoluta que fizemos um trabalho acima da média. É claro que a gente erra. Eu errei, provavelmente, e também acertamos muito, entregamos muitos resultados. Então, a sensação é de dever cumprido e que se fechou um ciclo em relação a mim. Antes do término do mandato do Landim eu já tinha comunicado que sairia com presidente a, b ou c. Claro que com a oposição ganhando, seria o processo natural, mas eu já tinha comunicado ao Landim que não ficaria por entender que era fechamento de ciclo e sensação de dever cumprido.
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Você falou sobre a oposição e o atual presidente ficou marcado em muitos momentos com um de seus grandes desafetos no período em que esteve na gestão anterior. Como é ou era realmente a sua relação com o BAP?
– A minha relação com o BAP não é essa que vendem, de uma ruptura por completo, de uma guerra civil. Também não é uma relação mais afável, mais humana… Também não é. Trabalhei alguns anos com ele da personalidade dele e eu da minha, mas eu acho que pós gestão Landim e começo da gestão do BAP a relação que existia do Landim com o BAP apareceu aí… Hoje, se você perguntar para qualquer um qual a relação dos dois, eu acho que é mais ácida e tem mais atrito do que comigo. Então, assim, eu tinha um presidente, uma pessoa que confiou o cargo a mim, e tinha a confiabilidade do cargo de vice-presidente que talvez seja a pasta mais importante que o Landim confiou a mim.
No Flamengo, você tinha um cargo estatutário, mas no Remo é um executivo profissional do futebol. Como se deu essa transformação? Quais as principais diferenças no dia a dia?
– Eu sempre senti que teve um preconceito em relação a mim exatamente por isso. Como eu não era profissional da área, falavam que eu era amador, que a gestão era amadora… Então, eu acho que os números do futebol, as loucuras do futebol, esse profissionalismo foi me empurrando para essa decisão. Eu nunca pensei nisso, eu meus negócios, tenho a minha vida, mas em determinado momento eu tive que fazer uma escolha. Sou apaixonado por futebol, gosto dessa competição, dessa turbulência, e uma hora eu tinha que decidir isso. Acaba o meu mandato de vereador, acaba o mandato do Landim, e eu fui ver o que fazer. Você tem três ou quatro maneiras de continuar no futebol: ser empresário, que eu não queria ser; ser dono de um grande clube e para isso você tem que ter bilhões; ou você ir para um caminho de ser executivo. Eu fui no que daria menos grau de exposição ou conflito de interesses com o Flamengo. Foi isso o que aconteceu.
– É aquele negócio de não ser respeitado como dirigente profissional e eu ficava sempre à margem da interpretação de ser amador. É um ponto de vista longo, mas chegou a hora de decidir e eu queria um desafio diferente. O Remo era um desafio diferente. Um clube do Norte do país, um clube que precisou dar duas voltas ao mundo em relação a voos para jogar na Série B, e eu acho que fui para o local mais hostil que teria. Não o clube, mas as condições… É um clube de longe das competições, com pouca estrutura, pouco dinheiro e eu falei: “Vou para lá mostrar que eu tenho com muito ou pouco dinheiro, muita ou pouca estrutura”. As pessoas esquecem que eu estive em outro Flamengo. Com 36 anos de idade, eu fui vice de futebol e tinha um jogador, que era o Pet, mais velho do que eu em um Flamengo com salário atrasado, pouca estrutura física e de profissionais. Era um outro mundo que eu participei e também fui campeão. Chegou uma hora em que eu pensei: “Não falta mais nada pra ganhar no futebol brasileiro”. Queria uma situação nova, fui para o Remo e deu tudo certo, vamos jogar a Série A depois de 34 anos.
Marcos Braz fala sobre sua transformação em dirigente profissional
Como é sua relação com o Flamengo hoje profissionalmente? Retornar ainda faz parte dos seus planos?
– Uma vez, eu falei que ficou um título para trás, que é o de campeão do mundo. É capítulo encerrado, ciclo encerrado, sou bem comigo em relação a isso… Falar que voltaria ou não voltaria é muito raso. Eu fiquei com um título que poderia ter ganhado e não ganhei, que é o de campeão do mundo. O resto eu ganhei sem exceção. Estadual, Brasileiro, Supercopa, Recopa, Libertadores… Todos os títulos mais de uma vez para não falarem que sempre é sorte. Eu ganhei em 2009 com sorte, aí ganhei em 2019 também com sorte. Ganhei com estrutura e dinheiro, mas ganhei sem estrutura e com salário atrasado. Aí, para resolver a vida, fui para o Remo e subi com o Remo para dar tudo certo.
Aí, você sai do time com maior estrutura e poder financeiro no país e encara um desafio no Remo que estava há mais de três décadas fora da Série A. Qual o tamanho desse desafio?
– A subida no Remo foi diferente para mim. Tinha um pouco de cada coisa… A emoção, a raiva de dizer que “eu consegui” mesmo sem estrutura, no peito, da minha maneira… Lógico que eu não consegui sozinho, tem outros grandes profissionais no Remo, ajuda de toda a diretoria, mas estou falando de maneira pessoal. Eu consegui botar um time do Norte do Brasil, de fora do eixo, com as possibilidades menores, na elite do futebol brasileiro. Isso foi muito legal.
Marcos Braz, Gabigol, Rodolfo Landim
Alexandre Vidal/Flamengo
Você foi para um mundo totalmente diferente do que estava habituado no Flamengo…
– Eu tive que me reinventar e fui tentando botar no Remo alguns processos e situações do dia a dia para que pudéssemos equacionar problemas e melhorar o cotidiano de trabalho. Sempre fazendo isso entendendo e pensando na realidade estrutural que eu encontrei no local. Agora, tem um ponto que eu acho que foi importante da minha ida. Quando eu pego o telefone e ligo para um jogador, é diferente. É falo para vir para o clube, acreditar no projeto, que vai jogar para 40, 50 mil pessoas… Eu conseguia vender o projeto para alguns jogadores como o Cantillo, jogadores internacionais, fui no Fluminense e peguei dois garotos que ajudaram, no Botafogo…
– A minha relação no futebol brasileiro nos ajudou muito a fazer isso aí, mas eu tive que trabalhar com a realidade local. Fiz os ajustes e processos possíveis, não o ideal que eu acredito 100%. Mas tem uma hora que há um limite para a corda não estourar e temos que ter a sensibilidade no dia a dia, os dirigentes locais têm as suas relações e entendimentos. Belém é uma cidade que não é um grande centro como Rio e São Paulo, o muro é baixo, é como se fosse interior também. Tem um pouco de cada coisa, mas todos os dias eu peço que o Remo tenha sua CND, sua documentação ajustada com o governo, exatamente pelo processo que o Flamengo passou anos atrás.
– É preciso ter um clube que você consiga se estruturar na parte financeira. É assim que você consegue projetos de incentivo, financiamentos para fazer a parte estrutural mais pesada. É claro que tem um pouco da cultura, mas passa pela parte financeira. Todo mundo sabe a importância de um centro de treinamento, ainda mais lá onde jogadores vão jogar a 2.500km para ir e 2.500km para voltar. Você precisa de um recover melhor, um tratamento melhor… É muito tempo em cima de um avião. O Remo deu duas voltas ao mundo para chegar onde chegou. Todos os jogadores que se submetem a esse tipo de viagem são uns guerreiros. É muito tempo sem dormir, muito tempo em aeroporto sem a comida adequada, não tem avião fretado. É outra realidade que você tem que chegar e ir vencendo. Graças a Deus, deixei claro que estaria disposto a este projeto, a enfrentar, e as pessoas quando olhavam para o lado e me viam lá pensavam: “Poxa, esse maluco está aqui, não tem como não estar junto”. E deu tudo certo! Agora, é correr contra o tempo. É uma loucura, pela primeira vez na história o Brasileirão começa em janeiro.
Marcos Braz em entrevista ao Abre Aspas
André Durão / ge
E agora na Série A, você reencontra o Flamengo. Como vai ser esse momento na sua cabeça? Ter o Flamengo como rival é algo que você está preparado?
– Acho que o ponto que mais me faz ficar e me segura no Remo é o de não ir para um grande adversário do Flamengo. Ainda tenho muita dificuldade de pensar nisso aí… Ainda não consegui fazer uma ruptura completa neste sentido. Volto a falar: tenho a cabeça muito tranquila do meu ciclo fechado no Flamengo. O que eu não tenho tranquilo e me tornar adversário direto pelos objetivos do Flamengo. Para deixar bem claro, os objetivos do Remo na competição de 2026 nada tem a ver com os objetivos do Flamengo. Me dá frio na barriga pensar em estar em um clube que tenha os mesmos objetivos do Flamengo.
Jesus, Ceni, Renato, Dorival e Sampaoli: Braz relembra saídas de treinadores do Flamengo
Por falar neste Flamengo de objetivos tão grandes, em qual lugar na história você colocaria essa geração atual?
– A geração de hoje está exatamente na mesma prateleira da geração de 80. Exatamente ali. Claro que a geração de 80 tinha uma outra cultura de futebol, o jogador ficava mais tempo no clube, tinha menos pessoas do lado do jogador… Era muito mais a relação pessoal, a relação humana com o clube. Hoje, você tem um bunker atrás. Mas mesmo assim a geração de hoje está na mesma prateleira de 80. Claro que na de 80 tem um nome que ajuda muito a nunca ser ultrapassada. Quando você fala do Zico, é inquestionável a importância para a instituição, para os títulos, para a geração… A gente diz que esta geração está na mesma prateleira de uma geração que ganhou tudo e ainda tinha o Zico. Por isso, eu acho que essa é tão importante quanto, porque mesmo sem o Zico, foi é o maior de todos, essa geração consegue igualar.
Você diria que o Arrascaeta já é o símbolo desta geração atual? Dá para dizer que com o passar do tempo será lembrada como a geração do Arrasca?
– Acho que se você tirar uma fotografia por completo, sim. O Arrascaeta é o grande jogador da geração. Claro que ele sozinho não iria ter esse sucesso, por mais que ele seja um diferencial técnico enorme. Você precisa de outros jogadores para ter essa excelência toda. O futebol é diferente dos esportes individuais, é sempre acompanhada de bons jogadores ao lado, o que é óbvio. E ele teve em todos esses anos companheiros que ele conhece há muito tempo. Isso é muito importante: a relação do Arrascaeta com o Bruno Henrique é de sete anos, com o Léo Pereira, do BH com o próprio Filipe.. Tudo isso faz também um diferencial quando você enfrenta situações em que tem que analisar a decisão a ser tomada e a segurança dessa tomada de decisão ao ver companheiros que venceram junto ao lado. Você se sente mais seguro e preciso. Isso foi construído.
Braz exalta Arrascaeta e coloca geração atual no mesmo nível da geração dos anos 80
Quais foram as maiores dificuldades na montagem deste grupo que virou essa chave? A saída do Jorge Jesus em 2021 te fez ficar preocupado com o rumo das coisas?
– A saída do Jorge Jesus, mesmo não tendo uma turbulência muito grande, porque a culpa não era nossa, era um desejo dele, eu tinha a noção exata do que estava acontecendo. Tinha noção do que era perder uma comissão técnica da maneira que estava jogando o Flamengo, campeão da Libertadores, do Brasileiro como foi… Não foi o momento que eu achei que foi a maior crise, mas foi uma fase e uma situação que eu tinha a dimensão do que representaria até mesmo para mim, como vice-presidente. E depois um pouco mais na frente eu errei ao tirar o Rogério Ceni naquele momento. Eu me arrependo muito de demitir e não fui coerente. No futebol, você pode ser tudo, pode errar, acertar, mas não pode ser incoerente. Por quê? Eu segurei ele antes de ser campeão, a torcida pedindo para me demitir e demitir ele… Segurei o Rogério, que depois me pediu demissão duas vezes e convenci ele a seguir para ser campeão no Morumbi. Falei isso para ele. Seguro ele, o Flamengo é campeão do Brasil, da Supercopa, tricampeão estadual, e mais na frente por questões internas, pressão de A, de B, eu demiti.
A gestão Landim ficou marcada também por essas trocas constantes de técnico, nenhum começou e terminou o ano… Olhando para trás, você faria algo diferente? Além do Rogério, se arrepende de alguma decisão?
– De 2019 para trás, na gestão do Bandeira, foi um técnico a cada quatro meses. Foram quase 13 técnicos em seis anos e o ponto que eu mais falava era de que ia vencer isso e tentar adequar, mas não consegui. Não tivemos 13 técnicos em seis anos, mas tivemos 10. Diminuí 20%, mas não era o que eu queria. Vencemos com técnicos diferentes. Tiveram duas situações que mudariam essa história… Uma era com o Jorge Jesus e veio a pandemia. O Jorge vem para o Brasil, as coisas vão bem, dá tudo certo, começamos o processo de renovação, que foi extenso. Quando a gente renova, um mês depois ele sai de maneira unilateral. Ele que quis sair. Do meu jeito, da minha forma, fui tentando amenizar essa decisão dele, mas ele levou quatro meses para decidir que queria ficar e 25 dias para decidir ir embora. Eu tinha que arrumar um técnico, era auge da pandemia, uma imprevisibilidade enorme na parte financeira do Flamengo, sequer tinha vacina. Se não foi o pior momento, mas por ter uma sensibilidade grande no futebol e no Flamengo, quando o Jorge Jesus saiu, eu tinha a noção do que estava acontecendo. Depois houve a situação com o Rogério e veio o Renato. Tivemos a classificação na Libertadores, ganhamos jogos de goleada, mas perdemos a final da maneira que perdemos. Então, sendo bem direto, foram dois episódios (de mudança de técnicos): um que eu não tinha como remediar a decisão do Jorge e a segunda do Rogério que eu me sinto culpado. Eu poderia peitar e manter, íamos ficar bastante tempo com ele. Acho que são os dois episódios que me colocaram nestes números em relação a muitas trocas. Se não tem a saída do Jorge Jesus ou a demissão do Ceni, esse aspecto de questionamento seria totalmente diferente.
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A troca do Dorival foi sem dúvidas a mais traumáticas… Há bastidores daquela decisão ainda não revelados?
– A gente iniciou o processo de renovação e fez uma proposta. Veio uma contraproposta e no meio disso aí entendemos que não deveríamos ficar reféns e fomos por outro caminho. Isso foi o que aconteceu. Talvez se tivéssemos mais certezas em relação a a, b ou c, poderíamos estender essa negociação por um novo contrato, mas entendemos que deveríamos trocar e foi feito. Falar desse assunto em cima dos resultados… Na verdade, a análise é essa, em cima dos resultados posteriores, aí é muito difícil. Eu acho… Acho não, eu trocaria de novo.
Você acha que a troca foi determinante para que o Flamengo fizesse um Mundial de Clubes ruim em 2023?
– O resultado logo no primeiro jogo foi muito ruim. Pegamos um árbitro romeno ladrão que operou a gente, mas isso não apaga as dificuldades que tivemos neste processo todo que talvez precisasse de maior tranquilidade pela importância do campeonato.
Ainda nessa dança das cadeiras de técnicos, o Flamengo também viveu momentos conturbados com Jorge Sampaoli. Falando sobre demissões e escolhas, por qual motivo a decisão foi de mantê-lo após o soco do preparador físico no Pedro?
– Até aquele jogo, o Sampaoli parece que tinha perdido só uma partida. E iria começar na semana seguinte o afunilamento da Libertadores, nas oitavas de final, e da Copa do Brasil, que também ficava mais árdua, jogos de mais peso, e eu tinha uma decisão para fazer. Vamos tirar um técnico que tem uma derrota e um time que vinha jogando bem, era o melhor momento do Sampaoli ali? Só que foi gravíssimo o que aconteceu. Era preciso tomar uma decisão e aí talvez se eu não tivesse a habilidade que eu tive, tomaria um outro rumo. Eu consegui convencer o Sampaoli a ficar e tirar o cara de confiança dele e que era o membro da comissão técnica que estava há mais tempo com ele. Fiz isso deixando o filho do preparador, falei que o filho não ia pagar pelo pai, e a vida seguiu. Nós fomos para o jogo de quarta-feira, ganhamos do Olimpia, e depois o dia a dia ficou com uma situação desconfortável com o Pedro, que também se movimentou. Acho que fiz o certo (em não demitir).
Marcos Braz em entrevista ao Abre Aspas
André Durão / ge
A gente vai conversando e vai lembrando de polêmicas e episódios conturbados desses seis anos de gestão Landim, mas, sem dúvidas, o momento mais delicado foi na tragédia do Ninho logo nos primeiros dias… A postura do Flamengo ainda é muito criticada, o tratamento dado aos familiares das vítimas. Qual sua reflexão sobre tudo o que aconteceu?
– Acho que a gente poderia ter alguns cuidados a mais do que a gente teve. Agora, acho que não deveria ter deixado a última família e acabar a nossa gestão sem resolver. É um ponto que eu não entendo e não concordo. Independentemente do prazo, um pouco mais ou menos, a nossa gestão deveria ter feito o último acordo. Faltou habilidade em todos os sentidos em relação a isso, é o único ponto. De resto, não vou falar. É um assunto que marca todos nós. Eu fui o único dirigente que chegou ainda com os bombeiros esfriando o local. Quando acontece um incêndio daquele da maneira que foi, primeiro os bombeiros precisam resfriar a área para começar a mexer, estava em altíssima temperatura e eu cheguei neste momento. Eu vi cenas que não gostaria que nem meu pior inimigo visse, mas tratamos o assunto como deveria ser tratado. Existiu um comitê de crise instalado e foi isso. Para responder a pergunta, eu acho que deveríamos ter feito o último acordo e não fizemos. Não sei se o diferencial foi grande, nunca participei dessas negociações e não posso ser incorreto, mas deveríamos ter encerrado e não foi feito.
Nos seis anos da gestão Landim, houve algum movimento de mercado que deu errado e você gostaria que desse muito certo?
Gabigol ou Adriano? Quem deu mais trabalho ao dirigente Marcos Braz?
– Não houve um jogador excepcional que de fato tentamos contratar, dar o tiro, e não tivéssemos contratado. Eu não me lembro. É claro que houve jogadores que fomos tentar ver no mercado e já tinha outro clube em cima, pode até ter tido isso, mas não houve um jogador assim… Agora, o único jogador que eu viajei e não contratei foi o Balotelli. Era uma conversa com um dos maiores empresários do mundo, que era o Mino Raiola, que, inclusive, já morreu. Ele foi muito correto com o Flamengo, não expôs o clube nem a mim em momento nenhum. O Mino queria que ele ficasse na Itália para se recuperar e disputar a Euro de 2020. Ele tinha uma extrema preocupação, e avisou 200 vezes, do Balotelli no Rio de Janeiro. Eu falei: “Fica tranquilo que eu estou acostumado”.
E a negociação para a renovação do Gabigol que acabou não dando certo? É uma frustração?
– O Gabriel sabe a verdade. A negociação foi feita, todos os trâmites, e previamente passou pelos setores que deveriam passar no clube. Foi feita uma covardia de alguns vagabundos que falaram que eu fechei um número sem estar autorizado e o Landim não assinou, e eu não podia me defender porque teria que dar detalhes em algumas situações e fiquei quieto. O tempo foi passando, a coisa não se concretizou e deu o desfecho que deu. O que eu posso falar é que o departamento de futebol do Flamengo fez todos os trâmites de renovação de um contrato como sempre fez em seis anos. Chegou a um momento e a determinada situação que entendiam que não teriam que renovar e andar para frente com o que foi autorizado e foi isso que aconteceu.
– O Gabriel tem razão de questionar o ponto de ter sido feita a tratativa do contrato, mas talvez o modo que ele foi pontuando para fazer essa cobrança no resultado final poderia ter sido com alguns cuidados que ele não tomou. Cuidados como o Flamengo ganhar um campeonato importantíssimo, na casa de um adversário histórico, e mesmo assim ele solta outros tipos de notícias que não eram pertinentes naquele momento. Eu não esperava que ele falasse naquele momento, mas eu já era mais do que sabedor que a negociação estava em curso. Inclusive, por respeito a minha pessoa, quem estava negociando já tinha me comunicado. O Cruzeiro já tinha me comunicado.
Marcos Braz em entrevista ao Abre Aspas
André Durão / ge
Neste mesmo dia, do título da Copa do Brasil, houve um conflito entre Gabriel e Filipe Luís que você teve que contornar…
– Não tem nada a ver com ele ter falado de ir para novos ares. O problema é que, quando ele foi substituído, não teve o cuidado de dar a tranquilidade ao ambiente que deveria ter dado. Em um segundo momento, na outra semana, entendemos que foi acima do tom o que ele fez e deveríamos afastá-lo. Afastei como afastei outros jogadores em outras situações. É um procedimento normal. Com o Adriano em 2009, não jogou contra o Corinthians (na penúltima rodada) porque eu entendia que tinha que ter tido outro tratamento perto do episódio da queima do pé. O protocolo é esse. “Ah, não vou fazer”. Saiu do jogo, ficou uma semana sem falar comigo, queria me matar, e fomos campeões do Brasileirão. Eu tive uma situação parecida com o Gabriel em 2019, mas as pessoas esquecem. Quando eu fui contratar o Gabriel em definitivo, precisava primeiro acertar a vida com ele para depois ir na Inter de Milão. Foi quando eu passei na zona mista depois e disse que a nossa vida estava muito perto de resolver, mas que o Gabriel precisava decidir a vida dele. Isso deu um problema, ele achou que eu expus ele… Aí, em dezembro, quando a gente foi campeão da Libertadores, ele pulou em mim e disse: “Você vai ter que renovar porque eu sou campeão da Libertadores”. Eu olhei e falei: “Você está esquecendo que eu sou também”. E fomos comemorar na boa.
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Sua relação com o Gabriel foi muito marcante nesses seis anos em que ficaram juntos no Flamengo, e você também viveu algo parecido com o Adriano em 2009. Entre um e outro, quem era mais difícil?
– São momentos diferentes, mas o Gabigol era o Gabigol (risos). O Gabigol nunca chegou atrasado a um treino, não me recordo. Treinava muito e era o último a sair. A camisa do Corinthians foi super fácil de conduzir, foi ruim para ele. Não tinha como seguir como capitão do Flamengo depois daqueles fatos e com a camisa 10, e ele entendeu. Ficou chateado, triste, mas entendeu. Talvez para não ser injusto nessa comparação, talvez o Gabriel seja (o mais difícil) pelo mundo atual, pela exposição que vivemos hoje. É o mundo da tecnologia, das filmagens, das redes sociais…
Ele te deu mais trabalho que o Adriano?
– Eu fiquei mais tempo com ele (risos). É mais do que natural ele me dar mais trabalho porque eu fiquei mais tempo com ele. Mas eu sempre tive facilidade na tratativa com esses jogadores. Eu tenho um lá no Remo, um lateral que é brabo, dá trabalho. Sávio! Vou falar o nome dele, dá trabalho, mas você vai criando uma relação diferente. Sempre com jeito eu falo um negócio no dia a dia: jogador pode quase tudo comigo, desde que esteja combinado. Aí, você vai ajustando o que dá ou o que não dá. É uma falácia dizer que não dá concessão.
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A sua passagem pelo Flamengo ficou marcada não só por títulos, mas também por polêmicas como a briga com um torcedor em um shopping. Você se arrepende?
– Talvez pelo resultado da briga… Se o mesmo torcedor de torcida organizada, o mesmo, me dá um tapa na cara e um soco, talvez o julgamento desta situação teria sido diferente. Nesta o rapaz levou azar. Naquele momento, ele estava sozinho, mas o deixaram sozinho em função da minha reação do jeito que foi. Foi um momento que eu poderia ter evitado? Poderia e deveria, como tantos outros. Você não tem relatos… Fui para jogos, estádios hostis das maneiras mais adversas e não tive uma reação, mas o fato de eu estar com a minha filha no shopping – ela não estava naquele momento porque tinham saído. Querer tirar este fato da minha filha estar com mais duas amigas, eu era responsável por três meninas no shopping, e infelizmente deu no que deu. Depois, o rapaz virou um santo, era entregador de delivery, parece que ficou uma semana, dez dias em casa porque estava abatido. Então, eu poderia ter evitado, mas o fato da minha filha estar comigo eu não posso falar que eu não teria essa reação. É difícil falar desse assunto, é ruim, mas com certeza se eu tivesse tomado um soco na cara, tivesse apanhado, aí a opinião pública, os politicamente corretos iam ficar felizes e eu estaria absolvido deste julgamento em relação a esse episódio. Talvez eu não tivesse que bater, tivesse que apanhar que estava tranquilo. geRead More


