Migrantes de Bangladesh denunciam esquema que os levou da Rússia ao campo de batalha
Uma investigação da Associated Press revelou que trabalhadores de Bangladesh foram atraídos para a Rússia com promessas de empregos civis e acabaram enviados à linha de frente da guerra na Ucrânia. Os migrantes relataram coerção, violência, ameaças e assinatura forçada de contratos militares, sem compreender o conteúdo dos documentos.
Segundo a reportagem, recrutadores convenceram bengaleses a deixar o país com ofertas de trabalho como zeladores, faxineiros, eletricistas e cozinheiros, com salários entre US$ 1.000 (R$ 5,2 mil) e US$ 1.500 (R$ 7,8 mil) por mês e promessa de residência permanente. Ao chegarem à Rússia, muitos foram obrigados a assinar contratos em russo, que na prática os alistavam no exército.
Um acampamento em Bucha, utilizado como quartel-general pelas tropas russas durante a ocupação da cidade em 2022 (Foto: WikiCommons)
Os trabalhadores afirmaram que, após breve treinamento militar, foram enviados para áreas de combate na Ucrânia, onde receberam ordens para cavar trincheiras, transportar suprimentos, evacuar soldados feridos e recolher corpos. Alguns disseram que eram usados na linha de frente enquanto soldados russos permaneciam na retaguarda.
Relatos apontam ameaças de prisão, espancamentos e tortura em caso de recusa. Familiares de trabalhadores desaparecidos disseram que perderam contato após mensagens nas quais os homens afirmavam estar sendo forçados a lutar na guerra.
Documentos analisados pela Associated Press, como contratos militares, vistos, registros médicos e policiais, confirmam a participação de trabalhadores bengaleses no conflito. Organizações de direitos humanos afirmam que a Rússia também tem recrutado homens de outros países do sul da Ásia e da África.
Em Bangladesh, autoridades investigam uma rede de tráfico humano que teria facilitado a ida dos trabalhadores à Rússia. A polícia estima que dezenas de bengaleses possam ter morrido na guerra da Ucrânia. Organizações locais relatam ao menos 10 desaparecidos confirmados.
As famílias afirmam que não receberam salários prometidos e cobram ações do governo para localizar os desaparecidos e responsabilizar os recrutadores. “Não quero dinheiro”, disse a esposa de um trabalhador desaparecido. “Só quero o pai dos meus filhos de volta.”


