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Norte-americanos seguem avançando sobre futebol europeu: o que achar disso?

Norte-americanos seguem avançando sobre futebol europeu: o que achar disso?

Os últimos anos foram de grande agitação no futebol global, especialmente no europeu. Nunca se comprou tantos clubes de futebol, por valores tão altos, em um único ano. Em 2025, o recorde foi novamente batido.
É o que aponta o site Off The Pitch, que monitora os eventos de compra e venda de clubes de futebol. Ao menos 78 clubes passaram a contar com novos investidores no ano que recém se encerrou. Um crescimento considerável sobre os 62 casos de 2024.
Dos 78 casos de 2025, nada menos que 40 clubes passaram a ter norte-americanos como acionistas. Ou seja, vem dos Estados Unidos mais da metade das iniciativas de aquisição de clubes de futebol na Europa, indicando que o fenômeno observado desde o final da década passada ainda está em voga.
Anos atrás o blog analisou as muitas causas e consequências econômicas e políticas da entrada dessa nova onda de investidores norte-americanos no futebol, como você pode ler aqui.
De acordo com o site Football Benchmark – que apresentou números semelhantes em uma publicação de outubro –, 72% dos casos registrados de novos investimentos em clubes se deram de forma majoritária (o que pressupõe a mudança do controle da empresa). Apenas 28% dos casos foram de investimentos minoritários, em movimento distinto ao visto nos últimos anos.
Embora os investimentos minoritários apareçam sempre em uma proporção menor nos dados sobre aquisições de clubes, nos últimos anos foram registradas diversas ocorrências de entradas em clubes sem aquisição de controle, em grande parte protagonizadas por redes multiclubes.
O último relatório “UEFA European Club Finance and Investment Landscape” apontou que redes multiclubes operaram investimentos minoritários em 19 casos nos anos de 2021 e 2022, e mais 18 casos no ano de 2024. Uma marca relevante diante dos números globais.
Esses dados indicavam uma tendência dentro das estratégias de negócios dessas redes multiclubes, que passaram a se expandir para além do objetivo de controle. Dentre essas redes, predominam fortemente aquelas criadas, financiadas e geridas por norte-americanos.
No levantamento do Observatório Social do Futebol, que enfoca nas 64 principais redes ativas da atualidade, estão 17 redes norte-americanas e 23 redes europeias – sendo que 6 são do Reino Unido e as demais oriundas de uma dezena de países distintos.
A diferença na comparação EUA x Europa era ainda menor num passado recente – fato que suscita reflexões sobre o outro lado do fenômeno da entrada do capital norte-americano na aquisição de clubes europeus.
Nos últimos anos, ao menos 6 redes multiclubes deixaram de existir, seja por venda de clubes ou, mais grave, pelo colapso financeiro do grupo proprietário – o que também causava problemas diretos nos clubes da rede. Dessas, também predominam as norte-americanas.
A rede The Common Group deixou de existir após participar do processo de falência do SBV Vitesse, dos Países Baixos. Mais conhecida no Brasil, a 777 Partners colapsou e o seu principal nome se tornou procurado da justiça. Algo que ocorreu ao Pacific Media Group, cuja liderança esteve presa na Espanha, após deixar um rastro de destruição, inclusive com a falência do KV Oostende, da Bélgica. Todos esses casos são de proprietários norte-americanos.
Apesar da forte presença de grupos multiclubes, o ano de 2025 registrou a entrada de vários investidores norte-americanos “avulsos”: nem todos indicam estratégias de aquisição de novos clubes no futuro, mas com enfoque específico em uma agremiação, país ou região – por motivos dos mais diversos.
Outro aspecto relevante a se levar em conta com o atual cenário das aquisições aceleradas e massivas de clubes de futebol, é a estratégia cada vez mais disseminada e sofisticada de envolvimento de figuras pops nas empreitadas.
Astros do cinema, estrelas da música e lendas do próprio esporte têm investido em clubes de futebol como acionistas minoritários, através de consórcios, holdings ou fundos.
Para além do famoso caso dos atores Rob McElhenney e Ryan Reynolds, que compraram o Wrexham AFC (País de Gales), também existem muitos outros casos, como o ator Will Ferrell, acionista do grupo Los Angeles FC, que detém a propriedade do FC Wacker Innsbruck (Áustria) e do Grasshopper (Suíça), mas também investidor minoritário do Leeds United.
Da música, no ano passado houve o caso do rapper Snoop Dogg como parte do consórcio que detém o Swansea (Gales). Do esporte, há o caso recente de Tom Brady, lenda do futebol americano (o que se joga com as mãos), que se tornou acionista do Birmingham City (Inglaterra).
Mural do Swansea City em homenagem ao rapper Snoop Dogg
Divulgação / Swansea City
Muitas vezes sem qualquer envolvimento real com o negócio em si, senão por uma participação minoritária do capital, essas figuras públicas emprestam imagem, prestígio e carisma para facilitar o processo de aquisição de um clube por um grupo de investidores sem os mesmos atributos.
Falando do futebol que se joga com os pés, há poucos dias, o jogador (ainda em atividade) Sergio Ramos foi “convidado” a participar de um consórcio norte-americano que ofereceu 400 mi de euros para comprar o Sevilla FC. Ramos é formado no clube e esteve atuando com a sua camisa há poucos anos.
O Sevilla FC tem um histórico de atuação política dos seus pequenos acionistas (torcedores que possuem ações) contra a entrada de grupos externos, especialmente estrangeiros, tendo sido o grupo Accionistas Unidos SFC o grande responsável por barrar a entrada da 777 Partners. A figura de Sergio Ramos, como ídolo em campo, seria crucial para furar esse bloqueio.
De um modo geral, a presença norte-americana na propriedade de clubes de futebol já não é tão nova assim, com muitos casos famosos ocorrendo desde o final dos anos 1990. Mas é preciso entender as características particulares da nova geração de investidores, que se forma sobre uma tese pouco sólida, mas muito sedutora, de que é possível fazer dinheiro grande com clubes de futebol.
Dentre sucessos sonoros e fracassos estrondosos, as múltiplas faces do capital norte-americano no mundo do futebol vai deixando sua marca e redesenhando o futebol como conhecemos. Esse ainda é o grande tema da década. geRead More