O homem forte da Chechênia está doente? Saúde de Ramzan Kadyrov vira problema político para a Rússia
Relatos sobre a saúde de Ramzan Kadyrov, 49 anos, líder da Chechênia, voltaram a circular nas últimas semanas e colocaram o Kremlin em estado de alerta. Segundo informações divulgadas por serviços de inteligência da Ucrânia, Kadyrov estaria sofrendo de insuficiência renal e recebendo tratamento médico em uma clínica particular em Grozny. As informações são do Politico.
Embora não haja confirmação independente, o tema ganha peso político em um momento especialmente sensível para Moscou. A guerra contra a Ucrânia entra em seu quinto ano, a elite russa enfrenta desgaste interno, e a Chechênia segue sendo uma região mantida sob controle quase exclusivo da força e da lealdade pessoal ao presidente Vladimir Putin.
Ramzan Kadyrov em foto de 2024 (Foto: WikiCommons)
Não é a primeira vez que rumores sobre a saúde de Kadyrov surgem. Em outras ocasiões, ele já foi dado como à beira da morte, apenas para reaparecer em público, muitas vezes com aparência debilitada, mas ativo. Ainda assim, especialistas afirmam que o contexto atual torna os relatos mais relevantes do que em episódios anteriores.
A Chechênia foi um laboratório político e militar para Putin no fim dos anos 1990. A repressão brutal aplicada durante a Segunda Guerra da Chechênia consolidou a imagem do então desconhecido ex-agente da KGB e pavimentou seu caminho até o Kremlin. O acordo costurado com Akhmat Kadyrov, pai de Ramzan, marcou uma virada no conflito: poder local em troca de lealdade absoluta a Moscou.
Após o assassinato de Akhmat, em 2004, Ramzan Kadyrov herdou o pacto. Sustentado por vultosos subsídios federais, construiu um regime marcado por repressão extrema, violações sistemáticas de direitos humanos e perseguição a opositores, incluindo denúncias internacionais sobre sequestros, torturas e assassinatos de homens suspeitos de serem gays.
Nos últimos anos, Kadyrov também se tornou uma figura constante nas redes sociais, cultivando a imagem de líder temido, imprevisível e performático. Vídeos com armas, desafios públicos, ataques verbais a críticos e episódios envolvendo celebridades internacionais ajudaram a manter sua presença midiática, mesmo quando seu peso real dentro do sistema de poder russo passou a ser questionado.
A invasão da Ucrânia expôs parte desse desgaste. As forças chechenas ligadas a Kadyrov não corresponderam à reputação construída ao longo de décadas. O desempenho limitado em momentos decisivos do conflito rendeu críticas e o apelido depreciativo de “lutadores do TikTok”, em referência à distância entre a imagem propagada e os resultados no campo de batalha.
Para analistas, esse enfraquecimento simbólico, somado às dúvidas sobre a saúde do líder checheno, transforma Kadyrov em um problema adicional para o Kremlin. No fim de 2025, veículos independentes russos relataram uma hospitalização de emergência durante uma viagem a Moscou, reforçando a percepção de fragilidade.
Apesar de negar problemas graves, Kadyrov admitiu publicamente sofrer de crises nervosas e confirmou a intenção de disputar as eleições regionais de 2026. Ao mesmo tempo, movimentos recentes indicam preparação para um cenário pós-Kadyrov. Em janeiro, ele nomeou o filho Akhmat, de 20 anos, para um cargo de vice-primeiro-ministro interino, gesto interpretado como sinal de uma possível sucessão de caráter dinástico.
Além disso, investigações apontam que dezenas de parentes ocupam cargos estratégicos no governo local, formando uma estrutura de poder altamente personalista. Ainda assim, observadores do Kremlin indicam que Moscou pode preferir um sucessor mais alinhado diretamente às Forças Armadas russas, reduzindo a dependência de uma única figura.
Especialistas alertam que a eventual saída de Kadyrov não significaria, necessariamente, uma ameaça existencial ao regime de Putin. O sistema de controle implantado na Chechênia foi desenhado para sobreviver ao líder que o personificou.
Para o Kremlin, a transição pode ser complexa e desconfortável, mas administrável. Como apontam analistas, Putin conseguiu criar na Chechênia o mesmo modelo que tenta replicar em outros territórios: repressão total, lealdade forçada e instituições moldadas para funcionar independentemente de indivíduos.


