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Vizinho do Mirassol luta para seguir vivo em meio a dívidas e com estádio gigante quase sem jogos

Vizinho do Mirassol luta para seguir vivo em meio a dívidas e com estádio gigante quase sem jogos

América-SP completa 20 anos do histórico título da Copinha
A distância entre o América-SP e o Mirassol é muito maior do que os 22 quilômetros que separam os seus respectivos estádios no interior de São Paulo.
Enquanto um clube se prepara para disputar a Conmebol Libertadores pela primeira vez, o outro luta para sobreviver ainda na incerteza de participar da quinta e última divisão do Campeonato Paulista. A história de ambos, no entanto, poderia ser bem diferente da realidade atual.
Fundado em 1946, o América-SP, de São José do Rio Preto, se tornou um dos times mais tradicionais do futebol de São Paulo. Com 44 participações na elite do estadual mais forte do Brasil — a última delas em 2007 —, o clube disputou duas vezes a Série A e sete vezes a Série B do Campeonato Brasileiro.
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Infoesporte
Apesar de ter sido criado antes, em 1925, o Mirassol foi se profissionalizar apenas no início da década de 1950. A primeira participação na elite estadual aconteceu só em 2008, depois de altos e baixos e até períodos de inatividade.
A grande virada de chave na história dos dois clubes ocorreu nos últimos anos graças a boas e más gestões. Enquanto o Mirassol se consolidou como uma das principais forças do futebol paulista até chegar à elite nacional, o América-SP sucumbiu ao fundo do poço e à última divisão estadual.
América-SP completa 20 anos do histórico título da Copinha
Recomeço
O América-SP trabalha neste momento para viabilizar a sua participação no Campeonato Paulista da Segunda Divisão – na prática, a quinta divisão estadual. No ano passado, em virtude dos problemas financeiros e de liberação de seu estádio, o clube não disputou a competição.
A dívida total estimada do América-SP, segundo apuração do ge, pode ultrapassar os R$ 30 milhões. São mais de 140 processos trabalhistas em que o clube responde na Justiça atualmente.
A dívida que o América tem, dentro do futebol, não é fácil de saldar, mas é totalmente possível. É muito pequena comparando com outros clubes
– O América, se ficasse da maneira que estava, não conseguiria saldar dívida com ninguém. Nós estamos trabalhando, a Justiça do Trabalho está levantando processo por processo para saber qual é a real dívida de cada um, e nós vamos poder começar a saldar essas dívidas quando o América começar a subir. Então, quanto mais o América crescer, mais ele subir divisão, mais recursos vão entrar mais facilidade a gente consegue saldar as dívidas com os credores – explicou Marcos Vilela, presidente do América-SP desde outubro de 2024.
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Marcos Vilela, presidente do América-SP
Divulgação/América-SP
Para conseguir voltar a figurar nas principais competições de São Paulo e do Brasil, o América-SP tem buscado patrocinadores em São José do Rio Preto e região para viabilizar a participação na última divisão do Paulista.
A cota destinada pela Federação Paulista de Futebol (FPF) para a participação no campeonato é insuficiente para cobrir os custos. Só de folha salarial estima-se mais de R$ 100 mil mensais, podendo ser o dobro ou até o triplo para a montagem de um elenco competitivo.
– Nós estamos naquela fase de levantar e chegar à real situação do América, das dívidas que nós temos. E aí, sim, daqui a um período, a gente vai começar a estar preparado e fortalecer mais a marca, porque nós temos uma grande vantagem, o América é forte, um dos maiores clubes do interior paulista, e isso facilita muito o nosso trabalho.
– O caixa é zero. As receitas que estão entrando são suficientes para que a gente não deixe nenhuma dívida. Desde o dia que entramos aqui, nós recolhemos todos os impostos e a dívida é zero. As receitas são o suficiente para as despesas mensais – disse o presidente.
América planeja 2026 com Bezinha como objetivo e Copinha no Teixeirão
Nos últimos anos, o América-SP vivenciou uma guerra política entre grupos que disputaram o poder e se alternaram no comando do clube travando seguidas batalhas na Justiça. Isso acabou minando qualquer projeto que fizesse o América-SP deixar as últimas divisões.
Gigante adormecido
Construído em um terreno de 43 mil m², o estádio Benedito Teixeira não lembra nem de longe seus dias de glória, como quando foi palco do título brasileiro do Santos em 2004, por exemplo. O Teixeirão, como é conhecido, pertence ao clube.
O estádio recebeu 47 jogos de Corinthians, Santos, São Paulo e Palmeiras desde a inauguração, em 10 de fevereiro de 1996. No mesmo ano, sediou um amistoso da Seleção Brasileira, que goleou Gana por 8 a 2 na ocasião.
Estádio Teixeirão, casa do América de Rio Preto
Gustavo Bottini/6três Comunicação
O público de quase 40 mil pessoas nos grandes jogos agora é apenas uma lembrança do que um dia foi “a segunda casa” dos grandes clubes de São Paulo. Nos últimos anos, recebeu menos de um jogo oficial por mês do time profissional do América-SP e chegou a ser utilizado para jogos do time de futebol americano da cidade.
A capacidade do estádio é incerta. Enquanto o atual site do América-SP cita 55 mil pessoas, outras referências apontam lugares para entre 32 e 36 mil pessoas. Em 2018, a reportagem do ge esteve no local e mostrou que o estádio apresentava situação precária e em condições de abandono. Clique aqui e relembre a reportagem.
– Retiramos aproximadamente uns 20 caminhões de lixo do Teixeirão. Nunca foi feita uma limpeza nos últimos 15 anos. Mas nós já sabíamos, tínhamos consciência da nossa responsabilidade. É o segundo maior estádio no estado de São Paulo, no interior. E é, não tenha sombra de dúvida, o mais bonito que tem no interior paulista, onde você estiver sentado consegue visualizar o campo todo, assistir aos jogos. Então, o estádio é um orgulho nós termos – explicou o atual presidente do clube.
Em 2018, o América-SP secava as camisas de jogo nas arquibancadas do Teixeirão
Emilio Botta
A Justiça do Trabalho penhorou o estádio em 2013 e determinou um leilão para saldar as dívidas trabalhistas com ex-funcionários e jogadores. Em duas tentativas, em 2015 e 2016, o estádio entrou no lote de itens a serem leiloados pela Justiça do Trabalho, mas em nenhuma delas houve interessados. O lance inicial para arrematar o estádio, avaliado pela Justiça em R$ 35 milhões, era de R$ 21 milhões, valor que corresponde a 60% do valor do terreno.
Segundo o América-SP, o valor aproximado de avaliação do Teixeirão no mercado imobiliário é de R$ 400 milhões. O custo mensal com a manutenção do estádio gira em torno de R$ 50 mil, sendo cerca de R$ 10 mil com água e R$ 8 mil de energia elétrica.
Imagem aérea do Teixeirão (em 2018) mostra o tamanho do estádio e o seu entorno
Eduardo Durú/TV TEM
Ou seja, o clube tem gasto anual na casa dos R$ 600 mil para manter o Teixeirão, que recebe poucos jogos e não gera renda com bilheteria, pelo contrário, sempre prejuízo.
Na temporada 2024, quando o clube disputou a Série A4 e foi rebaixado para a quinta divisão estadual, o América fez sete partidas em casa, com média de 602 pagantes por jogo e prejuízo de quase R$ 4 mil na somatória das rendas das respectivas partidas.
O plano da atual gestão é transformar o Teixeirão em uma arena e ainda aproveitar um terreno anexo ao estádio de 16 mil metros quadrados que também é de propriedade do clube, mas que não pode ser vendido pelo acordo de cessão com a prefeitura.
Estádio do Mirassol comporta apenas um terço da capacidade do Teixeirão, na vizinha Rio Preto
Felipe Novoa – Nopontovoa
Mesmo com a proximidade das cidades, o Mirassol nunca procurou o América-SP para viabiliza o uso do Teixeirão caso avance para a fase eliminatória da Conmebol Libertadores ou para realizar jogos contra grandes para ter público e renda maiores.
– Já conversamos vários assuntos, mas este não esteve em pauta. Se chegar o momento de conversar, o Teixeirão vai estar preparado para receber jogos grandes. E eu não tenho dúvida que, quando o Mirassol precisar, a gente vai fazer de tudo para adequar. Mas, até o momento, não tivemos essa conversa. Sabemos que eles vão levar os jogos para a opção do Pacaembu. E é uma opção, acho que o que eles decidirem está bem decidido – disse o presidente do América-SP.
Fred tem um dia de jogador e treina com o time do Mirassol
Primo pobre?
Apesar da diferença esportiva e financeira entre os clubes neste momento, o América-SP não se considera o “primo pobre” na comparação com o Mirassol. E a justificativa dada pelo atual presidente do time de São José do Rio Preto é justamente o fato de ter um estádio próprio.
– Acho que não cabe nessa pergunta de primo pobre, mesmo porque o América tem uma história muito grande. O Mirassol está construindo a sua história. Nós, na década de 1960, 70, 80, temos uma história maravilhosa. O América foi o time que mais permaneceu na elite do futebol paulista, disputou o Brasileiro também.
– Nós não podemos nem mencionar a questão de primo pobre, porque o América é dono de um estádio. Se for para construir um estádio no Teixeirão, hoje são R$ 500 milhões. Então os ativos do América são o maior da região. Nós temos um grande estádio, temos um terreno no lugar privilegiado de São José do Rio Preto, e para fazer um estádio desse é R$ 500 milhões para cima – disse Vilela.
América-SP foi campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2006
Reprodução
Em 2023, o América-SP virou uma SAF e ser vendido por valor simbólico de R$ 1 milhão. No entanto, a empresa que assumiria o controle nunca chegou a administrar o clube e o registro para seguir no projeto de Sociedade Anônima do Futebol cancelado na Federação Paulista. Ou seja, o América-SP segue sendo um clube associativo e sem previsão de mudança nesse modelo a curto prazo.
– Nós somos um clube associativo, fizemos uma alteração no estatuto, porque o estatuto aqui era de 2010, estava superado. No novo estatuto, temos uma preparação para que, no futuro, tenha a possibilidade de se tornar SAF. Mas não é o momento ainda.
América-SP tem mantido categoria de base ativa enquanto planeja retorno ao futebol profissional
Müller Merlotto Silva
Distante da realidade atual, os vizinhos América-SP e Mirassol se enfrentaram 13 vezes ao longo da história, com sete vitórias do time de São José do Rio Preto, dois empates e quatro vitórias do Leão. O último confronto entre eles aconteceu em 2009, pela Copa Paulista, com vitória do Mirassol por 3 a 2.
Mais sobre o América-SP
Fundação: 28 de janeiro de 1946
Cidade: São José do Rio Preto
Estádio: Benedito Teixeira (Teixeirão)
Mascote: Diabo Vermelho
História: 44 participações na elite do Campeonato Paulista
Títulos: Taça dos Invictos (1973 e 1999); Copa Paulista (1987); Série A2 do Campeonato Paulista (1957, 1963 e 1999); Torneio Início Paulista (1958). geRead More