“Câmera fica congelada”: fotógrafos revelam bastidores de cobertura das Olimpíadas de Inverno
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Quase tudo o que vemos – e sabemos – sobre as Olimpíadas de Inverno chegam até nós pelas lentes dos fotógrafos. Seja filmando, seja fotografando, eles estão lá capturando momentos, transformando-os em registros visuais e distribuindo-os em forma de mensagem ao mundo. Mas, afinal, quais são as dificuldades enfrentadas por essas pessoas que estão por trás das telas em condições climáticas e geográficas extremas?
Câmera congelada durante os Jogos
Arquivo Pessoal/David Ramos
Câmeras congeladas, peso nas costas, desidratação pelas baixíssimas temperaturas e riscos de deslize nas montanhas fazem parte da rotina de quem cobre esportes na neve. Nesta matéria, reunimos relatos exclusivos de dois fotógrafos que estão cobrindo os Jogos de Inverno de Milão-Cortina 2026 que contam os limites aos quais esses profissionais chegam para que nossas narrativas possam ser construídas a partir de imagens.
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Câmera congelada e desidratação: os desafios da cobertura
Fotografar na neve vai além de dominar a técnica da fotografia. Em modalidades como o esqui, por exemplo, muitos profissionais que fazem a cobertura também são esquiadores experientes. Trata-se de um ambiente que está longe de ser totalmente seguro e exige disposição para enfrentar riscos e uma grande resistência mental.
Equipamentos que os fotógrafos carregam nas mochilas
Julian Finney
— Não se trata apenas de descer uma encosta esquiando, fazemos isso carregando todo o nosso equipamento. Isso nos deixa mais pesados e, consequentemente, mais rápidos, colocando à prova ainda mais o equilíbrio e a força de cada um — esclarece Julian Finney, fotógrafo da equipe da Getty Images, responsável pela cobertura de esportes como curling, esqui alpino, bobsled e outros.
Registro de esquiadora durante os Jogos Olímpicos de Inverno em Milão-Cortina
Julian Finney/Getty Images
Além disso, as temperaturas podem chegar a -20 °C, muitas vezes acompanhadas de ventos fortes, o que torna as longas horas ao ar livre especialmente desgastantes. O trabalho noturno é ainda mais difícil.
Em alguns casos, a câmera pode congelar completamente por causa da condensação gerada pela própria respiração, a ponto de não ser mais possível abrir o compartimento para trocar o cartão de memória.
Se manter hidratado vira um desafio, já que as garrafas de água congelam.
— Até mesmo algo básico como se manter hidratado vira um desafio, já que as garrafas de água congelam inclusive aquelas guardadas nos bolsos internos da roupa. Nos dias mais frios, vestir cinco camadas de roupa pode ser a única forma de conseguir continuar trabalhando. — explica David Ramos, fotógrafo da equipe da Getty Images, responsável pela cobertura de eventos de snowboard e esqui freestyle.
Lente da câmera congelada
Arquivo Pessoal/David Ramos
Um outro desafio recorrente surge na passagem do frio extremo externo para ambientes aquecidos, como os centros de mídia. A mudança brusca de temperatura provoca condensação, fazendo com que as lentes embacem e até congelem quase de imediato, ficando inutilizáveis até que se ajustem gradualmente ao novo ambiente.
— Até os acessórios essenciais sofrem com essas condições. Cabos de rede podem congelar e ficar rígidos, tornando quase impossível desconectá-los da câmera justamente quando os prazos exigem a transmissão imediata dos arquivos — conclui David Ramos.
Da lente ao envio em tempo real: os avanços tecnológicos
Roupas utilizadas pelos fotógrafos
Arquivo Pessoal/Julian Finney
Cada fotógrafo trabalha com uma bolsa que pesa, em média, cerca de 22 kg, equipada com quatro corpos de câmera profissionais, notebook para edição e envio em tempo real, flashes, além de um amplo conjunto de lentes.
Isso inclui desde grande-angulares, como 15–35mm e 24–70mm, até teleobjetivas como 70–200mm, 300mm e, dependendo da modalidade, 400mm, 500mm ou 600mm, além de lentes fixas e lentes especiais.
A cabine dos operadores de drones de transmissão durante as Olimpíadas de Inverno
Julian Finney/Getty Images
Nos Jogos de Inverno, há ainda equipamentos desenvolvidos especialmente para operar em temperaturas abaixo de zero, assegurando desempenho confiável mesmo em condições extremas. Nos últimos anos, os principais avanços têm vindo sobretudo das áreas de automação, robótica e transmissão de dados em alta velocidade.
Câmeras robóticas permitem capturar ângulos impossíveis ou não seguros para um fotógrafo, como vistas aéreas, posições no teto das arenas, atrás de gols ou dentro d’água.
— Outro avanço fundamental está no fluxo de trabalho digital. Hoje, as imagens são captadas, editadas e distribuídas quase instantaneamente. A Getty Images (plataforma de fornecimento de conteúdo visual), por exemplo, consegue enviar mais de 10 mil imagens por dia, em tempo real, algo impensável há poucos ciclos olímpicos, quando tablets e consumo móvel ainda nem existiam — Michael Heiman, vice-presidente global de Esportes da Getty Images.
Fotógrafo mostra as roupas congelando
David Ramos/Getty Images
Antes do Sol e além do cansaço: a rotina
Eles partem antes mesmo do Sol nascer – quando o frio é intenso – pois precisam estar em seus lugares com uma ou duas horas de antecedência à largada.
Essa talvez seja a parte mais difícil: conseguir se manter aquecido enquanto ficamos parados, esperando.
— Essa talvez seja a parte mais difícil: conseguir se manter aquecido enquanto ficamos parados, esperando. Colocamos os crampons, prendemos nosso equipamento e a nós mesmos, à pista, testamos as comunicações e os editores ficam a postos — explica Julian Finney.
Câmera congelada durante os Jogos
Arquivo Pessoal/David Ramos
Duas horas depois, começa o trabalho de fotografar. Durante a subida, o frio costuma roubar a sensibilidade dos dedos enquanto eles seguram a lente gelada da câmera, tornando tudo mais difícil. A concentração precisa ser total: nem sempre é possível prever o momento exato em que o atleta surgirá em alta velocidade, descendo pela montanha.
— Não temos como saber quem está liderando a prova ou quem pode vencer; o que resta é tentar fotografar todos os competidores. Quando tudo termina, estamos exaustos, com fome e doloridos. Descansamos, nos reabastecemos e fazemos tudo outra vez no dia seguinte — conclui. geRead More


