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Como a Ucrânia resiste e não vê derrota próxima, 4 anos após invasão russa

Como a Ucrânia resiste e não vê derrota próxima, 4 anos após invasão russa

 Este mês completa quatro anos desde o início da invasão em larga escala, e um cessar-fogo ainda parece distante
Getty Images via BBC
Em uma noite escura e fria em Donetsk, no leste da Ucrânia, as redes que protegem a estrada contra ataques de drones explosivos cintilavam e ondulavam sob os faróis de nosso Toyota Land Cruiser blindado, enquanto atravessávamos túneis estranhos e surreais para entrar e sair da área de combates mais intensos no leste do país.
Essas redes se estendem por quilômetros, suspensas em postes de madeira com cerca de 6 metros de altura, ao longo das laterais e sobre o topo da via. Veículos militares de aparência distópica, que parecem saídos do filme pós-apocalíptico Mad Max 2, passam roncando, envoltos em suas próprias gaiolas de aço e malha.
As redes prendem as hélices dos drones que atacam, funcionando como uma barreira física barata e surpreendentemente eficaz. Mesmo que os operadores russos detonem a carga transportada pelo drone, há a possibilidade de que a explosão não ocorra perto o suficiente para matar pessoas que trafegam pela via em ônibus e carros civis, além de veículos militares.
Grande parte das redes foi doada por pescadores europeus. Apenas nesta semana, o governo da Escócia anunciou o envio de outras 280 toneladas de redes de salmão que estavam prestes a ser recicladas. Antes de qualquer uso, as Forças Armadas ucranianas lançam drones contra o material para testar sua resistência.
Na Ucrânia, redes antidrones se estendem por quilômetros, suspensas em postes de madeira
Getty Images via BBC
As três letras mais temidas no campo de batalha são FPV, sigla para first-person view (“visão em primeira pessoa”, em tradução livre). Drones FPV estão entre os principais responsáveis por mortes e são utilizados tanto pela Ucrânia quanto pela Rússia. Eles têm câmeras que transmitem informações a seus operadores em um centro de comando que pode estar a 30 ou 40 km de distância. Visitamos alguns desses centros, escondidos em porões de prédios destruídos ou em casas discretas de vilarejos.
No interior, há fileiras de telas que transmitem vídeos e dados dos drones, analisados por softwares avançados das Forças Armadas ucranianas. As câmeras ampliam pequenas figuras de soldados que se movem entre ruínas, enquanto os operadores orientam os homens em terra por meio de rádios comunicadores, codinomes e fones de ouvido. Vimos soldados entrando em edifícios onde os drones haviam identificado russos escondidos e saindo após matá-los.
As primeiras versões dos drones eram controladas por sinais de rádio, mas ambos os lados dominam a guerra eletrônica e rapidamente encontraram formas de bloqueá-los. Hoje, a maioria é controlada por cabos de fibra óptica, tão finos que um carretel de 25 km (que transporta dados e vídeo) cabe em um compartimento acoplado ao drone do tamanho de uma grande garrafa de água sanitária.
O leste da Ucrânia costumava lembrar a Frente Ocidental na Primeira Guerra Mundial, com trincheiras e abrigos reforçados contra artilharia e atiradores de elite. Após a invasão em larga escala, há quatro anos, ainda parecia, por algum tempo, um campo de batalha do século 20. No entanto, agora, os drones transformaram a forma como a guerra é travada, e Exércitos em todo o mundo observam de perto, obrigados a rever suas concepções sobre como realizar combates.
A estreita linha de confronto que antes existia entre os dois lados agora se estende por uma ampla faixa de território que ambos chamam de kill zone (zona de morte, em tradução livre), que pode alcançar cerca de 20 km para cada lado a partir das posições avançadas dos dois Exércitos. Áreas de retaguarda destinadas à logística e ao atendimento de feridos, que antes eram relativamente seguras, tornaram-se tão letais quanto a antiga linha de frente.
Os céus ficam saturados de drones de vigilância, tornando qualquer deslocamento extremamente perigoso. Redes sociais estão repletas de vídeos impactantes gravados por drones FPV, que mergulham sobre seus alvos, às vezes perseguindo indivíduos em campo aberto ou até entrando em prédios, atravessando salas e portas até localizar o alvo. A última imagem costuma mostrar um homem aterrorizado prestes a morrer.
Artilharia e tanques continuam sendo armas formidáveis. Mas um drone que custa cerca de US$ 1 mil (aproximadamente R$ 5 mil) pode, nas mãos de um operador habilidoso, destruir um tanque avaliado em US$ 30 milhões (cerca de R$ 150 milhões). O jornal americano The Wall Street Journal informou recentemente que um pequeno grupo de operadores ucranianos de drones causou grande impacto ao ser convidado a enfrentar forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em um exercício na Estônia no ano passado. A Otan ainda precisa recuperar o terreno. Uma das principais consequências dos últimos quatro anos de guerra é que a Ucrânia e a Rússia se tornaram os mais experientes e proficientes praticantes de guerra com drones no mundo.
Os dois países inovam constantemente para ganhar vantagem na guerra dos drones. Ambos utilizam o sistema Starlink, de propriedade do empresário Elon Musk, o homem mais rico do mundo, para comunicações e navegação no campo de batalha. Os russos sofreram um revés recente quando Musk concordou em desativar terminais registrados na Rússia que estavam ativos dentro da Ucrânia. Isso parece ter sido uma razão importante para que a Ucrânia, com um sistema Starlink ativo financiado pela Polônia, tenha recentemente recuperado território no sul.
Todas as unidades ucranianas de drones que visitei, porém, afirmaram acreditar que os russos logo encontrariam uma forma de contornar a medida. Elas demonstram respeito pelas habilidades das unidades russas de elite de drones que, segundo disseram, se chamam Rubicon (Rubicão) e Day of Judgement (Dia do Julgamento).
Um oficial de alta patente afirmou que os europeus ocidentais precisam esquecer os erros militares cometidos pela Rússia após a invasão em larga escala há quatro anos e distinguir os milhares de soldados russos da linha de frente mortos a cada mês das unidades de elite de drones que Moscou considera parte central de seu esforço de guerra. Segundo ele, essas unidades são “valorizadas” pelo Exército russo.
Na minha visita mais recente à Ucrânia, a ameaça dos drones nos levou a acompanhar de perto a previsão do tempo antes de seguir para Donetsk. Adiamos a viagem em um dia de céu azul e esperamos por mais neve. Drones enfrentam dificuldades em mau tempo.
Nos sentindo um pouco mais seguros com as redes e a neve, seguimos em direção à cidade de Slovyansk, passando por carcaças de prédios destruídos ao longo dos últimos quatro anos. Slovyansk ainda funciona como cidade, ainda que precariamente, com alguns cafés e lojas abertos. Mas milhares de moradores se mudaram para locais mais seguros e, quando os que permaneceram saem às ruas, o temor dos drones FPV russos faz com que se apressem pelas vias geladas e cobertas de neve para concluir suas tarefas e voltar para casa com vida. Redes estão sendo instaladas no centro da cidade.
Slovyansk está no topo da lista inflexível de exigências do presidente russo, Vladimir Putin, para um cessar-fogo. Parte significativa do preço que ele cobra é que a Ucrânia entregue cerca de 20% de Donetsk que ainda controla, além de outras áreas que seu Exército não conseguiu capturar nas regiões meridionais de Zaporizhzhia e Kherson. Segundo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, os americanos o pressionaram a aceitar o acordo, para alcançar um cessar-fogo até o verão no hemisfério norte (entre junho e setembro).
O presidente dos EUA, Donald Trump, também quer que Zelensky convoque eleições, exigência que não fez a Putin. Indícios sugerem que Trump busca poder declarar que encerrou a guerra. Mesmo que um cessar-fogo não se sustente, ele o trataria como vitória a ser levada para as eleições legislativas de meio de mandato nos EUA no próximo novembro. Ele também mira grandes acordos comerciais com a Rússia, que não podem avançar enquanto as sanções estiverem em vigor.
Os americanos tentaram impor prazos para um acordo. Mais recentemente, disseram a Zelensky que ele precisava concordar com um cessar-fogo até o verão, para que Trump pudesse se concentrar nas eleições de meio de mandato. A incapacidade dos EUA de impor sua vontade à Ucrânia — ou à Rússia — mostra que sua influência tem limites. Quatro anos após a invasão em larga escala promovida pela Rússia, não há evidências concretas de que um cessar-fogo genuíno esteja próximo.
Ucrânia marca 4 anos do início da guerra
Os perigos em Donetsk
Quando eu encontrei o presidente Volodymyr Zelensky no último fim de semana, em Kiev, ele afirmou que jamais poderia abrir mão de territórios que a Rússia não conseguiu capturar. Disse que nunca abandonaria as pessoas que vivem nessas áreas e que, mesmo que fosse tentado a fazê-lo, isso não funcionaria. Segundo seu cálculo, em até dois anos as forças russas estariam rearmadas e reestruturadas, e Vladimir Putin ordenaria novo ataque.
A primeira pessoa que visitamos em Slovyansk foi Oleh Tkachenko, um pastor de meia-idade, de porte robusto, que montou uma notável operação de ajuda humanitária. Ele é um dos poucos civis que viajam às áreas mais perigosas, levando pão a vilarejos isolados, produzido em sua própria padaria, que fabrica 17 mil unidades por semana.
Após as entregas, costuma retornar com moradores que decidiram deixar a região próxima à linha de frente. A padaria de Oleh é um oásis de ordem e calor em meio às ruínas congeladas e cobertas de neve de uma área industrial na periferia de Slovyansk.
O Programa Mundial de Alimentos da Organização das Nações Unidas (ONU) o ajudou a restabelecer o negócio depois que foi forçado a deixar sua cidade natal, atualmente sob ocupação.
Ele afirmou que os riscos em Donetsk se multiplicaram nos últimos meses à medida que a guerra dos drones se intensificou.
“A situação mudou radicalmente. Existem apenas lugares muito perigosos e relativamente perigosos. Já não há nenhum lugar seguro na região de Donetsk.”
Eu perguntei a ele se Zelensky deveria ceder à pressão russa e americana para sacrificar Donetsk em troca de um cessar-fogo. Foi a mesma pergunta que fiz a todos que encontrei em Slovyansk, e obtive respostas semelhantes.
“O que mais Putin quer? Esta é a minha região de Donetsk. Eu nasci aqui. Meus filhos nasceram aqui. Construí minha família aqui. E eu deveria deixar tudo isso? Para quê?”
Segundo ele, Putin não deve ser autorizado a tomar e manter território que não pertence à Rússia.
“Estamos destruindo os valores sobre os quais este mundo foi construído por capricho de uma única pessoa. Não apenas o vilão evitará a punição, como também será recompensado? Desculpe. Quantos vilões como esse existem no mundo?”
Mapa mostra áreas da Ucrânia sob domínio russo
BBC
Em um café, conheci Oleksii Yulov. Ele comanda uma organização chamada Advis Platsdarm, que recolhe corpos de soldados mortos nos locais onde foram mortos, para honrar sua memória e, antes de receberem sepultamento digno, identificá-los e dar às famílias alguma certeza sobre seu destino. Oleksii não faz distinção entre russos e ucranianos mortos, mas isso não significa que esteja disposto a aceitar a dominação russa em Donetsk. Assim como Oleh, ele diz não acreditar nas promessas feitas por Vladimir Putin.
“Então, se um maníaco vai à sua casa e diz: ‘Entregue sua filha e eu não voltarei’, você realmente acha que alguém assim — que estupra e rouba — simplesmente vai parar?”
“Todos nós sabemos quem são os maníacos, certo? É horrível. Entregar uma parte de si mesmo — ou seu filho — para ser dilacerado… Eu não entendo porque essa pergunta é inclusive feita aos ucranianos.”
Oleksii também recuperou os restos mortais de soldados mortos na Segunda Guerra Mundial em Donbas, nome usado para designar Donetsk e a região vizinha de Luhansk, que entrou integralmente sob controle russo. Ele compara as promessas de Putin às feitas por Adolf Hitler na Conferência de Munique, em 1938. Hitler afirmou que a região da Tchecoslováquia conhecida como Região dos Sudetos seria sua última reivindicação territorial na Europa. O Reino Unido e a França aceitaram sua palavra como preço para evitar a guerra mundial que começou no ano seguinte. Como muitos nesta parte da Europa, Oleksii vê paralelos com o passado.
“As promessas feitas pela Rússia não valem nada — assim como as promessas de Hitler de que, após tomar a Região dos Sudetos, nada mais aconteceria. Todos vimos aonde isso levou: à Segunda Guerra Mundial. Agora pode levar a uma Terceira Guerra Mundial se não pararmos e dissermos a Putin que aqui vivem pessoas, pessoas que querem viver em seu próprio país, em sua própria terra. Cada uma delas tem esse direito. Nenhum ucraniano tem o direito de dizer que podemos abrir mão de qualquer coisa.”
Oleksii acredita que forçar a Ucrânia a abrir mão de Donetsk sem lutar seria uma traição comparável à sofrida pela Tchecoslováquia em Munique.
Ao lado da vizinha Kramatorsk, que também enfrenta combates, Slovyansk foi designada como “cidade-fortaleza”. Ambas são protegidas por quilômetros de fossos antitanque profundos, preenchidos com arame farpado e obstáculos de concreto conhecidos como “dentes de dragão”. As cidades estão situadas em uma cadeia de colinas que constitui o último ponto elevado antes de cerca de 240 km de terreno plano — em sua maior parte campos agrícolas — que se estendem até o próximo obstáculo natural, o rio Dnieper, que corta a Ucrânia de norte a sul. Os ucranianos afirmam que deter os russos caso alcancem essa planície seria muito mais difícil.
O início
Há quatro anos, quase no mesmo dia, eu estava na principal estação ferroviária de Kiev, observando uma cena que parecia saída do passado sombrio da Europa, sob um vento cortante vindo da estepe ucraniana. Kiev enfrentava um inverno tão rigoroso e monocromático que a cena na plataforma poderia ser confundida com um cinejornal antigo — mas era 2022 e acontecia na era digital, em cores vívidas. Foi até então o alerta mais alto de que o mundo havia mudado e de que antigas premissas sobre a segurança europeia e a estabilidade do futuro precisavam ser abandonadas.
Desde então, outros alertas surgiram, no Oriente Médio, no Sudão e em Taiwan, enquanto a guerra na Ucrânia incubou a maior crise na Otan desde sua criação, em 1949. Permanece ampla a distância entre a disposição de Donald Trump ao diálogo com Vladimir Putin e a visão muito mais dura sobre Moscou adotada pela maioria dos membros europeus da Otan.
Em 13 dias de guerra, mais de 2 milhões de pessoas fogem da Ucrânia para países vizinhos
Naquela primeira semana da guerra, as plataformas da estação de Kiev estavam lotadas, sobretudo de mulheres e crianças ucranianas, desesperadas para embarcar em trens rumo ao oeste e escapar do avanço do Exército russo. A artilharia russa e as salvas de resposta ucranianas ecoavam pelas ruas vazias do centro da cidade, tornando a ameaça assustadoramente real.
Os trens chegavam a cada 15 ou 20 minutos, tantos quanto os operadores da rede ferroviária ucraniana conseguiam reunir nos pátios e desvios. Pessoas amedrontadas se empurravam para embarcar, deixando despedidas em lágrimas na plataforma para aqueles que ficavam para lutar. No auge da evacuação, 50 mil pessoas por dia passavam pela estação.
Na estação, um jovem soldado com um fuzil Kalashnikov pendurado nas costas abraçava a namorada antes de ela partir para o oeste e ele retornar à sua unidade. Poderiam ter estampado a capa da revista americana Saturday Evening Post, que encorajava os americanos após a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.
Zelensky demonstrou de imediato ser um líder de guerra instintivo, comunicador nato capaz de mobilizar seu povo. Na primeira noite da guerra, ao rejeitar rumores de que havia fugido, apareceu vestindo uniforme militar verde-oliva e gravou um vídeo em frente ao prédio da Presidência, em Kiev, com seus principais assessores atrás dele.
“Estamos todos aqui. Nossos soldados estão aqui, os cidadãos do país estão aqui. Estamos todos aqui protegendo a nossa independência, nosso país, e vamos continuar a fazê-lo.”
Os primeiros meses da invasão em larga escala promovida pela Rússia foram vividos pelos ucranianos em ondas de medo, determinação, luto e fervor patriótico. Em cidades ocupadas nos arredores de Kiev, alguns soldados russos cometeram massacres — deixando corpos espalhados nas estradas, nas ruas de Bucha e em valas rasas. Vimos os cadáveres depois que a Ucrânia forçou os russos a recuar da capital, uma vitória que contrariou previsões de aliados ocidentais de que o país seria derrotado em poucas semanas.
A força inesperada da Ucrânia levou o então presidente dos EUA, Joe Biden, e outros líderes europeus a enviarem armamentos mais poderosos a Kiev, embora nunca na quantidade nem na velocidade desejadas pelos ucranianos. Muitos dos que permaneceram no país se voluntariaram para lutar. Aqueles que não podiam pegar em armas montaram oficinas que produziam coquetéis molotov e redes de camuflagem.
Quatro anos depois, essa energia se dissipou. Não é surpreendente. A guerra consome tudo e exaure.
No lugar, se instalou uma determinação sombria de continuar, especialmente entre os soldados da linha de frente e suas famílias. Zelensky afirmou neste mês que 55 mil soldados ucranianos foram mortos nos últimos quatro anos, reconhecendo que muitos outros estão classificados como desaparecidos. O número real provavelmente é muito superior a 55 mil. É provável que seus restos mortais estejam ao longo da linha de frente de cerca de 1.300 km.
Zelensky afirmou neste mês que 55 mil soldados ucranianos foram mortos nos últimos quatro anos
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Recrutar novos soldados para substituí-los, em meio ao perigo extremo da crescente e letal “zona de morte” na linha de frente, se tornou um desafio. Nas cidades e em postos de controle, homens em idade militar são submetidos a inspeções imediatas de documentos. Se estiverem aptos à conscrição e não tiverem dispensa do serviço, podem ser levados diretamente aos quartéis.
Conseguir soldados suficientes para continuar lutando é um dos maiores desafios da Ucrânia. Ainda assim, pesquisas indicam que amplas maiorias no país acreditam que a Ucrânia pode prosseguir na guerra, apesar dos avanços russos no campo de batalha, e que não tem alternativa, pois consideram que a Rússia pretende destruí-la como nação.
A maioria também não acredita que as negociações mediadas pelos EUA resultarão em uma paz duradoura.
Mas, embora a maior parte da população veja a continuidade da luta como inevitável, vestir o uniforme e seguir para a linha de frente não é uma escolha popular.
Valeriy Puzik, autor e poeta, se voluntariou para lutar e passou meses na linha de frente. Me encontrei com ele em um bar moderno em Kiev, a anos-luz da trincheira de seis metros de profundidade onde viveu com sua equipe por mais de 100 dias.
Perguntei a ele por que é tão difícil recrutar.
“Porque quando alguém deixa uma posição, eles não dizem nada de positivo. E o boca a boca causa o maior dano. Porque não há nada de positivo ali. Eu não desejaria a nenhum dos meus amigos se rastejar para dentro de um abrigo e ficar ali… Eu tive sorte de sobreviver. Normalmente, as pessoas ficam nesses abrigos por 90, 100, 160 dias. Basicamente, deveríamos permanecer ali até a primavera.”
Valeriy sobreviveu à sua mais recente missão na linha de frente porque se ofereceu para evacuar dois companheiros feridos.
Antes que pudesse ser enviado de volta, sua antiga posição foi atacada e, segundo ele, os homens que permaneceram foram mortos ou estão desaparecidos. Ele acredita que evacuar os feridos salvou sua vida.
“Se não fossem aqueles ferimentos, muito provavelmente todos nós teríamos morrido ali.”
A longa guerra
A Ucrânia e a Rússia estão em conflito desde 2014, quando o presidente Vladimir Putin ordenou a ocupação e anexação da Crimeia, no Mar Negro, e passou a apoiar a tomada de partes do Donbas, no leste.
Nesta viagem, não vi indícios de que a guerra esteja próxima do fim.
A invasão em larga escala iniciada há quatro anos foi a tentativa de Putin de eliminar de vez a independência da Ucrânia. Ele afirmou diversas vezes que, segundo a história, a Ucrânia pertence à Rússia. Poucos dias antes do aniversário da invasão, o presidente Volodymyr Zelensky rebateu de forma direta em uma publicação na rede social X: “Não preciso de porcaria histórica para acabar com esta guerra e avançar para a diplomacia. Porque isso é apenas uma tática de adiamento. Eu não li menos livros de história do que o Putin. E aprendi muito.”
Zelensky enfrentou um escândalo de corrupção que levou à renúncia, no outono passado, de seu chefe de gabinete, Andrii Yermak. Ele tem críticos contundentes e potenciais rivais, mas ainda mantém índices de aprovação que a maioria dos líderes ocidentais podem apenas sonhar.
Nesta semana, muito a leste de Kiev, os trens que evacuaram centenas de milhares de ucranianos em fevereiro e março de 2022 continuam retirando pessoas das áreas de risco. O Exército russo avança em ritmo lento, mas, no principal campo de batalha em Donetsk, no leste, segue progredindo, ceifando vidas, devastando a paisagem e destruindo vilarejos e cidades inteiras. A Ucrânia ainda controla cerca de um quinto do oblast — ou região — de Donetsk, a área mais intensamente disputada do país.
Ao longo de quatro anos, uma sucessão de batalhas reduziu cidades e vilas a escombros, de Bakhmut, no início da guerra, a Pokrovsk, agora.
Diariamente, ônibus cruzam a fronteira regional de Donetsk para Lozova, no oblast de Kharkiv, transportando civis evacuados. Uma escola foi transformada em um centro de coordenação de ajuda humanitária, aquecido e organizado, repleto de famílias cercadas por poucas malas, cães na coleira, gatos em caixas de transporte e, sobretudo, atormentados pela perda.
Serhii e Viktoria haviam chegado de Druzhkivka, cidade absorvida pela “kill zone”. A filha adolescente, Diana, estava sentada em silêncio ao lado deles, com sua gata Mika no colo. Como milhões de deslocados pela guerra — ali e em outras regiões turbulentas do mundo —, partiam para salvar a própria vida, cientes de que isso significava não apenas perder o que restava de suas antigas existências, mas também parte de sua autonomia pessoal.
Agora, eles precisam sentar e esperar enquanto a documentação é concluída e alguém lhes diga o que fazer. Viktoria explicou por que deixaram a casa.
“Estamos no limite. Não tínhamos gás, água e nem eletricidade. Sem aquecimento. Ficamos lá até o último momento, congelando por três dias.”
Rússia diz que realizou ataque à Ucrânia com mísseis com capacidade nuclear
No fim de 2022, a cidade deles, Druzhkivka, era vista como um refúgio relativamente seguro, quando a utilizamos como base para cobrir o ataque russo a Bakhmut. Agora, porém, ninguém vai mais até lá, diz Viktoria. Druzhkivka se tornou perigosa demais.
“Os drones destroem tudo que está vivo — os carros, as pessoas, as casas delas. Não consigo falar disso sem chorar.”
Serhii parecia envelhecido antes do tempo.
“É muito difícil. Abandonamos tudo pelo que trabalhamos a vida inteira. Tudo o que construímos para nossas famílias, tudo o que estávamos erguendo. E tivemos que deixar tudo isso em um instante… tudo… Só conseguimos levar algumas coisas pequenas. Não podíamos carregar mais.”
Perto deles estava Tamara, com as netas gêmeas de nove anos, Mila e Tina.
“As crianças. Saímos por causa das crianças. Moramos perto da floresta… Há muitos tanques… drones voam por toda parte… não há paz… as crianças correm até mim e choram… é muito barulhento… tudo treme…”
Após o registro, as famílias, com suas malas e seus animais de estimação, foram levadas de ônibus até a estação de Lozova para embarcar em um longo trem com destino a Lviv, no oeste da Ucrânia. Lozova costumava ser um entroncamento movimentado para trens que seguiam ainda mais para o leste. Agora, se tornou o último ponto alcançado pelas ferrovias ucranianas. As linhas além dali são perigosas demais.
Ucrânia desafiadora
O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que, se a Ucrânia continuar a lutar, precisará de níveis crescentes de apoio europeu
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As negociações mediadas pelos enviados de Donald Trump — seu genro, Jared Kushner, e o amigo, o bilionário do setor imobiliário Steve Witkoff — continuam. Está previsto que voltem a se reunir em Genebra (Suíça) após o aniversário da invasão. Witkoff fez declarações otimistas depois da última rodada, mas tanto a Rússia quanto a Ucrânia falaram em ambiente difícil.
É difícil vislumbrar qualquer tipo de cessar-fogo sem que Putin ou Zelensky alterem suas posições fundamentais. Como ambos os lados acreditam que ainda podem lutar até alcançar algum tipo de vitória, não é provável que isso mude.
As negociações parecem mais um exercício para apaziguar Trump, de modo que ele não possa culpar Moscou ou Kiev por eventual fracasso. O presidente americano tende a querer pressionar mais a Ucrânia. No passado, afirmou, sem fundamento, que Zelensky é um ditador que iniciou a guerra. Zelensky riu e disse que isso não é verdade quando lhe perguntei sobre a declaração. Na véspera da última rodada, pouco antes do aniversário, Trump disse a jornalistas que “a Ucrânia precisa ir para a mesa de negociações, e rápido”.
Trump encerrou quase toda a ajuda militar, mas a Ucrânia ainda depende de informações de inteligência que apenas os EUA podem fornecer. A Europa compra armas americanas — especialmente mísseis interceptadores — em nome da Ucrânia.
Nesta viagem ao país, encontrei uma Ucrânia que permanece desafiadora. Não há sensação de derrota iminente.
As grandes cidades funcionam relativamente bem, apesar dos ataques concentrados e eficazes da Rússia, ao longo deste inverno rigoroso, contra a rede de energia e aquecimento. Em Kiev, há congestionamentos, lojas abastecidas, restaurantes e cafés abertos.
Também há sirenes de ataque aéreo, frequentemente na madrugada, e relatos trágicos de civis mortos dentro de suas próprias casas por drones e mísseis balísticos russos. A Ucrânia está reconstruindo o complexo industrial-militar que existia na era soviética, com foco em ataques de longo alcance contra a Rússia.
O presidente Volodymyr Zelensky me disse acreditar que a Ucrânia pode vencer a guerra e que, para continuar lutando, precisará de níveis crescentes de apoio europeu.
A primavera se aproxima, mas, nesta parte da Europa, o inverno pode se estender até abril. A Rússia impôs forte pressão sobre a Ucrânia ao longo do inverno mais rigoroso dos últimos anos, ao atacar usinas de energia e instalações da era soviética que fornecem água quente e aquecimento a bairros inteiros.
Nas ruínas de uma usina que os ucranianos permitiram que visitássemos sob a condição de não identificá-la, trabalhadores retiravam aço dos escombros. A instalação havia sido duramente atingida por mísseis e drones russos. Reparos estavam fora de cogitação. Seria necessário reconstruí-la.
Com sua respiração formando nuvens no ar, em temperaturas muito abaixo de zero, um encarregado resumiu a atitude comum na região ao ser questionado sobre o motivo dos ataques russos.
“Eles querem nos fazer ajoelhar. Querem colocar a Ucrânia de joelhos.”
Isso é fato, e a determinação da Ucrânia de impedir que isso aconteça explica por que a guerra continua.g1 > Mundo Read More