Como futebol está ajudando meninas a lutar contra os casamentos forçados na Índia
Munna liderou em sua aldeia a luta pelo direito de jogar futebol usando shorts e de viajar para participar de torneios
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Em uma noite quente de verão, Nisha Vaishnav, então com 14 anos, treinava futebol com a irmã Munna, de 18, quando as duas perceberam que cinco adultos as fotografavam.
Nisha logo descobriu o motivo do interesse: todos eram da mesma família e incluíam um casal à procura de esposa para o filho.
A mãe de Nisha, que também estava ali, se mostrou favorável à possibilidade de casamento.
O grupo seguiu para a casa da família Vaishnav, na aldeia de Padampura, no estado de Rajastão, no noroeste da Índia.
“Minha mãe me pediu que tocasse os pés deles em sinal de respeito”, diz Nisha. “Eu me recusei.”
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‘Mulheres da aldeia apontavam para nós’
Embora a lei proíba o casamento de meninas com menos de 18 anos e de meninos com menos de 21 na Índia, o casamento infantil ainda é comum na prática.
Cerca de 25% das mulheres que vivem na Índia se casaram antes da idade legal, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Ainda assim, a proporção de casamentos infantis caiu de forma significativa nos últimos 30 anos.
Em 1992-93, cerca de 66% das mulheres na Índia estavam casadas antes de completar 18 anos, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde da Família, realizada pelo governo.
No Rajastão, onde Nisha vive, as taxas de casamento infantil superam a média nacional, e as meninas raramente se sentem capazes de recusar propostas ou desafiar a vontade dos pais.
No entanto, Nisha desenvolveu confiança para se afirmar depois de descobrir o futebol — esporte ao qual atribui a mudança em sua vida.
Ela foi apresentada ao jogo em 2022 por Munna, que havia conhecido o esporte um ano antes por meio do Football for Freedom (Futebol pela Liberdade, em tradução livre), parte de uma organização sem fins lucrativos com atuação em todo o estado, destinada a promover melhorias na vida de meninas por meio do esporte.
Munna foi a principal defensora do projeto em sua aldeia, liderando a luta por autorização para viajar a torneios e vestir shorts em campo, em vez de túnicas longas e calças largas — um passo significativo em uma comunidade onde mulheres casadas cobrem o rosto na presença de homens em público.
“Nos primeiros dois ou três dias, as mulheres da aldeia apontavam para nós e diziam: ‘Olhem aquelas meninas mostrando as pernas'”, afirma Munna.
“Nós as ignoramos, decidimos que não nos importávamos e continuamos usando shorts.”
Nisha Vaishnav rapidamente se destacou no futebol, chegando a jogar pela equipe do estado de Rajastão em 2024
BBC
Nisha rapidamente se destacou no esporte e passou a integrar a seleção do estado de Rajastão no Campeonato Nacional de Futebol, em 2024.
Ela também cortou o cabelo curto, em um gesto de desafio em uma aldeia onde se espera que meninas usem os cabelos longos.
Quando surgiu a proposta de casamento da família que a observava no treino de futebol, Nisha resistiu.
Ela deixou claro que era jovem demais para se casar e que queria continuar perseguindo seus sonhos no futebol.
Cerca de um mês depois, aquela família retirou a proposta.
Em 2025, Nisha e Munna também rejeitaram uma proposta de casamento conjunto feita por outra família, que envolvia as duas e o irmão mais novo.
As irmãs se opõem firmemente ao casamento infantil e querem se concentrar em carreiras no esporte.
Quando o pai delas perguntou a Nisha se havia um namorado esperando por ela no treino de futebol, ela diz ter respondido: “Não há namorado. Eu vou jogar futebol — esse é o meu amor.”
Encontrando emprego por meio do futebol
Meninas que se casam na infância enfrentam maior risco de coerção sexual, gravidez precoce, desnutrição e problemas de saúde, segundo diversos estudos.
Também tendem a abandonar a escola mais cedo, o que reduz suas chances de melhorar suas condições de vida.
Padma Joshi, do Football for Freedom, iniciativa ligada à organização de direitos das mulheres Mahila Jan Adhikar Samiti, afirma que quer conscientizar as famílias sobre esses riscos.
Ela diz que o Football for Freedom treinou cerca de 800 meninas em 13 aldeias de Rajastão desde sua criação, em 2016.
“Quando começamos a conversar com os pais, nunca dissemos que estávamos introduzindo o futebol para impedir o casamento infantil”, afirma Joshi.
Mas “quando trabalhamos com as meninas e elas aprendem sobre os seus direitos e os efeitos nocivos do casamento infantil”, elas passam a conseguir se posicionar, acrescenta.
Joshi também ressalta aos pais que se destacar no futebol pode, no futuro, ajudar as meninas a conseguir um emprego, já que estados indianos reservam parte de cargos no setor público para atletas.
A pobreza, além da tradição, está entre as razões pelas quais as famílias na Índia continuam a casar suas filhas, frequentemente vistas como um peso financeiro.
Às vezes, os casamentos são com rapazes de idade semelhante; em outros casos, com homens adultos.
Em geral, as meninas passam a morar com o marido logo após o casamento, deixando de ser responsabilidade financeira de suas próprias famílias.
Laali Vaishnav, que também foi noiva quando criança, afirma que teme que as filhas fiquem expostas a ‘más influências’
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Nisha e Munna têm uma irmã mais velha que se casou em 2020, aos 16 anos, e a mãe delas, Laali, também foi noiva quando criança.
Ao defender suas decisões, Laali afirma: “Eu me preocupo com as minhas filhas. Os moradores dizem que, se as meninas saem de casa, ficam expostas a más influências e podem fugir com rapazes, por isso temos de casá-las cedo.”
Questionada se sabia que casar a filha mais velha aos 16 anos era ilegal, ela confirma com a cabeça e explica que ninguém é pego: “Fazemos tudo em silêncio, não imprimimos convite de casamento, não decoramos a casa nem montamos tenda.”
A lei, porém, é clara — facilitar o casamento infantil é crime.
Adultos que realizam as cerimônias, assim como pais ou responsáveis que autorizam o casamento infantil ou negligenciam sua interrupção, podem ser condenados a até dois anos de prisão e multa de 100 mil rúpias (cerca de R$ 5.760).
No entanto, Anjali Sharma, presidente do comitê de bem-estar infantil da cidade de Ajmer, no Rajastão, afirma que, na prática, é difícil obter condenações porque testemunhas raramente se dispõem a fornecer provas às autoridades.
“Se as famílias descobrem que sabemos [sobre um casamento infantil], eles mudam a data para antes ou depois da que esperávamos”, diz Sharma, ao explicar que aldeias inteiras colaboram para ocultar os casamentos.
Se a noiva ou o noivo denunciarem à polícia, um casamento envolvendo menor de idade pode ser anulado, mas é difícil que façam a denúncia contra os próprios pais, sabendo que isso pode resultar em multa ou prisão.
Se o casamento infantil não for denunciado, ele pode ser posteriormente registrado quando o homem e a mulher atingem a idade legal, e ninguém será processado.
O número de casos de casamento infantil notificados em toda a Índia vem aumentando gradualmente à medida que a conscientização e a fiscalização melhoram.
Foram registrados 1.050 casos em 2021, ante 395 em 2017, segundo o Ministério da Mulher e do Desenvolvimento Infantil.
Ainda assim, esse total representa uma fração mínima das cerca de 1,5 milhão de meninas com menos de 18 anos que se casam a cada ano na Índia, de acordo com a Unicef.
A equipe de Nisha e Munna ficou em primeiro lugar nos Jogos Escolares estaduais para menores de 17 anos, realizados em outubro de 2025
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Nisha, hoje com 15 anos e ainda na escola, espera um dia jogar pela seleção nacional da Índia.
Se ela não conseguir (entrar para a seleção), obter um emprego no governo lhe permitirá alcançar independência financeira e liberdade.
Para se qualificar a uma das vagas reservadas a atletas, ela precisa continuar competindo em nível estadual ou superior até concluir a universidade.
Já Munna, agora com 19 anos, conseguiu escapar do casamento infantil, mas a possibilidade de um casamento arranjado persiste.
Os sogros de sua irmã mais velha continuam pressionando por um casamento arranjado entre o filho deles e Munna.
Ela resiste à proposta.
Munna não alcançou o mesmo nível no futebol que Nisha, mas ajuda a treinar meninas no projeto Football for Freedom e cursa uma graduação na universidade.
Ela espera se tornar professora de educação física em uma escola, função que lhe garantiria independência financeira e liberdade para tomar as próprias decisões.
Enquanto isso, orienta as meninas que treina a não aceitarem o casamento infantil.
“Consiga eu impedir o casamento delas ou não, quero ajudá-las a se tornar alguém na vida, a realizar seus sonhos.”g1 > Mundo Read More


