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CT modelo e celeiro de craques: como clube de SP superou crise na China e virou autossuficiente

CT modelo e celeiro de craques: como clube de SP superou crise na China e virou autossuficiente

Gerente geral do Desportivo Brasil fala sobre projeto do clube
Muito antes de o Mirassol chamar a atenção do Brasil pelo seu super CT, um clube do interior de São Paulo construiu um centro de treinamento de primeiro mundo que é referência até hoje, 17 anos após sua inauguração.
O Desportivo Brasil, time da terceira divisão do Campeonato Paulista, colhe até hoje os frutos da ótima infraestrutura. O clube de Porto Feliz, cidade a 120 quilômetros de São Paulo, é um dos principais formadores de talentos do país.
Desde 2020, o DB faturou mais de R$ 120 milhões com vendas de jogadores como Bremer (Juventus), Éderson (Atalanta e ex-Corinthians), Diego Carlos (Aston Villa), Kevin (Fulham e ex-Palmeiras), Rodrigo Muniz (Fulham e ex-Flamengo) e Maurício (Palmeiras).
Porém, diferentemente do Mirassol, o Desportivo não direciona os lucros para o seu time profissional. O foco é manter ativa a mina de ouro para revelar os craques do futuro.
CT do Desportivo Brasil, em Porto Feliz
Divulgação
Conhecido como Dragão Chinês, o Desportivo Brasil é um clube-empresa que pertence ao Shandong Taishan, da China. De 2014 a 2022, o DB foi controlado pela empresa Luneng, que dava o nome ao time chinês (Shandong Luneng, na época). Desde 2023, o clube de Porto Feliz passou a ficar no guarda-chuva da Secretaria de Cultura e Turismo de Jinan, que administra o Shandong.
Durante os primeiros anos, o projeto do Desportivo era quase que 100% custeado pelos chineses. A China, porém, diminuiu o volume de investimentos ao futebol, já que o esporte teve um desenvolvimento bastante tímido por lá.
Craques brasileiros, como Paulinho, Hulk, Renato Augusto e Oscar, chegaram a atuar no futebol chinês, no auge dos investimentos do país asiático.
Essa realidade mudou, e o Desportivo Brasil precisou se adaptar ao novo cenário. Paralelamente a isso, a mina de ouro de revelações começou a trazer resultados para o DB.
Em entrevista ao ge, o gerente geral do Desportivo, Marcelo Lima, revelou que, desde 2022, o clube de Porto Feliz se tornou autossuficiente e passou a não depender mais do dinheiro chinês. O custo anual do projeto é R$ 15 milhões. Em todos os últimos quatro anos, o Dragão Chinês fechou com lucro.
Desde o início do projeto, nos preparamos para sermos autossuficientes e isso acontece, pois revelamos jogadores e os colocamos no mercado: vendemos uma parte dos diretos econômicos e seguramos uma parte para uma venda futura. Com muito planejamento e ótimo relacionamento no mercado estamos conseguindo. Por isso, não foi necessário investimento da China nos últimos anos.
Marcelo Lima, gerente geral do Desportivo Brasil
Reprodução de Instagram
– Nós agimos em conjunto: eu projeto como vamos trabalhar aqui e passo tudo para a direção chinesa: um representante legal da empresa e um diretor financeiro, que trabalham conosco aqui no Brasil. Conto com ótimos profissionais no DB que estão alinhados com nossos objetivos – emendou.
Fundado em 2005 pelo extinto Grupo Traffic, do empresário J. Hawilla, que morreu em 2018, o Desportivo nasceu com o objetivo de revelar atletas para faturar na venda dos direitos econômicos e nos mecanismos de solidariedade da FIFA.
A partir disso, negociações de jogadores formados no clube fazem pingar milhões em seus cofres, seguindo a proporção do número de anos que o atleta passou na base do time.
Éderson ao lado dos jogadores do DB. De fone branco, Maurício, atual jogador do Palmeiras, que fez a base no Dragão
Divulgação/Desportivo Brasil
Além deste mecanismo, o DB mantém porcentagens de jogadores para faturar ainda mais. Foi o caso da negociação do Flamengo com o Fulham no atacante Rodrigo Muniz. Quando o Desportivo o vendeu ao Fla, manteve 36% dos direitos dele, sendo beneficiado anos depois, em 2021, com este negócio que rendeu quase R$ 20 milhões.
Atualmente, o Dragão Chinês tem, por exemplo, 15% dos direitos do meia Maurício, do Palmeiras. Se ele for vendido, futuramente, o time de Porto Feliz terá direito a essa fatia, além de uma outra porcentagem do mecanismo da FIFA para clubes formadores.
– Todo dia nos esforçamos muito para melhorar ainda mais o que fazemos e o número de atletas formados aqui e colocados nos principais clubes brasileiros e no mercado internacional demonstram isso. Temos cerca de 60 jogadores espalhados pelo Brasil e pelo mundo que ainda possuímos direitos econômicos e de solidariedade FIFA. Agora, em janeiro, tivemos a renovação do Certificado de Clube Formador pela CBF – destacou o gestor do DB.
Kevin, hoje no Fulham, atuou na base do Desportivo Brasil e Palmeiras antes de chegar ao Shakhtar Donetsk
Divulgação/Desportivo Brasil
Na Champions League de 2024/25, o Desportivo foi o segundo time brasileiro com mais atletas revelados, atrás apenas do São Paulo.
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O poderoso CT
O CT do Desportivo Brasil foi construído em 2009 e já nasceu grande. O “Centro Esportivo Luneng Brasil” está em uma área de 156 mil metros quadrados e tem sete campos, sendo cinco oficiais e dois para treinamentos específicos. Todos têm drenagem e irrigação automática, além de grama Tifton 419, que é de alto padrão.
Centro de Treinamento do Desportivo Brasil, em Porto Feliz
Divulgação
O moderno alojamento tem capacidade para 190 atletas e conta com áreas de convivência e lazer, salas de jogos, de TV e de computadores. O CT também dispõe de um centro de condicionamento e recuperação. A academia, com aparelhos de última geração, é integrada às salas dos médicos, fisioterapeutas e fisiologistas. Há também uma piscina coberta e aquecida, além de uma unidade de crioterapia (tratamento com gelo).
O espaço tem ainda um auditório com capacidade para 100 pessoas e uma sala de aula para 50 alunos. Semanalmente, os jovens atletas têm aulas extracurriculares de inglês e de chinês, além de cursos de arbitragem e outras palestras.
O refeitório e o restaurante são beneficiados por uma cozinha industrial, câmaras frigoríficas, fornos combinados e ilha central de cozimento.
Piscina no centro de treinamento do Desportivo Brasil
Eduardo Rodrigues
Há também preocupação com a sustentabilidade: toda a água das chuvas, das irrigações dos campos e da limpeza das vias é tratada e reutilizada. O tratamento dos esgotos também é feito internamente. O CT é abastecido por três fontes de energia: solar, elétrica e a gás.
Na Copa do Mundo de 2014, o centro de treinamento recebeu a delegação da seleção de Honduras.
2026 difícil
O ano de 2026 começou de forma atípica para o Desportivo Brasil, que não disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior pela primeira vez desde 2008. A competição era a principal em todo o calendário do clube que foca nas revelações.
O gerente geral do DB, Marcelo Lima, explicou o motivo, citando uma falta de apoio da Prefeitura de Porto Feliz.
– Desde que estou aqui, 2018, a sede de Porto Feliz sempre foi custeada 100% pelo DB. Equipes da A2 e A3 não tem vaga certa na Copinha, apenas se forem indicadas pela cidade sede. O DB é um dos poucos clubes que custeia a sede. Todas as sedes são custeadas pelas prefeituras, pois a Copinha traz diversos benefícios a cidade. Em 2025, houve contato com a Prefeitura de Porto Feliz junto à Federação Paulista para explanar a importância da Copinha para o município. Por motivos burocráticos, a Prefeitura de Porto Feliz não conseguiu arcar com isso, e a nós contávamos com esse custeio.
– Não houve tempo hábil para conseguirmos isso com a direção chinesa, por isso não fomos sede. Tentamos com a Federação um convite para participarmos, mas foi negado devido ao critério para escolha de clubes participantes. Já estamos trabalhando para que voltemos a ser sede em 2027 – justificou.
Portuguesa Santista goleou o Desportivo Brasil na última rodada
Marcos Bezerra/Arquivo pessoal
O momento também não é bom no futebol profissional. O Desportivo Brasil corre sério risco de rebaixamento à quarta divisão do Campeonato Paulista.
Nos oito primeiros jogos, foram cinco derrotas, dois empates e apenas uma vitória. O Dragão Chinês é o 14° colocado, o primeiro fora da zona de rebaixamento da Série A3. O DB demitiu o técnico, William Sander, nesta terça-feira, e contratou, no mesmo dia, Orlando Ribeiro para o lugar.
Lima explica que o clube investiu o mínimo para a competição deste ano.
– O principal objetivo de jogar a A3 é fazer o trabalho de finalização da categoria sub-20. Já tivemos times do Desportivo Brasil com maiores investimentos, onde queríamos o acesso. Porém decidimos gastar somente a cota que recebemos da Federação e do patrocinador para seguir o nosso principal objetivo que é a revelação de talentos para o mercado e nos mantermos na divisão.
– Nosso planejamento para a A3 deste ano foi mantido: ter um time jovem e colocar jogadores no mercado. É como trabalhamos: nascemos assim e vamos manter nossa filosofia. Montamos um time para fazer a transição de sub-20 para o profissional e, assim, aqueles que vestem nossa camisa buscarem o mercado: recentemente Guilherme Madruga, David Braga, que não foram negociados ainda na base. Eles saíram depois de jogar no profissional, o Campeonato Paulista e Copa Paulista. O Vitor Caetano jogou aqui conosco no profissional e hoje está na Chapecoense – finalizou Marcelo Lima.
Vitor Roque participa de jogo-treino entre Palmeiras e Desportivo Brasil, em janeiro de 2026
Fabio Menotti
Veja outros trechos da entrevista com Marcelo Lima, gestor do Desportivo Brasil
Perfil de jogadores
– Aqui não abrimos mão da disciplina e dos protocolos para trazermos os atletas. Temos perfil de jogadores, tudo dentro de metodologia de formação. Hoje, o mercado tem muitas exigências para contratar um jogador na base especialmente. E nós também analisamos quais clubes têm os critérios e objetivos de nossa empresa para que tenham continuidade nessa formação, atinjam a categoria profissional e tenham boas vendas no futuro.
Possibilidade de um time sub-13
– Temos um trabalho a pleno vapor nas categorias sub-15, 17 e 20 que disputam o Campeonato Paulista e torneios amadores durante a temporada. Estamos também estudando a criação da categoria sub-13 para disputar o Paulista desta categoria, que vai fortalecer ainda mais nosso setor de captação de atletas. Já alcançamos a referência no mercado de sermos com o DB um clube que forma com qualidade e queremos manter isso. Aqui temos protocolos, excelência no que fazemos e não podemos perder isso. Nosso principal objetivo sempre foi revelar jogadores e disso não abrimos mão. Vamos continuar trabalhando forte nesse sentido. Mantemos uma captação muito ativa e forte, conseguimos garimpar os jogadores com a rede de captadores que mantemos e aí é revelar jogadores e fazer parcerias. geRead More