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Fim de acordo nuclear entre EUA e Rússia deve acelerar corrida armamentista mundial: ‘Era o último freio’

Fim de acordo nuclear entre EUA e Rússia deve acelerar corrida armamentista mundial: ‘Era o último freio’

 Encontro de Putin e Trump no Alasca
Drew Angerer/AFP
Os Estados Unidos e a Rússia, as maiores potências nucleares do mundo, estão agora sem limites de produção e posicionamento de ogivas atômicas, após o vencimento do tratado New START na quarta-feira (4). Essa nova realidade, inédita no cenário pós-Guerra Fria, vai acelerar a corrida nuclear global e joga o mundo no desconhecido, segundo especialistas ouvidos pelo g1.
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➡️ Assinado em 2010, o New START era um acordo entre Washington e Moscou limitando a quantidade de ogivas nucleares que os países poderiam ter prontas para uso em seus arsenais — até 1.550, cada. O tratado também impunha um teto para o número e o uso de armas nucleares e regulamentava onde elas poderiam estar armazenadas. (leia mais detalhes sobre o New START abaixo).
Considerado elemento vital para prevenir uma escalada nuclear pelo mundo, o New START era também o último tratado do tipo entre EUA e Rússia — os dois países já tiveram outros acordos nucleares, mas todos foram desfeitos.
O vencimento do tratado, para os especialistas ouvidos pelo g1, ocorre impulsionado pela ascensão da China como potência nuclear global e consolida o fim da lógica de não proliferação de armas nucleares que predominava no mundo desde o fim da Guerra Fria.
Nessa nova realidade, o descompasso declarado entre as maiores potências nucleares escancara uma corrida armamentista nuclear mundial que será encabeçada por EUA, Rússia e China em um contexto de desconfiança mútua no panorama geopolítico global e que deve causar uma proliferação de ogivas pelo mundo nos próximos meses, segundo os especialistas.
“O fim do New START remove o último freio institucional que ainda continha essa corrida armamentista e, com isso, escancara e acelera uma dinâmica de competição nuclear que já estava em curso. O New START era um pilar, e sua ausência muda o ambiente estratégico mundial”, afirmou ao g1 o professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard Vitelio Brustolin.
Segundo Brustolin, o New START “administrava” a rivalidade entre EUA e Rússia. Sem ele, cada lado precisará assumir o pior cenário para planejar suas forças militares e nucleares.
Mesmo assim, o Tratado de Proliferação Nuclear (TNP) já seria suficiente para evitar uma corrida nuclear, segundo Brustolin. O problema é que o TNP não é respeitado: a China, por exemplo, expande rapidamente seu arsenal à revelia dos termos do tratado. (Leia mais abaixo)
A China, inclusive, é o que fator que mudou a lógica e fez os EUA deixarem o New START “morrer”, segundo os especialistas. O movimento de Washington indica que a Rússia já não importa mais tanto quanto antes e também não tanto quanto Pequim neste momento. Os EUA, inclusive, estão focados na contenção do país asiático, que nos últimos anos se colocou como superpotência mundial.
O presidente norte-americano, Donald Trump, defende que a China precisaria estar incluída em qualquer novo acordo de controle de armas nucleares. O presidente chinês Xi Jinping, por sua vez, alega que o país não precisaria ser incluído em um tratado do tipo porque EUA e Rússia já levam vantagem.
Com esse impasse, fica evidente a entrada do mundo em uma “3ª Era nuclear”, com um aumento de arsenais sem limites em que nenhum líder mundial confia no outro, afirmou ao g1 Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM e professor convidado da Unifa.
Tratado New START: o último limitante dos arsenais de EUA e Rússia
China: rápida expansão nuclear e preocupação dos EUA
3ª Era nuclear: Um mundo de incertezas com proliferação de ogivas nucleares
Tratado New START: o último limitante dos arsenais de EUA e Rússia
O tratado New START foi firmado em 2010 pelos então presidentes Barack Obama, dos EUA, e Dmitry Medvedev, da Rússia, e serviu para estabelecer diversos limites e mecanismos de transparências entre os dois países em busca de deter uma escalada nuclear.
Os principais limites impostos pelo acordo a EUA e Rússia são os seguintes:
Posicionar no máximo 700 meios de lançamento de ogivas nucleares, entre: mísseis balísticos intercontinentais em terra, mísseis lançados por submarinos e bombardeiros pesados capazes de transportar armas nucleares;
Ter no máximo 1.550 ogivas nucleares prontas para uso imediato (posicionadas nos armamentos citados acima);
Posicionar no máximo 800 armamentos capazes de lançar ogivas nucleares: incluindo mísseis posicionados em silos terrestres, em submarinos ou em bombardeiros nucleares.
A Rússia tinha ao menos 5.429 ogivas nucleares em seu arsenal, enquanto os EUA tinham ao menos 5.177 ogivas em janeiro de 2025, segundo dados do levantamento mais recente do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri), referência em armamentos nucleares. Veja no infográfico abaixo o míssil balístico intercontinental mais poderoso de cada país e uma linha do tempo do tratado New START.
Infográfico mostra capacidades nucleares de EUA e Rússia e histórico do tratado New START.
Kayan Albertin/Arte g1
Além disso, outros termos do New START incluíam:
Manter armas nucleares russas e norte-americanas a uma distância segura, que demore no mínimo 30 minutos para atingir o outro país;
Até 18 inspeções rigorosas por ano de uma equipe de peritos ao arsenal nuclear de cada país;
Compartilhamento mútuo de dados sobre arsenal nuclear a cada dois anos;
Notificações prévias ao lançamento de mísseis balísticos intercontinentais;
Compartilhamento mútuo de informações sobre movimentações de armamentos nucleares.
Apesar de ter parado de ser cumprido integralmente pelos dois países ao longo dos anos, o New START teve um papel efetivo e importante para limitar os arsenais, segundo Vitelio Brustolin. Tanto os EUA quanto a Rússia deram indícios de que respeitaram até o fim do acordo o limite de no máximo 1.550 ogivas nucleares prontas para uso.
No texto do tratado disponível no site do Departamento de Estado norte-americano, os EUA reconhecem que o New START reforça a segurança nacional do país por impor limites verificáveis às armas russas de destruição de massa.
“Sem as medidas de verificação do New START, haveria uma redução no conhecimento dos EUA sobre as forças nucleares russas. Com o tempo, teríamos menos confiança em nossas avaliações das forças russas e menos informações para embasar decisões sobre as forças nucleares dos EUA”, afirmou o Departamento de Estado no documento.
Outros acordos de controle de armas nucleares que os EUA e a Rússia tiveram nas últimas décadas, que já haviam sido extintos antes do New START, foram:
SALT I (1972) : congelou a construção de novos mísseis balísticos intercontinentais e submarinos com capacidade de disparar esses mísseis com ogivas nucleares;
START I (1994): redução real de ogivas nucleares, que desmantelou os arsenais estratégicos soviéticos remanescentes da União Soviética;
SORT (2002): limitou número de ogivas operacionais e serviu como transição para o New START.
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China: rápida expansão nuclear e preocupação dos EUA
Mísseis balísticos intercontinentais DF-5C com capacidade de carregar ogivas nucleares são exibidos diante de espectadores em desfile militar em Pequim, na China, em 3 de setembro de 2025.
China Daily via Reuters
A China está em franca expansão de seu arsenal nuclear e produz cerca de 100 novas ogivas por ano desde 2023, segundo o Sipri. Isso fez com que o país se tornasse um grande ator no cenário atual de corrida armamentista. Pequim tinha ao menos 600 ogivas segundo dados de janeiro de 2025 do Sipri.
Segundo o professor Gunther Rudzit, a China está buscando essas ogivas porque ainda não está em pé de igualdade militar com os EUA para se alçar de vez à condição de superpotência mundial. Com isso, Pequim deverá buscar, no mínimo, 1.000 mísseis com ogivas nucleares para pronto uso. O problema é que isso causará uma reação dos EUA, que por sua vez também fará com que Moscou também aumente seu arsenal.
Segundo estimativas do Sipri, a China pode atingir um estoque de 1.500 ogivas nucleares até 2035 e se equiparar com EUA e Rússia no número de mísseis balísticos intercontinentais capazes de carregar ogivas nucleares até 2030. Também segundo o Sipri, o governo de Xi Jinping concluiu em 2025 a construção de cerca de 350 silos para o lançamento desses mísseis. Washington tem cerca de 400 desses projéteis em seu arsenal, já Moscou tem até 330 deles.
Além da expansão das ogivas nucleares, a China também moderniza seu Exército e apresentou em setembro, em um grandioso desfile militar, novos armamentos com visual futurista e novos mísseis balísticos intercontinentais.
Tudo isso fez com que o objetivo de médio e longo prazo dos EUA se tornasse “deter” o China e, para isso, será necessário começar a conter Pequim desde já, segundo afirmou o Departamento de Guerra dos EUA em sua Estratégia Nacional de Defesa publicada em janeiro.
A China protestou contra a nova estratégia dos EUA dizendo que aumentará a “coordenação estratégica” com a Rússia. Na quarta-feira (4) os dois países prometeram novamente aprofundar seus laços em busca de estabilidade para fazer frente ao Ocidente.
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3ª Era nuclear: Um mundo de incertezas com proliferação de ogivas nucleares
A nova realidade de corrida armamentista nuclear não se restringirá apenas ao eixo Washington-Moscou e afetará o mundo todo, tanto os nove países que já possuem armas nucleares quanto os demais, que podem querer construir seu próprio arsenal nuclear diante do atual cenário de insegurança.
Veja no infográfico abaixo quantas ogivas tem cada um dos nove países com status nuclear:
Infográfico mostra os 9 países com ogivas nucleares no mundo e o tamanho do arsenal de cada um.
Kayan Albertin/Arte g1
Alemanha, Polônia, Ucrânia e, fora da Europa, Coreia do Sul e até o Japão já deram indícios que poderiam recorrer à alternativa nuclear como precaução. Segundo os especialistas, isso em si já dá indícios de uma maior escalada que pode piorar o cenário de segurança mundial.
“Quanto mais armas atômicas existirem no mundo, maior a chance da humanidade se matar”. Isso porque, quanto mais países tiverem acesso a bombas atômicas, mais a humanidade ficará “refém” da racionalidade de líderes mundiais. Além disso, nesse cenário, uma eventual guerra nuclear não seria restrita a Rússia, China e EUA.
Entre os exemplos concretos disso está uma fala do chanceler alemão, Friedrich Merz, na semana passada, que disse no Parlamento europeu que os líderes da UE estão tratando sobre o futuro das políticas nucleares da Alemanha e do bloco europeu como um todo.
O professor Gunther Rudzit também destaca uma aliança militar firmada entre a Arábia Saudita e o Paquistão para que Riade tenha acesso às armas nucleares paquistanesas e possa as utilizar se necessário. “O caso da Arábia Saudita já é o primeiro exemplo dessa nova realidade de um país que buscou ter armas nucleares indiretamente se aliando com um país que já as têm”, explicou.
Outros indícios de intensificação dessa corrida armamentista podem aparecer em detalhes como: no projeto do Domo de Ouro, de Donald Trump; quando novos mísseis e outros armamentos capazes de carregar ogivas nucleares são testados; quando há escalada da retórica nuclear; e quando são descobertos dados sensíveis, como o aumento substancial de ogivas chinesas.
Segundo Rudzit, outro elemento que também deve ser levado em consideração na escalada armamentista nuclear mundial é a Inteligência Artificial, que é um elemento central da modernização dos arsenais militares ao redor do mundo. Ao mesmo tempo que ter um domínio e sofisticação maiores da tecnologia em relação ao rival, aumenta o perigo de delegar
“Com o advento dos mísseis hipersônicos, a necessidade de acelerar as contramedidas para tentar derrubá-los aumentou. A resposta tem que ser muito rápida e o ser humano não consegue raciocinar nessa velocidade. O grande medo de muitos pesquisadores e cientistas é que, diante desses mísseis, alguns armamentos sejam colocados sob o controle exclusivo da IA”, afirmou Rudzit.
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