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Futebol brasileiro visita a Idade da Pedra

Futebol brasileiro visita a Idade da Pedra

Gustavo Marques, do Bragantino, faz comentário machista:”Mulher para apitar um jogo desse”
Em poucos dias, estádios no país são palco de episódios de machismo, racismo e intimidação a uma criança
O futebol brasileiro visitou a Idade da Pedra nos últimos dias. Do Norte ao Sul, ofereceu um cardápio amplo, com violência para todos os gostos: racismo, machismo e até intimidação a uma criança.
O último episódio aconteceu neste domingo, em Caxias do Sul. Um menino, torcedor do Juventude, levou ao estádio Alfredo Jaconi um cartaz pedindo a camisa de Kannemann, zagueiro do Grêmio. Foi atendido ainda antes do jogo. Ao receber o presente, porém, ele e sua família passaram a ser hostilizados, aos gritos, por torcedores do time local.
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Seguranças intervieram. A camisa foi levada (e, segundo o Juventude, guardada e devolvida à criança), e o menino, aos prantos, buscou abrigo no colo do pai. Logo depois, a família foi reposicionada em outro local do estádio.
A cena é de embrulhar o estômago: adultos, alguns de cabelo branco, intimidando uma criança que cometeu o crime de pedir uma camisa a um ídolo de outro clube. Por mais acostumados que estejamos à hostilidade dos estádios, amedrontar uma criança parece o limite, a fronteira final da crueldade.
Outras violências, de tão reincidentes, são quase parte da paisagem – revoltam, mas não surpreendem. Também no domingo, o goleiro Hugo Souza, do Corinthians, foi alvo de xingamentos de teor racista por parte de dois torcedores da Portuguesa no Canindé. O ex-goleiro Marcos, ídolo do Palmeiras, reagiu com emojis de risadas a uma publicação sobre o assunto, como se achasse graça. Desculpou-se depois.
Hugo Souza, goleiro titular do Corinthians, em ação contra o São Bernardo
Rodrigo Coca/Agência Corinthians
Quem também se desculpou foi o zagueiro Gustavo Martins, do Red Bull Bragantino, que no sábado, após ser eliminado do Campeonato Paulista pelo São Paulo, disse o seguinte:
– Não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians, e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho.
O atleta fazia referência à árbitra Daiane Muniz. Pouco depois do comentário (o leitor lembra de algum jogador usando o gênero de um juiz homem para reclamar de alguma das incontáveis arbitragens desastrosas do futebol brasileiro?), ele se desculpou – disse que foi repreendido pela mãe e pela esposa. Acabaria repreendido também pelo clube: foi multado em 50% do salário e retirado do próximo jogo, contra o Athletico, pelo Brasileirão.
Dois dias antes, jogadores do Vasco-AC foram a campo pela Copa do Brasil segurando, como homenagem, as camisetas de três atletas ausentes da partida. Ausentes por estarem presos, suspeitos de estupro coletivo. Detalhe: um dos titulares da equipe na partida foi o goleiro Bruno, condenado pelo assassinato de Eliza Samúdio. Um patrocinador interrompeu o investimento no clube, e os ministérios do Esporte e da Mulher soltaram nota conjunta dizendo que “é inaceitável que o esporte, espaço de formação e inspiração para a juventude, seja utilizado para naturalizar ou relativizar a violência contra a mulher”.
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A proximidade entre os episódios causa espanto – e é preciso que cause. Mas não podemos perder a dimensão dos fatos.
Há alguns anos, a manifestação machista contra Daiane não ocorreria, simplesmente porque não haveria uma Daiane apitando, assim como não haveria tantas mulheres em posição de destaque na imprensa para combater falas como essa. Há alguns anos, a imagem de dois torcedores chamando um goleiro negro de piolhento e mandando que ele cortasse o cabelo não seria tratada como deve ser (como racismo). Hoje, o debate racial está muito mais avançado, inclusive no futebol, com atletas de destaque mundial participando ativamente dele.
Conforme a sociedade caminha, é natural que os recalcados (não se trata aqui de um xingamento; é um termo usado na sociologia para os sujeitos reprimidos por novas ordens sociais) tentem fazer um movimento contrário, em uma tentativa desesperada de sobrevivência. Não seria diferente em um estádio de futebol.
Mas eles se debatem em vão: a Idade da Pedra ficou no passado. geRead More