Opinião: Portuguesa cai nas quartas do Paulistão, mas avança na reconstrução
Portuguesa 1 (7) x (8) 1 Corinthians | Melhores momentos | Quartas | Campeonato Paulista
A eliminação para o Corinthians nas quartas de final do Paulistão fez ressurgirem aquelas velhas maldições que por décadas assolaram a Portuguesa. De jogar muito bem, mas no fim perder. De desperdiçar chances claras de matar o jogo. De sofrer gol nos últimos minutos. De sair de uma disputa por pênaltis com o fardo do fracasso.
Esse empate por 1 a 1 no tempo normal, seguido de uma derrota por 8 a 7 nos pênaltis, fez a torcida da Lusa deixar o Canindé com tristeza pelo resultado. Machuca, dói, tira o sono. O pênalti perdido no tempo normal. Os pênaltis perdidos na disputa. As bolas que poderiam ter entrado. O quase único chute do adversário à meta, que foi às redes.
Levará um tempo para que seja possível digerir a sensação de injustiça, de não ter merecido o insucesso. A torcida rubro-verde saiu de cabeça inchada. No entanto, não de cabeça baixa. Saiu, pelo contrário, de cabeça erguida. E não é discurso de perdedor.
Quem não torce pela Portuguesa pode pensar que é retórica de derrotado ou narrativa para lidar com a amargura. Talvez até cogite que é pensar pequeno, deixar-se convencer por pouco. Só que, no Canindé, tudo que não se viu nessas quartas de final foi pouco.
Torcida da Portuguesa no Canindé em jogo do Paulistão 2026
Adão Júnior
A torcida passou anos, para não dizer décadas, deixando o estádio com esses mesmos sentimentos, mas em rebaixamentos, em eliminações em Copa Paulista, contra rivais com os quais jamais se imaginou disputar algo, com o medo de a Lusa acabar.
Não era exagero. Não é preciso ir longe. Desde que retornou à elite do Paulistão, em 2023, a Lusa encarou as disputas como meros desafios para não cair. Afinal, se caísse, não haveria fôlego financeiro, muito menos esportivo, para se recuperar de novo.
A ida às quartas de final do Paulistão de 2024 foi muito mais graças ao regulamento da época, em que dois vizinhos de grupo caíram, colocando a Lusa na fase seguinte, do que propriamente por uma campanha de classificação. Essa de 2026 foi o avesso disso.
Fazia anos, mais precisamente 28, que a Portuguesa não voltava a essa fase desta forma. Uma campanha de mérito, de classificação antecipada, no G4, tendo o mando nas quartas de final. Encarando, desta vez, o Corinthians com reais chances de passar.
Gol de Zé Vitor em Portuguesa x Corinthians
Marcos Ribolli
A Lusa foi dilapidada por 25 anos de péssimas administrações, passou por tapetão, queda da Série A para a Série D, ficando sem divisão nacional, passando sete anos na segunda do estadual. Ignorar tudo isso em uma análise é não entender nada.
Voltar a ver o termo “clássico” ser usado cada vez com maior frequência, bater o pé para jogar no Canindé, dividir a arquibancada meio a meio com o rival histórico, seguir no processo de resgate de torcedores que há muito tempo estavam afastados, ter um ótimo número e fazer uma festa que rodou as redes sociais país afora.
Tudo isso faz parte da reconstrução da Portuguesa. Destruir é fácil. Reconstruir, do zero, é dificílimo. Demorado. Só enxerga de forma melancólica ou desoladora quem não sabe ou não quer ver o contexto. Há um clube voltando. Sim, voltando.
Não se diz mais “vamos voltar” no Canindé. Diz-se “estamos voltando”. O processo está em curso. Mais um degrau foi alcançado. Mais um passo foi dado. Daqui a alguns anos esse clássico será lembrado como um marco desse processo.
Gol de Zé Vitor em Portuguesa x Corinthians
Marcello Zambrana/AGIF
Nada disso, porém, impede que haja tristeza, dor e lamentação pelo que ocorreu dentro de campo. Muito menos que a torcida ou a própria SAF se conformem em “cair de pé”. Jamais. Uma situação em nada exclui a outra. São totalmente complementares.
A Lusa precisa se reabituar a essas situações. Com essas decisões. Em decisão, se há chance, tem de guardar. Não dá para perder pênalti no tempo normal. Não dá para desperdiçar oportunidade na cara do gol. Não dá para cochilar uma vez sequer.
O técnico Fábio Matias tem um mérito enorme nessa campanha. Recebeu um elenco curto, com lacunas, e algumas limitações técnicas mais evidentes. Encontrou e encaixou um time titular competitivo, baseado na organização, na disciplina tática e no empenho. Corre, aperta, morde, pressiona, não desiste, tenta, ataca, briga e luta.
Citar um único grande destaque nesse time é um desafio quase impossível. O destaque desse time é o coletivo, o conjunto. Que fez frente, e foi superior, a elencos com investimentos e qualidades técnicas individuais extremamente superiores. Há mérito da SAF, do estafe, da comissão técnica e do elenco nisso, superando fragilidades.
Torcida da Portuguesa no Canindé
Adão Júnior
Se a Lusa teve pelo menos duas chances com Maceió com a bola rolando, e uma com Renê na marca da cal, para conseguir converter uma com Zé Vitor, o Corinthians precisou de praticamente apenas uma para empatar com Vitinho nos descontos.
Os pênaltis, porém, dariam ao lado alvinegro o favoritismo mesmo. Não só por ter o melhor goleiro do país em atividade, Hugo, como qualidade nos batedores. Do lado rubro-verde, vários contestados calaram os críticos e marcaram. Foram dois atacantes, Renê e Cauari, que acabaram parando em defesas do goleiro corinthiano.
Renê não deveria ser o batedor no tempo normal? Justo ele, que marcou dois gols de pênalti no campeonato? Renê não deveria bater na disputa por pênaltis? Com opções, àquela altura, tão escassas de atleta com afinidade para isso? É compreensível a revolta da torcida, mas não há como condenar o técnico Fábio Matias nesses casos.
Sim, foi uma eliminação com requintes de crueldade. Quem tem mais idade voltou a sentir aquele sabor amargo que tantas vezes, no passado, já provou. Já os mais novos vão cultivando ainda os primeiros traumas com essas situações na Portuguesa.
Cabeça inchada, repito, mas não baixa. Cabeça erguida. Tão ou mais comuns que os lamentos pela eliminação injusta estiveram, na saída do Canindé, as conversas sobre o orgulho de ver a Portuguesa no cenário que é dela e a torcida dando um espetáculo.
Jogadores do Corinthians em disputa de pênaltis contra a Portuguesa
Marcos Ribolli
Sim, pode parecer pouco a quem vê de fora, a quem torce por clubes em situações nada parecidas com a da Lusa. Mas quem vive e respira esse clube sabe que, poucos anos atrás, tudo isso parecia impossível. Hoje, graças a essa torcida, está acontecendo.
Ninguém mais está perguntando se a Portuguesa ainda existe, que campeonato está disputando, querendo um dia ver um jogo dela com o respectivo clube. Em TV aberta, nas rádios, no streaming, em todo canto, viu-se que o clube existe e resiste.
Ou melhor, está voltando. E, dentro desse processo de reconstrução, está o resgate da torcida. O ótimo número na arquibancada, dividindo com o Corinthians, fazendo barulho os 90 minutos, dando um espetáculo com fogos, mosaicos, bandeirões, bandeirinhas, bexigas, etc, foram uma vitória e tanto nessa batalha que será longa.
Dentro de campo, neste Paulistão, a Portuguesa não só garantiu a permanência na elite e uma cota financeira importante para 2027, como também a vaga (esperamos que só de segurança) para a Série D e a vaga (essa já vai se tornando constante) na Copa do Brasil.
Garro e Hugo Souza em Portuguesa x Corinthians
Marcos Ribolli
Fora de campo, a SAF conseguiu pela primeira vez entregar resultado esportivo acima daquilo que as diretorias do clube conseguiam. Claramente reconheceu erros, aprendeu e corrigiu. É um processo. Ainda há muito a ser feito. Mas houve evolução.
Na arquibancada, esse Paulistão consolidou o retorno da Lusa à mídia, às lentes, aos holofotes. E representou um avanço enorme na reaproximação e no resgate da torcida. Não é fácil e nem simples, mas um momento como esse era extremamente necessário.
Não é conformismo. Muito pelo contrário. É conquista e combustível para seguir nessa reconstrução. Passo a passo. Degrau a degrau. Se lutar contra essas maldições dos gols o fim e dos pênaltis for a próxima batalha é sinal de que avançamos. Até ontem a luta era meramente por sobreviver, ganhar mais um ano de fôlego. A Lusa, sim, está voltando.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site. geRead More


