Presidente cita “caixa zerado” e “cenário muito complicado” em meio à crise da Ponte Preta
Ponte Preta precisa vencer e contar com combinações pra sair da degola
Virtualmente rebaixada no Campeonato Paulista e mergulhada em uma grave crise financeira, a Ponte Preta vive um dos momentos mais delicados de sua história recente.
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Em meio a salários atrasados, caixa comprometido e uma campanha sem vitórias, o presidente Luiz Torrano falou pela primeira vez desde o início da temporada em entrevista ao ge e fez um diagnóstico detalhado da situação encontrada ao assumir o cargo, além de admitir frustração com o atual cenário.
Torrano, presidente da Ponte Preta
Marcos Ribolli/ PontePress
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Eleito no fim de novembro, Torrano explicou que só passou a exercer a presidência de forma plena semanas depois, em razão de trâmites jurídicos e do recesso institucional no país. Nesse intervalo, segundo ele, as dívidas continuaram a se acumular.
– Quando eu disse que o clube vai ser um sucesso, quis dizer que ele vai entrar no eixo. Isso neste ano? Talvez não. No ano que vem? Espero que comece. O projeto é para dez anos. Levaram 20 anos para escangalhar o clube. Não dá para consertar do dia para a noite.
Eberlin, diretor de futebol e vice-presidente, ao lado do presidente Luiz Torrano
Marco Ribolli/Ponte Press
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Confira os principais trechos da entrevista:
ge – Como foram os primeiros dias de gestão?
Luiz Torrano – As eleições foram no dia 30 de novembro do ano passado, até as 19h. A partir disso, houve a apuração, venci e tomei posse a partir das 20h30. Nos dias subsequentes, foi redigida a ata e, após isso, iniciado o processo de registro de documentos. Isso leva um certo tempo. O registro de qualquer documento público nesse tipo de cartório não é só bater o carimbo; é preciso checar toda a legalidade e só depois registrar. Isso aconteceu por volta do dia 17 ou 18 de dezembro. Só a partir de então passei a existir juridicamente como presidente do clube, mas logo depois foi iniciado o recesso em todas as esferas no Brasil. O retorno foi praticamente no dia 5 de janeiro e, a partir disso, com o registro em dia e toda a papelada necessária, comecei a ser presidente de fato. O que aconteceu a partir disso? Encontrei muitos problemas. As contas e os débitos não entram em recesso. Somente os órgãos entram em recesso. Então, encontramos um cenário com muitos problemas desde os primeiros dias, principalmente com a questão do pagamento dos jogadores. Conseguimos pagar parcialmente os atletas na véspera do Natal. Depois tivemos o problema do CNRD, que ficou conhecido como transfer ban, e outros inúmeros problemas, porque as contas vão chegando. E aqui a conta de luz não é de R$ 500; uma conta dessas custa R$ 7 mil. Então, só de transfer ban foram R$ 2,7 milhões (nota da redação: era um transfer ban na CNRD da CBF e outro da Fifa). Só da parte dos salários que pagamos aos atletas foi algo em torno de R$ 1,5 milhão, fora as despesas do dia a dia. Estamos trabalhando e focando no cotidiano. Os salários estão atrasados, alguns mais, outros menos, mas o dia a dia está normal. São transtornos causados pela falta de dinheiro. Os primeiros dias foram dessa forma. Agora estamos fazendo um planejamento para cumprir minimetas. A primeira minimeta foi detectar o que estava pendurado no pescoço para não fechar o clube. Isso foi realizado neste primeiro momento.
Quais soluções financeiras estão sendo buscadas para conseguir pagar as contas?
– Veja bem, nos primeiros 15 dias de gestão foram gastos praticamente R$ 5 milhões, somando CNRD, salários e outros custos para realização dos jogos e das atividades do dia a dia. E tudo isso com o nosso caixa zerado. Tivemos que buscar esses recursos para manter o clube ativo. É um cenário muito complicado. Usamos investimentos e cotas. Temos salários atrasados. Como pagamos? Temos cotas da Copa do Brasil, da Série B e valores de investimentos. Podemos citar, por exemplo, o departamento de marketing e comercial nessa operação. O Ricardo José Silva já foi diretor e CEO de marketing de empresas nos Estados Unidos e no México. Ele foi nomeado há 15 dias e está correndo atrás de verbas institucionais para nos ajudar. E, durante essa busca por recursos, precisamos pagar acordos com PEPT, CNRD e outras dívidas anteriores a 2021. A nossa realidade é pagar essas dívidas atrasadas, obter novos valores e, a partir disso, seguir a nossa vida.
Esse é o maior desafio neste momento?
– Sim. E, por isso, precisamos contar com o apoio da nossa torcida. Sem a torcida, nada será possível. Sem a torcida, a Ponte Preta será fechada. Vamos enfrentar esse desafio dessa maneira. Criamos algumas minimetas para arrecadar mais recursos, como valores de organismos esportivos e outros investimentos por meio da publicidade. Essa é a forma possível neste momento. E, claro, eventualmente outras rendas. Recentemente, a venda do Jeh foi o que ajudou nos R$ 5 milhões que citei anteriormente para pagamento de transfer ban, salários e dívidas do dia a dia.
E qual a estratégia da diretoria para recuperar a confiança da torcida? No início da gestão, o presidente citou que “o clube vai ser um sucesso” e, pouco tempo depois, a realidade é a luta contra o rebaixamento.
– A Ponte não chegou à atual situação por conta da administração anterior do Marco Antonio Eberlin. Ele também pegou isso aqui como um rabo de foguete e fez um trabalho gigante para o clube. Ele iniciou com uma diretoria que não foi montada por ele, diferente da minha vez. É preciso valorizar e refletir sobre todos os desafios financeiros. Lidamos com bloqueios antigos, advogados que fazem tumulto e outras ações que nos atrapalham ao bloquear nossas contas. O que eu quis dizer quando falei que o clube vai ser um sucesso? O clube vai entrar no eixo. Neste ano? Talvez não. Ano que vem? Espero que comece. O nosso projeto é para recuperar em 10 anos. Levaram 20 para escangalhar. Não dá para consertar do dia para a noite. Quando eu disse que vai ser um sucesso, quis dizer que vou encaminhar o sucesso. A Ponte precisa voltar a ser um grande clube, com jogadores na Seleção e disputando competições de forma competitiva, como acontecia antes dos 20 anos que destruíram o clube. Não dá para operar um milagre do dia para a noite. Isso só seria possível se conseguíssemos R$ 150 milhões para negociar com os credores e colocar tudo em dia. A gestão do Eberlin pegou o clube com muitas dívidas, reduziu o máximo que conseguiu, e estamos trabalhando para melhorar dentro do que é possível.
O presidente demorou muito para conversar com a imprensa e passar um recado para a torcida?
– Eu venho de uma área em que juiz não dá entrevista. Juiz escreve processos. Eu nunca fui de entrevistas. Fiquei 25 anos como juiz em Campinas, sendo 17 como diretor do Fórum, fui juiz eleitoral e trabalhei em diversas áreas. E nunca dei entrevista. Prefiro escrever, assim como fiz naquela nota falando das dificuldades, mas entendi que era o momento de conversar com a torcida. Sei que vou lidar com críticas porque estamos falando de paixão de torcedores. Isso faz parte. Mas entrevistas não são um hábito para mim e, por isso, não concedi muitas. Ainda assim, fico sempre à disposição.
Como o senhor viu a reviravolta no caso do Elvis?
– Eu gostei. E gostei porque a torcida gostou. Estamos aqui para administrar a Ponte junto com a torcida. Eu falei com o Eberlin que, se fosse possível, seria legal ele voltar, desde que essa fosse a vontade dele. Como ele queria voltar, eu também aprovei.
O que pode ser passado sobre o planejamento para a Série B?
– Os valores da Série B e da CBF ainda não foram definidos. Aguardamos esses números para definir o planejamento, além de outros contratos que serão repassados nas próximas semanas. Depois disso, o planejamento será discutido com a diretoria de futebol.
E como funciona a questão de hierarquia dentro do clube?
– Você vai me perguntar como vai ser a Série B. Eu vou te dizer: vamos conversar e ouvir o diretor de futebol. Ele é quem vai fazer o planejamento e nos trazer para viabilizar a questão financeira. Temos um departamento jurídico trabalhando para ajudar o clube e o departamento de marketing e comercial para viabilizar recursos. Aqui não centralizamos tudo; vamos delegando e trabalhando junto com cada departamento.
Torrano e Eberlin antes de jogo da Ponte contra o Corinthians
Marcos Ribolli
Existe uma preocupação com um novo transfer ban após a ação de Haquin?
– O Haquin realmente entrou com uma ação pedindo R$ 600 mil. Nosso departamento jurídico conseguiu agir e fechou um acordo para reduzir o valor para R$ 220 mil. Esse valor é referente à rescisão de contrato. Já foi autorizado o pagamento e isso não vai gerar um novo transfer ban. Vamos trabalhar dentro do prazo estabelecido para esse acerto e não haverá esse risco.
O senhor poderia explicar a decisão de processar torcedores que criticaram a atual gestão nas redes sociais?
– Como citei, eu já era um homem público e hoje sou ainda mais. Lidar com isso é tranquilo. Aceito que no campo a gente lide com a emoção do torcedor; eu também sou um torcedor de arquibancada e já me irritei muitas vezes quando meu clube foi prejudicado. Isso faz parte da paixão. O que acontece no campo, nas intermediações do estádio, quando a torcida está chateada com o resultado, está tudo certo. Mas ofender de forma premeditada nas redes sociais é diferente. Ofender a minha moral e a minha pessoa eu não aceito. Processei um porque fui chamado de “verme”. Isso eu não aceito. Outro disse que eu era “ladrão”. Como eu sou ladrão se não há nada para roubar no caixa do clube? Processei esses dois e há outro caso em andamento. É uma pessoa de destaque, que me conhece, tem formação superior e me ofendeu. Já fiz a solicitação ao meu advogado. Discordar, achar que a gestão é incompetente ou fazer críticas ligadas à administração faz parte. Ataque pessoal, não.
Luiz Torrano é um juiz gabaritado em Campinas e decide entrar no mundo do futebol. Essa nova realidade te assustou nestes primeiros meses?
– Eu já conhecia o mundo do futebol porque vivencio o clube há muito tempo. Mas essa parte de rede social incomoda. Xingar o técnico, o diretor de futebol, o presidente ou qualquer pessoa de forma pessoal não é normal. Isso não faz parte do futebol. Isso é dano moral.
Qual teu sentimento pessoal diante de um virtual rebaixamento, vindo de uma derrota no dérbi e após sofrer um gol de um jogador que estava até pouco tempo no Moisés Lucarelli?
– Tristeza. Eu já queria ter sucesso no Campeonato Paulista desde já. Esse era o meu anseio. A gente não vai desistir e vai lutar pela permanência até o fim. A esperança é a última que morre. Até porque, se nos mantivermos na elite estadual, isso vai facilitar a nossa chegada ao sucesso que citei no começo da entrevista. Se a gente for rebaixado, voltamos à estaca zero. Então, qual é o meu sentimento? O mesmo da torcida. Estou entristecido. Muitos jogadores deixaram o clube no começo do ano porque queriam a vitrine de jogar um Paulistão, de enfrentar um Corinthians, mas não deu certo. Sempre foi consenso de toda a diretoria, incluindo o departamento de futebol, que não ficaríamos com jogadores que não estão interessados em defender o clube. Se não quer ficar aqui, saia pelas portas da frente. Queremos jogadores com ânimo para defender esse clube.
A diretoria vai recuperar a credibilidade da Ponte Preta?
– Esse é o meu desejo. Eu quero o sucesso do clube. Vamos conseguir? O primeiro passo é contar com a torcida apaixonada da Ponte. O sucesso do clube depende disso. Sem a torcida, não há como ter sucesso. Estávamos comemorando um título há poucos meses e agora atravessamos um momento de extremo desgosto. Precisamos de união. E precisamos de dinheiro. Estamos correndo atrás disso. Acabamos de gastar R$ 5 milhões em 15 dias. Sem investimentos, será difícil, e nossa luta é essa. O momento atual é de tristeza e desapontamento, mas isso é um reflexo de todos. Eu já queria estar caminhando para o sucesso que citei. Um eventual rebaixamento vai retroceder esse caminho e isso me deixa desapontado. Toda a diretoria do clube está triste. Mas contamos com a nossa torcida, com uma diretoria que está se fortalecendo em todas as áreas, e muitas coisas positivas ainda vão acontecer nos próximos dias. geRead More


