Provocações de Vini Jr não são salvo-conduto para racismo
Vini Jr. denuncia racismo, e árbitro aciona protocolo após golaço contra Benfica
Sempre que Vini Jr levanta a voz para denunciar um episódio de racismo, um coro reage de imediato: ele é provocador, ele é debochado, ele é desrespeitoso – como se houvesse, nas atitudes do jogador em campo, um salvo-conduto para a reação criminosa.
É possível (e é preciso) separar as duas coisas. Embora a plastificação do futebol incentive comportamentos iguais, entrevistas iguais, sorrisos iguais, as personagens não são planas: elas têm ranhuras, têm falhas e qualidades, podem ser patéticas em um momento e grandiosas no instante seguinte, como na vida, como você e eu.
Eu não gosto do comportamento de Vini em campo, assim como não gosto de vê-lo protagonizando um anúncio de casa de apostas (jogador em atividade incentivando apostas?), assim como não gosto da superexposição da vida pessoal do atacante. E isso não me impede de admirar seu talento, de considerá-lo um craque raro. E de achar sua postura antirracista profundamente admirável.
Prestianni ofende Vini Jr. com a camisa sobre a boca
PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP
Vini poderia escolher o conforto do silêncio. Seria mais fácil. Mas ele preferiu o combate: contra adversários, torcidas, federações. Fico me perguntando sobre o tamanho desse exemplo, sobre o tanto de jogadores, atuais e vindouros, que veem um astro mundial comprando essa briga e decidem que, caso aconteça com eles, farão o mesmo.
É provável que o episódio desta terça-feira, no jogo entre Real Madrid em Benfica, em Lisboa, pela Liga dos Campeões, não vá adiante. Vini acusa o argentino Prestianni de tê-lo chamado de macaco. Mbappé confirma, diz que o adversário agrediu o brasileiro com a palavra cinco vezes. Mas o acusado nega. Como ele colocou a camisa sobre a boca ao falar com o brasileiro, não há leitura labial que confirme a violência. E Prestianni, claro, tem a presunção de inocência.
Antes disso, Vini fez um golaço e dançou diante da bandeira de escanteio, gesto que alguns jogadores do Benfica interpretaram como provocação – aí esteve a origem da confusão que resultou na acusação de racismo. Depois, alvo de fortes vaias do público, fez ao menos duas jogadas que poderiam ter gerado mais gols. Saiu de campo como o principal responsável pela vitória de 1 a 0.
Vini Jr. se manifesta sobre ataque racista
Reprodução
E então teve que lidar com dois movimentos costumeiros em episódios como esse: as ondas de apoio e de relativização. Das catacumbas das redes sociais ou das caixas de comentários, tratam Vini Jr como mimizento, como vitimista. O mimizento que foi chamado de macaco em cantoria entoada por vários torcedores do Valencia? O vitimista que teve um boneco pendurado em uma ponte por torcedores do Atlético de Madrid?
Tudo registrado, tudo comprovado – e, mesmo assim, a relativização. E, mesmo assim, a culpabilização da vítima.
O que pensam, de verdade, muitas pessoas que atacam Vini Jr sempre que ele denuncia algum episódio de racismo? O que elas sussurram para ninguém escutar? O que diriam se colocassem a camisa sobre a boca? geRead More


