Sensação da Champions: Bodo/Glimt tem origem em vila de pescadores e escova de dentes como símbolo
Bodo/Glimt 3 x 1 Manchester City | Melhores momentos | 7ª rodada | Liga dos Campeões 25/26
Uma das sensações do futebol europeu nas últimas temporadas, o Bodo/Glimt encara a Inter de Milão nesta quarta-feira pelos playoffs da Liga dos Campeões. Os italianos são os atuais vice-campeões do torneio e finalistas em duas das últimas três edições – mas os noruegueses também vêm achamando a atenção com uma história daquelas que encantam o fã de futebol.
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Logo na sua primeira participação na Champions, o Bodo já venceu o poderoso Manchester City, superou o Atlético de Madrid na Espanha e alcançou o mata-mata da principal competição de clubes do continente. Isso menos de uma década após disputar a segunda divisão norueguesa.
Como explicar tamanho sucesso de uma equipe localizada em uma pequena cidade acima do Círculo Polar Ártico, sem grandes investimentos externos e que consegue competir não apenas com os principais clubes do país, como também contra gigantes do futebol europeu? O ge foi atrás dessa história.
Bodo/Glimt 3 x 1 Manchester City pela Champions League
Getty Images
Acesso e tetra nacional
O ponto de virada da história do Bodo/Glimt é a partir da temporada 2016/17. Campeão da segunda divisão da Noruega, o clube contratou Kjetil Knutsen, técnico que está no cargo até hoje, para tentar manter a equipe na elite. A meta foi atingida com um 11º lugar. Mas o objetivo discreto se transformou em sucesso estrondoso.
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Em 2018-19, o time foi vice-campeão, atingindo seu melhor resultado na liga em mais de 15 anos. A ascensão se manteve, e o clube conquistou quatro vezes o título nacional nas cinco temporadas seguintes. Até então, a sala de troféus contava apenas com duas taças da Copa da Noruega. Agora, tetracampeão norueguês, o Bodo/Glimt passou a ter um desafio dos sonhos: competir nos principais torneios continentais.
A resposta veio à altura. Na Liga Conferência de 2021/22, o time conseguiu aquele que é provavelmente o maior resultado de sua história: um 6 a 1 sobre a Roma, a pior derrota da carreira de José Mourinho. Posteriormente, os italianos ainda se tornariam campeões do torneio.
José Mourinho encara a comemoração dos jogadores do Bodo/Glimt: Roma é goleada por 6 a 1
NTB via REUTERS
Na temporada 2024/25, o time de Knutsen fez uma campanha histórica na Liga Europa. Eliminando o Olympiacos, da Grécia, nas oitavas, e a Lazio, da Itália, nas quartas, a equipe chegou às semifinais do torneio, o maior feito internacional da sua história. A queda para o Tottenham — que foi campeão da competição — não inibiu o crescimento do clube, que na temporada seguinte chegou à fase principal da Liga dos Campeões pela primeira vez.
Orgulho nórdico
Com pouca estrutura e dificuldade de potencializar as receitas, o Bodo/Glimt precisa de criatividade em sua gestão para se manter competitivo ao nível nacional e continental. O Estádio Aspmyra comporta apenas cerca de oito mil torcedores, e a verba das competições continentais nas últimas temporadas tem ajudado, mas não muda o patamar do clube.
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Por isso, o elenco é formado quase em sua totalidade de atletas nórdicos. O foco das contratações é claro: formação de jovens na base e oportunidades de mercado no futebol local. Jens Petter Hauge, autor de um dos gols e eleito o craque do jogo na vitória sobre o Manchester City, é fruto dessa política de negociações.
Jens Petter Hauge, eleito o melhor em campo pelo Bodø/Glimt contra o Manchester City
Michael Regan – UEFA/UEFA via Getty Images
Revelado pelo clube, o atacante foi vendido para o Milan em 2020 por 4,8 milhões de euros (cerca de R$ 32 milhões na cotação da época). O clube italiano negociou o atleta com o Eintracht Frankfurt em 2022 por 8,2 milhões de euros (R$ 48 milhões na ocasião) e retornou ao clube de formação em janeiro de 2025.
Dessa forma, a falta de poder financeiro ajuda o Bodo/Glimt a criar uma forte identidade local. Quem visita a cidade hoje também quer conhecer a história do clube. Aproveitando o status de atração turística, a diretoria tem conseguido parcerias com hotéis e oferecer ingressos mais baratos em troca de reservas.
Norte proibido
O clube é um símbolo de orgulho do norte da Noruega. Apenas em 1972 a Federação Norueguesa de Futebol passou a permitir que clubes do norte do país pudessem competir no sistema do futebol nacional. A proibição se dava sob o pretexto de que os times da região não tinham capacidade de medir forças com as equipes do sul. Com nove títulos do torneio do norte, o Bodo/Glimt passou finalmente a poder sonhar com a primeira divisão norueguesa.
Mesmo após o fim do bloqueio, o norte ainda precisou superar novas barreiras impostas pela federação. A segunda divisão norueguesa tinha quatro grupos (dois com times do sul e dois com times do norte). Os vencedores das chaves do sul conseguiam acesso direto à elite, enquanto os líderes dos grupos do norte ainda precisavam disputar uma eliminatória extra contra quem terminasse em segundo lugar entre os sulistas.
Torcida do Bodø/Glimt
Action Images via Reuters/Andrew Boyers
Em 1975, o Bodo/Glimt sagrou-se campeão da Copa da Noruega pela primeira vez, mas o acesso esbarrou no regulamento — vencedor de seu grupo, o time foi derrotado no playoff. Adiado, o sonho da primeira divisão se realizou um ano depois, na temporada de 1976. Logo na estreia na elite, em 1977, o clube surpreendeu e foi vice-campeão.
A posição garantiu uma vaga inédita em uma competição da UEFA, a Recopa Europeia de 1978. Na ocasião, vitória sobre o União Luxemburgo na primeira fase e uma histórica visita a Milão na segunda, para enfrentar a Inter. As derrotas por 5 a 0 no San Siro e por 2 a 1 em Bodo deram fim à campanha.
Escova de dente
Além da tradicional flâmula, os capitães dos times adversários que visitam o Estádio Aspmyra costumam receber uma escova de dentes da principal torcida do Bodo/Glimt. A Den Gule Horde (horda amarela, em português) adotou o objeto como símbolo. A tradição começou na década de 1970, quando um dos líderes da torcida, Arnulf Bendixen, passou a usar uma escova de dente para reger os cânticos.
Escova de dentes é um dos símbolos da torcida do Bodo/Glimt
Reprodução/Twitter
A ideia pegou. Um torcedor funcionário de uma empresa de higiene bucal da cidade solicitou a fabricação de escovas amarelas gigantes para serem utilizadas no estádio. A torcida, então, passou a levá-las para os jogos em casa, e até hoje o símbolo agita as arquibancadas do Aspmyra.
Tradição das escovas de dente na torcida do Bodo/Glimt começou na década de 1970
Divulgação/Bodø/Glimt
Uma cidade no San Siro
Ao norte do Círculo Polar Ártico, a cidade de Bodo conviveu com o terror da Segunda Guerra Mundial. Em maio de 1940, aviões nazistas bombardearam o território. Destroçada, a vila de pescadores precisou de uma grande reconstrução, que passou pela instalação de uma base aérea militar da Otan até incentivos para a transformação do local em um importante centro administrativo.
Em 2024, a cidade foi eleita Capital Europeia da Cultura, atraindo mais turistas a cada ano. Bodo ainda conta com um massivo projeto de desenvolvimento urbano, bastante focado no turismo. Um dos principais atrativos é o “sol da meia-noite”: pela sua localização, a cidade vive noites claras e dias escuros a depender da época do ano. A aurora boreal também pode ser observada até mesmo do Estádio Aspmyra, entre setembro e março.
Estádio Aspmyra antes de Bodø/Glimt x Manchester City
Action Images via Reuters/Andrew Boyers
Quando visitar a Inter de Milão no dia 24, pelo jogo de volta dos playoffs da Liga dos Campeões, o Bodo/Glimt retornará ao San Siro. O clube já passou por lá em sua primeira campanha em uma competição europeia, na Recopa de 1978. O estádio, que conta com capacidade para 75.817 torcedores, é capaz de abrigar toda a população de Bodo — cerca de 53 mil habitantes. geRead More


