A Queda da Águia (pt. 4) – O Botafogo de refúgio a refém (ou uma história sem fim)
Em agosto de 2025, o blog publicou a série “A Queda da Águia”, buscando destrinchar as muitas faces da guerra entre John Textor e os demais acionistas da Eagle Football Holdings, revelada à época.
Meses depois, tudo segue indefinido, as disputas judiciais se ampliaram, o Botafogo sofre com a perda de competitividade, resultado da asfixia financeira que o conflito gerou e, do outro lado do oceano, o Lyon herda uma dívida enorme pela aquisição de um jogador que nunca vestiu sua camisa.
A retomada da série tenta dar conta dos muitos novos fatos, agora em um contexto já bem distinto.
Se no ano passado apontou-se que o Botafogo estava sendo usado por John Textor como refúgio para tentar salvar sua posição na Eagle – por ser o único clube onde gozava de prestígio junto à torcida e onde havia um clube social para barganhar –, agora entende-se que Textor faz o Botafogo de refém, com jogadas políticas, um endividamento brutal, sustentado por uma narrativa de terra arrasada, mas já sem os mesmos apoiadores de primeira ordem.
Confira os outros textos da série:
A Queda da Águia (pt. 1) – Do pouso forçado à ejeção de Textor (12/08/2025)
A Queda da Águia (pt. 2) – Textor se refugia nos trópicos e no tempo (13/08/2025)
A Queda da Águia (pt. 3) – O Botafogo entre a gratidão e a subserviência (14/08/2025)
Há um entendimento bastante difundido por aí de que “John Textor cometeu muitos erros” e trouxe o Botafogo para uma grande enrascada, jogando fora toda a moral conquistada até então.
Após um ano de sucesso estrondoso, o caos no âmbito da Eagle Football Holding (Eagle FH) – empresa que Textor criou e onde trava uma guerra com os demais acionistas – ainda é creditado a um “erro” específico, que seria compra do clube francês Olympique Lyonnais (Lyon).
Nessa versão da história, essa aquisição teria sido um equívoco, uma vez que o Lyon já estaria “quebrado”. Isso teria iniciado o desajuste financeiro de toda holding e gerado uma dívida impagável junto à Ares Management, a gigante gestora de investimentos que bancou a compra.
Desse “equivoco”, um “deslize” teria resultado num “acidente” administrativo e resultaria na guerra entre os acionistas da Eagle, com a Ares à frente, que se juntaram para afastar Textor da presidência do Lyon. O norte-americano fez entender que houve um “complô” no processo, que incluía as punições aplicadas pelo DNCG, o órgão que exerce o controle financeiro da liga francesa.
As punições foram da proibição de contratações até o rebaixamento administrativo, só revertido com a saída de Textor do comando do clube e a ocupação desse lugar por Michelle Kang, apoiada pela Ares.
Nota-se que é uma versão bem conveniente para a imagem do norte-americano. Ao mesmo tempo que parece que foi vítima de tramoias dos demais acionistas, também parece que o problema central, que hoje explode em tantas outras camadas, não é a própria natureza do seu negócio.
Caixa preta (de Pandora)
Como revelado em matéria de João Pedro Fragoso no jornal O Globo, na exposição das operações controversas de transferência dos jogadores Igor Jesus, Luiz Henrique, Jefferson Savarino, Jair e Thiago Almada, do Botafogo para o Lyon. Apenas o último vestiu de fato a camisa do clube francês.
De acordo com a matéria, Textor recorreu a pelo menos três bancos para operar o que é conhecido como “factoring”, a tomada de valores antecipados usando transferências futuras como garantias, sendo elas operadas entre duas subsidiárias da mesma holding.
O desenho é complexo e visava dar ao Lyon um “argumento financeiro” diante dos órgãos reguladores franceses, pois indicaria uma liquidez gerada em transferências “de um bolso para o outro” da Eagle. À época, Textor ainda estava no controle do Lyon e buscava reverter a iminente punição de rebaixamento administrativo pelo DNCG.
Na última quinta, 19, a Bloomberg revelou que o Lyon estava sendo processado pela PRPF LLC, uma subsidiária da MC Credit Partners LP, pelo não pagamento de cerca de 63 milhões de euros (juros envolvidos), valores relativos ao “factoring” realizado com o jogador Igor Jesus – cujo valor original, em outubro de 2024, era de 35 milhões de euros.
À época, Paul Quinn, um especialista em finanças e produtor de conteúdo sobre o Everton FC, dono do site “The Esk”, produziu uma densa uma análise sobre os riscos financeiros e operacionais da Eagle FH. Sua leitura é elucidativa sobre o modelo de negócios de John Textor.
“A transferência de contratos de jogadores serve como uma ferramenta crucial para a geração de liquidez a curto prazo e financiamento de transações com partes relacionadas. (…) Essa prática converte efetivamente o valor futuro dos ativos (talento dos jogadores) em liquidez imediata para gerenciar fluxos de caixa críticos”, apontou o analista.
E destrincha o principal problema do modus operandi: “Essa engenharia financeira é inerentemente arriscada, pois prioriza as necessidades de curto prazo do balanço patrimonial, principalmente aquelas exigidas por órgãos reguladores como o DNCG, em detrimento da estabilidade a longo prazo e da qualificação do elenco”.
Paul Quinn foi uma figura importante na avaliação (e negativa) das condições financeiras de dois potenciais compradores do Everton FC: a 777 Partners, encerrada em junho de 2024; e da própria Eagle FH, que deixou de ser uma possibilidade em dezembro do mesmo ano, com a concretização da venda do clube para a rede Friedkin Group (hoje Pursuit Sports).
As operações de “factoring” são só uma fase mais recente do alto risco da empreitada de Textor na formação da sua rede multiclubes. A história começa antes mesmo da chegada do norte-americano na SAF do Botafogo, quando já dizia publicamente ser um investidor bilionário, sólido e responsável.
Para além de alguns investidores pontuais, John Textor teve acesso a grandes volumes de capital em acordos com a Iconic Sports e a Ares Management, dois grupos de investimentos atraídos para o projeto da Eagle Football Holdings pela promessa de uma Oferta Pública Inicial (IPO), a listagem da rede multiclubes na bolsa de valores de Nova Iorque. Essa parte parece meio esquecida no momento atual.
Capitalismo de cassino
Um IPO é um momento especial de capitalização rápida e volumosa de uma empresa, o que confere retornos satisfatórios em qualquer atividade econômica. Raríssimo no futebol – há menos de 20 clubes europeus listados em bolsas, sendo que a maioria pretende sair –, Textor não apenas sugeriu a entrada de um clube, mas de quatro de vez.
Iconic e Ares, em diferentes formatos, mas com valores consideráveis, acreditaram nesse projeto. A primeira entregou 75 milhões de dólares no final de 2021, com a promessa de um IPO para 2023; a segunda, no contexto da aquisição do Lyon, repassou cerca de 450 milhões de dólares no final de 2022, com a promessa de um IPO para 2025.
Ambas ficaram a ver navios. O IPO não poderia se tornar uma realidade até que John Textor garantisse o controle de uma peça central da Eagle: o clube inglês Crystal Palace, principal ativo da rede por estar localizado na liga mais rica do planeta. Mas Textor nunca teve um cenário favorável para isso: os demais sócios do Palace nunca indicaram ter interesse na venda de suas participações e a Eagle nunca esteve perto desse objetivo.
Com o fracasso do IPO (se é que de fato era esse o objetivo), Textor foi forçado pelos demais acionista da Eagle, especialmente a Ares, a vender a participação de 40% detida no Crystal Palace, de modo a reaver parte dos valores devidos à gestora de investimentos.
Tanto no caso do “factoring”, quanto no caso dos “empréstimos com vistas ao IPO”, John Textor agiu de forma irresponsável por uma razão muito simples: ele faz parte de um perfil clássico de capitalistas norte-americanos, afeitos a negócios com riscos altíssimos, dispostos a contração de empréstimos a juros elevados, que por sua vez geram consequências societárias drásticas, com conflitos políticos e na execução das garantias.
Situações conflituosas que, por consequência, geram contendas jurídicas. Tudo isso tocado através de operações financeiras complexas que dificultam a compreensão profunda da situação financeira dos negócios, além da ocultação proposital de informações relevantes e de atrasos consecutivos de divulgação de balanços.
Recorrendo novamente à análise de Paul Quinn: “As demonstrações financeiras publicadas (…) refletem uma dependência crítica de eventos de financiamento extraordinários, especificamente a venda de ativos e um IPO altamente antecipado e frequentemente prometido, para satisfazer obrigações de dívida imediatas e exigências regulamentares. A principal conclusão de qualquer análise razoável é que a estrutura de capital da EFH é insustentável diante do desempenho operacional atual, evidenciado por um índice de endividamento excepcionalmente alto”.
Hoje, entende-se que a dívida da Eagle Football Holdings supera a marca de 1,2 bilhão de dólares – valor que cresce a cada mês. Operacionalmente, a holding teve um prejuízo líquido 200 milhões de euros no exercício financeiro de 2024/25.
Portanto, seguir acreditando que Textor “cometeu erros” só depois dos títulos de 2024 é optar por uma versão equivocada (ou uma versão muito leniente) de toda novela da Eagle. Mas isso só aconteceu porque John Textor teve o Botafogo como um refúgio quando tudo começou a ruir. Agora, o Botafogo é um refém.
De refúgio a refém
Nesta segunda, 22, outra bomba. As condições dos empréstimos obtidos no início do ano, no valor de 50 milhões de dólares, com o objetivo de livrar o Botafogo do transfer ban (caso Thiago Almada/Atlanta United), se mostraram muito mais leoninas do que há pareciam.
De acordo com o blog de Lauro Jardim, no site de O Globo, os direitos econômicos dos jogadores do Botafogo foram colocados em jurisdição internacional (na Suíça) para evitar que a dívida contraída com a GDA Luma Capital e a Hutton Capital fosse inserida em uma eventual recuperação judicial.
O mesmo ato de cessão fiduciária também envolveu “receitas futuras, direitos e ativos móveis e imóveis e penhor sobre todas as ações que a Eagle tem na companhia em favor do novo credor”. Em outras palavras: a jogada também pode fatiar as ações da SAF e reduzir a participação da própria Eagle.
Ou seja: uma medida com resultado imediato (e mais breve que qualquer outra alternativa), mas com consequências duras, afinal, os demais acionistas da Eagle não vão aceitar a diluição da participação da empresa em mais uma manobra de Textor – sócio cuja permanência do controle sobre a SAF do Botafogo eles questionam na justiça.
Há quem aposte que isso é só mais uma forma de ganhar tempo, usando o desconforto dos seus sócios adversários a seu favor. As medidas seriam tão flagrantemente irregulares dentro do estatuto e do acordo de acionistas da SAF do Botafogo, bem como potencialmente na esfera da Eagle FH, que seriam muito remotas as chances de uma decisão judicial não anulá-las. Ainda mais agora que o clube social já não posa de fiel escudeiro.
Mas, por outro lado, essa nova jogada de John Textor basicamente amarra o Botafogo aos seus desígnios, em um momento que já é sabido que a SAF precisa o quanto antes de uma nova recuperação judicial. Sem ativos tão importantes, não há possibilidade de traçar um plano factível para uma recuperação judicial, porque simplesmente não há quase nada a apresentar aos credores.
As dívidas, de acordo com a mesma matéria, já estariam na ordem dos 3 bilhões de reais, incluindo aquelas herdadas do período pré-SAF, que foram muito pouco reduzidas – a maior parte foi perdoada pelos grandes credores. Além de parcelas não pagas de compras de jogadores, que renderão novos transfer bans, há um valor substancial de dívidas tributárias acumuladas nos últimos 4 anos (mais de 200 milhões de reais).
Mais uma vez, Textor colocou o Botafogo em uma encruzilhada e como escudo para a batalha interminável que ainda trava na Eagle FH. E o Botafogo não tem muito tempo a perder. A disputa na parte de baixo Brasileirão está mais ferrenha do que nunca, a necessidade de manter os compromissos com os atletas é central para evitar um rebaixamento e, ao que consta, isso está sendo usado por Textor para atingir seus objetivos.
Como já se sabe, o clube social abriu mão de acionar as diversas cláusulas do acordo de acionistas que lhe permitiram retomar o controle da SAF, criadas justamente para garantir essa proteção. Há incontáveis descumprimentos do acordo por parte da Eagle que permitiriam essa medida drástica, inclusive o grau de endividamento.
Partícipe direto das primeiras jogadas temerárias de John Textor, o clube associativo segue com uma postura muito pouco objetiva no atual cenário, embora passe a impressão de que já não protege o norte-americano.
Falência como possibilidade
É preciso reconhecer que a SAF do Botafogo está correndo um risco real de falência. As dívidas são impagáveis dentro das condições reais do clube, porque foram formadas em um sistema de circulação de recursos e ativos que envolvia clubes europeus (e prometia um IPO) que colapsou.
Em meio à guerra societária, com Textor sobrepondo contendas jurídicas com novas ações irregulares, o Botafogo se viu impedido de colocar em curso uma recuperação judicial que, de acordo com informações internas (apesar das negativas posteriores), já estava sendo produzida como plano A.
Em qualquer país/liga do mundo acostumado com lambanças feitas em clubes sob o formato de empresa, a própria norma esportiva já teria se antecipado à falência judicial da SAF do Botafogo, ao basicamente eliminar a sua filiação na federação local.
Onde ainda existe a figura da associação civil, o recomeço se daria por uma nova filiação à federação de origem e a disputa da última divisão da pirâmide (Portugal e Bélgica, por exemplo). Onde não há essa figura, espera-se que alguém crie um novo clube-empresa, tente herdar o “legado”, ganhe respaldo da antiga torcida e faça parecer que ele voltou a existir (na Itália e na Inglaterra chamam isso de “phoenix club”).
Não há previsão de nada disso na esfera esportiva brasileira, tampouco na justiça comum. Um recomeço nos mesmos moldes se daria na Série C do Campeonato Carioca, a quinta divisão local. Mas pode ser que, caso esse caso extremo (e não improvável) realmente aconteça, alguma manobra retórica talvez permita à associação assumir a filiação original, no mesmo lugar.
As medidas para evitar esse caminho já poderiam estar em curso desde julho de 2025, quando ficou claro que os demais acionistas da Eagle já não confiavam em John Textor. Oito meses depois, o Botafogo segue preso e sem perspectivas.
John Textor Botafogo
Wagner Meier/Getty Images geRead More


