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Aos 25 anos, Herdy reforça o Brasil na WSL 2026 após seis anos batendo na trave e quase desistir

Aos 25 anos, Herdy reforça o Brasil na WSL 2026 após seis anos batendo na trave e quase desistir

Mateus Herdy vibra com a classificação ao Circuito Mundial da WSL
“Eu sou só um moleque da Joaquina que tinha um sonho, e um dia ele aconteceu”. Foi assim que Mateus Herdy descreveu um de seus momentos mais felizes da vida. Aos 25 anos, o menino que aprendeu a surfar na Praia da Joaquina, em Florianópolis, se tornou o mais novo integrante da elite do Circuito Mundial de Surfe. Depois de bater na trave por seis anos, perder os principais patrocinadores e pensar em mudar de rumo na carreira, o jovem catarinense finalmente garantiu um lugar entre os melhores surfistas do mundo. Quando veio a confirmação da vaga, o atleta desabou, sentiu o alívio de ter realizado o seu maior objetivo.
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Matheus Herdy se emociona após conquistar vaga na elite da WSL
Hannah Anderson / WSL
– Era o meu maior sonho. Eu não sou um cara de chorar assim. Não aguentei, sabe? Tipo, soltou o peso de todos esses anos. Eu chorei. Estava tão acostumado com tudo dando errado nesses anos. Acabou dando certo. Estava sem acreditar e só fui soltando todo aquele peso que eu sentia desde muito tempo. Eu sou só um moleque da Joaquina que tinha um sonho um dia e aconteceu – comemorou Mateus Herdy.
Para entrar no Championship Tour (CT), elite do Circuito Mundial de Surfe, mais de 100 surfistas brigam para se classificar entre os 10 melhores do Challenger Series, a segunda divisão da WSL. Apontado como uma das maiores promessas da nova geração, Mateus viveu essa expectativa desde 2018, quando foi campeão mundial júnior. Nessa temporada, ele foi vice-campeão da etapa do CS – que se chamava WQS na época – em Haleiwa, no Havaí. Se tivesse conquistado o título, teria conseguido uma vaga entre os melhores do mundo na primeira divisão.
Aos 17 anos, Mateus Herdy foi campeão do Mundial Junior em Taiwan
WSL
Por uma posição, ele não entrou na elite do esporte naquele ano. Desde então, o catarinense embalou uma sequência de “quases” na carreira. Lidou com lesões, perdeu os principais patrocinadores e viu as cobranças internas e externas aumentarem a cada ano sem conseguir uma vaga entre os 10 melhores do CS.
– As pessoas às vezes não têm tanta noção do quão difícil é. São mais de 100 atletas. Eu quase entrei no meu primeiro ano. Não entrei por uma posição. Aí depois tive lesões, pandemia… Só de você estar na briga todo ano já é muito difícil. A maioria não consegue nem ficar nos top 30, no top 20, tipo, a maioria não consegue – desabafou.
Mateus Herdy confirma vaga na elite da WSL pela primeira vez
Bateria polêmica e momentos antes de entrar no CT
Em 2023 e 2024, Mateus terminou o ranking de acesso na 12ª colocação, ficando a apenas duas posições da vaga. Na temporada de 2025/26, o surfista de Floripa chegou na última etapa, em Newcastle, na Austrália, com grandes chances de se garantir entre os 10 melhores. Tudo que ele precisava era avançar alguns rounds e conquistar pontos cruciais na corrida do ranking.
Porém, Mateus foi eliminado na terceira rodada do campeonato em uma bateria polêmica. O catarinense sofreu a virada no último minuto de disputa. Depois de completar um aéreo de backside e conquistar uma nota na casa dos 8 pontos, o brasileiro assumiu a segunda posição no confronto. Mas, logo em seguida, o australiano Alister Reginato acertou duas manobras numa esquerda e recebeu a nota que precisava dos juízes.
– Dois dias antes de eu conseguir a vaga, eu perdi uma bateria que teria decidido tudo para mim. Tipo, se eu tivesse passado, eu teria me classificado sem depender de ninguém. Estaria tranquilo. Foi uma bateria bem polêmica. Tanto que os dois surfistas que avançaram vieram falar comigo: “pô, eu achei que você deveria ter passado”. Eu fiquei mal, porque fiquei num sufoco, poderia ficar de fora. A bateria meio que repercutiu a internet e muita gente me mandou mensagem. Eu não conseguia dormir, eu não conseguia comer direito. Veio todo aquele pensamento assim, nossa, lá vamos de novo, tipo, pô, vai ser mais um ano na trave. Já estava questionando um pouco a minha vida. Não é possível que vai acontecer de novo – disse Mateus.
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Fora do campeonato, Mateus ficou à espera dos resultados de outros surfistas para saber se, enfim, conseguiria a tão sonhada vaga ou se seria mais um ano batendo na trave. Após a eliminação do havaiano Shion Crawford, as atenção se voltaram para a bateria entre o mexicano Lucas Cassity e o americano Dimitri Poulos. O brasileiro precisa da derrota do americano para conseguir a vaga no CT.
– Quando você está nessa situação, 30 minutos parecem um dia inteiro. Começou a bateria, e um moleque (Lucas Cassity) que precisava ganhar para eu poder entrar, estava perdendo até o último minuto. Eu já estava sem perna. E aí, ele deu um aéreo no último minuto e virou a bateria. Nesse momento eu já nem estava mais acreditando, eu já estava fora do meu corpo. Parece que tirou um peso das minhas costas. Eu fiquei dois dias dormindo, depois só descansando, porque o corpo ficou sob estresse, minha coluna travou – revelou.
Ao garantir a vaga, Mateus sentiu o alívio de quem carregava aquilo no peito há anos. No momento da confirmação, veio na cabeça do surfista tudo que ele já passou para chegar ali.
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Mateus perdeu patrocinadores e cogitou largar as competições para dar aula de surfe
O atleta de 25 anos é filho do ex-surfista profissional Alexandre Herdy e sobrinho de Guilherme Herdy, que defendeu o Brasil no CT por mais de uma década. Com talento para manobras progressivas, Mateus cresceu como uma grande promessa da nova geração. Essa expectativa em cima dele se confirmou quando chegou perto de conseguir uma vaga para a elite do esporte em 2018, quando tinha apenas 17 anos.
Ao chegar perto mais algumas vezes, as principais marcas que estavam ao lado do catarinense deixaram de investir no surfista. Sem grana para suportar os custos das viagens internacionais, Mateus cogitou levar sua carreira para um outro caminho, mais afastado das grandes competições.
– Cara, eu nunca duvidei de mim, sempre acreditei muito. Mas tem um lado da questão financeira. Eu acabei perdendo todos os meus patrocínios. Então tiveram 2, 3 anos ali que eu não tinha nenhum patrocínio. Eu estava a ponto de começar a trabalhar normalmente. Dando aula de surfe. O que a vida mostrasse para mim que eu tinha que fazer, eu estava disposto a fazer e tentar competir em algum campeonato mais perto. Ser realista, eu acho. Eu não consigo ficar pedindo vaquinha para os outros, sabe? Eu ia trabalhar assim como qualquer outro.
Mateus Herdy
Marcio David/WSL
Naquele momento, perto de desistir do sonho de entrar para a elite do Circuito Mundial de Surfe, surgiu uma oportunidade irrecusável. Era o mundo dando sinais de que a hora do menino prodígio de Florianópolis ia chegar.
– Teve esse cara que se chama Logan, que faz filmes de surfe. E ele me ligou numa manhã de domingo, eu estava meio que prestes a começar a trabalhar. Ele me ligou e falou: “Eu acredito em você, eu confio em você e eu vou pagar tudo para você viajar, para você ir competir”. O Logan acabou pagando para eu viajar nesse ano de 2025. E foi aí que eu comecei a ir bem. Eu achei que não tinha mais a pressão de patrocínio, tinha só as pessoas que me apoiavam e queriam que eu fosse bem. E aí eu entrei para a marca australiana que foi criada por um dos meus ídolos, que é o Julian Wilson. Ele disse que se eu entrasse ou se não entrasse, ele estaria aqui para me apoiar. E deu certo.
Ex-integrante da elite da WSL, Julian Wilson apostou em Mateus Herdy e iniciou o patrocínio ao brasileiro
Mateus Herdy
Com a vaga garantida, Mateus está pronto para mostrar que seu lugar é entre os melhores do mundo. O brasileiro estreia em Bells Beach, na Austrália, entre os dias 31 de março e 10 de abril. Apesar da importância do evento para o início da trajetória no CT, o surfista de Florianópolis já traçou um próximo sonho para esta temporada.
– Eu posso dizer que a etapa que eu mais queria ganhar ia ser a do Rio. Saquarema. Eu já fiz quartas lá uma vez. Parece o Maracanã mesmo, é muita gente. Ganhar no meio daquela galera no Brasil, em casa, com todos os brasileiros gritando. Ia ser muito irado. Eu nem sou um cara que comemora muito assim, mas lá no Rio tu faz uma onda que nem é tão boa e tu já quer comemorar porque a torcida está gritando. Cada onda parece um gol – completou o brasileiro. geRead More