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Bastidores da idolatria: Luiz Otávio reflete sobre década como jogador do Ceará

Bastidores da idolatria: Luiz Otávio reflete sobre década como jogador do Ceará

Confira matéria especial com zagueiros Gilmar e Luiz Otávio
A condição de ídolo é um patamar de difícil acesso nos clubes de futebol. Para conquistar o respeito máximo das arquibancadas, o rendimento em campo e o compromisso fora dele são fatores inegociáveis. O tempo, tópico discutido na rotina do esporte mais popular do país, pode ser o responsável por moldar ídolos ou moer atletas.
No Ceará, fidelidade e tempo andam juntos para fixar um jogador na história do Vovô. Luiz Otávio Anacleto Leandro, o camisa 13 do Vozão, estreita o vínculo com os torcedores, lidera os companheiros no vestiário e se torna exemplo para aqueles que chegam ao Alvinegro de Porangabuçu. Antes da final do Cearense, ele conversou com o ge.
A construção de uma década no clube foi marcada por momentos diversos. Acessos e quedas, títulos e vices, vitórias e derrotas. Todas essas vivências se acumulam nos dez anos em que Luiz Otávio e Ceará uniram trajetórias e optaram por construir, juntos, a própria história. Em entrevista exclusiva, o zagueiro do Vovô relembra o próprio legado, reconhece a liderança, evidencia a superação, revela os pilares do caminho e não reflete muito sobre o termo “aposentadoria”.
Luiz Otávio, zagueiro do Ceará
Thiago Gadelha / SVM
“Propósito sempre vai ser maior do que a proposta”
Luiz Otávio chegou ao Ceará no fim de 2016 após três temporadas defendendo a camisa do Sampaio Corrêa. Logo no primeiro ano, foram 43 jogos pelo Vozão e o início de uma extensa trajetória como titular da equipe cearense. Ao longo do caminho, apareceram propostas para deixar o time, mas o atleta explicitou o desejo de permanência.
– Eu já tive oportunidade para sair diversas vezes num momento bom, já tive oportunidades para sair num momento ruim… e eu escolhi ficar. Mas ficar não pela proposta, mas sim pelo propósito que eu tenho aqui. O propósito sempre vai ser maior do que a proposta para mim – explicou Luiz Otávio.
Quando o Ceará foi rebaixado para a Série B, em 2022, o capitão do Vovô recebeu propostas para permanecer na elite do Brasileirão. O presidente do Ceará foi à casa do atleta para negociar a continuidade no clube. Na época, ele não titubeou em permanecer no Vovô, afirmando que não quis nem ouvir outros clubes.
Luiz Otávio, atleta do Ceará
Thiago Gadelha / SVM
– Eu tinha uma proposta, na verdade, para sair. Para continuar na Série A, o meu empresário me ligou, mas eu falei com ele que não precisava ouvir, que eu ia ficar. O presidente chegou a ir até à minha casa, mas eu não pensei nada em questão financeira. Na verdade, quando aconteceu essa situação, ele (presidente do Ceará) foi até a minha casa, mas eu falei com ele que resolveria depois, se a gente resolvesse sair futuramente – revelou o capitão do Vovô.
“Não sou aquele jogador que vai ficar fazendo graça para o torcedor”
A permanência rendeu frutos. Campeão da Copa do Nordeste e do Campeonato Cearense com o Ceará, o zagueiro utiliza o exemplo como caminho para exercer a própria liderança no clube.
– Se você só fala, mas as suas atitudes não condizem, é muito vazio. Vir aqui e ficar reclamando disso, ficar reclamando daquilo, isso aí é consequência daquilo que você faz no seu dia. Eu não gosto muito de aparecer. Eu gosto de fazer, mas eu não gosto de muitas vezes tomar o crédito. Não sou aquele jogador que vai ficar fazendo graça para o torcedor – disse o capitão do Ceará.
Luiz Otávio, defensor do Ceará
Thiago Gadelha / SVM
A discrição é característica de Luiz Otávio, mas não impede a conexão do atleta com o torcedor do Vozão. O defensor explicita a busca constante pela integridade, evitando o uso de desculpas ou “muletas” para justificar objetivos não conquistados.
Questionado sobre o que falaria caso pudesse conversar com a própria versão mais jovem, quando chegou ao Ceará, o carioca afirmou que, hoje, estaria colhendo o que o Luiz Otávio de 2016 plantou. Atualmente, o atleta se enxerga como uma pessoa melhor e um atleta superior à versão que existia há dez anos.
– É um pouco difícil falar isso, mas ele iria falar que deu certo, o empenho, a dedicação, a entrega, o esforço que ele fez, fizeram o Luiz Otávio de hoje muito melhor do que aquele que chegou em todos os quesitos. No quesito jogador, no quesito ser humano também. Tinha que dar um abraço nele, agradecer por tudo, porque foi ele que iniciou, e eu estou aqui para sacramentar isso. O Luiz Otávio de hoje está vivendo aquilo que o Luiz Otávio de 2016 plantou e hoje está colhendo – relatou o jogador.
Luiz Otávio, ídolo do Ceará
Thiago Gadelha / SVM
Lesão e um recente retorno
Com um histórico recente de lesões envolvendo rotura completa do ligamento cruzado anterior, estiramento dos ligamentos colaterais e estiramento dos ligamentos cruzados posteriores, o zagueiro desfalcou o Vozão por cerca de um ano e nove meses.
No jogo de ida da semifinal do Cearense 2026, contra o Floresta, o defensor do Vozão voltou a entrar em campo. No retorno, recebeu a braçadeira de capitão das mãos de Vina e repercutiu a importância deste momento.
– O Vina é um cara que tem construído a história dele dentro do clube. A gente cobra muito um do outro por que sabe o que cada um pode entregar. Foi legal ter esse gesto dele e de outros jogadores também. Ninguém ganha nada sozinho e a gente entende muito bem isso. Foi um momento marcante para mim – afirmou Luiz Otávio.
Luiz Otávio, jogador do Ceará
Thiago Gadelha / SVM
Nos momentos de lesão, a chateação dos familiares foi motivo de sofrimento para o capitão do Vovô. O defensor afirma que o próprio ponto mais sensível envolve a relação com os familiares.
– Quando eu cheguei em casa, contei pra minha esposa que eu tinha me machucado. Ela foi, se trancou no banheiro, começou a chorar, e eu acho que aí que foi a hora que eu comecei a sentir mais. Quando a minha esposa começou a chorar, quando o meu filho começou a chorar, me entristeci. Ali, eu estava vendo a dor nos olhos deles. Quando eu toco, na verdade, na minha família, é o que eu mais sinto – explicou o jogador.
As lesões reforçaram a persistência do atleta do Ceará, que buscou forças na superação da família para continuar atuando profissionalmente após o período de recuperação.
Luiz Otávio, do Ceará
Thiago Gadelha / SVM
– Eu tenho muito isso comigo. De não desistir de nada. Eu tenho um irmão que sofreu um acidente há quase 18 anos. Hoje, ele ainda está na cadeira de rodas. Ele é um dos motivos para eu continuar insistindo. Eu vou continuar persistindo até eu conseguir. Se ele não desiste, não fica chateado, não fica reclamando das coisas, ele vai, o que ele consegue fazer ele sempre busca fazer, por que eu vou desistir? – endossou o atleta.
Aposentadoria?
Já aos 37 anos, a aposentadoria não passa pela mente de Luiz Otávio. Consciente que o ciclo no Ceará, em algum momento, vai se encerrar, o atleta não fecha as portas para a continuidade no futebol.
– Meu ciclo no Ceará vai encerrar algum dia, com certeza. Depois disso, eu ainda não pensei, na verdade, se eu vou seguir ou não no futebol. Isso aí é uma coisa que eu não posso negar ou afirmar. Isso aí é uma decisão que eu acho que eu tenho que tomar baseado naquilo que Deus fala comigo. Se tiver algo que realmente estiver dentro daquilo que é a minha percepção de vida e eu puder, com certeza, contribuir, ajudar e for dentro do futebol, eu posso até continuar – disse o jogador.
Persistente, identificado com a torcida e ídolo do Ceará, Luiz Otávio segue trilhando o próprio caminho dentro do Alvinegro e inspirando novas gerações que vislumbram o futuro no Vovô como viés possível, utilizando das próprias valências como sementes para continuar escrevendo a trajetória conjunta com o clube cearense.
O Ceará enfrenta o Fortaleza neste domingo (8), às 18 horas, no Castelão, na grande decisão do Cearense. No primeiro jogo, os times empataram em 1 a 1. Quem vencer leva a taça.
Luiz Otávio, capitão do Ceará
Thiago Gadelha / SVM geRead More