Briga e delírio no Mineirão: o estádio vivido como uma arena romana
A cada exame das imagens de selvageria do Mineirão, é possível identificar agressões antes não percebidas, numa fartura de brutalidade e covardia em igual medida. É natural que, diante de tamanha dose de descontrole, o olhar esteja todo voltado para o campo: identificar quem acertou quem, em que circunstâncias, até mesmo para que o público e a sociedade não terminem mais este episódio com a incômoda sensação da impunidade.
Mas há um outro olhar possível, e provavelmente mais útil, para os acontecimentos deste Cruzeiro x Atlético-MG. Quem tentar desviar o olhar do campo e mirar na arquibancada, quem tentar se concentrar em ouvir as reações do público diante da barbárie, terá um cenário desalentador do ambiente tóxico do futebol. Não se trata de reduzir ou relativizar a responsabilidade dos jogadores, mas sim de ampliá-la, de dar a dimensão de como o comportamento deles impacta num ecossistema já degradado.
Aos 51 min do 2º tempo – Jogadores do Atlético e Cruzeiro vão para cima um do outro
Éverson já atingiu Christian, até que instantes depois acontece o primeiro gesto de revide de um grupo de jogadores do Cruzeiro. Os primeiros golpes desferidos por eles, numa tentativa de vingar o companheiro, têm como som de fundo um delírio na arquibancada. A partir daí, a cada soco ou pontapé que o público consegue distinguir, desde que dado por um jogador que veste as suas cores, é celebrado.
Há uma fartura de imagens, em vídeo e em fotos. Quem olhar para a plateia, verá raras expressões de constrangimento ou reprovação, ou ainda de resignação. Há quem filme para guardar a recordação, há quem sorria, há quem comemore um golpe bem sucedido de um atleta do seu time, e há quem faça uma expressão de ódio, de raiva. Além das celebrações, há os gritos de “vai morrer” e as provocações ao lado adversário.
Faz algum tempo que o futebol, especialmente em clássicos, sepultou a alegria ou a tristeza. A cada gol, é grande o percentual de gente cuja primeira reação e virar-se para a torcida rival e berrar tantos palavrões quantos existirem em seu glossário pessoal.
É como se parte daquelas pessoas vivesse a experiência de um estádio como se estivesse numa arena romana, sedenta por sangue, esperando por algo que as permita dar vazão a uma violência represada. Uma cultura instalada e semeada ao longo de muitas gerações fez o futebol construir, ao longo de décadas, a percepção de ser o local adequado para que a sociedade deposite as suas patologias, estas cada vez mais latentes.
Desta vez foi no Mineirão, mas este é um comportamento recorrente diante de qualquer briga num estádio de futebol. Quem está ganhando, vê na agressão ao rival uma segunda vitória; quem está perdendo, enxerga uma vingança. Por mais que se pregue uma transformação cultural, essencial para modificar o ambiente em torno do jogo, parte da resistência de campanhas antiviolência está na própria arquibancada: há uma parcela do público que quer a manutenção do ambiente hostil, bélico, que se mantenha intacto o papel do estádio como depositário de frustrações e violência retida.
E aí entra o papel dos jogadores. Hulk usou uma entrevista pós jogo, assim como suas redes sociais, para reconhecer os excessos e se desculpar. Foi bem ao lembrar, inclusive, das tantas crianças que assistiram ao espetáculo dantesco. Mas, antes, comportara-se mal não apenas ao participar ativamente da batalha campal, mas ao tentar transferir responsabilidade para o árbitro. A terceirização, neste caso, é descabida.
Jogadores precisam entender que estão no palco de um evento cercado de profundas distorções e deturpações em sua interpretação por parte do público. A função que exercem tem um papel social, ainda mais num ambiente de rivalidade vivido num cotidiano cada vez mais violento e intolerante. Talvez nem estivessem no campo, mas sim na arquibancada, as cenas que escancaram de vez a gravidade do que fizeram aqueles atletas. geRead More


