Cessar-fogo ou invasão terrestre? Os caminhos dos EUA no conflito contra o Irã após 1 mês de guerra
Conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã completa um mês
Há um mês, em 28 de fevereiro, Israel e Estados Unidos lançavam um grande ataque contra o Irã. A ofensiva resultou na morte do aiatolá Ali Khamenei e deu início a uma guerra que se espalhou por outros países do Oriente Médio. Agora, o conflito avança diante de dois caminhos: a negociação de um cessar-fogo ou uma invasão terrestre do território iraniano.
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▶️ Contexto: A guerra começou em meio às negociações entre EUA e Irã para limitar o alcance dos mísseis iranianos e encerrar o programa nuclear do país. Washington afirma que Teerã estava próximo de desenvolver uma arma nuclear e um míssil capaz de atingir os americanos.
Os ataques de Israel e dos EUA se concentraram em infraestruturas militares e em autoridades da alta cúpula iraniana, incluindo o líder supremo.
O Irã acusa os rivais de atingirem alvos civis, como uma escola no sul do país, onde morreram 175 pessoas, entre elas crianças.
Teerã reagiu lançando mísseis contra alvos israelenses e bases militares americanas no Oriente Médio. Os ataques ampliaram o conflito para países como Catar, Arábia Saudita e Kuwait.
Também houve troca de ataques contra infraestruturas energéticas. Israel atingiu um campo de gás iraniano, e o Irã lançou mísseis contra refinarias de petróleo e centros de processamento de gás ligados aos EUA em países vizinhos.
O conflito provocou forte impacto na economia global, principalmente pela alta do petróleo. O Irã fechou parte do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto da exportação mundial. Isso fez o barril superar os US$ 100 e atingir o maior valor em quase quatro anos.
Diante da pressão do mercado, a Casa Branca passou a sinalizar que o conflito seria breve, com duração máxima de seis semanas. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em 20 de março que o país estava próximo de atingir os objetivos na guerra.
Na última semana, os EUA confirmaram o envio ao Irã de um plano de 15 pontos para encerrar o conflito. Ao mesmo tempo, a imprensa americana informou que o Departamento de Defesa planeja enviar mais militares ao Oriente Médio, com uma possível operação terrestre no radar.
🔎 Para Uriã Fancelli, mestre em Relações Internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, uma possível operação terrestre pode abrir caminho para um conflito mais longo, com mais mortes e maior impacto econômico.
“Obviamente, quando se trata de Donald Trump, tudo pode mudar de repente. Ele pode simplesmente decidir que já fez o suficiente, declarar vitória e vender a ideia de que enfraqueceu militarmente o Irã, destruiu as forças marítimas do país e matou Ali Khamenei”, diz.
🔎 Já Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, afirma que os objetivos dos Estados Unidos na guerra estão confusos e que o Irã tem conseguido demonstrar resistência.
“O Irã está conseguindo mostrar ao mundo que a guerra tem um custo muito alto. O país sofre, claro, com os efeitos dos bombardeios. Mas, do ponto de vista da estratégia econômica, isso tem funcionado.”
Nesta reportagem você vai ver:
Os sinais que indicam a possibilidade de uma invasão terrestre
As condições impostas por Estados Unidos e Irã para acabar a guerra
As narrativas sobre o fim do conflito e o ultimato de Trump
Infográfico: o conflito entre Israel, EUA e Irã e a escolha do novo líder supremo
Arte/g1
Invasão terrestre no radar
Até agora, os Estados Unidos conduziram operações aéreas e navais contra alvos do Irã. Para isso, posicionaram porta-aviões e navios de guerra no Oriente Médio para reforçar a presença militar na região. Bases americanas também dão suporte às ações.
👉 Segundo a agência Reuters, no entanto, a Casa Branca tem avaliado a possibilidade de iniciar uma operação terrestre no país.
Uma das hipóteses, segundo a Reuters, seria usar tropas para tomar a ilha de Kharg, responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã.
Outra possibilidade é o envio de soldados para a costa iraniana, para garantir a segurança do Estreito de Ormuz.
Na quinta-feira (26), o jornal The Wall Street Journal informou que o governo Trump avaliava enviar mais 10 mil soldados para atuar como forças terrestres na região.
O novo contingente se somaria aos cerca de 50 mil militares já posicionados no Oriente Médio, além de fuzileiros navais e paraquedistas mobilizados recentemente.
Também foram enviados navios com capacidade para operações anfíbias, incluindo transporte de tropas, desembarque de blindados e apoio logístico.
🔎 As movimentações ocorrem ao mesmo tempo em que Trump afirma que negociações com o Irã estão em andamento. Uriã Fancelli avalia que o presidente adota uma estratégia já empregada no passado: enquanto acena para a via diplomática, prepara o terreno para um avanço militar.
“Quando ele dá ultimatos ao regime e ameaça atacar a infraestrutura de energia caso não aceite as demandas norte-americanas, isso parece mais uma forma de construir uma narrativa para depois dizer que tentou negociar, enquanto ganhava tempo para se posicionar melhor”, diz.
“E é aí que entra o risco de uma escalada maior. Por mais que o governo americano se vanglorie de ter reduzido o poder ofensivo iraniano, as tropas ficariam vulneráveis a mísseis, drones e minas.”
🔎 Já o professor Maurício Santoro avalia que uma mobilização limitada dos Estados Unidos poderia ter dois objetivos principais:
Ocupar a ilha de Kharg para controlar o refino do petróleo iraniano e usar isso como instrumento de pressão econômica.
Ocupar ilhas no Estreito de Ormuz ou trechos do litoral iraniano para liberar o tráfego marítimo e reduzir a pressão sobre a rota comercial.
“Todas essas opções são bastante arriscadas. Tem muita coisa que pode dar errado, inclusive porque o Irã está tendo muito tempo para preparar sua defesa”, afirma.
“Outra possibilidade é que, ao ocupar a ilha de Kharg, os Estados Unidos provoquem uma destruição tão grande da infraestrutura petrolífera iraniana que os efeitos durem anos. Se isso acontecer nos próximos dias, o impacto sobre a economia tende a ser muito negativo.”
Ilha de Kharg, no Irã
Arte g1
Questionado na sexta-feira (27) sobre a possibilidade de enviar tropas ao Irã, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que não poderia comentar estratégias militares. Por outro lado, disse que o país pode atingir todos os objetivos sem uma operação terrestre.
Trump já afirmou que não pretende enviar tropas “para lugar nenhum”, mas que, se decidisse fazê-lo, não informaria os jornalistas.
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Condições dos dois países
Estados Unidos e Irã apresentaram propostas com condições diferentes para encerrar a guerra. Do lado americano, o enviado para o Oriente Médio, Steve Witkoff, confirmou que a Casa Branca enviou à Teerã um plano com 15 pontos, por meio do Paquistão.
👉 Segundo a imprensa americana, o documento inclui condições sobre armas e o enriquecimento de urânio. Entre os principais termos estão:
o compromisso do Irã de não desenvolver armas nucleares;
a limitação do alcance e da quantidade de mísseis;
a desativação das usinas de enriquecimento de urânio de Natanz, Isfahan e Fordow;
o fim do financiamento a grupos aliados na região, como Hamas e Hezbollah;
a criação de uma zona marítima livre no Estreito de Ormuz.
O jornal The Wall Street Journal afirmou que os EUA ofereceram suspender as sanções econômicas ligadas ao programa nuclear. A Casa Branca também indicou a possibilidade de auxiliar e monitorar um programa nuclear civil com fins pacíficos.
Ainda segundo o jornal, o plano segue, em linhas gerais, o que os EUA já defendiam antes do início da guerra. Já o Canal 12, de Israel, disse que a proposta prevê um cessar-fogo de 30 dias para avançar nas negociações.
Explosão é vista em Tel Aviv, em Israel, após ataque iraniano na noite deste sábado, 28 de fevereiro
John Wessels/AFP
👉 O Irã rejeitou publicamente o plano e o classificou como “excessivo e desconectado da realidade”. O governo iraniano afirmou ainda ter enviado uma contraproposta com cinco condições:
interrupção total da “agressão e dos assassinatos” por parte do “inimigo”;
criação de mecanismos para garantir que a guerra não seja retomada;
ressarcimento e reparações por danos causados durante o conflito;
fim da guerra em todas as frentes e para todos os grupos de resistência na região;
“exercício da soberania” sobre o Estreito de Ormuz.
Autoridades iranianas afirmam que essas exigências se somam a outras já apresentadas em negociações com os EUA poucos dias antes do início do conflito. Por outro lado, fontes ouvidas pela Reuters disseram que o Irã não rejeitou completamente a proposta americana.
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Ultimato de Trump e narrativas
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
REUTERS/Elizabeth Frantz
Ao longo das últimas semanas, Donald Trump vem afirmando que o Irã deseja um acordo e que as conversas já estão em andamento. Na quinta-feira (26), ele anunciou pela segunda vez o adiamento de possíveis ataques contra usinas de energia iranianas.
Em 21 de março, o presidente afirmou que iria “obliterar” as usinas caso o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz em 48 horas.
Dois dias depois, deu mais cinco dias de prazo e classificou as negociações como “muito boas e produtivas”.
Agora, ele ampliou o prazo até 6 de abril, data vista como um ultimato para que o Irã chegue a um acordo com os Estados Unidos.
👉 Em uma rede social, Trump afirmou que as negociações “estão indo muito bem”. Horas antes, no entanto, adotou outro tom e disse não ter mais certeza de que quer um acordo para encerrar a guerra.
No dia seguinte, em um evento com investidores, declarou que os iranianos estavam “implorando por um acordo” e que os EUA estavam “aniquilando” a capacidade militar do adversário.
🔎 Para Maurício Santoro, Trump e outros membros do governo americano têm feito declarações contraditórias e ambíguas sobre a guerra.
“Há momentos, por exemplo, em que Trump diz que está negociando com o Irã e que a guerra está prestes a acabar. É provável que faça isso para tentar acalmar o mercado financeiro nos Estados Unidos, e não porque isso represente, de fato, a estratégia americana hoje”, analisa.
👉 O Irã também tem defendido a própria narrativa sobre a guerra. Por meio da imprensa estatal, o regime divulga vídeos de lançamentos de mísseis contra bases americanas e reproduz reportagens com críticas a Trump publicadas na mídia dos Estados Unidos.
Para o público interno, o governo sustenta que consegue resistir aos bombardeios de Israel e dos EUA e retaliar os ataques.
Autoridades e civis mortos nos bombardeios são classificados como mártires.
O regime também tem mobilizado manifestantes para ir às ruas em apoio ao país durante o conflito.
🔎 Para Uriã Fancelli, o Irã tem usado episódios como o ataque a uma escola infantil em Minab, que deixou 175 mortos, para capitalizar politicamente o conflito. O regime também aposta em inteligência artificial para produzir peças de propaganda antiamericanas, voltadas ao público interno e externo.
“Esse é o mesmo regime que, de dezembro a janeiro, massacrou mais de 40 mil iranianos apenas por protestarem. Enquanto tenta transformar o episódio em munição de propaganda contra os Estados Unidos, a repressão continua dentro do país, com intimidação, medo e pressão”, diz.
No início de março, quando os Estados Unidos passaram a afirmar que o Irã negociava um acordo, Teerã negou e disse que não mantinha conversas com os americanos — versão mantida até a última semana.
Na quarta-feira (25), o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, admitiu contatos com os EUA, mas afirmou que eles ocorrem de forma indireta e não configuram uma negociação. Segundo ele, os americanos “reconhecem a derrota” ao falar sobre negociações neste momento.
No entanto, nos bastidores, autoridades iranianas estão se mostrando abertas para negociações, segundo o jornal The New York Times.
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