Luana celebra recomeço: “Dizem que a gente floresce nas dificuldades”
Após superar câncer, Luana Bertolucci volta a jogar pela Seleção
A primeira data Fifa do ano da seleção feminina reservou um momento especial. Luana voltou a ser chamada pelo técnico Arthur Elias e, mais do que isso, voltou a atuar com a camisa amarela. A jogadora entrou aos 41 minutos do segundo tempo diante do México na derrota por 1 a 0 neste sábado e reiniciou uma história interrompida pelo diagnóstico de um câncer no sistema linfático em abril de 2024. Foram 18 meses de tratamento sem perder a esperança de seguir atrás dos seus sonhos.
– Eu lembro que eu comecei a me sentir muito cansada. E em seguida, comecei a ter tosse. O último, que me alertou mesmo, foi quando apareceu os linfonodos. Acho que foi engraçado, porque nós, atletas, a gente é acostumado a sempre levar nosso corpo ao limite nos jogos, nos treinos, mas eu percebi que estava diferente. E aí foi o momento que eu conversei com a médica da seleção, e a gente foi ver o que era. Me deram todo o suporte. Acho que foram muito ágeis e respeitaram muito a minha privacidade naquele momento, de esperar pra fazer todos os exames antes de comunicar alguma coisa, ou antes de fazer alguma comunicação sobre isso. Acho que foi muito atencioso da parte deles – afirmou Luana em entrevista exclusiva ao Esporte Espetacular.
A jornada de Luana foi muito além do futebol. A jogadora comenta que o final do tratamento significou não somente poder voltar a ser atleta, mas poder ter novamente uma vida plena e inteira pela frente.
– Eu não sabia muito sobre esse tipo de câncer. Nunca tinha tido contato com ninguém familiar que passou pelo tratamento do câncer, então pra mim foi tudo muito novo. No começo, foi um susto. Um susto. Senti muito medo do que poderia acontecer, de quais eram os percentuais de cura desse tipo de câncer. Mas o meu clube, o Orlando, me acolheu muito bem, e eu tive todo o suporte do Orlando Health, que não tem nem o que falar, é um dos grandes dos EUA. Eles foram todos muito disponíveis pra me explicar tudo, pra me explicar como seria o tratamento, e dali em diante, foi focar no tratamento. A partir do momento que a gente começou a discutir os tratamentos, eles falaram sobre tudo. Falaram que seria quimioterapia, que as chances pra esse tipo de câncer eram bem altas de cura. E ali foi focar no tratamento. É normal esse susto, a gente ter medo do que vai acontecer, mas foi ali, virar o pensamento e focar no tratamento, que não tem como você ficar questionando, perguntar por que aconteceu. Acho que a gente não controla o que acontece com a gente, mas o que a gente pode controlar é a maneira como a gente reage àquilo que acontece.(Você pensava “pô, será que não vou mais conseguir voltar a jogar?”) Pensava, mas acho que vai muito além do futebol. Futebol é a minha profissão agora. Eu sou atleta agora, mas eu tenho uma vida inteira pela frente. E acho que a maior preocupação é essa, de retomar a saúde, de poder ter uma vida plena, com certeza.
Luana com Aline Gomes e Brena
Lívia Villas Boas/CBF
Para voltar a ter a vida plena, ela contou com muito apoio ao seu redor. Foram mensagens, companhia da família, tudo para que a caminhada não fosse solitária e não foi. Ela se redescobriu ao lidar com as emoções e entender que poderia estar vulnerável e contar com o amor incondicional. E mais do que isso: escolher continuar sorrindo acima de tudo.
– Acho que eu tive muita sorte de ter um círculo de apoio muito grande ao meu redor. Tanto as atletas do clube quanto as da seleção sempre mandando mensagens de encorajamento, de apoio. Minha família, que pôde ir ficar comigo nos EUA. Foi muito importante. É um processo difícil tanto mentalmente quanto fisicamente. Não é fácil. Tem dias difíceis, tem dias que você pensa que talvez você não vá ter forças pra continuar ali no processo. E eu acho que ter esse acompanhamento, psicológico, também, foi muito importante pra mim. Aprender a lidar com as emoções, com o medo, com a ansiedade, foi primordial pra me manter bem durante esse período, que foi muito difícil, mas acho que a gente reconhecer que a gente precisa de ajuda, estar vulnerável, acho que faz toda a diferença. Saber que a gente não precisa ser forte o tempo todo. E todo dia é uma decisão de continuar lutando, apesar de estar cansada. De continuar sorrindo, apesar de estar triste… é isso. Acho que sim. Dizem que a gente floresce nas dificuldades. Acho que eu me tornei uma pessoa que valoriza mais as coisas simples, que vive intensamente, que às vezes se importava muito com coisas banais, que hoje eu não me importo tanto. Acho que viver plenamente, viver intensamente.
Um sonho segue também forte em sua mente. A volta à seleção também a faz lutar para garantir uma das vagas na Copa do Mundo de 2027.
– Vamos trabalhar. A gente sabe que tem muitas meninas em ótima fase, muitas meninas aparecendo. Muitos novos talentos. Acho que vai ser muito competitivo. E vai ser difícil pra ele escolher a equipe final da Copa do Mundo. Mas tenho, sim, o sonho de jogar essa Copa do Mundo em casa. E vou trabalhar pra isso. Muito depende do trabalho feito no clube e também aproveitar as oportunidades que eu tiver aqui. Acho que vai ser demais. Jogar ali, com a torcida brasileira apoiando a gente, acho que vai ser muito especial.
Confira outras respostas de Luana:
VOLTA À SELEÇÃO
Ah, tem sido muito bom retornar ao grupo, à rotina com a seleção. Foi muito emocionante estar ali, já, no banco, no primeiro jogo. Acho que quando tocou o hino, veio todo um filme na cabeça. Foi muito emocionante. Tem sido muito importante pra mim estar aqui de volta e aprender mais com esse novo estilo de jogo da seleção e reencontrar minhas companheiras de profissão, tem sido especial. Representar o meu país é um sonho de menina, né? Um sonho que a minha família escolheu sonhar comigo. Então toda vez que eu tô ali é como se eu representasse eles também. Pensar em todo o processo que eu passei nos últimos dois anos, e estar ali, acho que foi um sentimento de gratidão também, de estar com saúde e poder fazer aquilo que eu amo.
RECUPERAÇÃO FÍSICA
– Acho que foi um processo. Foi um processo de ganho de força, de capacidade aeróbica. O tratamento é muito forte no corpo. Os químicos, que estão ali na quimioterapia… eu respeitei esse tempo, e o clube também foi muito consciente disso e sempre me deu toda a tranquilidade pra trabalhar e pra construir. Foi passo a passo, dia após dia. O primeiro jogo, os primeiros minutos. Mas eu tô muito feliz. Muito feliz em poder fazer aquilo que eu amo. Não tenho pressa de acelerar processos. Meu corpo vem reagindo bem. Quando eu voltei, agora no começo do ano, tive uma pré temporada inteira com a equipe. A gente tá num momento lá que a gente não iniciou a temporada ainda, então a gente não jogou jogos oficiais. Mas o meu corpo tem reagido bem. A cada dia eu me sinto melhor e mais livre dentro de campo, eu acho que isso que importa pra mim.
GOL DE PÊNALTI PELO PRIDE
Foi muito emocionante. Na verdade, eu não esperava que ela (Marta) ia me dar a bola ali. Claro que a gente treina, se prepara durante a semana, porque também era um jogo de mata-mata, e podia ir pras penalidades no final. Mas foi um presente que ela me deu naquele momento. Me passou confiança pra ir lá e fazer o gol. E acho que meio que coroa todo esse processo. Foi um momento muito especial.
RETORNO À SELEÇÃO
– Acho que a gente se prepara. Eu venho me preparando desde que eu voltei aos gramados. Apareceu a oportunidade. Claro que eles estão cientes de que eu tô num momento de pré temporada no clube, que eu ainda não joguei jogos oficiais. Mas eu não tenho nenhuma restrição e tô aí pra ajudar a seleção no que for preciso. Expectativa é grande mas também é boa. Eu tenho me preparado pra esse momento. É sempre um orgulho e uma honra muito grande representar a seleção. E eu tô ansiosa pra vestir a amarelinha de novo. A gente tem conversado bastante sobre isso. E ele (Arthur) tem me exposto nos treinos gradativamente, fazendo a posição que ele espera que eu faça no jogo. A gente tem feito muitos vídeos e tentando assimilar como a seleção vem jogando pra que eu esteja o mais preparada possível se a oportunidade aparecer. Estive me preparando e tô bastante feliz. Se a oportunidade aparecer, estarei lá. Se não, também, tá tudo bem. Acho que estar dentro de campo e realmente representar, ali, fazendo aquilo que eu sei fazer é muito diferente. Mas a gente sabe administrar a emoção. No momento que você entra dentro de campo, você tá tão concentrada que é difícil pensar em outra coisa a não ser no jogo. Elas me passam muita confiança. E também tão felizes com o meu retorno. Tem sido muito legal conviver novamente com elas, e trocar experiências do dia a dia, dos treinos. Acho que é sobre isso. Sobre trocar, trocar experiência, trocar vivências. Se eu puder trazer algo bom pra seleção, eu tô feliz de estar aqui.
DATA FIFA
– Eu acho que faz parte do momento e do processo. Acho que o Arthur vem dando oportunidade pra outras jogadoras, tem misturado a equipe inicial. Acho que é bom que isso aconteça agora, que as derrotas aconteçam agora, que a gente vai olhar pra isso e corrigir o que precisa ser corrigido e vai seguir em frente, com a maneira ofensiva de jogar da seleção, que acho que traduz muito o futebol brasileiro. Mas acho que o importante é a seleção seguir evoluindo e seguir junto, porque tudo isso faz parte do processo.
FUNÇÃO EM CAMPO
Eu acho que a função que eu venho fazendo na seleção nos últimos anos é de uma volante mais defensiva, com características de marcação forte que eu tenho e adquiri nos últimos anos. Nós temos jogadoras com características diferentes que vem fazendo essa função. Mas eu espero corresponder ao que ele espera que seja feito. E mais uma vez, tô aí disponível pra fazer o que a seleção precisar. geRead More


