Opinião: Lusa exorciza fantasmas em roteiro de cinema estrelado por Cauan e Cristiano
Portuguesa-SP 1 (4) x (1) 1 Avaí | Melhores momentos | 3ª fase | Copa do Brasil 2026
Sete meses separaram a desolação da euforia, o trauma da superação, o fantasma do exorcismo. Os deuses da bola capricharam ao escrever esse roteiro, digno de cinema, lembrando que no futebol o planeta realmente não gira, mas capota.
Em agosto de 2025, a Portuguesa era eliminada na segunda fase da Série D do Campeonato Brasileiro, em pleno Canindé, diante do Mixto-MT, nos pênaltis, com o meia Cristiano virando algoz ao perder uma cobrança, em uma campanha frustrante e pífia que teve o técnico Cauan de Almeida como um dos principais responsáveis.
Em março de 2026, a Lusa se classificava para a quarta fase da Copa do Brasil, no mesmo Canindé, diante do Avaí-SC, nos pênaltis, com o meia Cristiano vestindo azul e branco, perdendo um pênalti de forma ainda mais inacreditável, tendo sido contratado por indicação de Cauan de Almeida, e colocado em campo pelo mesmo para bater.
Jogadores da Portuguesa comemoram vitória sobre o Avaí na Copa do Brasil
Marcello Zambrana/AGIF
A chuva, que esperou toda a partida transcorrer para começar a cair no Canindé, veio junto da classificação como em um clichê de um filme de herói. Para lavar a alma e, na esperança da torcida rubro-verde, fazer escoar pelo ralo a maldição das penalidades.
A Portuguesa não só vinha de quedas seguidas nos pênaltis – somando a para o Mixto-MT na Série D com a para o Corinthians no Paulistão – mas de um longo histórico extremamente negativo. São 36 disputas por pênaltis desde 1920 e só 14 vitórias.
O técnico Fábio Matias, que entre outros fatores se notabilizou por quebrar tabus no Paulistão, demoliu mais um na Copa do Brasil. Os anos sem vencer o São Paulo, o tempo sem virar jogos, a invencibilidade do Mirassol em casa, a ida às quartas de final.
Tudo isso foi ficando para trás sob o novo comando. Fosse a Lusa de tempos atrás, conseguiria chegar ao 1 a 1 após começar perdendo? Teria competência para converter todos os quatro pênaltis que cobrou, com Zé Vitor, Cadorini, Salomão e Maceió?
E mais: conseguiria ter estrutura para, uma vez mais, ver Maceió arriscando aquela cobrança de pênaltis sem tomar distância? Fez contra o Corinthians. Converteu. Fez contra o Avaí-SC. Converteu. Transformou o tradicional sufoco em leveza. Festa.
Autor do gol da Portuguesa, Renê fala após o jogo “Faz o PIX CBF”
Uma classificação que serviu à torcida como desabafo. O meia Cristiano jamais desrespeitou a Portuguesa. Muito pelo contrário. Só que acabou marcando a passagem dele pelo Canindé com dois momentos absolutamente infelizes na Série D de 2025.
Um deles foi usar o respaldo que tinha entre a torcida e a liderança sobre o elenco para apoiar publicamente a permanência do técnico Cauan de Almeida em um momento em que já era possível ver que, sem mudanças, o clube não subiria para a Série C. Aquele gesto deixou a SAF refém: trocar o comando e perder o elenco? Complicado.
O outro foi, claro, o pênalti desperdiçado. O jogador mais técnico do time, líder do grupo, batedor oficial, começou a disputa por pênaltis com uma cobrança tão trágica quanto essa pelo Avaí-SC. Foram suficientes para melar a relação com o alambrado.
É evidente que, nessa disputa contra o Avaí-SC, o psicológico pesou. Cristiano foi para a bola com toda a torcida rubro-verde o xingando. Chutou como que desejando desabafar, descontar, dar a volta. A força foi tanta que a pontaria foi para o espaço.
Portuguesa x Avaí
Marco Miatelo/AGIF
O outro desabafo da torcida se direcionou a Cauan de Almeida. O técnico, um dos principais responsáveis pelas decepções da temporada passada, teve um longo histórico de atritos com a torcida e com jornalistas que cobrem a Portuguesa.
As falas ríspidas e soberbas, mesmo após resultados e desempenhos péssimos, e aquela mão levada à orelha, em direção à arquibancada, ficaram entaladas na garanta. Neste 2026, o planeta capotou, e Cauan teve de ouvir, com aquela orelha, o que não queria.
Foi, portanto, uma vitória sobre tabu, trauma e frustração. Mas não só isso. Uma vitória que fez a Portuguesa faturar alto, algo importantíssimo para quem vai jogar a Série D a partir de abril. Já são R$ 2,85 milhões de reais em cotas da Copa do Brasil. R$ 830 mil por jogar a segunda fase. R$ 950 mil pela terceira. R$ 1,07 mi pela quarta.
Já na semana que vem, no próprio Canindé, a Lusa enfrentará o vencedor de Paysandu-PA x Portuguesa-RJ. Se avançar à quinta fase, aquela em que entram os clubes da Série A, ganhará mais uma cota de participação de R$ 2 milhões. Algo extraordinário.
Todos os gols de Portuguesa vs Avaí
Uma semana que será importantíssima. Afinal, mesmo se avançar, será o último jogo antes da estreia na Série D, prevista para o fim de semana de 4 e 5 de abril. Período em que mais jogadores devem deixar o elenco e mais reforços devem chegar.
O meia Zé Vitor, por exemplo, está emprestado pelo Maringá-PR até esta quinta-feira. A Lusa tem opção de compra, mas o valor é altíssimo. Como um dos destaques do time até aqui, a probabilidade de ter sido o último jogo com a camisa lusitana é grande.
Além disso, há negociações em andamento. Um dos casos é o do atacante Maceió. Outro é o do goleiro Bruno Bertinato. Em ambas as situações, a SAF já deixou claro publicamente que não pretende emprestar. Só libera para compra ou pagamento de multa. É possível, portanto, que aconteça. Ainda mais no caso do atacante.
Por outro lado, começaram a chegar os contratados para a Série D. O primeiro foi o volante Thiaguinho, anunciado na semana passada, já registrado, e que ficou no banco diante do Avaí-SC. Veio justamente para a vaga do recentemente citado Zé Vitor.
Time da Portuguesa antes do jogo contra o Avaí
Marco Miatelo/AGIF
Outro jogador de meio-campo, este para a posição que no Paulistão foi de Gabriel Pires, será apresentado ainda nesta semana. E há buscas por contratações em outras posições. Como, por exemplo, a beirada direita que no estadual foi do recém-saído Ewerthon.
Essa semana até a quarta fase da Copa do Brasil será, portanto, de mais trabalho para o técnico Fábio Matias. Não apenas nas alternativas que terá de encontrar caso perca mais jogadores, mas também nos ajustes que ele próprio apontou na entrevista coletiva.
Diante do Avaí-SC, a Lusa repetiu a postura da fase anterior, quando venceu o Altos-PI de virada por 5 a 1. Ou seja, começou em marcha lenta, com freio de mão puxado. E, desta vez, acabou dando campo, espaço, bola e domínio para o Avaí-SC no início.
O gol sofrido aos 16 minutos, de escanteio, em um cabeceio do meia Paulo Vitor, praticamente no primeiro pau, em um lance de total desatenção da zaga, foi um reflexo disso. E, assim como na fase passada, a Portuguesa foi despertar ali.
Como o próprio Fábio Matias destacou na entrevista, foi preciso sair o gol para a Portuguesa entrar no jogo. Graças a essa nova postura, de não se abater, de dar a volta por cima, mérito do técnico, a Lusa mais uma vez conseguiu se recompor.
Cinco minutos depois, aos 21, Renê empatou em uma jogadaça. O domínio de bola dele, matando completamente o zagueiro, finalizando com extrema competência, foi plástico. Um empate que colocou a Portuguesa na disputa. Mudou a cara do jogo.
Era possível ter virado, principalmente nos minutos seguintes ao empate, com o Avaí-SC ainda desnorteado. No entanto, o intervalo veio com 1 a 1 no placar. No segundo tempo, o time de Santa Catarina, com mexida de Cauan, começou em cima.
A bola parou na trave do goleiro Bruno Bertinato duas vezes. Foram duas jogadas de desatenção da Lusa, é verdade, como também destacou Fábio Matias. De todo modo, o caldo poderia ter entornado. Foram necessários, de novo, alguns minutos para acender.
Sobretudo após a entrada de Denis no time, a Portuguesa cresceu. Também levou a bola à trave do goleiro Léo Aragão. E exigiu dele uma defesaça em uma finalização de Maceió. Foram as grandes chances para evitar que a decisão fosse aos pênaltis.
Esses momentos de desconexão, nos inícios dos tempos, diante de adversários mais qualificados, podem ser fatais. Ótimo ver que o próprio Fábio Matias alertou para isso. Normal. É do processo. Ainda mais com mudanças no time. É trabalhar e corrigir.
Maceió cobrou o último pênalti e garantiu a classificação da Portuguesa na Copa do Brasil
O importante, neste momento, é ter todo o clima favorável para essa transição até a Série D. Na Copa do Brasil, não é exagero dizer que a Portuguesa está no lucro. Mas, com esse time, que tem adorado surpreender positivamente e quebrar tabus, a torcida já tem se permitido sonhar mais. Pelo menos mais uma classificação. Por que não?
Ainda mais após essa noite de terça-feira no Canindé. Em que vários dos pesadelos recentes, e alguns até históricos, foram dissipados. Menos negativismo, mais otimismo. Menos receio, mais confiança. Que o roteiro dos deuses da bola, digno de cinema, ainda reserve mais surpresas para Lusa. Positivas. Na Copa do Brasil e, sobretudo, na Série D.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site. geRead More


