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Primeiro obstáculo da Audi na F1: a saída do chefe Jonathan Wheatley

Primeiro obstáculo da Audi na F1: a saída do chefe Jonathan Wheatley

Montadora alemã com enorme tradição no automobilismo, a Audi resolveu se aventurar na Fórmula 1 pela primeira vez em sua história, atraída pelo novo regulamento de motores que estreou na temporada 2026. Para isso, comprou a suíça Sauber e estruturou um grande projeto a longo prazo na categoria. Um dos pilares de tudo isso, contudo, pediu demissão da equipe alemã na última sexta: o inglês Jonathan Wheatley. O agora ex-chefe de equipe assumiu o cargo ainda em 2025, na Sauber, justamente para mudar processos e estruturar a estreia da marca na F1. Duas corridas depois, a chocante saída. Com isso, o italiano Mattia Binotto, chefe de todo o projeto, vai assumir também a chefia da equipe nas corridas. É o primeiro grande obstáculo da Audi na categoria.
Aos 58 anos, Wheatley tem uma vasta experiência na Fórmula 1 – e por isso a Audi resolveu contratá-lo como chefe de equipe. Ele começou como mecânico da Benetton em 1991 e subiu na hierarquia do time de Enstone até se tornar mecânico-chefe em 2001, quando já se chamava Renault. Em 2006, foi contratado pela Red Bull Racing como diretor-esportivo. Ficou quase 18 anos na equipe austríaca como uma espécie de braço-direito do chefe Christian Horner. Em agosto de 2024, ele deixou o time para assumir a chefia da Sauber, que se tornou Audi em 2026. Ou seja: foi uma contratação-chave para a nova equipe, que assumiu o desafio de construir seu carro e fabricar seus próprios motores para 2026.
Allan McNish conversa com Jonathan Wheatley no grid do GP da China de 2026
Andy Hone/LAT Images
Antes de falar das consequências para o projeto da Audi na Fórmula 1, precisamos endereçar os motivos da saída de Wheatley. A justificativa oficial foram dificuldades de adaptação dele e da família à vida em Hinwil, na Suíça, onde fica a principal fábrica do time. Afinal, o inglês e sua família viveram quase toda a vida em um raio de 60 quilômetros ao redor do circuito de Silverstone – justamente a distância entre Enstone (sede da Benetton/Renault) e Milton Keynes (da Red Bull). Mas, como sempre digo, na Fórmula 1 temos que sempre desconfiar das versões oficiais. E não foi apenas por razões pessoais que o inglês deixou a Audi.
Bem, desde a contratação de Wheatley pela Audi foi dito que as funções dele e de Mattia Binotto seriam complementares. Enquanto o inglês cuidaria do dia a dia da equipe, construiria processos e indicaria profissionais para serem contratados, o italiano seria responsável pelo elo com a parte corporativa da montadora, além de cuidar da estruturação da parte técnica – função que ele exerceu com maestria na Ferrari, onde se destacou no departamento de motores. Parecia uma relação harmônica. Pois é, parecia. Nos últimos tempos, Wheatley se queixava internamente de falta de autonomia, sendo limitado por Binotto em várias decisões. A ruptura se iniciou justamente neste ponto.
Jonathan Wheatley conversa com Peter Sauber, fundador da Sauber, no GP de Abu Dhabi de 2025
Andy Hone/LAT Images
Para completar, Wheatley recebeu uma proposta irrecusável da Aston Martin para assumir a função de chefe de equipe ao lado do antigo companheiro Adrian Newey, que passaria a cuidar apenas da parte técnica. Fala-se em um salário três vezes maior do que ele ganhava na Audi. A equipe inglesa, que vive um péssimo momento na Fórmula 1, está tentando montar um dream team técnico, contratando profissionais importantes de outros times com propostas exorbitantes. Wheatley seria a chave dessa reconstrução da Aston Martin. Entretanto, por causa das regras da Fórmula 1, vai precisar cumprir uma licença obrigatória (o chamado gardening leave) por causa dos segredos industriais. Na saída da Red Bull, por exemplo, ele ficou oito meses afastado da categoria.
A notícia da saída de Wheatley pegou quase toda a equipe Audi de surpresa. Pouca gente sabia da decisão do ex-chefe de equipe. Uma delas, entretanto, era Mattia Binotto, que recebeu o pedido de saída há dois meses, antes mesmo dos testes de pré-temporada. O inglês, contudo, ficou no time durante a parte crucial deste início de ano, com todo o novo regulamento causando problemas para quase todas as equipes da Fórmula 1. O não-vazamento da notícia e a consequente calmaria foram essenciais para o bom início de ano da Audi, com um cronograma de testes muito bem executado e com os pontos marcados pelo brasileiro Gabriel Bortoleto logo na corrida de estreia da equipe na F1, com o nono lugar no GP da Austrália, em Melbourne.
Gabriel Bortoleto ultrapassa Ocon e Gasly, e fica em 9º
A Audi e seu futuro imediato
Mattia Binotto conversa com Gabriel Bortoleto na pré-temporada da Fórmula 1 no Bahrein
Mark Sutton/Formula 1 via Getty Images
Comandante do projeto da Audi, Mattia Binotto é uma figura frequente nos boxes do time neste início de temporada. Ele vai passar a acumular as duas funções e voltará a ser chefe de uma equipe na Fórmula 1 quase três anos e meio depois de deixar o posto na Ferrari. O italiano de 56 anos sempre teve enorme excelência nas áreas técnicas da equipe italiana, mas não se deu bem ao assumir o cargo de team principal. Sua gestão sofreu muitas críticas e os resultados não vieram. Agora terá a chance de dar a volta por cima na Audi. Pelo menos até um novo nome ser contratado para a função – algo que ainda pode acontecer em um futuro próximo.
Mattia Binotto em sua última corrida como chefe de equipe da Ferrari, o GP de Abu Dhabi de 2022
Glenn Dunbar/LAT Images
Fato é que a pressão em cima de Binotto como chefe de equipe será infinitamente menor que na Ferrari. Para a equipe, não acredito que nada mude – pelo menos a curto prazo. Todos os processos estão muito bem estruturados no time, trabalho que começou ainda no ano passado. Além disso, quem escolheu a dupla de pilotos para a estreia da Audi em 2026 foi justamente Binotto, combinando a experiência do alemão Nico Hulkenberg e o jovem talento do brasileiro Gabriel Bortoleto. Além disso, a marca sabe que ainda precisa trabalhar muito em sua unidade de potência, que sofreu com problemas hidráulicos na Austrália e na China.
Nada que abale, contudo, o bom projeto da Audi na Fórmula 1. Em tempos de incertezas e saídas repentinas, o mais importante é que a paz interna da equipe seja mantida, para que o trabalho continue a ser feito da melhor forma possível. Algo que eu acredito que acontecerá na Audi.
Mattia Binotto, Jonathan Wheatley, Gabriel Bortoleto e Nico Hulkenberg juntos antes do GP da Itália de 2025
Jakub Porzycki/NurPhoto via Getty Images
Perfil Rafael Lopes
Editoria de Arte/ge.globo geRead More