RÁDIO BPA

TV BPA

Roger Machado: o que pensa e como gosta de jogar o novo técnico do São Paulo

Roger Machado: o que pensa e como gosta de jogar o novo técnico do São Paulo

“O torcedor vai me abraçar”, diz Roger Machado, sobre rejeição da torcida do São Paulo
Roger Machado, o novo técnico do São Paulo, vê o campo de futebol como um simulacro do campo de batalha. É isso que mais o encanta no esporte: a disputa de estratégias, como na guerra, para dominar o espaço do adversário, para sufocá-lo até a rendição.
No começo da carreira como treinador, ele exigia que essa dominação fosse traçada pelo chão e sustentada pela posse. Depois, percebeu que havia beleza em outras formas de jogo, como me disse em uma entrevista em 2022, quando treinava o Grêmio:
– É como se fossem dois exércitos, cada um com sua estratégia. A bola é a bandeira que tu precisa fincar no território do adversário, como se fosse uma morte simbólica. Assim como na batalha campal, a gente tem os ataques aéreos e os ataques terrestres. Essa beleza… Eu posso pegar a granada, tirar o pino e jogar de mão em mão, até chegar ao território do adversário. Mas também posso pegar essa granada, jogar por cima, e ela pode surtir o mesmo efeito.
+ Veja quando a demissão de Crespo vai custar ao São Paulo
Roger Machado conversa com jogadores do São Paulo
Divulgação/São Paulo
Mesmo assim, o torcedor do São Paulo pode esperar alguns predicados de Roger: o jogo construído desde a defesa, a armação gradativa e paciente com meias e laterais, a busca pelas pontas. Ele gosta de times dominantes, envolventes, mesmo que por vezes não sejam tão verticais. Tende a preferir jogadores construtores. Já lidou com problemas defensivos recorrentes, especialmente em bola aérea.
O técnico chega ao São Paulo depois de dois bons trabalhos – que representaram uma espécie de retomada em sua carreira. No Juventude, chegou à final do Campeonato Gaúcho de 2024 (eliminando o Inter nas semifinais), encaminhou classificação na terceira fase da Copa do Brasil (vencendo novamente o Inter, fora de casa, na partida de ida da terceira fase) e deixou o clube na 12ª colocação do Campeonato Brasileiro. Rumou justamente para o Beira-Rio.
Chegou ao Colorado sob resistência da torcida, especialmente por sua longa história no Grêmio. Pegou um time em frangalhos, afetado pela paralisação nos treinos por causa das enchentes no Rio Grande do Sul e abalado por mais um ano fora da final no Gauchão. Penou no começo. Mas conseguiu achar uma equipe, alcançou uma sequência de 16 partidas de invencibilidade e colocou o time na Libertadores do ano seguinte.
No Inter, Roger teve méritos inegáveis: descobriu Bruno Gomes como lateral-direito, fez Bernabei, hoje muito criticado, sair do esquecimento para virar o melhor lateral-esquerdo do Brasileirão, potencializou jogadores como o atacante Wesley. Em 2025, conquistou o Gauchão mais importante dos últimos anos, impedindo que o Grêmio tirasse do Inter a exclusividade do octacampeonato estadual, e garantiu o primeiro lugar em um grupo duro na Libertadores.
E aí tudo ruiu. O elenco perdeu força com a saída de alguns jogadores, o time caiu de rendimento, inclusive fisicamente, pagando o preço de toda a atenção dada ao Gauchão, e os adversários acharam formas de anular o jogo colorado.
Roger Machado na entrevista de apresentação no São Paulo
Divulgação/São Paulo
Roger demorou para testar variações, não conseguiu encontrar soluções. Foi amplamente dominado pelo Flamengo nas oitavas de final da Libertadores, caiu para o Fluminense na Copa do Brasil e acabou demitido cinco pontos à frente da zona de rebaixamento no Brasileirão. Saiu com saldo positivo, mas com uma impressão final ruim – como aconteceu em outros momentos da carreira.
Essa é uma crítica costumeira aos trabalhos de Roger: que ele melhora as equipes no começo, mas depois não consegue sustentar esse nível por muito tempo. Falta-lhe, como treinador, um grande título – conquistou cinco Estaduais, por Atlético-MG, Grêmio, Bahia (duas vezes) e Inter. E também um trabalho mais expressivo nos principais centros do país – as passagens por Palmeiras e Fluminense não foram marcantes.
Roger também costuma ser criticado pelo linguajar, como se usasse um palavreado rebuscado para se justificar em momentos difíceis. É uma injustiça. O jeito de falar corresponde ao seu conhecimento – muitas vezes ironizado, como se fosse demérito.
Rui Costa justifica escolha de Roger e destaca trabalho de Rafinha com Crespo no São Paulo
Ele tem um nível intelectual acima da média no futebol brasileiro. É um grande leitor: de livros sobre tática, mas também de biografias, sociologia, ficção. Costuma dar livros a alguns de seus jogadores. E banca a publicação de obras de autores negros – é um grande ativista da causa antirracista.
No vestiário, tem relação amistosa com os jogadores, mas não faz aquele estilo boleiro ou paizão. Prioriza, nos trabalhos da semana, atividades táticas.
No São Paulo, Roger terá a missão de proteger o elenco das turbulências externas. Ele tende a montar um bom time se conseguir desviar da autossabotagem que marca os últimos anos do clube. É um treinador com repertório, com mais qualidades do que defeitos. E, na minha opinião, melhor do que Hernán Crespo, seu antecessor. geRead More